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Mensagens

sabes quando te revisitas e já não te encontras? não sabes o que fazer de ti contigo. as perdas têm sido valentes, as estocadas mais fundas. pensei que por agora a pele estivesse mais grossa, mas não. pensei que estivesse de pés assentes, mas há força nas pernas. perdi o meu pai. perdi o meu chão. espero por uma fase boa. em que esteja tudo bem, organizado. nem que venha depois outra ventania, mas um pedaço de vida em que tudo esteja no seu lugar. só por um bocadinho. mas não. as peças estão espalhadas, quando começo a arrumar umas, caem ao chão as do outro canto da vida. um empilhar de pratos num tabuleiro demasiado cheio, que não se tem oportunidade de ir despejar à cozinha. até as metáforas me saem avariadas, já. tabuleiros de cozinha é o que me sobra. isto são metáforas, certo? é um padrão, o padrão caótico da minha vida, que tento desenhar em palavras que já não tenho. quero despejar-me aqui mas não sei bem como. os medos continuam, sabias? estão piores, diria, porque...

serenidade

é tão estranha, esta sensação de uma corrente eléctrica e permanente funcionamento debaixo da pele, este formigueiro e ao mesmo tempo um medo que paralisa, que encolhe. o coração desnorteado e a vida em câmara lenta, demasiado rápida para absorver. os dias assim passam sem que lhes toque, agarrada a mim com medo de me perder. agora sei de onde vem isto, sei ao que vem. é um aviso, para ter medo porque posso esquecer-me. ainda não aprendi o faço para que se vá embora, para que sossegue porque não me esqueci. ainda não me sei confortar. respiro pela serenidade que - sei - virá. entretanto tenho de aguentar, deixar fluir. porque sei que não vai acontecer nada de mau. é só a menina pequenina a lembrar-me de tomar conta de mim.

o novo caminho

há o meu jardim da árvore gigante, debaixo da qual leio a peça. há uma boutique pequenina com os meus sapatos. há uma loja com lápis de cera daqueles que comíamos em miúdos. há um prédio que é só uma fachada. há um cão preto e branco que dorme toda a tarde dentro do talho. há um homem vestido de fraque, com laço preto, no meio da rua a meio da tarde no meio de turistas de calções e bonés e túnicas floridas. há um  tipo que grita com o mundo enquanto mija na calçada. há um cheiro a fruta quente, apesar disso. há uma velha de peruca da cor da bengala de madeira avermelhada. há um sol de frente que se apaga quando viro a esquina. há a Mitó nos ouvidos a emprestar-me sentidos. há uma corrente de ar sempre presente. agora é quente.

porquê? por causa das venetas

eu estou a recibos verdes. dos verdadeiros, em 70% das situações. o que é que estar a recibos verdes implica? implica tão somente estar à mercê de venetas. a veneta consiste de várias sub-venetas, uma delas é o "nós pagamos este serviço com este valor e pronto, se não quer, há-de haver quem queira". pode ser um "afinal não me apetece trabalhar mais com esta pessoa". e eu não sei de nada, nem sou informada, quanto mais consultada na decisão para tentar negociar, simplesmente de repente não tenho dinheiro para comer. pode ser também o "nós pagamos a 90 dias a partir de uma data que não lhe vamos transmitir. logo mandamos um e-mail e depois logo vê quanto tem a receber". e ai de quem telefone a perguntar para quando está previsto... pode ser que deixe de trabalhar ali... até pode implicar "entrega o seu recibo verde semanas antes de nós procedermos à transferência sob pena de, se não o fizer, não recebe e deixa de trabalhar connosco". depo...

parte um

isto de ter brio no que se faz é simples. isto de se tentar fazer o melhor que se sabe e pode, mesmo quando o corpo não colabora, quando a voz se gastou, quando tudo dói e nem conseguimos destrinçar as sílabas, é uma segunda natureza. isto de se tentar resolver na hora para evitar problemas, mesmo quando não é do nosso departamento, de se esticar horários para lá do suportável, de se ir a correr entre capelinhas, de se galgar os quatro cantos da cidade - e mais além - só para conseguir corresponder ao que se pede, de se engolir sapos para não criar fricções. é tudo normal. está aqui para se fazer? faz-se. há um problema? dá-se a volta. é assim que tem de ser. é tudo o que se tem, quando se depende dos olhos dos outros para conseguir mais trabalho. é tudo o que se tem, quando antes de deitar levantamos a cabeça perante o espelho. e quando tudo o que temos é a noção de que não tememos porque não devemos, é inadmissível descobrir que afinal alguém minou por qualquer mesquinhez to...

Um, Ninguém e Cem Mil ou carta a Virgílio Castelo

caro Virgílio: venho apenas, deste cantinho obscuro cá muito em baixo, ter o desplante de lhe dar um conselho: pegue no maravilhoso monólogo de Pirandello, na sua total entrega apaixonada a um personagem que tornou coeso, divertido, triste e fascinante do princípio ao fim, e fuja. fuja da encenação tristemente pretensiosa [a "arte" forçada, o medo do simples], do ciclorama de projecções mal amanhadas e que são apenas barulho de fundo, da música incongruente que abafa a sua voz e inutiliza qualquer presença de um violoncelo em palco - pancadinhas esporádicas não contam -, do desenho de luz notoriamente improvisado e que o põe a correr desnecessariamente entre pontos tão díspares, que lhe apaga qualquer expressão com sombras e lhe corta a dinâmica com luzes que não acendem a tempo. fuja de roupas e adereços que pouca ou nenhuma falta fazem na história que nos conta. e fuja da incompetência de um teatro impessoal abandonado há demasiado tempo pelas pessoas que faziam dele u...

os dedos de uma mão

feitas as contas, o que são. quantos são, afinal. os rostos, os suspiros, os sorrisos a que recorres quando olhos se encolhem de medo. aqueles que constam do álbum das tuas fotografias, do arquivo que não morreu. os que sabem o caminho. os que o fazem. conta-os. ou não. quando arrefece fazes as contas. sim, sempre. é do frio. mas conta, sempre agitas os dedos. e os que vêm quando pedes. ou quando o peito aperta. sabem-te? alguma vez te souberam? faz um exercício de não respiração. suspende, por um momento, o que vai e o que vem. fica-te com o que está. estás triste? fica-o. és tu, faz as contas. mas nunca foste grande coisa a matemática.

sorriso leste a oeste

tenho o peito cheio de coisas. coisas tantas e inomináveis. conto os dias e tenho medo e estou ansiosa por que chegue, por que vá, por que esteja, porque sim. não era eu se não fosse aos pedaços. desdramatizo respirando como me pediram para ensinar. sim, já ensinei a respirar quem me ensina aos poucos a lembrar-me de o fazer. reaprendo o meu peito, que desassossega de vez em quando, desabituado de ansiar assim. sem aditivos. e orgulhoso disso e com medo disso. mas é em frente sempre em frente, nunca fez tanto sentido. sorriso de leste a oeste. o sentido do sorriso. vincado, fincado, de pés no ar.

das modas

- boa tarde, queria um par de calças de ganga assim giras... - pois, olhe, temos aqui umas que já estão a tornar-se um clássico. skinny jeans. justinhas de alto a baixo, é garantido que se tem menos de um metro e oitenta e mais de quarenta quilos vai descobrir pneus que não conhecia e, portanto, ficar sempre com o super fashion ar de bola num espeto, sendo a bola o seu tronco e rabo, e o espeto as suas pernas. - ah... não tem assim mais nada? - temos também a nova moda dos bolsos de trás descaídos, disponível em todos os modelos justos. a par com a cintura super-descaída. o que acontece é que o bolso abaixo da zona da nádega vai fazer parecer que o seu rabo está mais em baixo, ao nível da coxa, o que portanto lhe vai dar um ar de anã desproporcional e flácida. o seu tronco vai ficar compridíssimo, as suas pernas vão parecer minúsculas. a cintura descaída consegue destacar cada abanão gelatinoso da zona abdominal, os seus pneus vão saltar! e não há cueca que se consiga vestir, ficam ...

terra molhada

não há cheiro que me dispa como o da terra molhada numa noite quente. despe-me e dança, devasso e lasso, brinca-me na pele em arabescos do sal que lá se esconde. fora saliva, mas fresca, lamber-me-ia sem vergonha. e o suor abranda-se. são estes pequenos momentos de paz, enrolada na brisa. são estes silêncios e músicas e.ternas. é a meia luz quente cá dentro e a lua azul pela janela. é assim que fecho as mãos antes que a sensação se apague. e perdura, agora.

check-out

uma sexta-feira, às sete da tarde, tiraram um género de dentro de um chapéu. não gostaram e tiraram outro. Mistério. levaram uma frase, uma personagem e um objecto obrigatórios. mandaram um e-mail para o outro lado do Atlântico e do lado de cá começou a espera. 3 horas depois chegou um texto, ligaram-se skypes e chats, distribuíram-se personagens, definiu-se o plano de trabalho, adereços, roupa e marcou-se uma hora para encontro no dia seguinte. a essa hora estavam lá todos, textos na mão. uns montaram equipamento, outros vestiram-se, maquilharam-se e ensaiaram. depois foi-se gravando, rindo, gravando, enervando, rindo. a avó Fernanda fez o almoço. às onze da noite foi declarado "that's a wrap" e deu-se o último aplauso no décor. depois foram para casa, uns dormir, outros editar, tratar som e imagem. às sete da tarde de Domingo, entregaram uma história com 8 minutos. na sexta seguinte, chegaram para ver o seu trabalho num cinema. ficaram contentes por o trabalho ...

retiro espiritual

wish me luck...

vai tudo a eito

Olá. aqui somos uns fixes, de brandos costumes, afáveis, garridos, pitorescos e temos uma comida do camandro. para não falar do cinema português, que é o supra-sumo da batata, a excelência do umbigo. aqui endividas-te para ter um LCD, um telemóvel topo de gama, ou o carro despesista que aparenta a opulência que nem sabes o que é. aqui não compras o jornal, compras o pasquim. aqui não lês livros, lês palavras já meio deglutidas para não dar trabalho a digerir - os medicamentos estão caros. aqui, os adolescentes passam de ano por saberem quanto é 5+2, e passam mesmo que respondam "cete", deus os livre de terem que saber o que seja para irem para a faculdade, porque o que interessa é mostrar à Europa que temos muitos licenciados. que os licenciados não têm trabalho é outra conversa. aqui, 30% das pessoas queixaram-se num inquérito, desgraçadinhas, que não tinham dinheiro para aquecer a casa num dos invernos mais frios de que me lembro. antes de puxares do lenço, fica a s...

há algo que me rasga

agito os farrapos. esbofeteio o ar. estremeço. quão frenética me conheces? agora vibra. agora galopa. é suor? é sal. danço. Portishead - Chase The Tear from Mintonfilm on Vimeo .

algo

algo denso, escuro, escorre nas paredes. acumula-se de baixo para cima, espessando as paredes que incham na direcção uma da outra. algo crepita, vago, ao longe, uma cacofonia desencontrada, desconcertada. vai-se calando devagarinho, desaparece como aquela baforada de fumo no peso de uma manhã fria. é a sensação que fica. um eco, talvez. bata-se na parede e regressará talvez um sopro. pingado. não vale, assim não vale, é preciso barulho e já não há voz. desde quando é preciso nadar para se ficar seco? e quem gostava de, uma vez, ficar quieto? uma medida. de quantos passos se faz a claustrofobia. já se medem a dedos, não passos. seriam polegadas, eventualmente, no sorriso irónico de quem cá passa. e de quantos passos se faria o abraço. esses são largos, com botas de sete léguas. afastam-se. pois. afastam-se e o algo escuro e denso escorre goteja agarra-se e fica. já esse, fica. outro sorriso irónico. afinal, o abraço é a cura para a claustrofobia.

pequeno almoço

comme il faut.

coisas que me danam

esclareça-se: o teatro e a dança são artes vivas [como em "ao vivo"]. contando histórias ou não-histórias, vivem|existem da|na comunicação a outrem-em-massa [chamemos-lhe público]. devem ser, no final de contas, um serviço público não obrigatório e não são totalmente auto-suficientes. esclareça-se ainda mais: uma grande percentagem das companhias mais badaladas não põe um "ovinho" cá fora [entenda-se por ovinho, espectáculo] sem "choco" valente [leia-se por choco, subsídio]. esclareça-se que os subsídios vêm dos nossos impostos e são distribuídos de acordo com certos e determinados critérios de avaliação em concursos públicos [e não nos alonguemos por aqui, para eu não ficar com urticárias]. esclareça-se ainda que a maior parte das salas de espectáculos de Lisboa [convencionais] são pertença de empresas semi-públicas, públicas, ou das próprias companhias. a programação é efectuada com base em critérios de avaliação que... vamos encurtar - nos ultrapassa...

do alcatrão . actualização non troppo

queria actualizar o post anterior com mais novidades, notícias, avanços. mas depois do clássico " sacuda a água do seu capote ", as notícias cessaram. que isto de serviço público não é para o jornalismo. nem para o site da Brisa. era aterro, tinha problemas geológicos, mas afinal já sabiam disso tudo, mas ninguém foi ver porque a responsabilidade é sempre de alguém mas de ninguém em especial. já têm lá as escavadoras e continuam a ver se a terra continua a cair. agora esperem. sentados, na segunda circular. todos vocês, os 40 mil utilizadores.