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Mensagens

beautiful revolution

tirado daqui

primeiro amor e um punhado de neologimos

apaixonei-me por ti de caixão à cova quando tinha 9 anos. antes disso já me andavas a rondar. aprendi a ler e a escrever e a falar e isso libertou-me. devagar, em pequenos sabores no recreio, ao fim da tarde nos têpêcês em letra ensaiada porque nunca sabemos como há-de vir a ser a letra da nossa vida. sem medo do apagador, direita na cadeira, amarrecava-me para fazer a perninha do 'a'. e as regras todas de como se faz acompanhar o quê de nove, atrás de um bê ou de um pê vem sempre um mê. e eu praticava a letra, uns dias mais espraiada, outras mais arredondada: esfolei demasiado os joelhos para ser feminina, mas sempre gostei de batom, era assim, simples, podia ser-se tudo ao mesmo tempo porque há misturas que não fazem mal ao fígado. achei graça, dizia eu, a isto das letras, assim o caderno falava comigo e era eu que o punha a falar e sabia como dizer o que me ia na gana. ria-me muito. sempre me ri muito - é um problema que tenho, há-de dizer o cinzentista e o intelectual...

os carros das eleições

quando era miúda, os únicos carros com música que passavam na rua eram, de facto, os carros dos partidos em época das eleições... e os do PCP e associações sindicais em qualquer época aleatória. por isso, vínhamos à janela, ver o carro enfeitado com bandeiras e "dizeres". não havia a chamada pegada ecológica e ainda se gostava do festival da canção e, portanto, das canções dos partidos - que, na época, ainda tinham partidos. eu entretinha-me a decorar as músicas e depois decidia que os meus pais tinham de votar no senhor que tinha a cançoneta mais mexida - coisa que fez corar de fúria a minha mãe um par de vezes e, se eu tivesse na altura um alter ego adulto, far-me-ia dar-me uma eficaz belinha na minha pessoa in [ingénua, inocente e infantil]. hoje em dia é outra fruta. a coisa de um carro passar com música não faz virar [muitas] cabeças, simplesmente calculamos que o dealer está a fazer o giro na nossa rua.

torre de marfim

a mulher cresce entre as insensatezes da vida. há chão que queria pisar. há forças que fogem da mão. o hesitante equilíbrio entre correr e ficar parado. o simples parece-lhe demasiado complicado, nada corre como nos filmes. ri-se e o amargo outra vez. retoma-se no espelho, de gestos certos mesmo que falhados e tira o dia do rosto. investiga-se para lá da moldura dos olhos e não sabe o que encontra. há vestidos pendurados na memória do querer, num quarto paralelo, entre os frascos de creme para a solidão. vêem-se nitidamente naquele lago de açúcar queimado. não são gavetas nem imagens confinadas, são espaços imensos de luz, janelas abertas e portas escancaradas, de vento contente rodopiado pelos passos de quem nunca está só. e quase ouve o tilintar de copos na sala. já vago e gasto, o som, de tanto o pensar. recua. está demasiado longe. já não se esforça tanto, sabe. já não pede ajuda, ironiza. convive consigo e basta-lhe que não lhe baste sem chorar. está crescida, seca, a menina. de v...

da pausa

depois de meses de vozes, alheada do mundo, impôs-se uma pausa. enquanto esperava, fugi. sete dias na paz do Alentejo. amor, azul e fotossíntese. já vi pessoas, assim muito de quando em vez, mas já fui vendo as minhas caras. e continuo à espera que o trabalho resolva arrancar. pode ser que quando lhes der a vontade, eu já não esteja disponível. pode acontecer. porque hoje recebi uma mensagem: ensaios já quinta-feira. enquanto sim e enquanto não, fica aqui a promessa: tenho de voltar a escrever aqui. tem de ser. sinto-lhe a falta, apesar de não ter muito para contar...

a formiga avariada

sonho em australiano dobrado em português, com camisas havaianas e tudo. à medida que falam comigo no sonho, além de responder e viver o drama, dei por mim a corrigir batimentos. é o meu verão possível: ficar a ver praias e ondas e biquinis e bronzeados pelo ecrã, num estúdio escuro. pôr as palavras nas bocas dos veraneantes e mandá-los para quem está de férias poder comparar notas. o mar a sério, esse, vejo-o ao longe entre o glamoroso skyline dos prédios do Dafundo, quando venho à rua fumar um cigarro. qual formiga avariada, estou a trabalhar para lá do humanamente aconselhável no verão. e tive de recusar trabalho - comida - que me iria sustentar no inverno. amigos? nem vê-los. posso sempre aconselhar uma excursão ali para os lados do Dafundo, essa bela localidade. o que me vale? o namorido ter horários tão avariados como os meus, e os técnicos serem, de facto, os meus melhores amigos, e os actores serem tão extraordinários a gravar como são como pessoas.

crisis management

taquicardia de cada vez que toca o telefone, respirar é tarefa árdua no fio da navalha. erradamente, pensei que já estava dispensada de aturar depressões e bipolaridades, pensei que já tinha tido a minha dose, mas afinal ainda terá de haver espaço na paciência para o malabarismo desses tristes fados entre ftps, relatórios de erros, revisões, marcações, remarcações e gravações. a vida não tem tido banda sonora, de auscultadores nos ouvidos, olhos divididos entre imagem e letras, frases à letra e jargão especializado. a contrapartida é das 5 à meia-noite, com a melhor equipa que podia pedir, aprender - sempre - vendo fazer, indicando e corrigindo, agudos graves e entoações, rindo sem dúvida às dúvidas e enganos, fechados numa cápsula alheia às confusões. o bom trabalho faz-se com boas pessoas e pessoas boas. não há praia, não há sol, há café na esquina se houver tempo, mãos dadas na cama e correr para o próximo ponto. dentro em pouco o resultado estará à vista, escrutínio de público-alvo...

entalada

estou entalada entre joguinhos políticos, bichos esquivos, roer a corda e lavar as mãos. pergunto-me se respire, se faça o que me manda o mau feitio: deixá-los desorientar-se enquanto vou para a rua ler um livro ou acabar de pintar o meu quadro. que me telefonem quando se entenderem, que me digam que já não precisam de mim quando nunca cheguei a poder fazer o meu trabalho, ou que me digam que o faça então nas minhas condições. ... esta última é só para me rir um pouco. não tenho paciência politizada, não gosto de jogos de anca, do jogo da corda. disse logo que os objectivos eram impraticáveis, perguntei - oh, inocente frontalidade - porque é que não deixam cair este projecto se não têm condições para entregar uma coisa de qualidade. porque sou competente para perceber o que é fazível ou não, raios me partam se não trabalho nisto há 7 anos e se as pessoas que se cruzaram comigo no plano prático não voltam sempre, com um "vai ser um prazer voltar a estúdio contigo". por isso nã...

disco riscado

chega uma pessoa para gravar e está o outro pós-estampado com o braço do rato ao peito. tu queres ver que os bonecos vão ter ruído?

meias nos pés ou pretérito imperfeito

se há dias que parecem por dizer, é do incompleto pretérito imperfeito onde vives. onde te vou buscar para um pouco de festas no cabelo ou umas meias porque tenho os pés frios. os meus pés lembram-se de ti e o coração ainda te ouve cantar. apesar de já não me lembrar da voz sei que era aguda e trinada como nos filmes antigos e não me lembro bem mas era assim. e confesso que se me atravessa um grão na garganta. há papoilas lá fora. perderam-se da primavera mas fizeram-se à estrada porque as memórias não se esvaem do nosso mapa genético só porque o dia não trouxe sol. é um consolo pequeno mas é consolo da família do abraço de vento que sinto de vez em quando. não me sais do sangue e da lista das saudades e do riso de miúda pequena e das coisas que dizias que eu digo e que ainda me chamo ao espelho e da obstinação e do revirar de olhos silencioso de quando em vez. sento-me a conversar com os pés no teu colo. eu estou bem, sossegada, sossega, em dias azuis como tanto gostavas que eu tivess...

paralelismos politicamente incorrectos

devo ter sido das poucas pessoas que em vez de pegar no carro na sexta e só voltar no próximo domingo a casa [isto se não espatifaram o popó nas filas de sexta à tarde], peguei no popó para fazer os 15 km que me separam da junta de freguesia onde ainda estou recenseada, para votar. qual senhor bigodudo pega religiosamente no cachecol, nas bandeiras e na geleira que a Maria encheu de jolas e que vai, ao domingo à tarde - ou à quarta logo a seguir ao trabalho sem passar na casa da partida - para a catedral do seu querido clube, gastar o dinheiro dos livros da escola do mais novo. devo ter sido das poucas pessoas neste pequeno bairro de subúrbio que ficou a roer as unhas até saírem os resultados da última freguesia, qual bêbado na tasca da esquina já no desempate por morte súbita, enquanto comentava de cigarro no canto da boca os discursos pedantes e desenquadrados daquilo para que foram efectivamente estas eleições, como quem comenta os comentários ao desempenho dos árbitros e os fora ...

say it with flowers

© mário sousa 21 de Maio a 6 de Junho . quinta a sábado | 22:00 Lux.Frágil com | Graciano Dias . Maya Booth . Rita Brutt . Miguel Moreira . Francisco Tavares encenação | António Pires texto | Gertrude Stein . tradução | Luísa Costa Gomes cenário | João Mendes Ribeiro . figurinos | Luís Mesquita música | Paulo Abelho . João Eleutério . desenho de luz | Vasco Letria informações no site oficial . espreitem o vídeo no facebook há coisas que me ultrapassam. não sei porque gosto. sei que gosto. muito. porque podia ser tudo o que detesto. podia ser frio, asséptico, plástico, estético e só plasticamente estético. podia ser só bonito. podia ser vazio para, como muitos que por aí andam, supostamente pôr-nos a reflectir sobre o vazio. o tal vazio bonito. mas say it with flowers preenche-me. não tem uma história para contar. tem algo de burlesco, algo de físico, de coreográfico e, acima de tudo, algo de químico. chamar-lhe-ia a boa e velha alquimia. a alquimia do sentimento sem descrição. mostra-...

cansaço extremo

durante o dia, estou nas obras em casa de uma amiga. saio de lá para ir dobrar bonecos. volto para as obras. e ensaios a partir das 11 da noite... a estreia é já na sexta. e as mãos que sentem o tempo que vai escoando devagar, para o momento em que já não poderei fazer nada por eles...

koniec*

obrigada, Vasco Granja. apesar de agora eu ser a única pessoa no país a admitir (sem medo de calúnias intelectualóides) que na altura achava os bonecos checos uma seca. são, ainda assim, silhuetas vivas que guardo na memória de dias compridos de algodão doce. enfim, mesmo assim, sempre criança, a gostar de bonecos. a fazer bonecos. graças a si. *fim, em checo.