segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

serenidade

é tão estranha, esta sensação de uma corrente eléctrica e permanente funcionamento debaixo da pele, este formigueiro e ao mesmo tempo um medo que paralisa, que encolhe. o coração desnorteado e a vida em câmara lenta, demasiado rápida para absorver. os dias assim passam sem que lhes toque, agarrada a mim com medo de me perder.
agora sei de onde vem isto, sei ao que vem. é um aviso, para ter medo porque posso esquecer-me.
ainda não aprendi o faço para que se vá embora, para que sossegue porque não me esqueci. ainda não me sei confortar. respiro pela serenidade que - sei - virá. entretanto tenho de aguentar, deixar fluir. porque sei que não vai acontecer nada de mau. é só a menina pequenina a lembrar-me de tomar conta de mim.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

o novo caminho

há o meu jardim da árvore gigante, debaixo da qual leio a peça.
há uma boutique pequenina com os meus sapatos.
há uma loja com lápis de cera daqueles que comíamos em miúdos.
há um prédio que é só uma fachada.
há um cão preto e branco que dorme toda a tarde dentro do talho.
há um homem vestido de fraque, com laço preto, no meio da rua a meio da tarde no meio de turistas de calções e bonés e túnicas floridas.
há um  tipo que grita com o mundo enquanto mija na calçada.
há um cheiro a fruta quente, apesar disso.
há uma velha de peruca da cor da bengala de madeira avermelhada.
há um sol de frente que se apaga quando viro a esquina.
há a Mitó nos ouvidos a emprestar-me sentidos.
há uma corrente de ar sempre presente. agora é quente.

quarta-feira, 9 de março de 2011

porquê? por causa das venetas

eu estou a recibos verdes. dos verdadeiros, em 70% das situações.

o que é que estar a recibos verdes implica?

implica tão somente estar à mercê de venetas.

a veneta consiste de várias sub-venetas, uma delas é o "nós pagamos este serviço com este valor e pronto, se não quer, há-de haver quem queira".
pode ser um "afinal não me apetece trabalhar mais com esta pessoa". e eu não sei de nada, nem sou informada, quanto mais consultada na decisão para tentar negociar, simplesmente de repente não tenho dinheiro para comer.
pode ser também o "nós pagamos a 90 dias a partir de uma data que não lhe vamos transmitir. logo mandamos um e-mail e depois logo vê quanto tem a receber". e ai de quem telefone a perguntar para quando está previsto... pode ser que deixe de trabalhar ali...
até pode implicar "entrega o seu recibo verde semanas antes de nós procedermos à transferência sob pena de, se não o fizer, não recebe e deixa de trabalhar connosco".
depois há o "agora os valores mudaram e não temos nada que avisar ninguém".
ou até mesmo "resolvemos 'castigá-lo' por dá cá aquela palha e o valor acordado - verbalmente, claro - foi à vida".
e a clássica, a veneta da insistência de não pagar o verdadeiro recibo verde pelo que é, a intermitência. de um serviço especializado.

estas venetas, "house rules", fazem com que, na prática, se mantenha uma actividade aberta em meses em que afinal não temos nada a receber, ou, surpresa, uns 20 euros. mas andamos nesses meses a trabalhar para meses futuros, sem vida para estar nas filas da loja do cidadão das 9 às 5 a corrigir burocracia.
também fazem com que as empresas, quando resolvem fazer acertos no fim do ano para fugirem aos impostos do que aí vem, resolvam pagar tudo de uma vez. sim, faz falta para o Natal, mas é capaz de lixar o IVA de um momento para o outro.
fazem com que o brio profissional seja visto como uma mania.
fazem com que passemos meses a trabalhar antes de vermos sequer o primeiro pagamento.
fazem com que de repente nos vejamos sem nada.
fazem com que não possamos contar com nada.
fazem, sim, com que adiemos filhos. e casas melhores. e - para os mais precavidos como eu - consumos mais altos sem ter o dinheiro-todo-líquido na mão. fazem com que se evite todo o tipo de prestação. e com que se evite todo o tipo de pequeno prazer porque esse dinheiro pode fazer falta para qualquer coisa daqui a bocado. quanto mais o futuro.

e depois há o pequeno problema de metade do que ganhamos ser completa e imediatamente tragado pelo "Sistema", apesar de em troca não termos direito a nada.
nem sequer contamos para um qualquer censo de desemprego quando estamos "entre projectos".

e sim, temos de fazer sacrifícios, mas então e todas as despesas não contabilizadas não são já sacrifícios? porque o que o IRS pressupõe que usamos para despesas não está lá muito perto da verdade... a prestação e manutenção do carro, a gasolina, estacionamento e as portagens diárias (porque o meu país chutou-me para o subúrbio em prol de uma cidade de fachadas ocas e morta às 7 da tarde, e não me dá transportes que me permitam andar a correr de estaminé em estaminé em tempo útil - que muitas vezes se estende noite dentro), as refeições fora num algures indeterminado, as chamadas telefónicas para marcar remarcar e desmarcar, a internet para gerir todas as burocracias, as pesquisas, as organizações da vida, e, pois, as águas, vitaminas e quejandos suplementos que me mantêm funcional porque tenho de trabalhar doente, até mesmo certos tratamentos que são considerados luxo e não medicina mas de que necessito para manter a minha actividade, sem falar na formação que não conta para descontos, ou nos cafés para me manter acordada nos dias de 14 horas, os livros para estudar o próximo trabalho... não são 30% do meu rendimento.

não, são investimentos da minha parte na produtividade nacional, a cada moeda de 50 cêntimos.

no fundo, é outra veneta, a tabelação dos impostos: fomos todos tabelados pelos "outros" recibos verdes: os médicos e advogados. mas não fazemos 150 euros por uma consulta de meia hora.

é por isso. não me vou queixar. vou estar presente, solenemente, sem partir nada nem mandar ninguém para lado nenhum. na minha dignidade, no meu brio, com respeito por mim acima de tudo, vou lá estar. para por uma vez contar para uma qualquer percentagem que diga "ah, afinal eles são mais do que fingimos que não eram. nas mais variadas situações, com um elemento comum. a precariedade."

não quero fazer cair um governo para vir outro que já sabemos como é, que vai dar ao mesmo. não me iludo com sindicatos, que nunca soube o que era um 13º mês. não escolho outro trabalho, porque é isto que sou, que sei, em que me especializei.
não fecho, no entanto, os olhos a todos à minha volta, que são o sustento do meu país e tratados como corja preguiçosa porque não encontram um contrato merecido ou condições mínimas para trabalhar numa intermitência que, sim existe e é necessária, mas tem de ser repensada.
quero deixar de ser abstracta.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

parte um

isto de ter brio no que se faz é simples.
isto de se tentar fazer o melhor que se sabe e pode, mesmo quando o corpo não colabora, quando a voz se gastou, quando tudo dói e nem conseguimos destrinçar as sílabas, é uma segunda natureza.
isto de se tentar resolver na hora para evitar problemas, mesmo quando não é do nosso departamento, de se esticar horários para lá do suportável, de se ir a correr entre capelinhas, de se galgar os quatro cantos da cidade - e mais além - só para conseguir corresponder ao que se pede, de se engolir sapos para não criar fricções. é tudo normal.
está aqui para se fazer? faz-se. há um problema? dá-se a volta.
é assim que tem de ser.

é tudo o que se tem, quando se depende dos olhos dos outros para conseguir mais trabalho.
é tudo o que se tem, quando antes de deitar levantamos a cabeça perante o espelho.

e quando tudo o que temos é a noção de que não tememos porque não devemos, é inadmissível descobrir que afinal alguém minou por qualquer mesquinhez todo o mundo e conceito que tanto suor custa diariamente para construir, manter, acarinhar, andar de queixo erguido.
quando alguém, por capricho, ímpeto ou medo de qualquer coisa não se apercebeu que comprometeu mais que um nome numa tabela, comprometeu uma pessoa, uma integridade, um sustento, uma família.

e descobrir que apesar de todas as provas provadas, quem devia saber melhor não levantou a sobrancelha para desconfiar de uma precipitação qualquer, nem sequer questionou se seria bem assim, não quis saber o suficiente para apenas perguntar se não era só um engano. um julgamento de carácter tem consequências um bocadinho para lá do despeito. o respeito demora demasiado a construir-se para ser arrasado assim por uns terceiros quaisquer, por um dá cá aquela palha, sem ouvir, considerar, ponderar.

assim se arrasta no chão um corpo de trabalho.
um corpo de vida que tanto dói a criar diariamente.

há quem desista porque não vale a pena.
se de cada vez que não vale a pena eu desistisse, neste momento não estaria aqui.

nada me vem de mão beijada, e o Murphy é a minha sombra. mas ainda acredito que nem tudo tem de correr mal sempre aos mesmos. por isso sei que esta é só a primeira parte.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um, Ninguém e Cem Mil ou carta a Virgílio Castelo

caro Virgílio:

venho apenas, deste cantinho obscuro cá muito em baixo, ter o desplante de lhe dar um conselho:
pegue no maravilhoso monólogo de Pirandello, na sua total entrega apaixonada a um personagem que tornou coeso, divertido, triste e fascinante do princípio ao fim, e fuja.

fuja da encenação tristemente pretensiosa [a "arte" forçada, o medo do simples], do ciclorama de projecções mal amanhadas e que são apenas barulho de fundo, da música incongruente que abafa a sua voz e inutiliza qualquer presença de um violoncelo em palco - pancadinhas esporádicas não contam -, do desenho de luz notoriamente improvisado e que o põe a correr desnecessariamente entre pontos tão díspares, que lhe apaga qualquer expressão com sombras e lhe corta a dinâmica com luzes que não acendem a tempo. fuja de roupas e adereços que pouca ou nenhuma falta fazem na história que nos conta. e fuja da incompetência de um teatro impessoal abandonado há demasiado tempo pelas pessoas que faziam dele um teatro.

fuja para uma sala pequena, intimista, traduza o texto para português de Portugal, e faça este monólogo para pequenas plateias que lhe leiam o rosto como merece, durante muitos e longos meses.

mas isto sou eu...

atenciosamente
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