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o botânico cantor

vagueia pelas pedras seculares do bairro. entre ombreiras de portas e escadarias de museus. surge de nadas, todos os dias no passeio, no caminho de quem tem para onde ir. ele está ali, simplesmente.
magro, já nos 40 ou 50... talvez mais, talvez menos, quem é das ruas não tem idade certa. orelhas saídas do rosto emagrecido, olhos grandes aumentados pelas lentes grossas dos óculos de massa de estilo anos 70, já reparados com fita-cola, o olhar vago das pedras que lhe servem de cadeira.
um dia, ao sol, com uma garrafa de cerveja pousada ao lado, mirava fixamente um minúsculo vaso de plástico verde que tinha uma florinha. cantarolava baixinho.
outro dia, à sombra de um prédio amarelo, sentado com a companheira garrafa, cantava em plenos pulmões uma das suas cantilenas, agarrando fervorosamente uma rosa de pé que lhe servia de microfone.
hoje andava pela rua com um molho enorme de malmequeres amarelos de caule comprido às costas, que se destacavam pela alegria no meio da roupa suja e escura.
agora todos os dias percorro a calçada de nariz no ar, curiosa por saber onde o irei ver, e que música terá para me cantar, que flor para oferecer ao vento.

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