sexta-feira, 29 de abril de 2005

ainda sobre lost in translation...

...descobri por um texto que me deliciou. gosto de quem escreve bem. infelizmente, este blog já terminou. felizmente continua no ar.

"a sala de embarque de um aeroporto é sempre demasiado fria quando se está só. um livro acompanha por um momento, mas a vontade de fugir para o sol lá de fora aumenta. ele aguarda-a no outro lado do mundo. ainda falta muito tempo até ao reencontro. ela relembra pormenorizadamente aquela noite no bar: os copos meio vazios, os joelhos demasiado próximos e as mãos com vontade própria. eles mal se conhecem e ela parte a caminho dele."

por [N], que suspeito quem seja e [se isso se confirmar] cujos textos sigo noutros blogs.

despertar

uma garrafa de anis partiu-se. foi deslizando devagarinho, aproximando-se imperceptivelmente da borda da prateleira onde descansava altiva. dos cacos, no chão, evaporou-se o líquido. ficaram os reflexos de luz espalhados por toda a parte. e o entorpecimento adormeceu.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

contra-luz

respira fundo. o peito pequeno sobe e desce com calma. controla o ar até o coração amansar.
o seu corpo levanta-se da cadeira, indiferente ao escuro, ao frio.
está num espaço vazio, anónimo e intemporal. continua de olhos fechados e, na sua cabeça, o ritmo da respiração traz-lhe uma música.
deixa a cabeça deslizar para trás. levemente, avança um passo, depois outro. as ancas balançam. os braços levantam-se, e apanham as notas perdidas no ar. roda. roda. roda. salta e envolve o ar e o ar envolve-a.

[ms]
perde a noção do tempo. perde a noção.
já se descalçou, a camisola descaiu, revelando o ombro nu. os cabelos voam no ar despenteados e suados. não interessa.
abraça essa música que lhe chega sussurrada entre os estalidos da madeira. frenética, perde o controlo. agora não.

há-de acordar. arfante, desorientada. e ouvir os carros a passar.

alone in Kyoto [Air]

uma banda sonora sugerida para um post...
recordar algo que não recordo bem.
recordar uma viagem, duas vidas vazias e um encontro. mudou alguma coisa? isso fica para ponderar. mas acaba com um sorriso, não é?

numa capital cheia de luzes e movimento é estranhamente fácil o reconhecimento de duas solidões. num hotel luxuoso, num bar de meias luzes e glamours falsos. brilho. imagens cheias de brilho. e a tristeza infindável em dois pares de olhos. parecem sem rumo, apesar de trazerem agendas definidas. nem que o sejam por espaços em branco.
quando uma cidade grande se torna tão claustrofóbica e sufocante. e com tantos pontos de atenção que o olhar desfoca e não encontra um ponto certo. um porto de abrigo.
até encontrar. surpreendentemente, encontra-se noutro vazio. noutro desespero disfarçado.
não há histórias paralelas nesta história. encontros ou desencontros. aliás, já não se espera nada. apenas se vive um presente estranhamente familiar. estranhamente coincidente. estranhamente simples. com tanto lugar no mundo, o encontro de dois vazios é no meio do tal outro vazio cheio de brilhos, músicas, lantejoulas e neons.
e então faz-se realmente luz. nos olhos e nas almas. e não é preciso cenários fabulosos. não era preciso o destino exótico e cosmopolita. ou era?
falar de amor ou atracção. falar de destino ou coincidências. falar de viagens luxuosas. falar do que é cosmopolita ou charmoso, ou do fútil. falar de estilos de vida alternativos, do consumo, da imitação, dos ideiais estéticos. falar da loucura ou do desespero. falar do impulso ou do juízo de valores. falar de quando se perde o controlo ou simplesmente se deixa correr. falar de desejo e de intenção.
falar da simplicidade de um roçar de rostos, de uma troca de olhares, da sensualidade de uma pele, do fogo de um passeio à chuva, da embriaguez de uma porta aberta, de um intenso proteger aconchegante na cama, [tão] mais íntimo que o "será" do sexo. da simples simplicidade no meio da confusão. de quando tudo pára sem nada parar à volta.
tudo perdido em traduções. só sabemos que acaba com um sorriso.

para a V.
para Lost in Translation
não sei porquê. apeteceu-me.

terça-feira, 26 de abril de 2005

sex appeal ou uma forma de me deixarem a pensar o dia todo...

- que capa de telemóvel tão gira! é uma fotografia, não é?
- é. sou eu.
- ah. pensei que era a tua namorada...

... levo a mão ao buço, à procura de alterações hormonais galopantes...

sexta-feira, 22 de abril de 2005

untitled

disseca, corta, reinventa sem pesar no ar pesado sem saída.
estéril.
entra, aperta as cores em cinzentos obscuros.
não é nada.
ciclos de esferas entrecortadas sem colar.
atenta. mira. esguelha directa.
não é.
olhar em volta sem ver [querer?], fechar os olhos para ver no escuro. agarrar o cabelo no ar e puxá-lo.
não.

travagem. res...pi...ra...
água. redonda. macio de quente entre algodão e sons que chegam.
submerge, ondula, desenha. cores de sabores.
ligeira embriaguez. luzes e trancas.
noite. lua branca pintada às pintas de azul e amarelo.
dia. braços abertos. sol.
vida. tábuas e cheiro a espíritos. borboletas. pele. pincel.
relógio.

entretanto.
res...pi...ra...

bom fim de semana

merchandising ou narcisismo nouveau

hoje de manhã fui comprar tabaco a uma papelaria. dei de caras com uma cara conhecida na montra.
fui pressionada! foi mais forte que eu!...
pronto, tenho um estojo com a minha outra cara!...

quinta-feira, 21 de abril de 2005

verduras

percorria eu a R. da Escola Politécnica, e deparo-me com três coisas verdes com pernas e bonés.
e questiono:
mas quem raio é que se candidata a funcionário da EMEL???
só podem viver noutro planeta à parte.
ninguém que conheça o drama de quem precisa de trazer o carro para Lisboa (já sem falar dos pobrezinhos que vêm das Amoreiras para o Rato ou de Telheiras para o Rossio e precisam de deixar o BM à porta do escritório porque não cabe no hall de entrada) colabora nestas coisas!
andam o dia todo a pé, a imprimir papelinhos.
fazem o trabalho sujo da polícia mas não podem usar um pau, se se forem agredidos.
rogam-lhes pragas, são ameaçados de sodomia diariamente, têm de andar aos grupinhos por causa das coisas...
... e usam aqueles fatinhos verde-couve, de calças justas, que fazem o rabinho mais amaricado possível...

terça-feira, 19 de abril de 2005

centro

base
origem
atenção
espiral
perspectiva
círculo
encaixe
contexto
intenção
vácuo
ornamento
preenchimento
entendimento
umbigo

questionário

porque foi o meu querido Rantanplan que propôs, eu não me esquivo. cá vão as respostas. não esperem coisas demasiado profundas, que eu sou mesmo simples. ou básica, conforme as opiniões...

:: não podendo sair do contexto de "Fahrenheit 451", que livro gostarias de ser?
lamento, não conheço o contexto. mas respondo na mesma.
qualquer um da Laura Esquível.


:: já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por uma personagem de ficcção?
em adolescente, tive uma fixação pela desequilibrada Catherine de “Herdeiros do Ódio” e “Pétalas ao Vento” de... bem, não me lembro da senhora que escreveu (sou péssima para fixar nomes) , mas não era boa da cabeça... li e reli “Apocalipse Nau” e “Hotel Lusitano” do Zink. a Francesca e o Robert de “As pontes de Madison County”.

:: qual o último livro que compraste?
eya... onde é que isso já vai... bem, acho que foi o “Homem que Mordeu o Cão - a irmandade do canídeo” do Markl. não é profundo, mas dá para umas boas gargalhadas...


:: qual o último livro que leste?
reli “As pontes de Madison County”...


:: que livro estás a ler?
“Afrodite” de Isabel Allende. e “Uma Aventura no Caminho do Javali”. uma colecção que comecei aos 8 anos e ainda hoje me oferecem. e eu divirto-me, que eu não sou esquisita.


:: que livros (cinco) levarias para uma ilha deserta?
só 5? não sei se levaria novos, mas “As pontes de Madison County” era certinho, Gabriel Garcia Marquez, Laura Esquível, Pedro Paixão, Allende e Rui Zink. ups, passou dos 5... posso levar um bloco e uma caneta?

:: a quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
er... à Alien (minha querida, minha linda, meu geniozinho, para quando a nossa curta? grrrr), ao Nuno e ao Knuque. porque têm blogs e porque são loucos ao ponto de ainda andarem pelo polegadas... isto é uma máfia eheheh

segunda-feira, 18 de abril de 2005

post-adulthood depression

conheces-me? ainda sou eu? por vezes fazes-me duvidar.
porque não perguntas? porque não queres saber? porque não me olhas e dizes "como te sentes?" "como estás?" "que se passa contigo, aí dentro, filha?"
porque inventas o que não sabes e deitas ao chão o brilho dos olhos que sempre te fixaram de frente, sinceros e firmes?
vejo-te todos os dias, mas pareces-me outra.
tenho medo. tenho medo de que já não estejas lá.
e não percebo porquê.
porque te afastas? porque te pões expectante de atitudes que não adivinho? e de outras que não são minhas, e que tu sabes bem que não são?
porquê esses beijos secos logo de manhã? é tua intenção castigar-me por alguma coisa? se queres que mude, não o consegues. só me afastas. e sinto a tua falta.
porque me olhas assim? tenho medo de te falar. tenho sempre a sensação que não é a altura certa, sabes? e tenho medo que passe tempo demais.
porque não me respeitas como sou? Porque não tens orgulho nos meus passos, na força que sempre admiraste, na luta que abraço, no ar alegre e na mão estendida que sempre me chamaste?
eu sou eu. eu estou aqui. cresci, mas sou eu. já não sorrio tanto, eu sei. mas não mo cobres como se fosse obrigação. sabes que detesto isso, e perco ainda mais a vontade.
queria partilhar contigo novos sorrisos, pequenas coisas, mas agora tenho medo que já não sorrias comigo.
já tenho a vida que querias para mim. segui o meu caminho, não cedi um passo, mas consegui o tal equilíbrio. já não tens de ter medo. agora já não percebo. porque de cada vez que acho que consegui uma vitória, um motivo para te dar orgulho, o teu sorriso não dura mais que um momento. e depois volta a censura. falhei assim tanto?
sei que não estás bem. sei-o do fundo da alma. mas não queres ajuda, não deixas que te estendam a mão. fechas-te em ti mesma rodeada das tuas certezas baseadas em sei lá o quê. e deixas de fora quem somos. nós duas.
mãe e filha.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

encantos e ruelas

fui almoçar a casa de uma amiga, um apartamento partilhado por muitos estudantes das mais diversas nacionalidades. no Bairro Alto... a dois passos do meu escritório.
uma casa deliciosa, com vários níveis, e um terracinho... uma delícia de chão de madeira corrido, quartos desarrumados, sofás desengonçados, posters e recortes e uma cozinha enorme, com uma mesa feita de uma porta antiga pintada de laranja.
no caminho desta experiência tão "Residência Espanhola" (sem cenas de lesbianismo, é certo), deparo-me com esta outra delícia.

adoro esta mistura. adoro o Bairro Alto. gostava mesmo de ir para lá morar.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

nos entretantos

a minha colega voltou de Hong-Kong...
foi à China, às Filipinas e deu um salto a Macau...
fiquei a sonhar com viagens. nem que fosse ali à Costa da Caparica...
haja escritórios vazios, senhores...

quarta-feira, 13 de abril de 2005

à espera



quando é que chega a calma?

quando é que os ventos mudam?

quando...?

estreia vip

ontem fizemos uma sessão especial desta nossa peça, para uma plateia vip.
em colaboração com a Associação dos Amigos de D. Pedro e D. Inês, convocámos ilustres da nossa praça, que [pasme-se] atenderam ao chamamento. estava lá a comunicação social... principalmente revistas de sociedade, porque reportagens de tv e jornais que é bom, nada...
as Castros retocaram as raízes, chegámos todos mais cedo para fazer tudo com calma.

o técnico de som [se assim se pode chamar àquela espécie rara de amiba] passou a tarde toda a brincar com o sistema de som. as colunas não são boas e ele consegue "bring out the worst" do sistema. estourando paredes e ouvidos, agudos e graves, passámos a tarde a ouvir as belas musiquitas da peça, com as quais já não podemos.
de repente, coisa inesperada, não é?, risca-se o cd! lá vem a amiba, calmamente, da casa de banho, 5 minutos depois, [e nós a ouvir o tóin-óin-óin repetitivo, já antevendo uma Castro remix] e desata a correr para o computador para gravar um novo cd. ficaram por imprimir etiquetas que identificariam as fotos dos actores expostas à entrada... também, não há tinteiro preto há mais de um mês.

há uns tempos uma colega nossa recolheu uma cadela abandonada. foi adoptada pela amiba que opera o som e serve os cafés no bar da entrada. chama-se... Castro... faz chichi na alcatifa da sala de espera, e atravessa o palco quando lhe dá na veneta par vir pedir festas ao elenco. detesta ficar sozinha.
com uma plateia de vips, não convinha a Castro ficar deitadinha num recanto do bar, dava mau aspecto. a amiba da luz resolveu fechá-la na cabine técnica. a meia hora do espectáculo, a cadela, que detesta estar sozinha, uivava desesperada. com a sala de espera cheia de gente... e o encenador, já meio maquilhado, gritava que matassem a gaita da cadela. e a amiba servia cafés e não se mexia...

plateia cheia, tudo pronto, começa o espectáculo...
e que espectáculo!
estou deitadita para a primeira cena, e começa a música. e a luz não acende. a mesa de luz foi ao ar... é que esta amiba [em total oposição à outra, que rebenta com as colunas com desvelo] não testou a mesa, ocupado que estava em facturar. fizemos todo o espectáculo com metade das luzes, intensidade duvidosa...

o senhor encenador, que também entra no espectáculo, resolveu dar o exemplo de todas as aulas que nos dá acerca ética profissional e trabalho de equipa: quando chegou à cena dele, não cumpriu as marcações para não ficar na sombra. e ficou bem no centro do único recorte de luz disponível, fazendo com que o resto do elenco que contracena com ele ficasse na sombra e lá permanecesse [ou isso ou empurrá-lo para fora da luz, o que não seria agradável... é que ele é o Rei...].

eis senão quando, já saídos todos daquela cena, em ficando o senhor para fazer o seu monólogo, a amiba do som [que gosta de novelas] resolveu que a música de fundo estava muito baixa. e subiu o volume, como é seu costume, obrigando o nosso querido Rei a fazer a cena toda aos gritos... deus é grande, dizia-se nos camarins... e a amiba também...

resolvi vingar os meus colegas. na minha cena com el Re, açambarquei a luz toda para mim, obrigando-o a ginasticar-se para... como se diz... partilhar! é isso!

bem, findo o espectáculo, agradecimentos, preparamo-nos para sair... e o senhor encenador resolve ficar no meio do palco e fazer um discurso. ai... o elenco vê-se forçado a voltar ao palco e ficar ali a servir de moldura ao ponto mais baixo da noite. é que o senhor não se contém e adora fazer a cena do desgraçadinho. e aproveitou que tinha lá os senhores influentes e voltou a falar no tema tabu... el subsídio! (leia-se sussídio) e, jeitoso com as palavras como é, disse as coisas de tal maneira que o senhor ministro [ou o assessor, ou lá o que é] saiu zangadíssimo no fim a pensar que lhe tinham armado uma cabala para o envergonhar em público.
além do mais, o nosso queridíssimo director artístico parecia surdo ao comportamento do público, que se revolvia nas cadeiras e bufava de impaciência com o arrastar dos agradecimentos jocosos e da conversa d' el sussídio. tive de lhe fazer uma festinha no braço, e no meu melhor sorriso 33, a deitar chispas pelos olhos, dizer-lhe que teria de terminar.

saímos para socializar porque tinha de ser. a vontade era ficar nos camarins até os vips dispersarem, e desejar que aquela noite não tivesse acontecido.

ora eis senão quando vejo uma senhora sorridente a dirigir-se a mim com ar de quem me vai falar... uma pessoa que pessoalmente me desagrada por completo...
e o ponto alto da minha noite foi uma conversa simpatiquíssima, chiquérrima, com a Bobone, a cobrir-me de elogios...

ainda estive para lhe perguntar se queria combinar um cházinho na Suíça...

vazio #3

em resposta aos comentários do post anterior, peço desculpa. mas é complicado escrever coisas animadas quando tudo o que vejo todo o dia é o que vêem na foto... paredes, janelas e computadores. ah, e as minhas florinhas cor-de-laranja, claro!
passo dias inteiros sem ver viv'alma. para quem me conhece, sabem bem como isso me custa.
às vezes apetece pegar nas coisas e sair.
penso que só dariam pela minha falta vários dias depois, se bem que darem pela minha falta me é um bocado indiferente, nesta altura do campeonato.
salva-me o messenger, e a quantidade de gente que pode, como eu, aproveitar-se do computador do trabalho para pôr a conversa em dia... (e fazer transferências de ficheiros, claro, e transmitir informações válidas, e aproveitar esta nova sociedade de informação ao seu máximo para optimizar as relações profissionais... ehem ehem...)

mas descansem, isto passa-me! já me conhecem, é com as luas! pode ser que agora à hora de almoço apanhe outra senhora com o rabo de fora...

terça-feira, 12 de abril de 2005

vazio #2

saio para ir à casa de banho.
regresso ao escritório, e paro. os ombros descaem-me.

nada. nada.
uma sala grande, cheia de móveis, cheia de luz. mas nada.
o dia quente lá fora, promete um sol que só chega cortado pelas cortinas brancas. a carpete azul a arrefecer a sala. um secretária desarrumada, beatas no cinzeiro. folhas, processos, projectos. as outras estão lá, mas não estão.
começam a cansar-me estes dias sozinhos, que passam sem poder tocar-lhes.

ouve ouve

era a mensagem que tinha no meu mail.

outros dias há, que nos trazem novas bandas sonoras...
e fechando os olhos, vou a New York, para um desses bares de jazz, beber vinho tinto, com um vestido preto quase sem costas, apreciar as meias luzes das velas e dançar... (cosmopolita ou demasiado formatado por "Sex and the City"? não me interessa!)

obrigada, A., pela dica. é fabuloso! tens o cd?? quero quero quero!

e martelo as teclas, sozinha no escritório (que novidade)... gingo... e cantarolo...

it's gotta be yes or no...

now or never, Lisa Ekdahl + Peter Nordahl Trio

segunda-feira, 11 de abril de 2005

así son las cosas

a música é parte integrante da minha vida, todos os dias. não vivo sem os meus cds (mistura eclética rara e nunca vista) e sem rádio. sem as manhãs da antena 3, ou as velhinhas gingonas da marginal. pareço uma louca no meio do trânsito a cantar, a fazer playbacks no meio dos cafés, ou a entrar teatro adentro cantando musicais a plenos pulmões, fazendo as danças e tudo... há malucos para tudo...

e há aqueles dias em que se acorda com uma música, que nos acompanha para o trabalho, nos canta lá das profundezas ao almoço e passa a tarde molenga conosco.
não vale a pena fugir, ou tentar ouvir outras músicas. ligar o rádio no máximo. cantar músicas minimo-repetitivas, pimbalhices, sucessos de infância.
só essas imagens sonoras ecoam cá dentro, brincam com os sentidos e fazem esboçar um sorriso conformado, trazem memórias frescas, cheiros esquecidos, ventos quentes e noites infindáveis, risos ou choros...
há dias que insistem em ter banda sonora...

sexta-feira, 8 de abril de 2005

traseiros

MAS QUEM É QUE FOI A BESTA que se lembrou que era bonito uma mulher andar com o rabo a saltar de fora de calças de cintura descaída, de preferência com uns fios atravessados [vulgo string] ou um triângulozito de tecido [vulgo asa delta] a saír-lhe do referido...? hem???
meus senhores: produções de moda com cabides humanos é uma coisa. mulheres normais são outras.
haja noção de ridículo, de parte a parte.
haja pano, muito panejamento, que uma pessoa já não come uma fatia de cheesecake de frutos silvestres com a mesma vontade, se tiver de estar a olhar para um desses exemplares de calças muito curtas e muito apertadas, pneu saído e ainda mais salientado pela ganga opressora, e o belo do risquinho de tecido de cores fluorescentes a fazer sobressair [e prolongar] a lindíssima reentrância natural que deus lhe deu e que ela resolveu partilhar com os restantes comuns mortais que placidamente tentam deglutir as calorias mornas do seu almocinho!
e não, isto não é um post púdico. é um post em defesa do bom gosto!

vazio

há dias em que se senta, só. parada, amorfa. sem vontade nem contexto. o dia passa sem conseguir contactar o mundo, sem saber bem onde pode fazê-lo nem onde arranjar forças para o conseguir. ouve lá ao longe as vozes e sussurros mansos de algo. não sabe se é dali se é de além.
paraliza porque sim. porque não vai mais que ali. e espera que um desses sons a puxe pelos cabelos. como água a fluir a toda a volta, que lhe retire o peso da cabeça. que lhe desça pela pele, enroscando-a no conforto de um contacto físico, tão sequiosa que está num espaço tão aberto e sem nada.
e depois flutuar. elevar-se, ser levada. numa paz que lhe traga de novo os sentidos adormecidos.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

curtas

"está a ligar para a câmara municipal de [alentejo], a sua chamada encontra-se em linha de espera. por favor aguarde"

"- ... e gostava de saber da possibilidade de levarmos este nosso espectáculo aí...
- poij, shabe, ijto aqui é uma terra piquena, shó consheguimoj arranjar-lhe lugari ashim nuns salõejitos de um par de freguejias ou ashim..."

new me


tenho um novo alter ego. chama-se teresa. é pequenina e rabina, e mete-se em sarilhos com as outras duas irmãs.
sempre quis fazer dobragens. e descobri que é tão engraçado como esperava que fosse.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

saudade

tenho um amigo que diz que não sente saudades. mas quando me vê, o abraço é tão apertado que me deixa na dúvida.
eu tenho saudades. às vezes basta-me o silêncio turbulento dos carros a passar lá em baixo e a vista das minhas florinhas para me lembrar de onde me sinto bem e desejar poder correr para lá.
tenho saudades de colinho, daquela avó, de quem tanto falo. desta, que faleceu agora (falecer, que expressão tão vazia), não consigo ter saudades. mas tenho saudades de ver o meu pai bem disposto. e a minha mãe sem ar de zombie.
tenho saudades do meu cabelo.

posso ter saudades de um momento ou de um objecto. se calhar nem isso. de um respirar.
de poder respirar com calma.
hoje acordei com saudades. chama-se melancolia? sim, talvez seja isso.
andam todos a correr. vejo e sinto tudo a correr de um lado para o outro. este primeiro andar parece-me tão alto. sinto-me numa redoma de vidro, a querer fazer parte dessa correria.
apetece-me gritar: "esperem por mim!"
ou então acalmem-se. tenho medo de lá chegar a baixo e dar com tudo já ter passado.
tenho saudades de haver tempo e espaço para tudo. para mim.

terça-feira, 5 de abril de 2005

sensibilidade masculina

o mundo das artes é um mundo de sensibilidade, de emoções à flor da pele, dizem. os homens até passam por serem todos bichas só porque são actores, encenadores... artistas, pronto...
mas penso que trabalhar só com homens tem as suas particularidades. sejam eles das artes ou não.
hoje o meu tom de voz tem estado baixo, demasiado calmo. poucas vezes esbocei um sorriso, que é coisa estranha em mim. tenho noção que o meu corpo tem estado meio enrolado sobre si mesmo. suspiro de impaciência impassível (sim, isso existe! eu posso provar), e esfrego os olhos e as têmporas. reparei nestes pormenores ao longo do dia e até eu me estranhei. uma colega que passou por aqui a correr, reparou logo (e meteu logo o bedelho). até porque a minha paciência para as telefonistas não era das maiores.

estes dois patrõezinhos, mesmo que eu chegasse aqui de repente com o cabelo amarelo (eh pá, e cheguei!), não reparavam. passaram o dia a falar dos "há que" cá do sítio, das viagens ao Brasil, das digressões ao Porto, e outros eteceteras.

bem, se calhar repararam. são é mais discretos que as mulheres.

não gosto de dar nas vistas quando estou em baixo (fico até mais discreta que o costume), ter toda a gente de volta de mim só porque sim. "ai a coitadinha"... "tenham peninha de mim, digam-me lá que sou maravilhosa e que gostam muito de mim..." detesto. mas às vezes uma demonstração de presença, um toque e um olhar sincero e amigo davam jeito, caramba!

bem, ao menos já me pagaram...

pequeno-almoço

morreu a minha avó.
tenho a conta a descoberto.
fui eu que atendi os dois telefonemas.
how's that for a bright morning?

segunda-feira, 4 de abril de 2005

flores cor de laranja

neste momento começo a habituar-me à solidão.
com o computador e um maço de cigarros por companhia, e a rádio online ligada quando o modem está bem disposto e deixa que me cantem sem soluços.
ninguém põe os pés no escritório. da minha parte, também a vontade de trabalhar é pouca... só cá estou mesmo porque preciso. muito.
assim devagarinho já lá vai um mês. continuo a habituar-me a uma nova forma de desorganização. as minhas gavetas continuam vazias. à espera de tempo e dinheiro para as preencher.
no entanto, tenho uma nova companhia: um vaso de pequenas flores cor de laranja.
sempre gostei de flores. gosto tanto delas que não queria saber que por esquecimento meu (que eu sou cabeça no ar) acabariam por morrer de sede, sombra ou insolação... por isso nunca tive.
diz-se que primeiro estranha-se e depois entranha-se. até agora, tenho-as regado sempre, subo o cortinado para apanharem luz, desço o cortinado se o sol lhes bate de frente. parecem bem dispostas, todas bem abertas, e com muitos botõezinhos novos.
são de uma cor que agora não prescindo. dá energia e boa disposição, e isso quer-se aos quilos.
e olho em volta, neste espaço grande e renovado, de paredes brancas e mupis pendurados. 3 secretárias vazias e eu. os velhinhos Aerosmith perguntam "how high can you fly with broken wings".
miro as florinhas solitárias ao pé da janela.

o sol resolveu brilhar por um bocadinho. vou ali ao pé delas ver se aqueço. se faço a fotossíntese. se me preenchem de cor-de-laranja.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

I just wanna live

só porque me apeteceu sorrir...

[ms]

dia das mentiras

porque há gente com muito talento para escrever, não me digno a postar nenhum texto sobre este dia. prefiro reencaminhar-vos.
miúda, tu és grande...

apagam-se as luzes...

ouve-se uma voz a pedir que se desliguem os telemóveis. blackout. entramos em cena e preparamo-nos. de repente, as luzes acendem ao som de música e começa. estreias é sempre um bocado estranho. há demasiados amigos na plateia. pessoal demasiado descontraído e demasiado desatento. na cabeça passa a vontade de vingança "riam, que depois vão chorar..."
houve enganos e imprevistos. há sempre.
mas contámos a história. de repente ando a dançar pelo palco. daí a pouco estou de espada à cintura a fazer voz grossa e a pedir uma morte ao rei. depois, lançada aos pés dele a pedir que não me mate. notamos que pararam de tossir, de comentar.
depois os aplausos. como há muitos amigos, a generosidade é muita. é o positivo das estreias. e também o negativo, porque não é uma amostra real da reacção do público "normal", ou seja, pagante...
depois tirar o estuque da cara e correr para a entrada. abraçar o pai, a irmã... a minha mãe não veio. ainda não está bem. e fez-me falta. costumo tê-la lá de olhos presos em mim, mãos apertadas. ela queria ser actriz. um dia (mas só nesse dia) assumiu que me admirava a coragem de ter dado o passo decisivo. cada um abdica do que sente necessário.
detesto palmadas nas costas, peço críticas.
de repente o bar está vazio. estou sentada numa cadeira abraçada aos joelhos, com uma cerveja. o grupo vai-se juntando naquele canto, a descomprimir. por mim, a noite está feita. o meu corpo adormeceu há muito. a minha cabeça estala.
mas fomos todos beber um copo, depois de um pão com chouriço.
lá estamos, nas Algemas (nome que demos ao bar "do costume" depois de num Carnaval um colega meu passar a noite toda a gritar pela vocalista da banda de música ao vivo, que estava mascarada de polícia). contámos una aos outros os pormenores escabrosos de bastidores que mais ninguém vê. rimos, rimos, rimos. hoje dói-me a barriga. e estou a cabecear para cima do teclado.
esta noite há mais...