Avançar para o conteúdo principal

music for a found harmonium




music for a found harmonium | penguin cafe orchestra

descobri-te quando tropeçaste o meu caminho em papel de jornal.
quis-te assim, inteiro. verdadeiro. e não sabia como te chegar. apaixonei-me como criança num campo de girassóis. fui lentamente aproximando-me do teu rosto de luzes [e]ternas, madeiras cansadas. emoldurado pelas vidas em cartaz. programa extenso com letras de teias enredadas por mãos de velha sábia.
envolvi-me toda em ti e deixei-te possuír-me. pequenina, enrolada em posição fetal, a luz abraçou-me, aqueceu-me, deu-me a vontade. os braços mexeram-se sem pedir-lhes nada. és assim, generoso, entregas as almas que tragamos sem pensar. e atinge-se na respiração abdominal a posiçao de estrela, que ensinas que nos enfia cá dentro em golfadas as energias deste mundo e do outro. absorvo-te. de repente uma mulher saltou no teu colo. e outra e outra e outra ainda. e seres animados sem linhas dançavam como estrelas à nossa volta. o súbito estertor de ser porque estava no teu colo, em que dançava como a bailarina da caixa de música. rasgava a gargalhada selvagem, despia-me e mostrava-te-me, largava em debandada violenta pontapeada, cuspia sangue e por dentro sorria. porque entravas por mim adentro quando achava que não penetrarias mais fundo. lançaste-me as raízes do desejo. de mãos dadas no escuro porque amar é de olhos fechados. e na pele nascem roupagens de cores fortes, puxando o corpo em arrepios. o cabelo cresce e cai ao chão. os olhos escurecem e envelhecem conforme os que os teus reflectem. o fôlego não interessa. porque somos nós. no teu colo me planto, pincel e paleta sou a tua mão firme e certa. eu não sei mas tu sabes. e a árvore imensa espessa as ramagens alimentando-se do suor e do sangue que vorazmente lhe consagramos. alma de vidro estilhaçada em gotas de anis. em cada estalada. em cada estalo. em cada sopro.
sopro-te agora ao ouvido. estás aí? acorda. acorda-me.

Comentários

Anónimo disse…
de uma violência perspicaz.
são assim a certezas de vida.
são assim os trajectos que se descobrem sem ter conta de onde vão dar.
são assim as vocações.
arrebatadas.
enérgicas.
compensadoras.
ou não.
mas um dia tudo se clarifica.
e o percurso é certo.
mas sempre violento.
porque as paixões são assim.
Anónimo disse…
sim, as paixões são assim. porque não poderiam ser de outra forma. assim são elas.
e um dia, vencida peo cansaço da espera, do desejo e da ausência, vais saltar de repente e beber de um só trago aquilo que te bate à porta. a voracidade do que sentimos faz dessas coisas. e agora até chorava um bocadinho ao teu lado. deixavas?
Anónimo disse…
Adoro ler-te de olhos semi-cerrados, como se me obrigasse a perceber pouco as palavras, para que perceba a sua essência...
Anónimo disse…
- É lua cheia?
- amanhã é.
Anónimo disse…
lindo e ternurento!

Mensagens populares deste blogue

writer's block

considerando o Polegadas, imaginem que faziam um post para aqui. sobre o que seria e porquê? se quiserem, enviem mesmo um texto. quem sabe não sai publicado... ;)

conjecturas de inspiração vagamente escatológica*

*que se transformou num romântico dueto de classe - ou dinâmica de um relacionamento condenado à partida a um abanamento de cabeça enquanto se rumina entredentes o[s] ditado[s] "só se estraga uma casa" e|ou "um diz mata, o outro diz esfola" eu só disse mata : há qualquer coisa de big brother nas engenhocas públicas demasiado modernas. eu já brincava com os parques de estacionamento em que uma voz diz "bem vindo ao parque não sei do quê, insira o seu cartão. obrigado e boa viagem". dizia "a senhora deve sofrer muito, ali enfiada todo o dia". ou "diz-se obrigadA, ó estúpida". mas pronto, passava. agora mais tétrico é nas casas de banho... não sei. aquela coisa de uma pessoa fazer o xixizito [meio de pé para não contactar com nada daqueles cubículos] e ainda está a subir a calça já o autoclismo, por sua auto-recreação, faz a descarga, no "exacto momento preciso". não sei. fico sempre a pensar se o sensor não será uma aldrabice. s...

wc cheap&chic makeover

ora passámos disto para isto quem diz que uns pés-descalços do subúrbio não podem ter um Roy Lichtenstein na banheira? com direito a um armário exclusivo para viagens sensoriais ao passado, recheado de pequenas antiguidades da higiene e cosmética por nós coleccionadas através de incursões a drogarias de bairro. trabalho feito por uma equipa de dois, em 8 dias, por um terço do preço que custaria mandar fazer por "profissionais". há por aí alguém que precise dos nossos serviços de consultoria? fazemos orçamentos grátes e vamos a casa...