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banho

daqueles que não tomo há muitos meses.
com velas, cheiros doces e frutados, espuma e muito tempo.
desligar as luzes da casa de banho enquanto a água corre, quase a ferver, pelo chuveiro, para bater com força no gel cor-de-rosa e fazê-lo multiplicar-se em nuvens perfumadas.
acender meia dúzia de velas gordas, ligar o rádio na Marginal porque apetece jazz e músicas antigas que já ninguém ouve.
deixar a roupa cair pelo chão, muda, cúmplice do silêncio.
entrar no banho quente e sentir os músculos a perderem a batalha, a pele a passar do arrepio ao descanso, o cabelo a flutuar, bailarino lento, e, enfim, o silêncio da água meiga, que acaricia a pele com um toque tão suave que quase não se sente. que protege o corpo do frio, tão envolvido e tão exposto à transparência da àgua.
ficar assim. só ficar.
sem ventos nem manhãs arrogantes e cortantes. sem pressas nem dores nas costas. sem cansaço, sem cansaço...
suspirar. deixar os dedos passear, ali mesmo onde se sente o risco da água.
ver a pele liquidamente dourada das velas, a absorver os aromas do sabão. e apreciar o tom morno do nevoeiro.
o raspar do isqueiro, as folhas de tabaco do cigarro a crepitarem baixinho e lentamente. o fumo a misturar-se com o vapor que sobe da mão.
só as gotas que caem ritmadas da torneira estão autorizadas a quebrar o silêncio da melodia.

Comentários

Anónimo disse…
Tem piada. Ainda ontem disse a alguém que tinha saudades dos banhos que tomávamos juntos. espero que tenhas uma boa companhia nesse teu banho. A melhor companhia...
Lex
polegar disse…
lex: tem piada? de facto não tem. se calhar não tiveste saudades a tempo, quando tinhas todo o tempo. sabes que o tempo passa e desgasta, se as coisas não forem tratadas com carinho. se não lhes for reconhecido o valor. se não lhes for dado um sorriso. depois queixamo-nos e encontramos pretextos no mundo e alvos para ferir para não estarmos sós na dor. mas nisso cada um sabe de si.

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