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Mensagens

estranhas bandas sonoras

há estradas com músicas próprias. este ano, percorro caminhos de menina. em que as horas eram demasiado compridas e as curvas demasiado apertadas para um estômago sensível. a alternativa era sempre a música. cantar sempre me fez bem aos enjôos e quejandas indisposições da alma. quando acabavam as pilhas no walkman, sobravam-me ainda horas infindas de músicas de gosto duvidoso que ecoavam nas 4 paredes viajantes do carro. Roberto Carlos, Paulo Bragança, Demis Roussos, Beach Boys, Righteous Brothers, The Shadows e sei lá que mais sons do passado. e um dia, surge-nos do outro lado da estrada El Consorcio . e lado A, lado B, quilómetros atrás de horas, rodava no auto-rádio-com-leitor-de-cassetes. a minha memória selectiva não se lembra do que almoçou ontem. mas lembra-se das letras e das melodias. a minha avó cabeceava, com as pernas da minha irmã no colo [que a miúda ainda cabia deitada no banco da frente]. a minha mãe punha os pés no tablier [vício que escorre no código genético], e o m...

na véspera de não partir nunca

para breve a vida compactada num par de alforges, os cheiros do vento e os riscos do mapa feitos rugas nas palmas das mãos. eu nas tuas e tu nas minhas. gosto disso. a tenda vai sair do esconderijo e o pó do caminho vai fazer-nos a cama. é o chamar do asfalto. para breve o tinir da colher na chávena de alumínio, a cozinha em pacotes, os pássaros, as ondas mornas, a relva, a areia, o cimento e a terra batida, as agua cebadas , os sotaques açucarados, as multidões e os silêncios de três mil quilómetros. o calor e o cansaço, o arrepio do suor, o aperto dos músculos, o estado alerta onde me reinvento de tantos meses de dormência. levo creme para as dores no corpo e anseio por elas. é sinal que estou, finalmente, viva. e longe, tão longe...

ficção para quê?

um homem vai levar a mulher ao trabalho. faz uma inversão de marcha, manobra de sempre, em consciência de que não infringe as regras de trânsito. logo a seguir é interceptado por dois polícias que o acusam de manobra proibida. olhe que não, senhor guarda. mas eles insistem de tal forma, e o homem, que não é de ferro e acha que tem razão e que estamos em democracia - somos inocentes até prova em contrário -, acaba por pedir para os guardas se identificarem, para ele poder apontar nomes e números de distintivos. os polícias, em gestos vagos, para não dizerem que não se identificaram, passeiam os distintivos de maneira que não se leia nada. mas aquilo não cai bem e resolvem que o homem está a desautorizar a autoridade. chamam reforços, imobilizam o homem à bruta, algemam-no e ainda dão um encontrão à mulher. que por acaso está grávida. de 7 meses. ela começa a pedir aos transeuntes que, já que estão a molhar o pão no sangue, deponham como testemunhas do abuso. todos baixam as cabeças e ti...

um remendo

a cada passo descai-te uma linha, os alinhavos parecem desfazer-se em pequenos vazios soprados sem som. os barulhos confundem-se e penetram nos poros do tecido, rimbombando-te esgares mudos nos botões do casaco. as cores empalideceram aos teus olhos de contas porque, já se sabe, a água salgada debota. os remendos que te enrolam o coração esgaçaram e pulsam com a trepidação do andar. apetece-te parar. agarrar nos farrapinhos e formar uma simples bolinha de linhas. não o faças, bonequinha. ainda és a mais bonita explosão de colorido. ainda tenho muitos carrinhos de linha. ainda as tuas formas deliciam o ar. não te encolhas. é mais difícil realinhavar-te se não te esticares. os sons não saem, os remendos emaranham-se. por isso abre as mãos. não te esqueças de abrir as mãos.

lógica da bat.I.A.ta

ou o dia em que perdi toda a fé no meu discernimento... clicar na imagem para aumentar.

quando o inverno chegar

São Luiz Teatro Municipal 7 a 30 de Junho às 21h; Domingo dia 24 de Junho às 17:30 (sessão com interpretação em língua gestual portuguesa) Encenação: Marco Martins Texto: José Luís Peixoto Interpretação: Beatriz Batarda, Dinarte Branco, Gonçalo Waddington, Nuno Lopes Telefone: 21 325 7640 O mundo fechado de um sanatório para problemas respiratórios no virar do século XIX é o espaço da vida suspensa de 3 homens. O mundo ali não vive, “a vida é lá em baixo, na planície”. Mas será que querem realmente viver? As rotinas já estão instituídas, os dias estão demarcados em coreografias compassadas, confortáveis, onde a esperança e a mudança são apenas palavras distantes. Uma estranha cumplicidade entre os três, alicerçada em relações de liderança insondáveis, coordena-lhes os passos vagueantes por entre a floresta que circunda a instituição. Até que encontram uma espécie de “Alice”. Figura feminina, ingénua e frágil em pleno precipício emocional, numa absurda procura de algo que não se sabe be...

road hogs

há vários espíritos para pegar numa mota. não falo hoje de quem tem uma para andar a fazer slalom entre os carros a uma velocidade estonteante, capazes de fazer corar qualquer "mercedeiro". também não falo de quem faz 300 metros por dia [casa - trabalho - trabalho - casa] só para dizer que tem uma vespa. nem dos senhores que se passeiam nos seus aspiradores de escapes rotos sem outro objectivo na vida que não pôr-nos a todos surdos. falo hoje da simples e arrebatada paixão pela mota. uma paixão que se comprova pela via sacra que é, de facto, fazer longos percursos num veículo de duas rodas. quem anda nestes bichos tem prazeres que facilmente nos escapam quando vamos no casulo metálico. os cheiros, as cores, as paisagens, o próprio ângulo de visão, as texturas do vento são coisas de cuja intensidade não temos bem noção nos carros, mesmo com as janelas escancaradas. no entanto, quando falei em via sacra, quero mesmo dizer que andar de mota em percursos longos é uma tortura, n...

para um amigo

já uma vez te dediquei meia dúzia de palavras. hoje é mais um motivo para seres feliz. e eu contigo. começarás a saborear um novo léxico secreto. novas sensações que só o impacto na onda de gente te podem oferecer. aquela energia estranha que eles sem saber emanam, como uma teia doce onde te sentes cair, impactar, onde os sentes reagir sem um movimento. sei que, pelo menos para mim, é das coisas mais fortes que se podem sentir numa vida. e que nos podem mudar de formas misteriosas. que te fazem acreditar em seres de outros mundos porque começas a vê-los materializar-se à tua frente. não tenhas medo. dá-lhes a mão. transforma-te. diverte-te. vive as palavras. totalmente. nunca menos. e, já agora, leva-me contigo nessa algibeira transparente, para matar as saudades de os ver daí ;)

nota mental

fase de dúvidas e a facilidade de sempre em pôr-me em causa por causa dos outros. outros que não o merecem, mas isso nunca vem ao caso da minha auto-estima. espiral decrescente, teia labiríntica que desagua na hipótese de fechar de vez a porta que o meu livre-arbítrio abriu e de cuja soleira, no fundo, nunca passei. aí impediram-me o raciocínio antes que eu sangrasse de vez as veias do sonho. felizmente existes. se não fosses tu, não seria mais ninguém. porque estás presente. e assim, como me pediste, fica para a posteridade. acima de tudo, para eu não me voltar a perder. venha o que vier. sou actriz. dou voz a desenhos animados e documentários. até já ganhei 600 euros em 10 minutos. o resto são migalhas, possíveis porque eu tenho capacidade intelectual para mais do que um ofício dentro das palavras e da comunicação. no meio do caos há sempre uma constante . e se tudo o que faço está em causa, lembraste-me que não me esqueça do que sou. sempre com a[hu]mor . espanta-espíritos

mais outra

1995-1997. uma menor é abusada por um vizinho. mas não gritou. arquive-se. aqui . um dia explique-se ao senhor juiz [sugiro que com um pau grosso enrolado em arame farpado] a capacidade que muita gente descobre de simplesmente alhear-se do mundo e desaparecer do corpo enquanto ele é usado. feliz dia da criança

raiva

há em mim dias de raiva em que sinto tanto e tão forte que fico assim com o peito como que entupido. de tal forma que não consigo dizer nada. assisto impávida. a banda a passar por mim mas a música não me chega. a dor escava-me em silêncio. a invisibilidade não é um super-poder. nestes momentos, entre um cigarro e outro, entre a vontade de desabar ou de partir tudo à minha volta, de berrar a plenos pulmões o que está por dizer ou simplesmente desaparecer, fico apenas assim, quieta, cara fechada, sentidos fechados. com medo que algo me toque e eu desafine. "amanhã não vais ter outro encanto"

do STJ

vamos lá ver se percebi . um homem tentou manter contactos sexuais com 4 rapazes. com outro, só chegou à conversa do "fazia-te e acontecia-te". conseguir, conseguir, foi com um miúdo de 13 anos, lá para o lado das Beiras. foi apanhado, preso e julgado. condenado a essa eternidade que são 7 anos e meio de prisão. ora tanto recorreu da sentença que o nosso mui nobre Supremo Tribunal de Justiça resolveu atenuar-lhe a pena. porque era uma criança de 13 anos e, vá, já é capaz de ter erecções. porque tinha 13 anos e não 3 ou 4, e violar uns e outros não é beeeem violar assim tal e qual. vá, é abusar. assim da confiança. com mais ou menos roupa, isso não interessa. não lhe bateu, não é? porque o senhor, coitadinho, já sofreu o suficiente com a estigmatização de violador de crianças e papão e essas coisas feias e que marcam uma pessoa, porque não é agradável quando falam mal de nós, e portanto, vá,vamos deixar o senhor ir dois anos e meio mais cedo para casa, para o pé de outros men...

dark motives

desde que esta empresa produziu a última peça que há muita gente a enviar currículos, a oferecer os seus serviços, a, vá, pedir trabalho. a menina aqui, encarregue do e-mail geral, é que os recebe a todos. e como sabe o que custa não ter resposta, vai respondendo aquelas coisas nem-carne-nem-peixe: de momento não estamos à procura mas se surgir essa necessidade eporaífora... bem, o que eu queria mesmo dizer era "pela tua saúde mental e financeira, pela tua capacidade intelectual, pela tua auto-estima, pela necessidade básica de comer que todos temos, agarra-te aos neurónios e foge! que nunca ninguém venha a saber que querias trabalhar aqui." mas não dá jeito... ora... hoje recebo um mail de um actor. como sempre, vou espreitar o cv, ver se o conheço. o que descubro acerca das habilitações e percurso desta pessoa leva-me a responder o seguinte: "se viermos a necessitar de actores pessoas na sua área, o seu currículo será tido em conta." eu sei, sou uma menina má. ...

para bom encenador...

há uns dias o patrão-produtor deu-me para ler um texto e dizer-lhe o que achava. eu li e disse, o mais polidamente que consegui, que aquilo, pronto, vá, não tinha muita acção e que não estava bem a ver como poderia encenar-se um mono-diálogo muito mortiço em que se conta em vez de se fazer... mas isto sou eu, não é? como a opinião não era grande coisa e o autor é amigo do patrão, deixou de interessar. portanto vá de dar o texto ao especialista: o patrão encenador. ele às tantas pergunta-me: - tu leste isto? - li. o Porthos pediu-me para lhe dar uma opinião. - e o que é que lhe disseste? - o que é que achas? gargalhada entra o Porthos - então, o que é que achaste do texto? - olha, só vejo uma maneira de encenar isto. divides o palco em dois. de um dos lados pões os gajos a falar. do outro metes mulheres nuas.

pipocas?!

esta noite fui ao cinema. ver um filme que não interessa ao caso. nem interessa de maneira nenhuma. adiante. chego cedo, estão a começar os anúncios. subo quase até lá acima para encontrar uma fila vazia. quando a percorro para me sentar o mais ao centro possível, reparo que está uma senhora na fila de cima com os pés descalços - em alvas peúgas - assentes nas costas da cadeira. ignoro-a e sento-me. ela fica ofendida por lhe ter abanado o encosto para os pés e muda de lugar mais o seu querido. acomodo-me e fico à espera do filme. o filme começa e quando ainda estamos a decorar o nome das personagens, vejo um senhor sozinho a subir pela coxia à procura de lugar. achou que na minha fila é que se estava bem, sentou-se a uma cadeira de mim. trazia um gelado, que ia comendo sem fazer grande barulho. o filme tinha partes com graça, e ele lá se ria e dizia baixinho "ai, ele agora esteve bem" e batia na perna. mas dizia baixinho e eu tudo bem. lá para o meio do filme, aquilo engonha ...

olha! olha!

[ph.t. | espanta-espíritos ] vai uma pessoa, cansada de um dia de trabalho e uma dose de dobragens nocturnas, ao supermercado... sendo essa pessoa alguém que não sai muito, aproveita-se sempre para dar uma voltinha a ver se se encontram pechinchas. eis senão quando - oh surpresa! -, na zona dos brinquedos, se dá de caras com uma pilha de caixinhas coloridas, qual instalação, com uma pista e, no centro um televisor que passa imagens [demasiado] familiares. estão a vender - e passo a citar - "os carros dos teus personagens de tv favoritos!!" [assim, com muito ponto de exclamação]. ora claro que uma pessoa desata aos saltos no meio do corredor, a soltar exclamações em japonês e falar numa linguagem técnica que só o seu interlocutor percebe. "sukéé*! o saber! ah, e ali está o spin axe! mas espera, não têm o beat magnum? epá, e não vendem os motores de torque em separado? será que têm o G.P.Chip e carroçaria ZMC? mas olha ali o sonic!" isto ser doença no Japão, com adult...

"se fosse...

uma cidade, seria..." era como começava um "exercício" que costumávamos fazer num certo bar com cheiro a palco, noites fora. veio ter comigo sob a forma de desafio da pinky . tarde mas não falham, aqui estão as respostas. hora do dia | um início de noite em dia de verão [que sabe a longo, morno e pleno] astro | lua direcção | onde o dedo calhar no mapa móvel | algum móvel bem disposto desenhado por mim :) líquido | água para mergulhar e vinho tinto para vaguear pecado | todos e cada um, em pequenas doses de insanidade. sou uma pessoa, não um sacrossanto tupperware. pedra | uma pedra do fundo do rio, polida e encontrada pelo acaso árvore | o pomar todo, com perfume de limões e maçãs. e com um plátano da minha infância. fruta | morango. com chocolate quente... [se calhar é melhor começar a repensar aquilo dos pecados eheh] flor | papoila para a melancolia, girassol para as gargalhadas clima | morno e temperado. que dê para andar de vestido. instrumento musical | ...

pelo amor da santa

domingo, 13 de maio... algures no subúrbio se quiserem mesmo saber, é só clicar na imagem... boa sorte... ps: peço desculpa pela pouca actualidade do post. as ideias chegam a tempo, o tempo é que não...

curta

patrão entra na sala, pergunta se eu tenho um adaptador para jacks. respondo que não, que sou uma rapariga séria. e que os únicos cabos que havia estavam numa caixa em cima da mesa dele. patrão sai, ouvindo-se ainda um "parece que não tenho cá nada..." patrão entra passados uns segundos. dirige-se à mesa dele, de onde tira um cabo com cara de ter adaptadores de jacks. sai a cantar a versão bissilábica do "Indiana Jones", como em tatarata-tataraaa . eu quase que lhe vejo o chapéu a nascer dos caracóis, os suspensórios a transformarem-se num sexy casaco de cabedal suado e o cabo a transformar-se em chicote.