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Mensagens

feliz dia, dia feliz

ph.t. de espanta-espíritos a quem se enterra em dúvidas toda a vida, com a paixão como único guia. a quem vive de borboletas, tecidos e pós que se desvanecem nalguma curva do caminho. a quem renasce a cada luz que se acende. a quem se alimenta de dar. a quem tem apenas o corpo para dar. e nele recebe o suor de almas que não existem. mas acredita. a quem se rasga para caber mais qualquer coisa que não se vê, para que se veja. e a quem acende as luzes, a quem carrega nos botões, costura, constrói, inventa, pinta, escreve, captura, estende o adereço e orienta os passos. a quem conta histórias. a quem faz sentir. hoje é o nosso dia. feliz dia mundial do teatro.

ar

são os pontos de encontro da respiração. tudo está ligado, todos os lábios se beijam. cruzámo-nos. tu viste-me, não te vi. levantaste os olhos por momentos dos teus pés que acompanhas com devoção para não teres o mundo por perto, ombros descaídos sob o peso da mochila e da vida que escolheste. levantaste os olhos vagos, vagueantes, imensos, imersos, submersos, subterrâneos. triste momento despejado por ti abaixo, gelado. desenraizado. viste-me na minha distracção abstracta com as músicas enfiadas nos ouvidos, as letras nos olhos, o livro nos dedos hesitados, sem saber o que me leres na tal aura em que acreditas. e por ali ficaste, sem um gesto, sem uma inalação, à espera que essa suspensão me sugasse direito a ti. à espera que me vaporizasse em mil estilhaços que se te arrastassem pela cara, te cortassem as veias e a escultura do perfil, para ser culpa minha outra vez. nada. só os ecos. invadiram-te. mas não eram teus, eram só perspectivas distorcidas do espaço em volta, que te tocava ...

cinco

noites de olhos abertos porque o calor não está e eu com os pés frios não consigo dormir. não está ninguém? acendo a luz de presença, o sol desgasta-se à entrada. o refúgio são as cores. as velharias, os livros, os cartazes, a manta de polar. música. e o filme antigo que o amigo me deu como amêndoa para me adoçar os olhos. deixo que se derreta nas horas, devagar. sorrio. não me farto de esperar por ti.

desacordo ortográfico

a mulher olhava-me de esguelha. de cada vez que eu abria a boca, a minha visão periférica denunciava um movimento amarelo da cabeça da senhora na minha direcção. não sei se interessadíssima na veemência da minha posição, defendida em voz alta apesar de a rapariga que nos servia o chá ser brasileira, ou se incomodada por o meu discurso ser inflamado e pelo facto de eu esbracejar, estando certamente a distraí-la da apatia do seu próprio acompanhante. só sei é que quando peguei no jornal que estava disponível para consulta no bar, procurava o suplemento de cultura para saber em que sala e horário encontrar um determinado filme. mas o dito suplemento estava a descansar na mesa da tal loira, aberto e negligenciado, enquanto ela folheava uma revista de decoração, e eu fiquei-me pelos cabeçalhos do Expresso. como não tenho conseguido acompanhar a actualidade, pude finalmente pôr-me a par das novidades acerca do tal acordo ortográfico. e portanto a culpa de a estar a distrair é totalmente del...

círculo

os claustros, as personagens antigas, as pedras que me quebram os passos. e parecia que não tinha saído dali. como se ao descer as escadas com os figurinos se estivessem a apagar os últimos 6 meses. é tudo cíclico, dizia-me eu a mim. saltei, fugi, corri, bati o pé, desviei-me, mas a espiral encontrou-me outra vez. mas encontrou-me diferente. encontrou de mim apenas o que eu quis dar, nas minhas condições. sem teclas, sem dias de passos arrastados, de cinzas macilentas. e pela primeira vez nestes anos todos, estou a trabalhar unicamente naquilo que sou. será que consigo manter-me à superfície? logo se vê. agora? aproveito para respirar. logo se vê para quanto dá o fôlego. borboletas na barriga. hoje vi papoilas. jogo à macaca, salto à corda, que linda falua, um dois três macaquinho do chinês. avó, vou brincar para a rua.

orgulhosicamente

há anos que não assistia ao Festival da Canção. o meu regresso foi de coração apertado, num espírito de missão. suportei estoicamente o rol de músicas óbvias e a roçar o pimba, aliviei-me na número 7 quando a "Canção Pop" do Nuno Markl interpretada pelo Ricardo Soler me fez bater palmas e dizer "ah, isto sim". e continuei em deprimidas, à espera de mãos cerradas, pela que seria a última da noite. estavam lá três amigos meus, parceiros de cesta de frutas, numa versão non sense do que pode ser este evento. claro está que o espírito passou incompreendido, mas eu fiquei a noite toda a cantarolar. parabéns. há anos que não sentia este cheiro de coragem e alegria. a contrariar o tal espírito luso das tristezas, o épico deprimido, o mar e o amor incompreendido. até gastei os tais dos 60 cêntimos mais IVA... :)

bons vizinhos

não tenho razão de queixa. a cusca do lado, para além de povoar a escada com uma selva amazónica, não chateia mais do que ouvi-la a espreitar à porta de cada vez que abro a minha. no rés-do-chão, o homem-torre e a esposa de cabelo vermelho são caladinhos, têm um gato engraçado que já salvámos um par de vezes e só se vestem com fatos de treino ao fim de semana. o bêbedo do benfica só tem conversas um bocado longas e de bafo etilizado quando o encontramos na tasca, mas está fora no Brasil e tudo. os velhotes do segundo andar nem piam, e o outro velho esquisito só é massacrante nas conversas das teorias da conspiração nas reuniões de condomínio, uma vez por ano, ou quando teima que quando não consegue estacionar o carro dele na garagem não é por ser um azelha a quem devia ser retirada a carta de condução, mas porque o resto dos condóminos arrumam mal os carros deles. por fim, o Vasco está a administrar condomínio há 3 anos porque toda a gente se descarta e ele até faz um bom trabalho. raz...

frases a reter

"está maluca" "temos uma situação" "se te deixares enganar, parece que os barcos estão no céu" "vais entrar em palco no último dia, sim senhora" "desculpa a confusão em que te meti quando te convenci a fazeres o casting" "anima-te, dentro em pouco estaremos com os nossos amores" "este teatro é mais bonito do que os olhos conseguem ver" "tu, aqui!" "sinto-me como se fosse domingo à noite e tivesse acabado o MacGuyver: não sei o que hei-de fazer agora"

a roda dos alimentos de pantanas

de repente, regressa a maldição do pé torcido. e eu, que já me tinha despedido das minhas personagens, que adivinhava uma estadia pacata, a contra-regrar e a sentar miúdos daqueles que ainda sobem escadas de gatas, tenho de voltar. e encarar aquelas dificuldades que julgava engavetadas [por agora] hoje estou ainda em choque. cansada, moída. e os olhos cheios de sono que não se fecham para descansar. ao menos a cabeça limpa para relativizar. vou tentar dormir. quem sabe amanhã corra tudo pelo melhor. e daqui p'rá frente...

pequenas observações

antes de partir, há tempo para umas coisas... passar pelo antigo emprego, onde me cravam 2 projectos para fazer em 10 dias. saber que me querem de volta, mas ainda a tentarem fazer-me as papas na cabeça. saber que ganhei um distanciamento destes senhores que me permitiu deixá-los a resfolegar durante as negociações... que ainda não acabaram... é deixá-los suar... e ver até quanto posso esticar. saber que por mais apetecível que seja voltar a ter ordenado certo [ainda que pequenino] todos os meses do ano, valho mais que isto. e a minha saúde, mental e emocional, vale muito mais que isto. saber que aos 28 anos ainda não perdi o estúpido costume de não me acomodar. saber que, pelas escolhas que faço, ainda não é desta que venho morar para Lisboa. saber que o mais certo é voltar a não ter férias. saber que, à medida que vou aviando as malas, me dói um bocadinho mais saber que nós vamos estar longe um do outro tantos dias, tantas horas, tantos segundos. e o silêncio adensa-se cá dentro.

próxima paragem

antes do desemprego: Porto. directamente da avenida da Liberdade para o auditório da Exponor... tripeiros, temei, a Polegar vai em digressão... serão 15 dias de rambóia. bem, da possível, tendo em conta que faremos uma trintena de espectáculos num curtíssimo espaço de tempo. e o hotel tem piscina... eheheh

[d]a ficção

no fim do espectáculo, ainda vestindo a personagem, vou passear para o foyer e falar com os miúdos que por ali andam. uma menina de uns 5 anos aborda-me. diz que gostou muito de mim, fui a preferida dela porque também me chamo "Ana". e puxa-me de lado, em estilo de confidência: - olha lá, Aninha, aquela bruxa não era a sério... - [abro muito os olhos, com o meu ar mais espantado] a Doença? não era a sério?! claro que era! eu fiquei mesmo doente há bocado, senti-me muito mal! só me safei porque comi as verduras! - [em tom condescendente, de mão na anca, a revirar os olhos] ó Aninha! isto é teatro , é uma peça... as bruxas eram a fingir, não te podiam fazer mesmo mal!

peticionando

esta era-me impossível não divulgar. vá lá, dêem um pulinho aqui e assinem... mais uma vez, as condições de vida dos chatos dos artistas e do recibamento verde : por exemplo, somos obrigados a pagar um mínimo de 150 euros/mês de segurança social, independentemente de nesse mês [e há muitos] só termos feito um trabalho de 50. e depois não temos direito a subsídios de desemprego, de gravidez ou baixa... os contratos de trabalho não são contratos: basicamente são contratos de prestação de serviços e não nos protegem ou dão quaisquer regalias típicas dos contratos. e o Senhor Estado resolveu que, numa nova lei, ia usar o termo "intermitentes", inteligentemente utilizado e regulamentado em França, mas para manter o nosso estatuto basicamente na mesma, senão pior. tenham a bondade de nos auxiliar...

t.p.c.

constantinopolitano, quando te desconstantinopolitanizarás? eu me desconstantinopolitanizarei quando todos os constantinopolitanos forem desconstantinopolitanizados.

fado

são dez da noite e a calçada ainda cheira a chuva. arabescos de fumo confundem-se com o céu nublado e esperamos ouvir os saltos da Lu chapinhar nas poças. depois de um abanar contente do guarda-chuva, entramos. é tão discreto, secreto, lento o ar ali dentro. nada se mexe para não fazer barulho. até as bolhinhas da cerveja dançam devagarinho. ao fundo, depois das cabeças, o preto. o negrume das mãos postas na tensão da nota, ou será da palavra. não importa. são as mãos, as mãos e os riscos dos olhos que saltam, que vibram, que escorrem nas paredes, para dentro do colarinho e arrepiam devagar a pele desidratada de música. nos intervalos há conversas, há risos roubados ao silêncio, que recua com uma certa benevolência. são jovens, todos, deixá-los. depois voltam, com as guitarras, com os xailes e o preto, às suas outras personagens. observo. as notas, as cadências e as mudanças de volume. escuto. os corpos parece que inchados, direitos, o queixo ao alto à procura. e as outras mãos, os out...

serviço [que pode irritar algum] público

que podia ter o título alternativo "só lá vai quem quer" neste blog , encontra-se a tentativa de ir listando os locais [restaurantes, cafés, bares, etc] onde fumar continua a ser um direito, sem trazer inconvenientes de maior para os não fumadores. pode contribuir-se via mail ou comentário. também encontrei este site , sobre bares. espero sinceramente que a ASAE não o leia, porque senão lá segue a perseguição. perdão, a inspecção que pretende ser totalmente aleatória e que por acaso só tem ido a estabelecimentos com dísticos azuis. repito: "só lá vai quem quer"...

teste

este post será para apagar... o que se passa é que consigo fazer tudo menos ver o meu blog... será que fui fechada pela ASAE? :|

imperfeições

o pequeno pedaço de tinta lascada na parede conta que foi lata a lata que as pintámos todas. o relevo das frutas nos azulejos da cozinha contam que já foi tudo bege-desespero e agora é verde-alface. a ponta de papel de parede levantado fala da festa que foi esconder os azulejos da entrada, e do ataque-relâmpago da nossa gata. e o sofá, que era branco e que agora não vive sem uma manta, invoca das noites quando nem cama havia. o vestido de festa no armário conta que só tu é que me convences a comprar roupa sem ocasião, só porque me achas bonita. a mancha de café no colchão sorri e diz que somos gente de pequeno-almoço almoçarado na cama. os riscos na máquina fotográfica são prova dos teus inúmeros trabalhos. as molduras de madeira por pintar são o rol das fotos e dos cartazes, das viagens e sorrisos. a queimadura na mão traz-me aos olhos quem esteve comigo no meu dia de anos. o quadro por pendurar lembra-me que me devolveste coragem para voltar a pintar. a cama por fazer avisa que ficám...

taxicidade

"Um táxi. Cinco motoristas. Cinco dias úteis. Inúmeras histórias escritas nos estofos gastos de um velho Mercedes. O passo lento do taxímetro leva ao destino personagens que se revelam durante o percurso da viagem e das suas vidas". o Damon , um blogger que me acompanha quase desde o nascimento deste cantinho, sempre me surpreendeu com textos de ficção lindíssimos. nas poucas vezes que nos vimos [ele é do Porto], sempre veio à baila um sonho, um projecto, mas que lhe parecia muito longínquo. cá para mim ele tem talento para dar e vender, força e, acima de tudo, merece. mas pronto. ele achava que não. sinto-me, portanto, muito honrada em anunciar que saiu para as estantes das livrarias o seu bebé, o livro Taxicidade, escrito em parceria com outros 4 jovens. além de ter um tema que apetece e a garantia do contributo criativo deste meu amigo, tem ainda uma capa lindíssima [que as capas são logo um chamariz para a gula literária]. no próximo sábado, os autores descem à mouraria ...

há coisas fantásticas, não há

sexta feira foi um ponto de viragem nesta pequena família suburbana. resolvemos que o orçamento familiar aguentava mais um compromisso a longo prazo: tv cabo e internet normal. o nosso sonho de há muito tempo: mandar o leeento e limitaaado modem zapp à vida, e despedirmo-nos sem pompa nem circunstância das noites de tvshop e aqueles concursos de telefonemas com as mamalhudas de cérebros monocelulares. pesquisámos muito, porque o orçamento é curto. eu queria alinhar nos pacotes da Clix: mais baratos, mais velocidade de internet, tráfego ilimitado, conjunto de canais compostinho em que depois se pode escolher mais uns quantos, tipo pizza. mas a Clix não tem as Foxes todas. e um amigo [ainda não decidi se convicto ou com acções na TvCabo] aconselhou-nos a optar pela TvCabo/NetCabo. porque diz que os outros não podem garantir isto e o outro, cabo de fibra óptica e mais uma catrefada de coisas. e tem as Foxes todas. pronto, siga. começou, então, a aventura a caminho da civilização. mal se c...