sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra queimada, com que devastas os nossos lençóis e as minhas vontades. com que me humilhas ao sol e esperas às escuras. agora a tua pele incomoda-me. de tão fria, corta. de tão branca, fere. tu feres. não sabes fazer mais nada senão ferir. ficarás aí, dona e senhora das tuas dores. porque as que me inflingiste não são tuas para viveres. deixo-te com os teus troncos secos. deixo-te nessa supremacia de árvore torta, morta, torpe. de pé. altiva, sem mel. hoje dar-me-ei uma prenda de natal. vou-me embora. vou procurar a calma dos silêncios. onde a tua voz não me alcance com as suas navalhadas musicais. vou procurar terra fértil e quente. vou procurar uma trepadeira que me enrole, que me envolva, que me precise. que me pontilhe de flores na primavera. que implore um abraço quente no inverno.
porque agora abraças-me e tenho frio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

por detras dos montes



criação: Teatro Meridional
concepção | direcção cénica: Miguel Seabra
interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa
no Teatro Meridional até 23 de Dezembro
4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00
Rua do Açúcar | Poço do Bispo
reservas: 218 689 245


o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta.
depois, entra-se na sala pequena de palco raso, muito fria. mas não faz mal. estamos em Trás-os-Montes. e começa. com sons, numa penumbra onde se recorta apenas o que nos deixam ver, em azuis e laranjas. sons de instrumentos estranhos, tocados à nossa frente. depois as vozes. e depois o turbilhão de pessoas, de transmontanos.
sem "deixas", sem texto, sem "dramaturgia"... muito trabalho de corpo e uma concentração notável digna do momento fantástico que supostamente acontece apenas uma vez em que um improviso sai genial. aqui não há improvisos. há uma contradança milimetricamente marcada, o som conjugado com cada movimento. há coreografias de maneirismos, de expressões, de cacofonias, de cantares, de objectos que são músicas. há fantoches que são pessoas e pessoas que são fantoches. há o sotaque assobiado e as canções que arrepiam. há as velhinhas. há os pastores. há os passos que não fazem barulho e que assim é que fazem sentido. há ilusionismo feito com os corpos e com os rostos e com figurinos que, a par dos objectos e do som e daquelas pessoas, nos levam no espaço e no tempo. sentimos o toque dos xistos, das madeiras, dos artefactos, dos fios tecidos à nossa frente, o crepitar de uma lareira que nunca vimos nas bochechas. invade-nos. em silêncios e sons compassados. em respirações e traços desenhados com o pincel do instinto, com a tinta das entranhas.
são sessenta e cinco minutos sensoriais, em que vemos, ouvimos, sentimos nitidamente retalhos. poesias visuais. recortes de vidas que este grupo - na verdadeira acepção da palavra - por lá absorveu e para cá veio tecer.
assim sim, vale a pena ver uma companhia subsidiada.

estão nas últimas representações mas merecem, ou nós merecemos, uma alteração nas agendas e nas compras para nos embriagarmos com estes licores de raízes e gestos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

os desejos do costume por estas alturas


[ms]

coisas doces, abraços quentes, as pessoas que realmente interessam, luzes indirectas e um pinheirinho enfeitado com gosto...
é preciso pouco para um natal simpático.
que o vosso seja bem aconchegado.
até já.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #3

o figurinista vai ao sapateiro. a produtora pede - como sempre - para ele trazer factura. ele telefona.

- o sapateiro não sabe escrever e o surdo-mudo que é vizinho dele e que lhe preenche as facturas não está em casa.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #2

no calça descalça, numa peça de marinheiros, à última da hora decide-se que vão calçados. a Polegar trata de conseguir sapatos à borla. o chamado apoio, portanto. depois é a escolha dos ditos, não é?
conversa telefónica do Patrão-Encenador com o Figurinista, que estava na loja:


- tu agora vê lá que botas é que escolhes! não te ponhas com modas finas! eles têm de conseguir andar! isto não é teatro quieto, assim paradinho! isto não é teatro dos aloés! isto é teatro físico! teatro do corre lá para trás! é teatro de cenas de pancadaria! é teatro do amarinha pela rampa! pela tua saúde: é teatro do sobe ao mastro de 8 metros!

ah... já agora, e meses de orçamentações, negociações, estica-daqui-corta-dali-para-poder-pagar, contactos e trabalho manual do prop master depois, o grande Actor decide que já não quer a perna de pau. diz que é - e passo a citar - um "instrumento de tortura"... quem?, atrevo-me eu a perguntar...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau

estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados.
o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu.
cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se.
- está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão.
o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa.
- não, afinal é do ângulo, percebes?
o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa.
- agora está-me a magoar o joelho
o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma.
- e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar...
inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como vai ser a bengala. sai-se o patrão-produtor:
- a minha avó tem uma colecção de bengalas antigas fantásticas, podemos ver disso.
- então liga-lhe.
- ela já morreu.
patrão-encenador parte-se a rir durante dez minutos, impossibilitando-me de conseguir falar ao telefone e ao actor de se queixar.
- isto até parece porreiro, mas tenho aqui esta dor na canela, no sítio onde apoia...
explora-se o armário, encontra-se uma joelheira que serve lindamente de almofada para o apoio da canela
- ah, muito melhor. muito melhor. como é que estou? hã? estou direito?
- ó Actor, os tipos que têm pernas de pau não andam direitos.
- pois é, pois é. mas isto está muito melhor. agora é só forrar estes ferros que me estão a cravar a carne...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

fazer farinha - redux

comigo não fazem farinha. mas oportunamente, mais uma vez, não é comigo que a querem fazer.
citando - com o devido consentimento - alguém próximo: temos pena...


- uuuh... amazing! did you come up with that all by yourself?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

é depois


[ms . um ano depois]

contava os dias e nem dei que os dedos deram várias voltas ao teu corpo. estava entretida com os entretantos. com os rasgões que o cinzento, o frio e os desesperos abriam em mim. que tu selavas e cicatrizavas com sopros ferventes. enquanto ias e vinhas na minha pele, preparavas uma gota de suor à parte. então é que percebi, era a teia, uma teia de fios leves, espessos e húmidos, curandeiros como os lábios que se tocam com mais do que desejo e carne. e enquanto dormia, tu tecias. de repente - tão de repente que foi de rompante - arrancaste-me das cinzas que me rasgavam, do cinzeiro de vidro onde jazem as beatas já gastas. arrancaste-me e empurraste-me com força, sem me largar a mão. deixaste-nos cair. num puff vermelho com olhos azuis. e conforme caímos, o puff apanhou-nos, secou-nos à lareira, fez-nos dar três voltas no ar e desaparecemos.

e estávamos ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos.
nas vielas de traços que já vou apanhando no teu bloco de notas. assim em azuis escuros para cima e amarelos para baixo. quando não só a preto e branco com o nariz frio. sem medo de me enganar, porque lambemos a meias o selo e enviamo-las de volta para a caixa do correio da casa às cores. porque são nossas, já, segunda casa como a primeira, em que as linhas às cores não nos enganam mais que as que riscam as palmas das mãos.
e as bátegas do rio soam estranhamente a uma nova bateria movida a gargalhadas, ali para os lados do 17. a serões quentes de palavras cansadas incansáveis. café. para ti simples. para mim com um assalto ao açucareiro espantado.

outro salto. e à nossa frente as princesas com quem canto em coro. e como as conheço, puxo-te agora eu o braço. e tu abres os olhos de espanto e dizes "eu não vi isto!". eu rio-me e arde. arde de vitória.
antes do salto final, com absorção de impacto no tal puff dos olhos azuis, a fada dos aniversários no estrangeiro deixa-me gin tónico para ler debaixo da almofada.

a meias palavras a meias, feitas as contas, foi isto. consta-me que será sempre isto.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

chico et les croissants


[ph.t.s :: ms | design & supporting arm :: polegar]

mais uma vez, escondeu-se nas mochilas de dois jovens errantes. e, nos momentos mais inusitados, saltou cá para fora. sim, o nosso repórter especial está sempre em cima do acontecimento. e veio provar que a três também pode ser romântico...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

homenagem

uma pausa. na azáfama feliz - e em azert - de uma semana de descanso. de surpresas, de vendas nos olhos.
para agradecer a mobilização de uma mão cheia de dedos que surgiram de todos os lados num conluio secreto que se revelou num abraço denso e quente. internacional. movidos pela batuta do maestro do meu coração. sorriso.

ainda não fiz anos, mas posso dizer que esta prenda ficará e-ternamente tatuada na minha pele.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

bagagem

enrolo as meias e a roupa interior. viro as peças delicadas do avesso. faço uma marca em cada item que já está. não esquecer o pente e o amaciador. puxo com força os esticadores e transformo a mochila no mais redonda possível. depois, estendo um braço e o outro. os dedos tocam o esboço de ar que já não me pertence. espreguiço-me feita gata preguiçosa. em pontas de pé, soam os acordes da caixa de música. chão negro. madeira macia aquece os pés. deslizo numa dança minha, de melodias incertas. as ancas vagueiam, o peito arqueja. o cabelo perde-se no caminho. então, lentamente, a música estende-se, envolve-me. e no seu colo ondulo. ondas cada vez mais encaracoladas. espirais apertadas. toda a minha pele perde as noções da sua geografia, entrega-se nesse abraço aconchegado onde o cheiro é das pintas de canela e me respira ao ouvido. baila, bailarina, baila. pequenina pequenina. já cabes na bagagem.
vamos?
vamos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

monte redondo, 14 de novembro de 2006


[ms]

Palavras soltas: "espectacular", "fantásticos", "puro deleite", "adorei", "quem me dera vê-los outra vez", estas foram algumas das expressões proferidas pelo grupo de alunos [...] que assistiram, no dia 7 de Novembro, à vossa representação [...].
O entusiasmo, desde a recepção invulgar à correria informal ou "infernal", foi a nota constante nos rostos dos nossos adolescentes ávidos por um texto que nunca pensaram diverti-los tanto. As nossas aulas ganharam um novo "sabor", pois a motivação e a compreensão é já outra, por isso o nosso muito obrigada, já que não nos foi possível fazê-lo no final do espectáculo.
Não obstante, a nós, professores, veio-nos à memória o outro extenso grupo de alunos que, por razões diversas, não puderam fruir desse momento único, daí que tivemos a veleidade, quiçá o atrevimento, de almejar a vossa presença na nossa instituição. Sabemos que o pedido é ambicioso, mas a nossa vontade é maior e, talvez, a "nossa simpreza nos abaste" para convidar o vosso Grupo a brindar-nos com mais uma representação aqui[...]
Atenciosamente, a professora


e é assim, por fax, que às vezes nos enchem o bandulho do ego...

a porta do lado



entrava de manhã e ao meu "bom dia" já tinha a madalena e a italiana à minha frente na mesa. o rapaz do antiquário já lá estava, na mesa ao pé da porta, virado para a rua, com silêncio e um cigarro. eu chegava normalmente à hora em que acabavam de preparar os almoços e as sobremesas e se sentavam na mesa do fundo com as suas canecas e o jornal ou o catálogo da perfumaria. tomavam, por assim dizer, o pequeno-almoço comigo. muita conversa trocada. viravam as cadeiras na direcção da minha mesa e perguntavam opiniões. sobre tudo e sobre nada. por vezes estavam mais silenciosos e eu então prendia os cantos do meu livro no pires do bolo e saboreava os primeiros momentos do cigarro e das letras, antes de respirar fundo e seguir para a tortura.
ao almoço sempre foi a confusão total. os turistas e os habituées, o cheiro forte da comida. eu ia sempre para a sala do fundo, era mais calmo. sozinha ou acompanhada, era em modo automático que me aparecia o tentador cheesecake à frente, o café e o cinzeiro no fim. o João é meu vizinho. vive ali no mesmo bairro que eu. nos suores da azáfama, parava sempre um bocadinho ao pé da minha mesa e queixava-se do cansaço, da patroa e contava a última do cãozinho que lhe ofereceram. o João teve uma pneumonia. enviámos-lhe um cartão. contaram que chorou e tudo.
a Sónia chegou depois, muitos meses depois, para substituir a Carla. sempre calada, de rosetas e duplo queixo.
a Ana é a filha da dona, redonda como ela, de enormes olhos castanhos. tem uma filha e um curso de tapeçaria.
a dona, cujo nome nunca consegui fixar, é enorme, jocosa e gulosa, apesar dos diabetes. era um espaço para se estar, que nunca fechava para mim. a salinha do fundo, de toalhas às risquinhas, luzes suaves, assistiu a ataques de fúria, a confissões, a lágrimas irrequietas e risadas altas, a brincadeiras dos empregados com a minha gulodice e os quindins. as mãos trocadas em cima da mesa, os sorrisos e a cabeça encostada à parede. faziam fiado, mandavam a comida para fora em pacotes de alumínio e não tinham multibanco.

hoje receberam-me de olhos turvos de lágrimas, com as vozes desconsoladas e os gestos atabalhoados. o "meu" restaurante vai hoje fechar.
citando o João, o mais triste e choroso de todos, "quando chegar a segunda-feira, o que é que eu faço?"

terça-feira, 14 de novembro de 2006

curtas dum regresso ao passado

numa passagem pelo bairro da minha infância a comprar o melhor frango assado do mundo, uma paragem para aquecer os beiços [congelados pelo vento frio] com um café e a melhor delícia folhada do mundo. sentada nas cores, sons e pessoas do meu tempo das papoilas, ouço o talhante [ainda por ali anda, ainda lá vai beber o café quando fecha o estaminé] dizer: "custa três mil reis" com a dicção perfeita de época: mérreis.

à saída do café, uma menina brinca rodando agarrada a um sinal de trânsito. espalha-se no chão de palmas das mãos directas na calçada. senti perfeitamente o ardor da gravilha a cortar-me a pele, como me acontecia com frequência, na estrada da praceta, no tempo das papoilas. gemi e tudo.

já a caminho de casa, nariz no ar. o nevoeiro acumulava-se em gotas nas pestanas. com o reflexo dos candeeiros parecia que tinha chorado daqueles choros de antigamente. em que a alma se despejava toda no sal sincero de um qualquer amuo sentido.
o nevoeiro cheirava nitidamente a um outro velho companheiro... o aerossol.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

horario de inverno

porque é que como ser humano, animal de hábitos, não consigo habituar-me a estas noites que começam antes de o meu dia terminar? porque é que acordo demasiado cedo, com aquela espertina de já haver muita luz? porque é que, mal se vai a luz, eu me quero ir daqui para fora? olhar para o relógio e... não, ainda falta muito tempo. tempo que se arrasta e o céu cada vez mais escuro.
o consolo está apenas no cheiro cortante do frio ao sol, quando saio de casa. e das castanhas, quando saio do emprego. salvam-se[-me] as noites de chá, Chet Baker e manta polar... o meu gato enroscado em mim...

diziam-me, se calhar para me consolar, que este horário era para os meninos que moravam longe da escola acordarem cedo e não ser de noite. ora eu nunca percebi isto, nem os meninos. eu também me levantava cedo para ir para a escola e preferia ir de noite e voltar para uma tarde inteira de brincadeiras na praceta. e não ter de fazer os TPCs à luz do maldito candeeiro.

pais revoltados

não, não me refiro aos problemas do encerramento de escolas por esse país, nem às culpas que sempre se depositam nos professores por os meninos não aprenderem nada a não ser asneiras. nem sequer da revolução cultural com que tenho sonhos semi-eróticos em que os pais proibiriam os filhos de ver as Floribellas e os Morangos e eles iam á falência e as produtoras eram obrigadas a fazer coisas de jeito... falo da reacção do meu público-alvo-patronato à gravação do cd do Ruca.

chego ao escritório às 9 da noite de 5ªfeira, venho buscar trabalho para fazer durante a madrugada, tendo em conta que terei de faltar a tarde de 6ª e tenho um projecto para paginar [poupem-me os comentários tipo "és mesmo parva, porque é que levaste trabalho para casa? o patrão P. nem vai ler isso, é sexta-feira!"]. ao chegar, encontro o patrão Porthos, o patrão P. e a madame M. [mãe-galinha-agente-produtora de uma das nossas jovens vedetas e nova colaboradora em certos projectos], todos ainda de volta dos computadores. algum santo deve estar para cair do altar. não me perguntaram porque é que eu estava ali às 9 da noite. pois se eles lá estavam... eu é que informei logo: "fiquei no casting de voz, vou gravar o Ruca, tenho de faltar amanhã de tarde, vim buscar as coisas para o proj..."
- como??? - intervém o Patrão Porthos - vais gravar o Ruca como?
- então, eles querem fazer um cd com as músicas do boneco e escolheram-me para fazer o Ruca.
- como é que te escolheram? aquilo não é um rapazinho, mesmo um puto que faz?
- é. mas parece que tiveram problemas de negociação. os papás estão a ficar gananciosos. além disso, é preciso interpretar e é complicado pedir isso ao puto. e mais: ele parece que está a mudar de voz e portanto já não serve...
- mas mas! como é que isso é possível??!!?!? vais matar o Ruca!
- ó Porthos, mas que é que queres?
intervém o patrão P.
- parece-me que para conseguires o trabalho baixaste os valores e estás a desvalorizar os profissionais... - ri-se à gargalhada
continua o Porthos
- e como é que vai ser se houver espectáculo cá?
- pois que parece que se o cd ficar bom, os ingleses quererão que sejamos nós a fazer as vozes do esp...
- não pode ser! não percebes? o meu filho identifica os bonecos pelas vozes! se eu o levar a ver, ele vai perceber o embuste! estás a enganar as crianças! estás a destruir o meu descanso em casa!
- então suponho que não vais querer convites, se eu arranjar...?
silêncio.
- bem, vou-me embora para casa. mas vou chateado e em protesto.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

I'm a rock star... kind of

e se eu começasse a conversa com: "vou gravar um cd!"
perguntariam: "um cd? de música?!"
eu responderia: "sim, sim..." faria um sorriso malicioso. continuaria: "ligaram-me em desespero de causa. precisavam de uma voz feminina com características muito precisas. vou para estúdio já amanhã."
provavelmente receberia uma cara entupida de surpresa, sem saber bem o que dizer. sairia algo como "ena pá! que fixe... parabéns, pá!" depois, um algo mais recomposto "então e é para sair quando?"
ao que eu, sempre confiante e sorridente, responderia: "no Natal..."
perguntar-me-iam, obviamente "já? caramba! e a banda é conhecida?"
eu soltaria uma gargalhada: "é tua conhecida... a banda sou eu... sou a vocalista. com um coro a fazer backgroud vocals e uma participação especial."
"bolas, que fantástico... e é novo, o projecto?"
eu diria: "não é novo, teve início em Inglaterra já há uns tempos. mas agora quiseram gravar cá, também."
já numa pose mais refeita, sairia: "ena, ena... e como é que se chama o álbum, já sabes?"
sorriso. olhar. trejeito de boca...
"ainda não têm o nome final. mas vai ser qualquer coisa como 'As músicas do Ruca'..."

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

simple pleasures


[ms]

romper com cuidado a embalagem. enfiar os dedos e sentir a macieza do bloco de folhas de tabaco ainda prensado. apanhar um pedaço e devagar ir desfiando as folhas em pequenos fios aromáticos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

ela aos sabados de manha


[ms]

nalguma poça mergulhava o pente. desdentado. alisava o cabelo à força de cuspo, empurrava-o, prensava-o de mãos decididas para o que no espelho de águas turvas e folhas secas acreditava ser o seu lugar. depois ajeitava o xaile e seguia para a igreja. na barriga sempre uma irrequietação. esperava. observava as emoções sempre iguais. os ciumentos, os jocosos, os beatos, os orgulhosos, os divertidos, os ansiosos, os enfastiados. mas ela mantinha-se à sua distância de cheiros azedos e sussurros ininteligíveis. falava consigo, à flor da pele. esperava pelo branco que lhe turvasse os olhos e os farrapos em cintilantes gotas de fantasia. os fantasmas chegavam, um a um. desfilavam pelo corredor de tapete vermelho. ouvia a música. a banda sonora de outras vidas diluía-se no ritmo badalado no seu peito, das suas cantigas. levantava o pescoço e fechava com força os dedos nos galhos secos. no cetim feito teia de aranha de um laço de fios chorões. os seus passos haviam deixado de fazer diferença nos ecos. assim a luz a recortou para logo a fundir nas paredes de pedra. um único olhar lá do fundo reconhecia-a para passar a ignorá-la, dirigindo-se de novo a quem de facto existia. mas na sua mente nada disso fazia realidade. seguia direita ao seu desejo, ao semblante nublado que só ela reconhecia entre o cal, os santinhos e os azulejos. no seu desfile delicado nem o soçobrar dos folhos murchos conseguia penetrar a redoma da sua verdade. embrulhava-se no véu do odor forte das velas, da cera derretida de tanta promessa, dos pedidos e das vãs esperanças, que perscrutava de olhar indiferente. as promessas já tinham morrido e ainda não sabiam, os infelizes. depois de contar as novas chamas sentava-se de joelhos juntos e olhos brilhantes, atenta à homilia. sussurrava de cor as juras lá do fundo. eu a ti, tu a mim. pertenço-te e és meu. esmagava mais um pouco o ramo morto na ansiedade do beijo, o beijo no vácuo. o mesmo vácuo das noites de núpcias que lhe rasgava as veias em sonos ausentes. depois a vaga. de soluços num silêncio esmagador, quando a trovoada de sons e arroz a deixava em paz, os ecos abrandavam e os aleluias cessavam.
tirava o lenço bordado da manga e limpava os olhos. porque uma noiva não pode esborratar o rímel.

sábado, 28 de outubro de 2006

dos regressos



daqueles que os mapas não marcam, nem as linhas da mão têm a certeza de apontar. não há estrela polar neste céu agreste de luzes falsas que orientam aleatoriamente as suas caudas de cometas.
divago.

a minha ausência reverte a favor de um regresso. temido. muito mais temido do que poderia esperar. de momento ainda se tacteiam estratégias para contar uma história tão antiga e [re]contada com escadotes. sim, escadotes. eu tenho medo das alturas, tenho medo quando não estou em contacto com o chão. tenho vertigens. tenho pouca força de braços. tudo num mundo de testosterona onde sou o único elemento feminino. um metro e meio e uns trocos desajeitado no meio de gaijos...

ah, mas para carregar sacos de roupa e caixotes ainda sou da produção. e na produção, curiosamente só trabalham mulheres [no sentido de bulir a sério, não é recostar o rabo à cadeira o dia todo]. tenho, sempre, de regressar à base e tratar das papeladas, das reservas, dos telefonemas e não me esquecer que esta quase-estreia é só um fogo fátuo. ainda muita coisa há a fazer para a temida prova de fogo do [pretende-se] grande espectáculo que há-de sair em Janeiro... o tal das madeiras. bom...

como está a correr? colegas bem dispostos, cooperantes, excepto um que ainda não decorou o texto e não percebe que todos temos desculpas para não termos o trabalho de casa feito. mas há-de desenrascar-se.
laivos de genialidade de um homem que normalmente só diz disparates. estou a falar do encenador. um homem que precisa de uma grande dose de "risa" para ter embalo para encenar. um homem tão divertido como inconsistente. tão criança como irritante. tão alegre como mimalha.

estramos dentro de poucos dias, já com imensas reservas feitas. as marcações ainda estão frágeis - de mais a mais equilibradas em escadotes...
nota: não há palco, há claustros. não há música, é à capela e com coreografias de fazer chorar a Floribela. não há camarim, há "mudanças de roupa coreografadas". bah.
ah... o meu pânico de cantar? pois que à força do medo de me baldar dos malditos coisos de alumínio, já canto sem tremer a voz...
qu se lixe a minha mania de "o cantar é para quem tem um dom": já sei que, se algum dia me chamarem para fazer um musical, o truque é porem-me numa situação de equilíbrio precário e queda desastrosa eminente...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

na carimbolandia

loja do cidadão, para tratar de todos os documentos que perdi aquando do roubo da minha querida carteira. em chica-esperta, lá fui passar a tarde de sexta, porque "pode ser que o pessoal vá todo de fim de semana e esteja mais vazio". até às 4 e meia da tarde era verdade...

tirar fotografias - pimba, paga. fiquei amarela. ó senhora fotógrafa que mete as chapinhas na máquina e faz trocos que é um mimo, afine o cyan...

BI, comprar impressos - pimba, paga. é preciso certidão de nascimento. não faça aqui, que demora 2 dias. vá à Fontes Pereira de Melo que lha fazem na hora. então para que é que vocês existem aqui, mesmo?

certidão de nascimento - afinal onde é que eu fui registada? errrr... mãee... esperar que os senhores saiam do chá das 3 e meia que acaba às cinco para as 4, já que o santo serviço fecha às 4. pimba, paga. e que tal digitalizar isso tudo para bases de dados com acesso para toda a rede de registos, hã? não há excedentes na função pública? há, estão na hora do chá.

fotocopiar certidão de nascimento e declaração da polícia "não vá o diabo tecê-las" - pimba, paga.

BI, entregar impressos e certidão - espera. espera. espera. preciso de um cartão seu. minha senhora, fui roubada, os únicos cartões que tenho são as segundas vias dos do banco e o da Medis [estranhamente os privados, portanto]. mas ó menina preciso de um cartão, esses não servem. minha senhora fui roubada, está aqui a declaração da polícia, não lhe posso dar mais nada. suspiro de mártir. fotocópia do cartão da médis [mas se servia, porque é que me dificultou a vida?]. cagar dedinho, impressão digital[para que é que serve, ainda me hão-de dizer]. já agora alteração de morada, sim? suspiro de mártir. daqui a 7 dias mais ou menos está pronto. [mais ou menos? claro, vou tirar a semana para vir passando por cá...]. já agora, quando é que o nosso BI passa a ser Simplex? como o passe...

carta de condução - senha para os impressos. pagar os impressos e a minha colega já a atende. senha para a colega que já atende, preencher impressos. enganei-me. senha para a senhora que vende os impressos outra vez. olhe, enganei-me neste. tome lá outro, são mais 17 cêntimos. e já agora ao preencher tenha cuidado para a letra da assinatura não sair fora do quadrado. mas tem de ser igual à do BI. claro. a colega que já atende atende-me, rever os impressos, recortar o picotado. já agora alteração de morada, sim? claro, mas assim demora mais. [não que tenha alterado em nada o que quer que seja ao trabalho da senhora que me atende] agora espera que a minha colega [a quem se paga os impressos] a chame para lhe dar a guia. a carta segue para casa dentro de um mês e meio - maizoumenos, claro, maizoumenos. esperar pela colega a quem paguei os impressos. esperar. esperar. tome a guia. ah, claro! a "guia" é a merda do impresso que EU preenchi, com dois carimbos e uma rúbrica. como é que eu não me lembrei que atrás do biombo estará um senhor doutor para carimbar e rubricar? honrada função que exige tanto aprumo, dedicação e tempo como montar um puzzle de 10 mil peças? [porque é que não disseram logo? eu já agora também carimbava...] pimba, paga a guia. pensar que estas novas cartas já nem implicam a senhora que dactilografa os dados e cola com UHU as fotografias no cartão cor de rosa. é o mesmo sistema do passe que, oh curiosidade, fazem na hora.

documento único do carro - impressos de borla. ai que isso deve trazer água no bico. atendem na hora. medo. preciso do seu BI. está a ver aí a cruzinha no "furto"? fui roubada. mas preciso do BI. tem aqui o papelinho da encomenda do BI e a declaração da polícia. mas eu preciso do BI. fui roubada, senhora. olhar entre o implorante e o psicopata homicida. suspiro de mártir. teclar meia dúzia de bujardas no computador. 30 euros pelo novo documento, mais 30 pela alteração de morada. olhe, se eu fizesse as duas coisas em separado tinha desconto? eu sei, que como pobre ser da geração recibo verde, que lida com computadores todos os dias, não estou ao nível intelectual para perceber porque é que a alteração de um campo numa base de dados e um "print" [dois clics ou ctrl + P... não sabia, senhora?] num papel devidamente criado para o efeito, mais um selo especial terá de tanta ciência. é, mais uma vez, a arte do carimbo. recebe o documento dentro de um mês maizoumenos, claro, maizoumenos.

cartão de contribuinte - a Loja do Cidadão informa que o sistema fod... está temporariamente indisponível. portanto aqui já não se faz nada.

cento e tal euros depois, sobram à conta os trocos para um geladinho. para adormecer a língua, a ver se não digo mais palavrões hoje.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

chove e faz sol


[ms]

as luzes às vezes não são quentes, só deixam um hálito agridoce na pele. percebes? não interessa. às vezes o espaço entre dois corpos completa os fragmentos que faltam. dizia que as luzes arrepiam. como que nos estremecem. reconheci em mim um medo novo. e este é mesmo, assim, assustador. não sabia que o acordar da dormência seria tão doloroso, confesso. julguei que em mim encontraria nova alegria, novo impulso, desta feita aliviado, concretizado. livre, entendes? não, de facto não. acordo enrolada sobre mim mesma e cheia de dores que ainda não senti, depois das que senti e que me enrolaram. são dores por vir, que nem sei se virão. faz sentido? desenrolo-me a medo e cada pedaço de mim que sai para fora é como um fio de um novelo que se puxa e vai-me desfazendo. mas encontra nós, pelo caminho. o pisar não é novo. vejo as folhas que o outono vai soprando das árvores e é mesmo isso. um caminho que já percorreram, que sabem. voltam ao chão, sugadas serão pela terra e voltarão a verde e flores daqui a uns meses. mas o cair. o cair. há sempre medo de ficar esmigalhada no asfalto. a borracha queimada faz mal à fotossíntese. nos veios estão marcados os percursos, como as linhas na palma da mão. são tatuagens, são. marcas que por mais que cerremos os punhos não desaparecem e as mãos ficam dormentes do medo. do medo de cair, sem rede, como todas as quedas a sério. porque é suposto a lei da gravidade amparar-nos pelo contrabalanço do peso da alma. mas nem sempre o vento sopra a favor. e agora as luzes que se acendem na sala verde são-me estranhas. são estranhos. a mochila das perguntas pesa-me. inclina-me. e tenho de ter as costas direitas. em pontas dos pés, assim, subo à armação de alumínio. será que ainda me vale o ballet? e os fantasmas? ter-se-ão esquecido de mim?

não sei como cheguei aqui, mas juntar palavras faz-me bem. encontro-lhes o sentido à medida que as saboreio. assim como um chocolate que prefiro deixar derreter na língua em vez de morder.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

para avaliar o seu grau de loucura

sábado, dia de passeios, de descontracção. porque os ensaios inibem de dormir até tarde, aproveite-se o dia.

almoço reconfortante no restaurante das avós, matar saudades das palavras com diminutivos, da força calórica de comida cozinhada na hora e das batatas fritas às rodelas. depois, descer a rua e segurar o queixo perante a exposição do world press photo. lutas intermináveis com um par de velhas que não compreendiam o conceito do pequeno corredor que separa as pessoas da fotografia. elas metiam-se à frente e punham-se a explicar as legendas uma à outra, indiferentes a quem queria ver os bonecos. considerações tecidas sobre o "molhar o pãozinho no sangue", sobre a parca qualidade dos nossos premiados, sobre as opções do júri, sobre a imponente reportagem sobre uma mulher vítima de cancro, sobre as delícias das fotos das bailarinas de leste, sobre o photoshop descaradamente mal amanhado em algumas imagens.
de regresso a casa, bandulho intelectual bem refastelado, estacionar na garagem [porque está de chuva]. reparar que os vizinhos [cujo único veículo estacionado é uma bicicleta] têm encostadinho à parede um par de raquetes de badminton e uma pena. troca de olhares tresloucados.
ficar a jogar badminton na garagem até desaparecer a luz do dia.

e assim se trama um dia que podia ser tão pseudo...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

happy birthday?

pois que descobri agora que este blog já fez dois aninhos.
parabéns, pá!


[ou... haja paciência...]

do estudo de texto

[re]começaram os ensaios. este ano com escadotes ao barulho - quem sabe para breve acrobatas e lançamento de anões. Gil Vicente, já se sabe, tem de ser trabalhado para se perceber o que é que as frases querem dizer... português arcaico tem muito que se lhe diga. bem como as personagens, a estudar e contextualizar historicamente para depois encontrar paralelos actuais.
fica uma pequena recolha de pérolas, da autoria do encenador...

das personagens
o Onzeneiro é dealer... mas só nós é que sabemos porque não passa para o público...
o Parvo é um wannabe. é daqueles putos brancos que querem ser pretos e começam a falar com sotaque, a usar aquelas calças e cantam rap.
as pessoas pensam que a Brízida [leia-se Brízeda] é uma puta, mas não. ela cria as meninas para os padres, é rica e vai às festas, tem muitas funções e não se percebe bem no meio qual é o trabalho dela. e só quando se esquece é que lhe vai pró chinelo [leia-se chenélo]. é como a Maya. a Brízida é a Maya.
o Sapateiro é... olha, é um estudante de Belas-Artes da António Arroio. daqueles que só desenham olhos... olhos e fetos!

dos subtextos
"vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco pera gente que virá" - o diabo está, portanto, a assear o barco, não é?
"embarque vossa doçura" - embarca, amori!
"dix" - foda-se!
"nom praza a Barrabás" - não lembra ao diabo... ou... puta que o pariu!
"que é desta glória, emproviso?" - mas nós andamos a brincar?

terça-feira, 10 de outubro de 2006

the pillowman

teatro Maria Matos
até 15.Out.06
4ª a Sáb. 21H30 | dom. 17H
encenação de Tiago Guedes
com Gonçalo Waddington, Albano Jerónimo, João Pedro Vaz e Marco D'Almeida

bilhetes: 15 €, regra geral. todas as informações no site do teatro


prometido é devido e à primeira oportunidade, uma visita ao Maria Matos renovado, cuja programação e grafismos de divulgação me têm deixado de água na boca.

The Pillow Man não é uma história fácil. desengane-se quem acha que se vai rir a bandeiras despregadas [houve umas quantas meninas nervosas que se escangalhavam a cada deixa até levarem o soco no estômago. é incrivelmente triste o poder de um "foda-se" num espectáculo]. desengane-se também quem pense que vai lá ficar de mão no queixo, com um circunspecto "hummm" intelectual. é uma história simples. ou melhor, é uma história contada de forma simples, sem ser simplista. em que as emoções provocadas vão do riso sádico, à simpatia, ao ódio, ao confrangimento, ao enternecimento, à tristeza, ao torpor, passando pelo riso incomodado de quem sabe que se está a rir de algo que só tem piada porque - epá - é a fingir... não é...? [... e depois alguém lá em cima nos olha com um daqueles olhares que nos cala...] um drama com laivos de comédia de situação em tom amargo, salpicada de um humor negro que nos gela e aquece de riso ao mesmo tempo. sobre um escritor de contos mórbidos - excepto o do porquinho verde - que se apercebe que estão a acontecer...

o cenário é extremamente clean e apelativo [lembrando vagamente Frank Miller, não fossem dois dos personagens usar roupa de cor], com soluções muito boas, a utilização de perspectivas interessantes complementadas com uma iluminação invisível [o que é positivo] e de - mais uma vez - adereços simples e pequenos apontamentos de multimedia, que não se impõem. são mais uma personagem.

uma encenação também transparente, com marcações naturais, nota-se que ditadas muito pelo instinto dos actores na movimentação do texto. uma esmerada direcção de actores, em que o texto ficou não só à superfície da pele, mas foi esventrado com corte cirúrgico. todos sabiam bem o que estavam a fazer, sentir, pensar. como eu gosto... nhami!

o que não é simples, neste espectáculo, é o gráfico emocional para os actores. não é simples no sentido em que não temos ali "bonecos". temos seres humanos, com defeitos, qualidades, forças, fraquezas, silêncios, segredos, pensamentos, ideais, histórias passadas. todas as personagens são absolutamente humanas.
é portanto, uma peça de actores. [um dos meus "estilos" preferidos]. ali, o desafio vai para eles, de se concretizarem em cada respiração, em cada deixa, em cada contracena, em cada momento de confronto com uma realidade estranha. e respiram realidade dos poros.
a todos e a cada um deles, um grande aplauso de pé. daqueles de peito cheio de orgulho, em que se agradece que nos mostrem afinal porque é que vale a pena continuar a tentar neste meio cão.

há quem considere a peça, em dado ponto, algo longa. cíclica em termos de conteúdo. confesso que estava demasiado absorvida a deliciar-me com as interpretações para dar pelo assento rijo. mas foi unânime que as cenas que ensanduicham o espectáculo [as fatias de pão, portanto o início e o fim] arejam nos tempos certos o que podia tornar-se demasiado longo mas não chega a ser. na proporção certa, diria.

um espectáculo a não perder. cuidado que a sala está na moda, portanto para os últimos dias já deve ser difícil conseguir bilhete. não temeis, caros seguidores d'A Palavra deste Blog, os lugares da fila da frente. a distância do palco é perfeita para absorver tudo sem um torcicolo.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

|| pause still


[ms]

às vezes o tempo anda feito gato avariado. corre de um lado para o outro de encontro às paredes, não conseguimos perceber o que anda a fazer, o que persegue ou sequer o que vê.
nesses dias apetece obrigar a sentá-lo à minha frente, e dizer-lhe para ter calma e olhar-me nos olhos. vamos lá conversar...
[... nem que seja para...]
- então e o Benfica...?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as vampiras lesbicas de sodoma

pela Companhia Teatral do Chiado
Teatro-Estúdio Mário Viegas
supostamente a semana passada foi a última semana, mas nunca fiando, que eles são danados para a aldrabice e já "estenderam" até dia 7 de Outubro.
entre 13,50€ e 18,50€ [excepto condições especiais]
reservas e actualização de datas no site da companhia
fotos no blog do espectáculo
com Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro, João Carracedo, Manuel Mendes e João Craveiro


não é um espectáculo certinho. quem viu As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos sabe perfeitamente que a ideologia não é essa. é uma paródia "off-Parque Mayer". é uma história de duas vampiras actrizes ao longo dos tempos [o fio cronológico lembrou-me vagamente o "Entrevista com o Vampiro" - com as devidas distâncias]. que passam grande parte da sua eternidade em Lisboa. que por acaso são lésbicas. e também só por acaso várias personagens femininas são interpretadas por homens ao estilo "tão-traveca-quanto-se-pode-ser". quebra-se a quarta parede. ou melhor, rebenta-se com a quarta parede. com muita dinamite da Acme. os actores sabem a linha condutora mas para ligarem o princípio, ao meio, ao fim, entram numa desgarrada de improviso. cujo objectivo, à primeira vista, parece ser fazer os colegas em palco a desmancharem-se.

isto dito assim é uma perfeita palhaçada, sem qualquer respeito pelo público, pela história que se está a contar ou até pelo trabalho de meses de ensaios e pelos cabelos brancos do encenador.
mas o "problema" é que, no caminho, somos completamente envolvidos por esta teia de disparates. somos enrolados, virados de cabeça para baixo, e não faz mal se o Simão perdeu uma pestana postiça. ou se o encenador ao fazer uma apresentação no início da peça, se esqueceu - outra vez - do endereço do site. são apenas mais motivos de galhofa dissecados a corte cirúrgico.

admire-se, no entanto - se conseguirem abstrair-se de tanta maluqueira - meia dúzia de pontos:
o trabalho fenomenal de caracterização. a coragem daqueles homens para estarem todos os dias absolutamente depilados [eeek], com cintas daquelas que espremem os respectivos abonos de uma forma que podemos apenas suspeitar. a capacidade de improvisação inacreditável de todo o elenco, que não se esgota numa piada que funcionou no primeiro dia. o brio nessa improvisação. o espaço que dão uns aos outros para brilhar - e para gozarem com as suas caras - coisa rara e nunca vista. têm de ter um trabalho inimaginável no que diz respeito à base do texto, para não se perderem no meio de tanta liberdade. o facto de estarem a vibrar a cada minuto. especialmente porque nós estamos a gostar e a rir com eles. a generosidade de um encenador que deixa - gosta! - que todos os dias esventrem mais um pouco o trabalho de mesa. a possibilidade de num espectáculo destes senhores podermos sempre ter uma visita guiada aos bastidores sem darmos conta. ali estão expostas aquelas fraquezas que a maioria das companhias tenta esconder para poder levar um espectáculo a bom porto. é delicioso reconhecê-las à distância e vê-los brincar com isso também. é outro lado da medalha. ali, um cd estragado na altura de um playback é... mais um motivo de improviso. é um actor, em vez do grande número de dança e canto que ia fazer, começar a soluçar ao som dos "riscos". e no fim, ao ter um achaque, dizer explicitamente: "ainda não despediram o técnico de som?"

não é uma obra de arte digna de um intelectual levar a mão ao queixo e expressar o seu cogitante "hummm"... é um espectáculo franco, directo, parvo, non-sense. e é assumido nisso tudo.

a cada estilo as suas características. à Companhia Teatral do Chiado apenas o objectivo de fazer as pessoas passarem um bom bocado. e saírem de dores na barriga e nos cantos da boca. de preferência ainda a limpar a última lagriminha no canto do olho.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

sem senso


foto de ms

deixou o poema numa amálgama de vidros partidos. soltou-os no cinzeiro com as mãos em concha. preencheu os fios de neblina com aromas doces, gelatinosos. teceu-lhes a música do silêncio chuvoso. espalmou os dedos como carimbos queimados de encontro ao tecto. saiu, fechou a porta e os olhos aos peixes voadores e ao homem do cachimbo. o cheiro. batia-lhe nos sentidos como uma franja violentada pela brisa. escalou a calçada rezando para não cair num buraco. já se sabe que os buracos são fundos e não é fácil sair deles. entre o zigue e o zague era outono. as paredes acastanhavam e aguardou o toque rosa do fim do dia. a árvore velha escureceu-lhe as válvulas da alma, deixando coágulos de luz pendurados no chão. pensou em fazer um quadro de serradura para poder ver o céu. o vento soprou-lhe qualquer coisa ao ouvido. penteou uma madeixa solta.
não se apercebeu de que agora o cabelo brilhava com estilhaços de palavras.

detesto produçao II

- um apoio [bla bla bla]
- apoio? para apoiarem a nossa empresa?!
- não, para fornecerem material para a construção de cenário com retorno de 130% nos imp...
- oh senhora, nós darmos coisas? oh senhora, peça ao Sócrates que ele ganha bem!
- ...
- ou o Cavaco! peça ao Cavaco!

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

o furto


foto tirada em Londres, para exposição, antes da compra

não sei o que me falta mais...
este fim de semana, animação no CCB, para ganhar uns trocos extra. saíram-me caros, devo dizer.
guardadas as coisas que não iam ser necessárias na apresentação numa despensa, lá fomos vender "Pharmaton" para um público ao princípio hesitante, depois contagiado... pelas vitaminas, claro.
regressando à tal despensa, pegar nas coisas para sair. deito a mão à mala para tirar uma coisa da carteira e zás! não está lá.
simplesmente desapareceu. claro, como sou cabeça no ar, pus em causa o facto de me lembrar de já ter mexido na carteira nessa manhã, e pus a hipótese de ter ficado caída no carro ou em casa.
pois que não.
foi-se. evaporou-se. os telemóveis [pois, são antigos] permaneceram intocáveis, bem como a restante mochilagem dos outros elementos da equipa.
contactada a organização do CCB dizem-me que vão "perguntar à equipa". peço muita desculpa, mas nestes casos eu revistava a equipa sem apelo nem agravo... são todos inocentes até prova em contrário, mas quem não deve não teme, não é? além disso, é o bom nome da empresa que está em causa... alguém lá de dentro roubou uma carteira... mas nããão, vamos esperar que o dia chegue ao fim, para lhes dar tempo de se livrarem das provas, perguntar e esperar que alguém comece a tremer o queixo, se atire ao chão de joelhos, e grite em lágrimas e ranho "eu confesso, eu confesso! torture-me, eu mereço!"...
ainda andaram a ver os caixotes do lixo, mas nada.
depois de cancelar os cartões, dei 12 horas para me dizerem qualquer coisa. ai ninguém sabe de nada? que estranho... bom, então vou à polícia. a quem tiro o chapéu, uns senhores como já não se fazem, pacientes, simpáticos, eficientes, informatizados[!], com quem deu para ter inclusive uma conversa sobre um delicioso rádio velhinho que estava numa prateleira. disseram-me para esperar 10 dias antes de ir tratar dos documentos, "pode ser que apareça a carteira num caixote de lixo"... deram-me uma declaração para confirmar que existo e que me roubaram todas as provas disso.

contas feitas, foi isto:
a minha carteira, uma querida recordação de Londres, fabrico artesanal português, comprada na banca de um amigo meu, no Sunday Up Market, em Londres. feita de sacos de plástico, exterior verde-alface [sacos da Bershka e da Área], fecho em velcro.
todos os documentos possíveis e imaginários, cartão de crédito, de débito, BI, carta de condução, documentos do carro, passe, cartão de contribuinte, da segurança social, do posto médico, da Médis, de eleitor, do banco online... eu sei lá... basicamente quando eu entrar na Loja do Cidadão, não pensem que desapareci se não der notícias ao fim de uns dias... ainda lá estou a recuperar o plástico perdido.
a minha foto preferida: eu bebé com a minha avó. a moeda da sorte que a V. me trouxe de Itália. e mais umas papeladas de grande valor sentimental.
e, claro, o dinheirinho... que, por acaso, a minha mãe me enfiou no bolso na noite anterior, para ajudar à gasolina...

lindo serviço. agradeço desde já à pessoa que me escolheu para este acontecimento. espero que se divirta com os cartões [cancelados] de contas com saldo negativo às quais eu não vou ter acesso durante uma semana, que é o tempo que as segundas vias demoram a chegar... isto se não se extraviarem como de costume.

... espero também que lhe nasça uma verruga no rabo que lhe tolha a capacidade de se sentar durante o resto da vida. que permaneça de pé até ter uma infecção muscular, que se transforme em gangrena.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a um amigo

cada dia é mais raro dizer que se ama.
honro-te a ti, que o fazes, de peito aberto.
porque de mãos dadas é mais fácil sorrir.
e chorar, também.
porque o sorriso dela é o sítio perfeito para descansares.
há momentos que não têm palavras.
este vai ser um deles...

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida...

o assobio da cobra

São Luiz Teatro Municipal, até 26 de Novembro.
Quarta a Sábado às 21h, Domingos às 17:30
um musical encenado por Adriano Luz


foi o meu primeiro convite oficial e directo para uma estreia deste teatro [a/c Polegar e tudo], fruto de uma colaboração que teremos num futuro próximo. peguei em mim e aproveitei, que os bilhetes estão pela hora da morte...

primeiro que tudo, uma nota: as vedetas por favor cheguem uma hora a trinta minutos antes do início do espectáculo sob pena de deixarem os anónimos na sala à espera enquanto voscenças são fotografadas para a posteridade do dia a seguir... é de muito mau tom fazer um espectáculo começar 20 minutos atrasado só porque a Catarina teve de ser fotografada e depois ainda teve de dar um beijinho ao Moniz e à Bocas...

a história: pois que não se percebe muito bem... passa-se numa noite, num bar desses de periferia, algures entre os dias de hoje e os anos 50, onde vão só os habitués beber até terem sangue no álcool em vez de álcool no sangue. cada personagem tem pequenos segredos. nesta noite específica, duas pessoas "estranhas" vêm destabilizar os frequentadores habituais e, supostamente, criar conflito. mas o texto foi criado a partir do CD, basicamente para estabelecer uma ligação entre as músicas... ora o que é que se faz quando não se sabe bem como colar músicas com texto? opta-se pelo "ambiente denso", os "mistérios implícitos", "as verdades ocultas" e... deixa-se o final em aberto... o problema é que o entretanto também está mal tecido, cheio de buracos. chegamos ao fim e ficamos absolutamente na mesma. os conflitos existirem ou não é o mesmo que deitar uma colher de água no mar. além disso é tanta música [que não adianta nada à história, simplesmente páram para cantar], que por vezes corta o fio lógico das cenas.

a música: ponto fulcral do espectáculo, ou não fosse um musical. dado o desconto dos nervos da estreia, temos uma banda fantástica, revelações de alguns actores como cantores [ou simplesmente bons profissionais da voz], letras bonitas. chateiam os microfones, que não estão calibrados para a projecção necessária do cantar, e fazem com que se ouçam pequenos estalidos durante a peça. coreografias simpáticas, mas o facto de terem metido um par de bailarinos na figuração desequilibra a coisa para os outros.

o cenário: girinho, dentro do estilo quase-cabaret. o espelho que revela os segredos mais profundos das personagens é uma mariquice... toda a gente percebe que o travesti vive na dúvida de quem é e no pânico de ser apanhado, que o abandonado queria casar com a que o deixou, que o cómico queria ter piada, que a velha queria ser nova...

os actores [estala os dedos, cospe nas palmas das mãos]: são demasiados. aquilo fazia-se com metade, e ainda se ficava a ganhar porque havia menos ruído visual nas cenas.

duas das senhoras mais velhas, por terem de cantar em palco fazem aquilo em tom revisteiro. cruzes, apetece dizer-lhes: olhe, desça até aos restauradores e atravesse para o outro lado... peça para falar com o senhor LaFéria.

puseram dois bailarinos carecas a fazer de machões... não convence.

a menina grávida [Adriana Queirós] é... indiferente. é o "vai benzinho"... o mesmo se aplica ao resto do elenco secundário que não encanta nem desencanta. o João Reis lá tem um acesso de fúria dramática, a passar-se por bêbado irado... mas até isso é desadequado.

destaca-se o Pedro Laginha [o D. Pedro de "Pedro e Inês" da RTP que ia tão mal, tão mal, que quando estava irado parecia apenas estar com um grave ataque de diarreia], uma surpresa em palco, num delicioso loser cujo único objectivo é ser comediante, tendo escolhido os "amigos" como público... eheheh má escolha, tão má que é tão boa de ver...

a Patrícia Vasconcelos, essa grande diva dos castings que diz que também é cantora... podia ficar-se a fazer os castings... um cepo, um cepo, um cepo... imagine-se uma Jessica Rabbit... agora imagine-se uma cantora de tasca de fados com a roupa da Jessica Rabbit. pronto. uma mulher que numa coreografia de braços parece a personagem do Monchique no saudoso C.R.E.D.O.. aplica-se: credo! não sabe porque é que está a fazer as coisas, os gestos saem maquinais e sem o mínimo de sensualidade... e desafina!

o Diogo Infante: salva o dia... uma delícia. a personagem mestramente construída, o homem que é travesti, que dá grandes espectáculos sem nunca saberem quem ele é, e que vive no pânico de ser apanhado, portanto, fazendo-se de machão. e o homem é isso tudo. e continua a contar-nos a sua história enquanto dança, só com os olhares, enquanto canta, ao descair-se... só vendo. um dos poucos que, de facto, não se preocupou só com as cantorias. bravo a ti, mais uma vez, que sempre tiveste o condão de me despoletar um arrepio que me sobe pelas costas e rebenta em lágrimas, só pelo bom que é ver-te trabalhar.

posto isto, nota final: vê-se, é levezinho, é rápido [1h20], é colorido. não aquece nem arrefece. para maníacos do acting com dinheiro para gastar, vale a pena pelo senhor Diogo Infante. só não levem em conta a sinopse...

mas isto sou eu...

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

calçada de carriche

sobe polegar, sobe a calçada
sobe lenta porque isto não anda nada
ponto de embraiagem
travão de mão
puxa, baixa, acelera, tanto não
pára arranca um metro à vez
chegarás ao destino amanhã, talvez
dói o joelho do acelerador
convive, polegar, convive com a dor
a besta do lado meteu-se à bruta
vai-te a ele polegar
chama-lhe filho da puta
sobe polegar, sobe a calçada
em dia de greve e chuva é piada
a espera, as unhas, cigarros e fome
é bom saber que o povo não dorme
sobe que sobe
sobe a calçada

adaptação livre - e extremamente fraca em termos de métrica ou criatividade - do poema de António Gedeão

hoje, ao sair de casa, recebo uma sms: "se tivesse a minha casa [em Lisboa], não estava há duas horas na Padre Cruz. V."
lembrei-me de um episódio... à nossa ;)

há uns anos, em dia de greve geral dos transportes públicos, o meu jipinho resolveu simplesmente entrar em coma em plena entrada da Calçada de Carriche, fila do meio, à beira da placa que dizia Lisboa.
foi uma manhã épica: eu e a V, fechadas no carro, a ver os outros passarem com má cara porque não conseguíamos meter o meu na berma, à espera do reboque que demorou duas horas a chegar porque, claro, também apanhou com a fila.
estávamos sem tabaco.
éramos jovens.
começámos por muito profissionalmente ligar para os respectivos trabalhos [a minha patroa das nails, com BMW e casa na Av. de Berna não compreendeu muito bem o conceito de greve geral dos transportes públicos...].
falámos, enervámo-nos, momentos de silêncio.
angústia.
depois... música em altos berros [o problema não era, portanto, da bateria...], a dançar feitas parvas. uma gaja tem de fazer qualquer coisa para que o tempo passe.
começou a agravar-se a ressaca da nicotina. descemos ao mais baixo: abri as janelas e pedíamos aos carros que passavam/paravam ao nosso lado se nos dispensavam um cigarrinho...
estranhamente, no trânsito de um dia de greve geral, perante duas raparigas desesperadas num carro avariado, o mundo suburbano meteu a mão na consciência e deixou de fumar... e de ter tabaco.
daí a pouco fomos notícia nacional. toda a gente sabia, pela rádio, que "está um carro avariado na faixa do meio do acesso à Calçada de Carriche, o que está a piorar ainda mais as coisas". insensíveis.
quem deu um cigarrinho à Polegar e à V, quem foi? o senhor polícia que chegou de mota, e muito simpático, com o colega nos ajudou a empurrar o carro até à berma, parando o trânsito para podermos atravessar as faixas.
lá se foram embora, aconselhando cautela [só faltava dizer "olhe lá a velocidade, hem?"], e nós ficámos à espera até sermos salvas pelo reboque.
um dia bem passado, que me foi parcialmente cortado do ordenado, com possibilidades de recuperar o dinheiro fazendo dois turnos de unhas de seguida...

p.s.: uma nota para os senhores grevistas: se querem a simpatia do povo para com a vossa causa, que tal mudarem de estratégia? em vez de pararem a cidade e lixarem a vida a toda a gente, mantenham o metro a funcionar mas deixem as portas abertas e desliguem as máquinas de bilhetes... prejudicam os senhores patrões maus e deixam os pobrezinhos ir ganhar a vida... hem? que tal?

terça-feira, 19 de setembro de 2006

detesto produçao

contactar empresas de madeiras. que possam dispensar material, mesmo que com defeito. com retorno de 130% nos impostos. 93 números de telefone de empresas. reuniões, horas de almoço, não está. depois há os que estão...

- [voz de velha ranzinza] tou?!!!!
- estou sim, muito boa tarde, seria possível falar com alguém do departamento comercial?
- é pró quê?
- estou a ligar-lhe da produtora XXXX. estamos neste momento à procura de apoio, em madeira para cenário, para um espectáculo que vai estrear em Janeiro com a Maria Rueff...
- ah nós não fazemos cá disso. a essa, a gente vê na televisão. [como se recitasse a bíblia] temos de cortar nas despesas [job, 3:45].
- eu não sei se tem ideia, mas terá um retorno de 130% do que investir...
- isso dos espectáculos não nos interessa.
- ..... pronto, então muito boa tarde........

[nem 5 minutos depois]

- [bla bla apoio em madeira para o cenário, Maria Rueff, Miguel Guilherme, 130% de retorno nos impostos bla bla...]
- sim... [suspiro pesado] sabe, isto hoje em dia recebemos muitos pedidos... ele é as irmãs samaritanas, é a associação Sol... este país está a ficar um país de [enojado] pedinchas.
- ...
- [enojado-tipo-comi-um-macdonalds-fora-do-prazo-que-cheirava-a-pés-com-chulé] as pessoas só sabem pedinchar...
- [irada] por isso é que o Estado, para projectos culturais, vos reembolsa a totalidade MAIS 30% do investimento. para não perderem dinheiro e ainda terem lucro. não são pedinchices, é mecenato [ca%$#@o]!
- [silêncio. muda de tom] posso falar com o meu sócio, ligue amanhã para lhe dar uma resposta.

passei-me. passei-me. estou-me a passar. e estou com medo de voltar a pegar no maldito telefone.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

olé

A Espanha é o primeiro país a aplicar normativas que regulam o sector da moda, proibindo manequins profissionais demasiado magras e abaixo de valores considerados "nutricionalmente" saudáveis, apostando na definição de padrões comuns para o tamanho da roupa. [...] Nas últimas semanas, dois certames de moda, entre eles a conceituada Pasarela Cibeles em Madrid, proibiram o desfile a mulheres demasiado magras - ou seja, modelos profissionais com parâmetros abaixo de 18 por cento de massa corporal, o que corresponde a 56 quilos para uma altura de 1,75metros. [...] a Esquerda Republicana da Catalunha [ERC]anunciou que vai apresentar uma moção para que a União Europeia aplique a todos os Estados-membros padrões idênticos nos tamanhos da roupa [...] O documento inclui medidas no sentido de impedir a participação de jovens modelos, com menos de 18 anos, e para evitar que a maquilhagem usada simule rostos demasiado magros ou "doentios".

in Público | 16 Set 06


diz que sim, diz que Milão achou graça à coisa. diz que um porradão das meninas nem sequer quiseram ser pesadas. diz que as agências falam de... discriminação! ah! oh! inclemência!

será? uma ponta de esperança? hoje Espanha, amanhã o mundo! hoje o peso... amanhã a altura!!! hoje os cabides... er, modelos, amanhã os actores! ponham-se a pau, morangos, que qualquer dia começam a pegar mesmo em real people! se calhar até começam a escolher gente que saiba falar! ou, loucura das loucuras, que saiba representar!

- Carmen, come la sopa.
- Que no quiero mama... dejame comer solo la lechuga...
- No. La sopa, el pollo y la ensalada! Todo!
- Que no quieroooo
- Coño! Mira que si no comes, no puedes ser modelita!

muahahahahahah!

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

a day without a night

passou por mim no jardim. o carro de janelas abertas e som demasiado alto. estava embebida em verdes, crianças a brincar, o homem estranho que pinta quadros do quiosque, as vedetas na esplanada, os turistas de nariz no ar, os velhos, os hippies, os intelectuais, a tia a passear o beagle. mas olhei para trás, seguindo o rasto de som que ainda restava no asfalto.
alguns cigarros ardidos depois, na esperança de esfumar o resto da tarde, a janela aberta para receber a chuva na corrente de ar. já saíram todos. ainda cá estou.
perdi-me em lembranças, porque me perguntei "o que estava eu a fazer há um ano". passou-se, assim de repente, desde que pisei um palco com as palavras de outros. desde aqueles dias que valem a pena, que nos esgotam de prazer. desde que pude contar uma história. desde as borboletas a esvoaçar no peito, o calor das luzes e dos olhos, os espíritos que nos ensinam segredos e as fadas que perdem brilhos se não batermos palmas.

reli as conversas, as histórias que contei. dá-me para isto às vezes. reencontrei-me com os meus fantasmas.
deslizei pelas letras todas, contadas de trás para a frente. choradas de novo porque o que se perde não se recupera e as forças não chegam para tudo. revivi-me. emoções instantãneas, ao alcance de um dedo.

não tive oportunidade de reflectir.
passou de novo o mesmo carro - só pode ser o mesmo. da janela dele para a minha, de novo a mesma música. o Romeu de papel estremeceu. é o vento. eu fiquei estática. são demasiados flashbacks num dia...

al fresco

Praça de Espanha, 10 da manhã. 22ºC. ventinho. humidade. semáforo.

no passeio ao lado distribuem o "Metro". duas raparigas em nada mais que lingerie, botas e chapéu de cowboy e o corpinho que deus lhes deu, correm entre a pilha de jornais debaixo de um chapéu de chuva - para proteger o papel da humidade - e os carros que vão parando na fila. os olhos estão vazios. não apelam à cuequinha de algodão com padrão de ganga, não simpatizam com quem olha.
horrorizada, abro o vidro no instinto básico do "dê cá isso para ver se o molho de jornais acaba depressa para você poder vestir-se... e vá para casa beber um cházinho quente"

o ponto a que chegam as campanhas de publicidade neste país começa a repugnar-me. já não basta o "ELES não gostam de celulite" - as gajas adoram os buraquinhos nas pernas, mas se eles estão desagradados, vamos lá enfiar agulhas no rabo; os anúncios de cerveja em que só há corpinhos bem feitos a serem galados, e a gordinha a passear na praia a ouvir "pssssst" e a pensar enganosamente que por uma vez na vida vale a pena ser gordinha e passear na praia - só para nos[?] fazer rir...

eu sei que o outono chegou contra as indicações maiores dos Deuses da publicidade. e que era suposto estas meninas passearem-se glamorosas nas novas Sloggi Wild Jeans, a fazer babar os do costume: os merdas que páram para apitar qualquer coisa que se mexa, quanto mais meninas em roupa interior - e que, convenhamos, a última coisa de que se lembram é de comprar uma prendinha para as respectivas.

ver duas raparigas a gelar em plena Praça de Espanha logo pela manhãzinha, naqueles propósitos que de tão degradantes perdem qualquer ponta de sensualidade... é a genial ideia da grande campanha de lançamento de uns soutiens foleiros.

haja estômago.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

algodao doce



onde é que estamos? será por aqui? acho que sim, lembro-me da igreja enfeitada. tanta gente, que confusão. vê lá não atropeles nenhuma velhota. que horas são? interessa? não. queres ir? e tu, queres ir?

o sorriso não mente. são perdidos e achados no meio dos montes, são encontros com as fileiras de lâmpadas coloridas. ali ao canto viram-se frangos e não se vê mais que as mãos no nevoeiro aromático. cheira a comida e a doces, a farturas cheias de açúcar. a olhos açucarados. depois da alma lavada no rio, raspada com cuidado nos seixos para sair a fuligem, sujam-se os pés na terra pura do chão da aldeia. as vozes abafadas pelos microfones, o acordeão, os ferrinhos, a pandeireta. as cores fortes e o aroma inconfundível dos dias de infância.

compra-me um balão. estás a brincar? não, compra-me um balão. qual queres? adivinha.

era esse mesmo. os dedos cuidadosos envolvem o pulso com o cordel. como dantes se fazia para não se perder o balão. os olhos curiosos de uma menina a ver outra já grande de risota com um urso azul. rodopia pelo chão, levanta pó como ela, a menina, gostava de fazer, mas o vestido é novo e tem de se vestir de festa. a dança é a dois, dois grandes ali no meio, de sandálias ainda molhadas do rio, não têm medo de sujar os pés, que no despique com o desfile de cores, chegam à meta gulosa.

queres? eu não. ó senhor é um bem aviadinho que eu sou gulosa e ele diz sempre que não quer, mas rouba-me sempre quase metade

ó senhor das faces redondas, coradas, boné de tecido grosso, algures entre o incrédulo e o bem disposto, faz-me um algodão doce. os dedos rodam sobre si mesmos, fazendo dançar o pauzinho. cresce a pequena nuvem de fiapos que se vão juntando, perante uns olhos tão ansiosos e brilhantes de estrelas de massapão como eram há tantos anos. agora cresce cor de rosa. dantes era mesmo branquinha, como as do céu. os fios ainda hoje surgem como por magia nas paredes de metal. de onde vêm os pauzinhos? no tempo das papoilas pensava que havia uma árvore cujos galhos eram assim. compridos, finos e lisinhos. de quatro faces. e que o algodão doce era raptado das nuvens em dias de neblina matinal e vento fraco a moderado, naquela hora do lusco-fusco em que toda a gente dorme e elas passeiam mais à vontade cá em baixo. depois era só juntar açúcar.

pronto, gulosona, já está satisfeita? pronto digo eu, já estás a roubar-me o algodão! vamos dar uma voltinha. sim, vamos. olha as rifas são só pratos e terrinas! um luxo, um luxo. ai, controla o balão que está a bater em toda a gente. desculpe, desculpe. a banda desafinou. queres dançar?

se me fotografasses agora verias o meu espírito. as auras, a alma e todos os fenómenos paranormais. em fogo de artifício suave, de mão dada e sorriso rasgado, sem vergonha de ser menina, em noites de verão com nuvens de algodão doce.


[ms]

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

ouvido à boca cheia

homem - ele pode dizer o que quiser, pode fazer o que quiser, dar lá as voltas dele, como entender. um gajo tem de se orientar...
mulher - claro, claro, mas eu acho que...
homem - já ela...
mulher - é uma puta, é o que é. uma puta.
homem - é um bocado atrevidota, é...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

fui etiquetada

a pinky mandou-me a máquina das etiquetas:

quando fores etiquetado tens que escrever seis informações aleatórias sobre ti. depois escolhes seis pessoas para etiquetar e lista os seus nomes.

ora portantos... vamos lá virar-me do avesso...

:: XS | é a etiqueta do primeiro impacto visual.

:: XXL | é a etiqueta da minha visualização de mim mesma. passo a explicar [e isto foi-me comprovado astrologicamente]: quando em confronto, tenho tendência para não ter noção do meu tamanho. começo a inflar lá do alto do meu metro e meio e uns trocos... além de ser bastante argumentativa e inflamada [inflamável, também], tendo realmente a ver-me fisicamente muito maior do que sou... no trânsito, consta que me começa a crescer o bigode e pende um crucifixo do meu retrovisor e tudo...

:: handwash, handle with care | apesar disso, sou gaja, não é? emotiva, sensível, aquelas coisas do costume.

:: 99% cotton, 1% silk | o meu modus vivendi, do meu modus operandi. simples, resistente e macio. com um toque de quelque chose...

:: this side up | o lado racional, a capacidade encarar as coisas com olhos de ver, a batalha constante para estar à tona.

:: promoção | gosto de pessoas, gosto de me dar. derreto-me com facilidade e dou todas as segundas oportunidades - chama-se ingenuidade, acho eu. estou sempre de tacha arreganhada. entrega total em tudo o que faço e me apaixona.

passo a etiqueta a:
espanta-espíritos
colher de chá
MPR
rantanplan
câmara lenta
Simão

nota: eu optei pela brincadeira do trocadilho das etiquetas comerciais e de roupa, mas não é necessário, hem?

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

retornos

olá! bem dispostinhos? tudo em ordem? encontraram lugar à porta? a pilha de papel na secretária, cresceu? ou ainda está tudo a meio gás? já desistiu da dieta? já não vale a pena, não é? agora fica para as resoluções de ano novo. isso e deixar de fumar, porque mal se entra no gabinete já se sabe, os colegas também já deixaram as férias e as resoluções para trás...
é que os patrões vêm assim todos motivados, cheios de energia - pudera, depois das três semanas em Cancun e sabendo que daqui a um mês voltam a sair - e uma pessoa nem tem tempo para se habituar ao ritmo. depois cai-se em tentação.
começa logo com o café. tinha reduzido e tudo... já era só um ao almoço, mas a bica e o queque... pronto, é aquela coisa...
e depois o fumo e o cheiro e o vício de dedos, logo agora que já tinha deixado de roer as unhas... que maçada...
e a colega, trouxe as fotos do Algarve? o Joãozinho está enorme, não o fazia assim! e o bronzeado, mas que belo bronzeado, parece que Deus o deixou a cozer um bocadinho a mais. mas só um bocadinho. assim como assim está melhor que a Xenica das revistas.
então, ainda se lembra como é que se mexe nas teclas do computador? um bocadinho mais lento, não é? isto ainda com areia psicológica nos dedos custa mais... mas vai lá. e agora até dá gosto, com o novo fundo com o mai' novo a fazer caretas e a mai' velhinha agarrada a ele muito queridinha, com o fato de banho e as molinhas parece mesmo a Floribela...
oh! o messenger! parece que regressou à vida... ainda nem se acendeu o primeiro cigarrinho já as janelinhas palpitam para saber novidades... e para mostrar novidades, que há sempre as épicas carraspanas dos mais jovens e as fotos novas daquelas sorridentes em que se consegue ver ao fundo, mas bem ao fundo, hã? a família sentada num camelo...
comprou umas ch'nelas novas daquelas da moda, com a bandeirinha do Brasil e tudo? ai mas que bem... é que as modas este ano são mesmo de apetecer...
contente contente, mas contentinha da vida está a dona do café lá em baixo, com a casa cheia, já não é a pobreza que se via em Agosto, não é... que a senhora até andava meio angustiada, dava-se-lhe assim umas azias só de pensar como é que pagava as contas da Makro.

isto é que é... o fuminho dos escapes, as filas logo pela fresca, o roça-roça das peles - ainda escaldadas - no metro... o ar condicionado avariado [ou assim dizem porque é caro como o raio] e esqueceram-se outra vez de ir às promoções das ventoinhas...
três projectos despachados logo pela manhã que o patrão tem mais que fazer à tarde... uns telefonemas e a esplanada a chamar lá fora... dois dedos de conversa com quem nos tomou desaparecidos e só por isso não teve paciência de vir cortar o silêncio das paredes durante o último mês... sai um chato a querer ligar para o posto médico apesar de já ter sido informado que o número é ao contrário... já pinga o suor no vestido do Avante - sim... vi pessoas... aaah! - e o Paul Auster estava a comer na mesa aqui ao lado...

estão 32ºC aqui dentro - e a subir - e mais um par deles lá fora... toca a bulir...

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

bocas doces


no meio da colecção das embalagens antigas, há sempre uma tradição que se mantém. essa, mais que para fazer uma colagem de latas de farinhas alimentícias e caixinhas de chás e pós aromáticos, é uma constante nas línguas gulosas. nos dias de calor, observar o caramelo a escorrer lânguidamente pela forma transparente enquanto se espera que a mistura ferva no leite e adivinhar, depois de um tempo de frigorífico, o eterno sabor de infância, fresco e doce, desfazer-se na boca. sem gosto da Ásia, verdade, mas açucarado como uma gargalhada embriagada de tempo bem passado. pés descalços na pedra fria, prato na mão. na sala canta com grãos de areia na voz um antigo vinil. fotografias a preto e branco, debotadas e dobradas nas pontinhas. inventam-se histórias para rostos desconhecidos. gotas de caramelo confundem-se no suor de uma colherada atabalhoada...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

quantum leap

a insónia tem destas coisas... quando a ansiedade se apodera de nós, no desespero de encontrar distracção das palpitações e não querendo cair na teia dos ansiolíticos, saltitamos de nenúfar virtual em nenúfar virtual até dar com um qualquer blog [que no dia seguinte já não conseguimos lembrar, tal era a trip onírica de sono que para aqui andava] onde um vídeo nos aguça os despojos de curiosidade ainda despertos.
hoje sou uma mulher nova. renasci das cinzas da vida boémia e converti-me. eu até já gostava de sabrinas, mas isto... isto é a epifania por que todos ansiamos ao longo de toda uma vida, a revelação a que só alguns chegam. eu posso dizer: vi a luz! e não me refiro ao écran do computador às 5 da manhã... não, isto é the real thing!



eu sabia que havia uma razão para não ter TV Cabo: era um sinal divino!
oh sim! oh sim! era tudo o que eu esperava! agora sim, terei uma juventude sem mácula...

e cantem, cantem comigo:

Hagamos juntos, este crucigrama
Aplacemos lo otro para mañana
Cantar contigo, me llena de alegria
[sha la la la..sha la la la la]
Dejemos todo lo demas para otro dia
Quisiera besarte pero sin ensuciarte
Quisiera abrazarte sin dejar de respetarte.
Amar es saber esperar, es saber esperar, es saber esperaaaarrrr...

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Joven, recuerda que el amor nace del respeto
que no hay nada mas hermoso en una pareja
que saber esperar juntos
ese momento maravilloso
que es la consumación del amor...
¡TU PACIENCIA TENDRÁ RECOMPENSA!

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Los Happiness | MTV


agora um àparte, das reminiscências do meu antigo eu, escuro e sujo, aquele eu que adorava uma trancada bem dada cheia de amor e íntimas suculências e tudo a que se tem direito [fricciona levemente, com o indicador, o apêndice nasal] isto tem ou não tem um piquinho a azedo?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

enquanto houver estrada para andar



se tudo fosse asfalto. se tudo fosse o vento a envolver-me em giestas, pinheiros e eucaliptos. se tudo fosse um horizonte que se desnivela conforme as curvas da estrada. se tudo fosse já ali, não interessa onde. o calor a lamber-me o suor, o frio a rasgar-me os olhos. a sombra presença constante nos riscos, socalcos e vegetação, nos verdes, nos ocres, nas papoilas, nos prédios, nos girassóis. os mapas e as decisões aleatórias, como as linhas das mãos. um tecto enrolado atrás de mim, ou a vaga ideia de uns lençóis brancos algures. se tudo fosse o teu cheiro a brincar nos meus cabelos. o ronronar do motor e o recorte perfeito do teu pescoço. se tudo fosse o adejar da tua camisa, para o assomar das tuas sardas onde passeio os dedos, onde descanso enfim.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

varanda



o dia vai silenciando os movimentos. já se conseguem contar as luzes em volta. luzes de presença no breu cálido da vaga de calor que não amaina depois do crepúsculo. no anonimato de mais um andar, os movimentos lentos de quem procura uma brisa que alivie as gotas de suor. ecos vagos de vidas que adormecem. abrandados pelo peso quente do ar. um jornal virado. um riso jocoso vindo da tasca ao fundo. um carro que passa. pratos tilintam num lava-louças. uma tosse. um choro de bebé. numa janela recortam-se dois corpos. preparativos do sono perante cortinas abertas. devem falar de como correu o dia. ou outra conversa qualquer. corriqueira. rotineira. sente-se nos gestos afastados e casuais. ele adormece de costas para ela, que lê. daqui a nada ele reclamará do calor da luz acesa.
mas na varanda já se desviaram os olhos. para o céu pontilhado de branco que se confunde com a montanha em frente pontilhada de laranjas. pontilhada de vidas. respira-se devagar, espera-se ainda a piedade de um sopro fresco. as costas colam-se no vidro. um miado avisa que a música se calou.
ligeiros estalidos dos pés no chão. a música regressa. a cortina ondula. suspiro.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

floribelas

suo por todos os poros. não aguento quando a ventoinha se afasta de mim. zapping de tarde. estou a tentar poupar os DVD's de "O Sexo e a Cidade", os filmes emprestados, os livros. dou uma desesperada oportunidade aos programas da tarde da televisão nacional.

do alegre Malato e as suas velhinhas e emigrantes, salto para uma qualquer coisa sobre segurança no trabalho, e depois para...
um concurso de mini-Floribelas. sim. as crianças deste país adoram a menina das flores e das saias às flores, e as canções das flores e as purpurinas e o enredo de novela mexicana... com flores. querem ser tal como ela. e o abençoado canal responsável pela súbita explosão de adeptos à horticultura continua a exploração até ao tutano desse grande acontecimento cultural. agora as nossas crianças mandam vídeos das suas interpretações e coreografias, desenhos, e têm até direito a aparecer no prime time das donas de casa: os programas da tarde.

ali estavam: três meninas pequenitas que tinham de cantar, em competição, claro, a canção do "sou pobrezinha mas boa pessoa" - essa grande lição de vida, tão útil nos dias que correm, em que, de facto nos devíamos conformar com a crise. os ricos que fiquem cada vez mais ricos! serão sempre infelizes! eu não sei como pagar as contas, mas sou do Bem! toma!
e por isso, um dia um rico oxigenado há-de apaixonar-se por mim, ver como a vida de pobre é muito mais alegre, deixar de fugir ao fisco, cancelar as contas na Suíça, para se vir meter comigo num apartamento no subúrbio cheio de flores, com o rendimento mínimo, onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos a big-macs e danoninhos.
não, espera. não é assim... ah! o rico apaixona-se por mim e pela minha alegria de pobre e leva-me com ele para a sua mansão em Cascais onde viveremos felizes para sempre, ricos, e onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos surfistas a big-macs e danoninhos.


ah, essa mais recente geração que ainda mal sabe falar mas que os papás já estão ansiosos por meter nessas novas amas que são as 12 horas de gravação por dia com catering e carrinha, ou a fazer anúncios a ecopontos para depois os progenitores se gabarem - sim, já aconteceu à minha frente - perante as outras crianças que estão nas filas para novos castings.
essas filas de carne para canhão, de gente que vinda do nada espera a sua oportunidade no mundo do tudo, tão fácil, tão evidente, dispostos a serem explorados pelos seus 15 minutos de fama sem terem noção do que estão a fazer no mercado em termos de condições de trabalho para os profissionais que depois quiserem exigir as coisas como deve ser e bem pagas... mas isso é outra conversa...

regressando ao ponto alto do meu dia: Nuno Graciano entrevistava então a mais novinha das três... errr... concorrentes. tinha uns três, quatro anos. de cada vez que o apresentador lhe punha o micro à frente para responder a uma pergunta feita com aquele tom paternalista que cai sempre bem, a piquenita começava com o sumido mas assumido "não te-no na-da ma te-no te-no tu-do". todos no público sorriam, derretidos, paternalistas, viam-se nos écrãs e compunham o colete e o vestido que tinham comprado para o baptizado da Cátia Marisa. ai, a menina, que encanto: caracolinhos escuros, purpurinas nos olhos, sainha com flores... era de facto uma gracinha.
depois a gracinha, à pergunta do Graciano "bem, agora vamos ouvir as outras meninas a cantar?", respondeu... levantando a saia e voltando a catarolar "não te-no na-da..."
Nuno Graciano não se deixa demover com a manobra de marketing infantil e pergunta:
"oh, então que é isso? de cuequinhas à mostra na televisão?!" com o grande sorriso profissional embebido no tom de cutchi-cutchi-bilu-bilu.
mas a pequena é ainda mais profissional. e entre um plano da suposta mãe babada, a menina mostra a autenticidade do seu à-vontade perante as câmaras: mete as mãos entre as pernas e coça-se. sempre a cantar, como qualquer bom entertainer.
nesta forte competição, não entre Floribelas, mas entre profissionais de gabarito, Nuno Graciano aposta em não se deixar intimidar pela nova artista de palmo e meio:
"queres fazer xixi, é?"

foi a estocada final no meu dedo, que desligou a televisão e me obrigou a estourar mais uns episódios de "Sexo e a Cidade".

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

o trauma de agosto



pequena explicação: há quem trabalhe neste país a recibos verdes porque não tem outra hipótese. não falo de advogados nem de médicos, falo de mim e, como eu, de outros tantos. nesta situação, misturam-se num estranho limbo os "direitos" de quem trabalha como independente e os "deveres" da entidade patronal, que nos contrata a recibos mas depois... horários de trabalho iguais aos dos contratos, às vezes piores, ficamos nós encarregues dos próprios descontos, não há cá 13º mês ou subsídiio de férias e a santa entidade resguarda-se a possibilidade de suspender o trabalho quando não quer/não pode pagar.

não há espectáculos desde Junho. portanto, não há dinheiro a entrar...
não há produção em Agosto,porque os "todo-lo-mandas" deste país e respectivos assessores, secretárias e empregadas da limpeza vão de férias. por escala. ou seja: na primeira parte do mês vai o patrão e é preciso uma assinatura ou um parecer, na segunda parte vai o assessor e sem ele a reunião não tem efeito. continuidade da produção? em Setembro... ou melhor, a partir de 15, 20 de Setembro.

juntando estes três factores, encontramos o trauma de Agosto para quem trabalha no mundo do espectáculo: não há dinheiro a entrar, a produção é fraca, e o patrão pode, se bem o entender, suspender o trabalho durante um mês para poupar.

assim, vejo-me na obrigação de ir de férias. sim, obrigação. apesar de precisar de não ouvir aquela voz sempre a 200 à hora durante uns tempos, de descansar os olhos do computador e de dormir, eu gosto de ser EU a decidir quando vou de férias: por causa da companhia e das possibilidades financeiras.
resumindo: tenho de aguentar o ordenado de Julho durante o mês de Agosto e chegar para em Setembro ir trabalhar, só recebendo no fim desse mês...

ora, portantos, ele não pode haver o "pegas no carro e vais à praia", ou "vai ler para uma esplanada com uma jola à frente" ou o "pegas na tenda e vens passear com os outros veraneantes abandonados de Lisboa". não, senhores, comigo terá de ser a reclusão total.
eu, a gata, o terceiro andar de exposição solar total sem direito a nortada e a ventoinha.

antes de entrar em total colapso de frustração (porque não pude ir de férias quando queria porque o trabalho era demasiado e depois deixei de poder e agora tem de ser e estou sem dinheiro e sem companheiro de aventuras), resolvi passar a minha primeira tarde em boa companhia: um elegante escabeche no banco porque me emitiram 4 cartões de débito para a mesma conta d.o., um longo passeio pela Almedina com direito a encontro imediato com os senhores Pratt e Manara no mesmo livro, e um chá com o Gabriel (o Márquez) e a Colher de Chá numa esplanadinha.

manter-vos-ei, quanto possível, a par da fantástica actividade que pautará as minhas férias. por isso não contem com muitos posts.

parece-me que terei de me despedir como tantos bloggers com o cliché: então boas férias, hã...

quinta-feira, 27 de julho de 2006

do desejo

prepara-se a turma para a apresentação final do workshop de teatro. emoções cansadas, demasiado tocadas, desabituadas nas suas redomas de segurança do dia a dia. ali são exploradas e quase violadas. e sabe bem a exaustão da reunião de olhos inchados, narizes a fungar, membros sem força, todos em círculo no fim.

- sabem que no dia do espectáculo pode acontecer tudo... o teatro é de facto um mundo mágico. é uma adrenalina imensa, fortíssima. é uma sensação de prazer... olhem, melhor que o sexo.
risos nervosos.
silêncio.
- mas sabes o que consegue ser ainda melhor que essa adrenalina?
- hã?
- é fazeres sexo no palco...

quarta-feira, 26 de julho de 2006

o vestido


[ms]

vou vestir-me de mim. não espero outros ventos. podem não chegar. nos dias em que o tempo não corre, não valem a pena as palavras amarguradas. acredito em fases más, em tristezas, em soluços, em solidões. não acredito em olhares eternamente torturados. desconfio deles. normalmente inspiram demasiado egoísmo. e cansa. cansamo-nos nós de nós próprios. e depois cansamos os outros.

tudo são gestos. desde umas águas-furtadas e lençóis brancos com sotaque ao girassol ali bem no caminho de quem vai do parque de campismo para a praia nos únicos quatro dias de férias deste ano. pequenas provas são-nos dadas todos os dias. pedaços de suspiro que finalmente chegam com o perfume do descanso. um amigo que aparece para uma noitada de conversa. ou um almoço inesperado. mais do que satisfações egoístas, são motivos.

hoje, amanhã. logo. logo se vê. não.

vou deixar de me desperdiçar. hoje são cores claras. azul, muito azul. do céu da minha cidade. uma saia que flutua. Chiado abaixo, Príncipe Real acima, Graça afora, Alfama adentro. mas não sou de modas. a saia flutua também pela noite do subúrbio, casa, ninho, bola de sabão, redoma de cores e sossego. flutuo também no subúrbio. e depois? onde as fotos nas paredes se acumulam. devagar, ao ritmo quente de quem dança com gosto e sem medo de ser feliz. momentos, disparates e recordações, antiguidades e estórias, tudo bem exposto, com honras de museu. espero os dias mais felizes do pó de palco. de mão dada. dar histórias. dar um corpo. dar a voz. dar as lágrimas. aí sim, tragédias de três em pipa, venham as mulheres perturbadas, as loucas e as depressivas!

por enquanto?

ouço rádio, ansiolítico para o bolso vazio que não, não me deixa ter os cds todos nem saber tudo de cor. a minha vida sempre teve banda sonora. como se pode. leio aos golinhos. como que a aproveitar uma simples água fresca na esplanada ali do elevador, num dia de calor. porque as páginas não duram eternamente, mas as palavras sim. e enquanto não pode ser outro livro, junto os tostões e vou lendo aos pedacinhos. viajo assim, levam-me por enquanto os olhos: hoje estou em Bali. um destes dias vai dar para ir ao cinema. ou ao teatro. ver o quê? interessa?

mais do que uma forma de me exibir numa montra fútil de intelectualidades e masturbações umbilicais, são simples formas de me complementar, de me preencher, de me entreter.

flutuo então, na minha saia fresca. de princesa, sim, e depois? preciso de ser leve. do que é simples, como sempre fui. e posso voltar a ser. se há a aprender com os erros, tropeções e desesperos, aprendamos. e o que é bom é para conservar e apurar. venha de lá mais uma gargalhada de menina.

visto por isso a tal saia de princesa. e o sorriso, bem justo, bem rasgado, em decote, descarado, sincero.
é o meu melhor vestido de festa.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

do patrao #5

[cada um no seu computador... silêncio...]

- opá, porque é que não consigo ver o Helder?
- o Helder?
- sim... existem e os Helders e os Shoulders. ah! já está. eu estava aqui ó tio ó tio que não via o Helder...
- tens aí a opção... change from Header to Footer.
- pois, já vi... anda lá, Helder!

[isto hoje está uma riqueza...]

do patrao #4

- ó polegar, esse computador tem uaiuôze?
- tem o quê?
- uaiuôze! aquilo dos fios. que apanha do ar. e o coiso... do blutu...
- ah, wireless!
- isso.
- tem wireless mas não tem bluetooth.

[silêncio]

- [canta] I you be a uaiuôze, uaiuôze, uaiuôze.

do patrao #3 - crise dos quase quarenta

e uma pessoa assiste a isto...

ele - ai, credo, nem acredito. é que é como se fossem quarenta anos! quarenta anos! e eu estou nesta vida! como? imagina só... se eu tivesse levado a vidinha normal que toda a gente leva... era... deixa cá ver... bancário! sim, bancário. já tinha uma casa muuunto grande... e um crédito para pagar a casa... e era casado... e tinha filhos! filhos, já tinha filhos! já me imaginaste isto? e depois, depois levava-os ao oceanário! mas não era para pedir patrocínios! cá agora! não, ia com as criancinhas ao domingo ver os peixinhos... sim, e ia ao teatro, pois ia... mas era a pagar! pagar o bilhetinho! com o cartão de crédito!

ela - já viste, até cartão de crédito tinhas...

ele - pois era! mas uma pessoa mete-se nesta vida... mas que raio. e depois deixar? como é que consegues? é uma coisa medonha! fica-se com uma sensação... uma sensação... que... que... sabe deus! não sei dizer. olha, se largares morres.

ela - por isso é que cá andamos, maluquinhos, com este vício da trampa, sem um tostão.

ele - eu queria era poder começar de novo... nascia e... mas não nascia cá. é que nem pensar! nem cá nem em África, que isto de ser preto é uma merda.

ela - e ser branca e nascer em África, hã? é pior!

ele - é verdade. isso deve ser horrível. mas também não queria nascer no Brasil. podia calhar a nascer pobre. não. tinha de ser num país nórdico. dos ricos...

ai, senhores, a risa...

sexta-feira, 14 de julho de 2006

bom dia



[foto de ms]

"Pois se eu agarro as coisas com estas minhas mãos, e sirvo-me delas, e uso-as, e gozo-as, e gasto-as até ao fim, sem deixar perder um único pedaço, e depois não fica nada, as mãos ficam-me vazias! Vazias! Exactamente como se nunca tivessem pegado em nada deste mundo, como se não tivessem nunca feito nada, como se eu nunca tivesse nada nestas minhas mãos![...] Farto de fantasias ando eu até aos olhos! "
Pierrot e Arlequim, Almada Negreiros

... ou: há dias em que se acorda com o rabo virado para a lua...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

fotossintese


[fotos ms | montagem polegar]

do Gr. phôs, photós, luz + síntese
s. f.,
combinação química causada pela acção da luz;

Bot.,
processo químico através do qual os vegetais e certas bactérias e algas azuis produzem a sua própria matéria orgânica, a partir de energia luminosa e de substâncias simples, como a água e o dióxido de carbono, libertando no processo oxigénio para o meio.

terça-feira, 11 de julho de 2006

vazio com pedaços

cinza de cinzeiro, cinza de chuva, cinza de grafite.
branco cego amarelado que seca os olhos embaçado de um respirar pesado que se cola. vozes ausentes de vidas paralelas, arrumam carros, assombram a janela, que, aberta, deixa passar na estrada e roer nos ouvidos os bichos de metal e as caras enfadadas. marasmo de azias, modorra que arranha o sentido dos passos, cerveja mole sem lábios de espuma.
há dias em que a cidade se pega aos pés e não os deixa andar. não deixa. regressar e ver-te estendida nas sete colinas fez-me chorar. às vezes não te vejo as cores dos prédios, vejo apenas paredes cinzentas a desabar-me no ânimo. a esborrachar-me a vontade no chão sujo. a esventrar-me num qualquer beco sem saída. por ora não me lambes as feridas. só me sugas, desencaixas-me, onde perdeste o meu relógio?

mas sei que algures me escondes o chão prometido. sei-te os cheiros do cimo do elevador, o livro do entardecer. sei-te o colorido debaixo do véu dos escapes, os ombros azuis da noite, dourados do dia, rosados da minha hora. sei-te as músicas nas ruelas que me sopram ao ouvido, sei-te os ritmos que me afogam o pensar, sei-te o sossego da lua no calcário e os segredos ventados do rio. sei-te as mãos dadas e os risos dos amigos.

chet baker. electricidade estática nos dedos. chuva de canela no lençol.

"no meio do caos, há apenas uma constante".