sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

5, 4, 3, 2, 1...


imagem encontrada no google, ah pois...

já vesti, como manda a tradição da minha avózinha, umas cuequinhas azuis. para dar sorte.
agora, é esperar pela meia-noite e deixar a data mudar. espero que não usem confettis...
a minha banda sonora, como boa sagitariana com ascendente em aquário e lua em touro*:

don't look back, don't look back, don't look back, don't look back
I will buid my world,
I will sing my songs
I will keep my helmet on...
[The Gift - Am/Fm]


*(optimista, sonhadora e impulsiva, ascendente em lutadora e intuitiva, lua em esteta e pragmática)
*(ou: idiotamente crente, estouvada, ascendente em teimosa e tosca, lua em manienta e bruta)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

entretantos

no ano novo todos fazem resoluções. que normalmente não cumprem. defendo que se deve lutar pelas coisas todos os dias do ano, fazer com que aconteçam. não vou fazer dieta, não vou deixar de fumar... e se achar que devo, fá-lo-ei... em qualquer dia do ano que resolva.
porque o novo ano não me resolve. hoje há sempre 365 dias fresquinhos para estrear.
dizem que há sempre esperança. tenho-a sempre e nunca a tive.
há sempre motivos para sorrir, todos os dias. por mais que a alma chore.
deixem-me chorar mais um pouco. os sorrisos vêm, por inerência, por contraste, por complemento, por afinidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

one big happy family


nokia by thumbelina
já é uma tradição tão cerrada como a roupa velha ou as fatias douradas do meu pai. quando cá está a família toda vamos ver as iluminações de Natal. com ou sem espírito, toda a gente se deixa vaguear por ali, ignorando o mau ambiente. de mão dada com a minha prima, e em amena cavaqueira com a minha irmã e a minha tia, fui disparando com um presente que ofereci a mim mesma (com pontos, muitos pontos)...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

nota mental II:

se a mãezinha tem uma predisposição para inventar pratos estranhos e saudáveis (bleargh), NÃO lhe oferecer o Culinário da Assírio e Alvim...
ou então, comprar Kompensans...

domingo, 26 de dezembro de 2004

nota mental:

por mais que a mãezinha faça beicinho e tenha direito a gostar das suas músicas, NÃO oferecer o cd do Russel Watson, se ela tiver aparelhagem na cozinha...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

aconchego

em desassossego percorreu o corredor e pôs-se em frente à janela...
- é quase meia-noite, o Pai Natal deve estar aí a chegar. vai ver se o vês...
as palavras aceleravam-lhe o coração e rebrilhavam-lhe nos olhos mil fantasias.
de olhos fixos no céu escuro e pontilhado, tentava adivinhar um movimento.
passou uma estrela cadente. fervorosamente, repetiu as palavras que a avó lhe ensinara.
- deus te guie, deus te guie, deus te guie.
para não cair na terra e dar um desejo, que pediu, de alma aberta. perdido nos entretantos de memórias de tantos sonhos e desejos por estrear.
e perdeu-se em fantasias cor-de-rosa em que as almofadas eram as nuvens e as lanternas as estrelas. no encantamento sentiu a lua a fazer-lhe festinhas no cabelo com as suas mãos de vento. era a avó, que vinha ver se ela estava sossegada. pôs-lhe a mão no ombro, respeitando o silêncio prescrutante. e ficaram as duas a ver se aparecia o Pai Natal.
de repente, do fundo dos seus sonhos soou uma campainha.
deu um salto e de mão dada com a avó, correu pelo corredor até ao sapatinho por baixo da árvore de Natal. mergulhou nas cores, que rasgou, de olhos gulosos...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

mensagem de natal

independentemente de tudo, não custa nada e sabe bem desejar coisas boas.
aconchego, calor e paz.
para todos.
bom natal.

natal e lua cheia

deveria já sentir-se o cheiro da canela e dos fritos, da lenha a crepitar, o quentinho do forno sempre a funcionar, e da lareira. devia haver o sussurro das últimas prendas a serem embrulhadas, num vago secretismo maroto. devia sentir-se as vibrações de carinho e ansiedade pela chegada dos nossos tão queridos que chegam amanhã. que são inerentes a esta altura do ano, sempre, cá em casa. devia começar-se a espalhar velinhas pela casa. pôr as prendinhas pequeninas para aqueles que não estão debaixo da árvore. encher o frigorífico com o aprumo e dedicação, já salivando com a perspectiva dos pratos compostos. devia haver música, independentemente dos gostos. sorrir-se com a ideia de uma noite de natal com todos os que sempre importaram juntos de novo, sem hipocrisias, e com o facto de ser uma noite fria, límpida, de lua cheia, ou quase.
todos os anos o temos conseguido, bem ou mal.
este ano, a casa está fria. em todos os sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

tou-me nas tintas

cortei a banana e a pêra em pedaços não muito pequenos para ele não se engasgar. tudo num pires, um garfo e um guardanapo. o meu avô está a lanchar. a casa está vazia.
enchi uma taça com água, peguei nos pincéis e entrego-me.
deixo a tinta verter no pires, passo-lhe com o pincel, sinto-a esticar na superfície de madeira e cortiça, os cheiros suaves do acrílico. os dedos pequenos começam a ficar sarapintados.
misturo cores, criando o meu próprio arco-íris, a minha paleta.
enquanto tento fazer de um quadro de cortiça uma prenda de Natal bonita e original, ponho um cd a rodar. e ao ouvir o refrão lembro-me de um trocadilho...

...how are you doing?

I'm doing for music,
I'm doing for love
I'm doing for everyone around me
Music [The Gift - Am/Fm]

[m/p]erdas II

já que tou na mó de baixo, vou exorcizar as desgraças todas de uma vez. este blog também serve para isso. não interessa um pintelho, mas a mim também não.

há os clássicos:
o carro (única forma de comunicação com o mundo) que avaria a cada semana.
as operações multi-anuais ao meu pai, que de repente se vai abaixo com um problema qualquer novo (desde hérnias, a calcanhares desfeitos, a polipos).
a depressão da minha mãe, desde que a minha avó morreu.
a máquina de oxigénio do meu avô.
a casa que me tiraram.
a gata que não é minha.
a vida que não tenho.
o trabalho que faço por amor e não me dá dinheiro, e agora me descartou.
o trabalho que não tenho por querer poder fazer o que me descartou.
a desilusão para os pais de uma menina de notas máximas e quadro de honra que deixou a faculdade para fazer teatro.
o dinheiro que não tenho para sequer passar a passagem de ano com amigos.

agora há uma nova:
admiro imenso o meu pai. é um autodidacta e conseguiu uma distinta carreira de director comercial de uma empresa por mérito próprio, subindo a pulso e inteligência como poucos. a minha mãe também trabalhava lá. tinham uma vida desafogada. dedicaram-se mais de 20 anos àquela casa (outra...). há uns 4 ou 5 anos (no mesmo ano em que a minha avó morreu), o meu pai teve de fechar a empresa que geria. porque o sócio (que não percebeu nunca patavina de gestão) achou que era esperto e resolveu, um santo dia, começar a meter o bedelho nos negócios. fazia acordos estranhos. comprava presuntos pata-negra e fazia jantaradas com os clientes e tava-se a marimbar para os problemas financeiros. acabou por vender a empresa a uma multinacional, que a extinguiu. leis de mercado para os maus gestores. lei de murphy para os demasiado empenhados.
os meus pais estão desempregados. ainda não têm idade para reforma.
agora veio a notícia de que lhes vão congelar as contas todas.
por falcatruas que não fizeram.
o sócio? (e meu malfadado padrinho - ao estilo mafioso mesmo)
está de férias no brasil. gordo e rico.

merry fucking christmas.

[m/p]erdas

dois anos e meio. de dedicação. quando mais ninguém via ali uma ponta de interesse, eu estava lá. a batalhar, a tentar que evoluísse. falo de um lugar, mas também de um lar. que pensava que tinha. ali uni uma família desconstruída. consegui que muita coisa acontecesse apesar da grande percentagem de improbabilidade. apesar dos "o que é que estás lá a fazer". apesar de perder dinheiro de cada vez que ia para lá. fazia os 30 km com dedicação e noção de que tinha de ser, se quisesse que algo acontecesse. ensaiei até às 8 da manhã sem replicar. pintei chão. colei cartazes. lavei camarins. cosi panos. acendi luzes, carreguei no play nas alturas certas. subi e desci volumes. vendi o produto. vendi bilhetes. fiz os telefonemas todos. lutei com um computador no seu leito de morte e ganhei. fiz cartazes. textos de promoção. traduções. dirigi actores. dirigi alunos. dirigi desânimos. trouxe bolas de berlim de madrugada. dei boleias a quem não tinha como ir para casa.
tive de sair por dois meses. avisei com um ano de antecedência e honrei o compromisso de que voltaria de braços abertos. deixei também tudo preparado para agarrarem uma oportunidade que os poria de novo na mó de cima.
e agarraram.
mas chegou o momento de distribuírem papéis. e eu não estou na lista.

mais uma casa que mobilei, a que dei alma. e que perdi.
merry fucking christmas

portas de vidro

uma miúda só, no meio da multidão de sacos e músicas de Natal. paragens em lojas, sem olhar para as montras. já tenho o moleskine com pautas para o irmão músico... era a prenda maldita. resolvido. ainda em busca de um quadro de cortiça para pintar (que o dinheiro não dá para mais), recebo um telefonema. corro ao hospital, para dar apoio moral ao meu pai. a minha (outra) avó está no hospital. uma mulher com quem não tenho laços particularmente fortes. a quem desde sempre ouvimos queixas melodramáticas-hipocondríacas. o vizinho tinha uma doença e ela no dia a seguir também já a tinha. como na história do Pedro e o Lobo. agora é a sério. "problema grave nos intestinos, que provavelmente já chegou a outros lados". porque é que os médicos não dizem as palavras "cancro com metástases"? lá vem outro Natal daqueles, penso. cá em casa é assim, sempre assim. há sempre porcaria da grossa na altura das festividades. é sempre um Natal ensombrado, caraças. espero o meu pai, que está a resolver problemas com uma médica narcoléptica (fica para outro post, porque é realmente paranormal). observo tudo à minha volta. recebo o ar frio no rosto, encostada à parede, em frente à ambulância vazia. do outro lado das portas de vidro, gente disposta de frente para a televisão respira o mesmo ar rarefeito, suado, doente. numa sala fechada, em que todas as portas têm o sinal de sentido proibido. excepto a da casa de banho. de onde sai um homem com uma chucha, que entrega a uma mulher que tem uma bebé sorridente no colo. velhinhas, muitas. de ar cansado e olhos postos no nada. à espera. gente com a cabeça enterrada nas mãos, levantam-na de cada vez que há um movimento, na expectativa. ouço os seus suspiros sem som. estou (demasiado) habituada a hospitais. mas desta vez não fui capaz de entrar naquela sala.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

querido pai natal:

este ano gostava de te pedir
::umas meias às cores
::um dvd
::um livro
::capacidade de conformação

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

branding

depois de criar 114 envelopes no word, dizem-me que há 40 postais e envelopes disponíveis no escritório...

banda sonora para o momento em que carimbo os postais existentes e me marimbo nos restantes:
forever more [moloko - statues]


janela sobre a calçada

estou sozinha. não me apetece ir almoçar sozinha, mas eventualmente terá de ser. porque tenho fome. na janela do tal prédio em obras, mesmo aqui em frente, está um pombo a olhar para mim. está sol. mas o aquecedor está ligado. ainda não pus nenhum cd, e o silêncio agora incomoda.já fui 3 vezes à janela. [...]
um bairro em silêncio e ebulição. os putos devem estar a passar. hoje tenho uma surpresa para eles: as colegas ofereceram-me um frasquinho de bolas de sabão...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

ah cão! - parte 5 e 20 da tarde

a patroinha deixou a lista de afazeres: enviar postais de Natal para todas as empresas que colaboraram conosco deste ano. tendo em conta que recebemos centenas de estagiários e fizemos dezenas de visitas técnicas, seria à partida um desafio light. mas depois há que ressalvar que a bosta da lista de contactos está completamente desorganizada (não me tiveram cá tempo suficiente, e, apesar de ter começado um tipo de organização, mal saí, recomeçou a balda) e elas não apontaram metade das pessoas com quem contactaram para conseguir as ditas visitas e estágios. tive de pescar os contactos um a um de documentos soltos, descobrir endereços e nomes de pessoas do ar. isto levou-me o dia todo. depois era imprimir os envelopes. só. vai daí, o assistente de impressão em envelopes crashou, e com ele os documentos word todos. recuperei o dos endereços, mas daí a a pouco, não sei como, o ficheiro estava em branco. tenho de recomeçar tudo de novo. são 5 e 20 da tarde... as cartas têm de seguir amanhã... mas porque é que neste escritório em que tudo se faz em computador e via net, não se manda um e-card????????????? e porque é que os sagrados* mecânicos não me ligam com novidades do meu carrinho? porquê eu, porquê???

*leia-se fdp

ah cão!

acordo cedinho, que a vida não está para menos. saio a correr porque quero estar cedo na paragem do autocarro. o autocarro chega 15 minutos depois da hora, por causa do trânsito. por causa de se ter atrasado foi apanhando o dobro das pessoas pelas paragens. chega à da minha terrinha (que é a última antes da autoestrada) e "só entram 5 pessoas, peço desculpa". tuuudo bem. espero mais um cigarro, chega a outra camioneta, vazia, claro. chego a Lisboa. apanho o metro. o meu carro está pronto, tenho de o ir buscar ao Areeiro. chego lá. ainda apanho um pedaço de conversa: "e depois ela foi a um desses médicos naturais..." "naturalista." "sim, isso". pago pouco, parece que foi só um fusível. saio contentinha. na 2ª circular o carro pára. outra vez. não, outra vez não... ligo para a oficina, pergunto se é para os apanhados. mandam lá um senhor (por sinal num carro de um cliente, com os plásticos no assento). ele troca o fusível e segue-me de volta à oficina. armo outro escabeche, eles que nem pensem cobrar arranjo nenhum, deviam ter-se lembrado de ver qual era o motivo de os fusíveis rebentarem antes. lá baixa os olhos e escreve "reclamação". saio a fumegar. o pequeno almoço já desceu há horas, mas estou atrasada. metro. Martim Moniz. subo as escadinhas de calçada com laranjeiras e desço a rua. aceno ao dono do cafézinho, mas hoje não dá para segundo pequeno-almoço, de bica e bolinho de manteiga. subo as escadas do prédio. ligo o computador, escancaro a janela. cheguei...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

serendipity

provavelmente a palavra mais bonita do inglês.

penso no cigarro que não tenho porque é de noite e o maço acabou. não tenho onde ou como ir comprar mais. leio-me e desreconheço-me. mas também não.
como umbigos mais altos se impõem, vou ter de acordar cedo, mais cedo do que preciso. vou onde fui indispensável e me dispensaram até ver. suspenderam a dispensabilidade porque há reunião em Sevilha e eu dou jeito. chama-se capacidade de desencaixe. raios, detesto almoçar sozinha. lá vai ter de ser. vou ver se almoço tarde para ver se os putos sobem a rua aos berros e me fazem sorrir. costuma resultar. ao menos vou poder usar o computador grande. tenho de levar um cd giro. o silêncio esmaga. deve estar frio lá em cima. espero que esteja sol. sempre aquece a vista. ainda tenho umas compras para fazer. não tenho tempo. mas tem de ser. pode ser que encontre as tais pantufas.
bem, ao menos estou fora de casa...

1.5. comente a imagem



esta é a Maria. a Maria é a minha gata. nunca gostei particularmente de gatos, (always been a dog person) mas sempre lhes achei piada... acho-os estúpidos, que é a minha forma de dizer cómicos. porque é que a Maria é a minha gata e os outros não? não sei. sei que me apaixonei por ela quando a vi. síndroma de Garfield, se calhar... é amarela, minúscula, gordinha, tem os olhos da cor do pêlo, mais arredondados que o normal. tem 4 meses, e é metade do irmão. tem o pêlo muito muito suave, tipo angorá. é meiga e brincalhona, e não é agressiva.
era a Maria que eu ia levar para a minha-casa-que-não-é-minha-e-que-já-não-vai-ser.
a Maria está a crescer. já não vai aprender a ir ao caixote e metê-la dentro de casa agora, depois de se ter habituado à vida livre e selvagem, parece-me maldoso.
talvez um dia a Maria tenha uma filhota ou filhote, mais pequeno que o normal, amarelo e brincalhão, macio e meigo, de olhos mais arredondados que o costume. e eu já tenha uma casa-minha-só-minha.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

kidding, right?


desculpa lá Roy Lichtenstein

ora estou a 300 e tal km de casa, onde, convenientemente, deixei a carteira esquecida. é fim de semana e estou em trabalho. já vai alta a noite, como na canção do outro. estou perdida no meio de Oliveira do Douro. à procura de um salão de festas, numa quinta dessas finórias, onde vou animar 200 macacos de gravatas e/ou saltos agulha no dia seguinte. tenho de os ensinar a fazer ritmos e tocar xilofone... não perguntem... a equipa que deveria preparar o evento tá dispersa, atrasada, metade deles ainda vem a caminho. quero chegar depressa, para preparar tudo o que me diz respeito, voltar depressa e dormir um par de horas, já que no dia a seguir tenho de estar aos saltos e muuuuito animada. ando às voltas, e voltas e voltas, e o estupor da terrinha parece cada vez maior e mais labiríntica. já não sinto o rabo. dói-me o joelho porque sou pequena e não consigo pousar o pé confortavelmente no acelerador. o mapa só ensina um caminho, com o qual não dou. já passei 3 vezes pelo talho. e outra 2 pelo presépio e pelo cemitério.
o carro pura e simplesmente pára.
no meio de uma rua perdida em Oliveira do Douro.
e não lhe apetece mexer mais.
está um grizo que não se pode.
o reboque chega antes do gajo que anda perdido em Oliveira do Douro à minha procura para me dar boleia de volta. não sinto os pés.
fiquei sem carro.

demoram 3 a 4 dias a trazê-lo para Lisboa. (mais outros tantos para justificar as horas e horas de mão de obra que me vão cobrar pelo arranjo). tenho os dedos dos pés azuis.
fiquei sem carro.
voltei para Lisboa de boleia com a B. os macacos gostaram dos xilofones.
é a semana antes do Natal, tenho montes de tralha para comprar.
fiquei sem carro.
moro a 30 km de Lisboa e a última camioneta para casa é às 10 da noite. não há comboios, metro ou amigos nas redondezas.
o carro veio da revisão há um mês. passou na inspecção há 3 semanas.
...
pausa para respirar
...
tenho de ir à bruxa, arranjar uma pata de coelho, uma ferradura, um trevo de 4 folhas...
ou um carro novo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

pente 0

detesto ir ao cabeleireiro. prefiro ir à ginecologista ou ao dentista, a sério.
a saga é inexplicável. já experimentei os cabeleireiros de bairro, os da moda, os gays, as senhoras com madeixas suspeitas e mola na cabeça... o problema deve ser meu, só pode.
começam por me olhar de alto a baixo... o meu cabelo escuro, liso, escorrido e oleoso não representa (como deveria!) um desafio. perguntam-se antes porque raio é que fui ali e não ao barbeiro fazer um pente 0.
tentam impingir mil e um produtos para lavar o cabelo que, por mais que eu diga que não tenho dinheiro para comprar, acham sempre indispensáveis. a parte porreira é lavar a cabeça... sabe tão bem. porque é que nunca têm cotonetes?
"como é que vai ser?" aaaahhh! esqueça, vou andando!
já experimentei dizer para fazerem o que quisessem. já tentei levar uma foto. já estudei o léxico. já fiz por gestos. já usei metáforas (a melhorzinha ainda é "queria assim um corte bem-disposto", ao menos saco um sorriso). sai sempre ao lado. suspeito que sofro de uma terrível incapacidade de comunicação crónica com os cabeleireiros.
ao som das tesouradas, vai-se-me apertando o coração com aquela sensação do irremediável. agora já não há nada a fazer. ai senhores que não era nada disto. se calhar seco fica bem.. mas... mas... eu não pedi... mas... mas... aiiii tem aí fita-cola?
eu queria ter o cabelo compridão, sedoso... mas não há dinheiro para extensões e esperar anos não me parece. já que não posso ser elfa, lembro-me dos cortes drásticos que já fiz, que me dão um ar de hobbit rebelde, com a vantagem de ter pés bonitos. por falar nisso tenho de voltar a pintar as unhas dos pés de azulão. e deixar de roer as das mãos. é que assim os dedos parecem tortos. estes dedos não servem para tocar piano, tão pequenos. sempre quis tocar piano. ou guitarra ou bateria. eu até tinha jeito para os ditados melódicos...
isto é o que passa na cabeça de uma pessoa que está a ouvir as tesouradas e tenta não as ouvir. tento não olhar para o espelho. mas os meus olhos não fazem o que mando. não querem ler a Maria.
depois ficam surpreendidos porque não pinto o cabelo, nem tenho permanentes. da última vez disseram-me que tinha um cabelo "selvagem... assim em estado selvagem, percebe, menina? é todo natural, não tem coloração nem nada... é mais complicado de moldar"
ah.
depois secam. enrola, puxa, cai cabelo, cai, já tenho muito, não é?... eu sei o que vai acontecer a seguir, eu avisei-a... pois... o meu cabelo começa a ficar com electricidade estática e a colar-se à minha cara. aí puxam da artilharia pesada - gotas, cera, espuma, creme... - e dizem "pois, isto em casa você com ele molhado põe-lhe disto e depois dá-le um jeitinho com o secador e escova, é um instante"(leia-se "estante"). ó minha senhora eu não sei, não quero saber. eu expliquei assim que me sentei que tinha de ser uma coisa prática, que desse para lavar, secar e já 'tá... "ó menina, mas é fácil". isto enquanto fazem o balletzinho do espelho à nossa volta e nos passam a escova para tirar os cabelos que não caíram no chão. ainda me apetece ajoelhar, e atacar a senhora que vem aí com a vassoura... "nnnãooo! é meu, todo meu, larguem-me! vou pô-lo numa caixa e vou tirar um curso de química por correspondência, e descobrir uma fórmula para o voltar a colar! vocês vão ver!!!" penso, enquanto com um sorriso amarelo vou dizendo que 'tá óptimo.
saio de lá, enfio-me na casa de banho do primeiro café a molhar o cabelo, para ver se remedeia. a mentalizar-me que "aquilo" que vejo no espelho sou a nova eu. é só mais uns meses e logo ganha uns jeitos engraçados... meses?!?!?!? AAAAHHHH!
só queria cortar as pontinhas...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

centro comerciargh!

é natal, é natal, tralalalalá... uma pessoa enche o peito de ar, inspira o ar frio, recebe o sol brilhante no rosto, e pensa em lareiras acesas, a família reunida, as azevias, as fatias douradas, o bacalhau, o bolo-rei, os sorrisos das crianças iluminados pela árvore de Natal e pelas cores dos embrulhos que rasgam com um ar possuído pelo demo.
como de costume, as boas intenções esvaem-se e deixa-se as compras para Dezembro... meados de Dezembro na melhor das hipóteses.
a minha família (leia-se núcleo familiar, a malta cá de casa, tipo 6 pessoas) faz TODA anos nesta altura (excepção feita para a minha mãe, que faz em Janeiro...). Começa a 20 de Novembro e só pára no Natal... eu estou desempregada. e moro longe...
pensei em fazer umas coisitas manualmente, aquilo dos presentes feitos com amor, a tal da "intenção é que conta"... claro que depois vejo as listas de cada um (sim, temos de fazer listas porque ninguém nunca faz ideia do que é que as pessoas com quem se vive o ano todo gostam - "tu és muito esquisita, é melhor fazeres uma lista") e percebo que vou ter mesmo de gastar dinheiro, porque ficava mal, não é...?
ainda por cima somos poucos... reduzidas as pessoas ao mínimo, ficam 12... não estão todos conosco no dia, alguns durante o ano não lhes pomos a vista em cima, mas temos de gastar dinheiro com eles na mesma...
isto a uma média de uns ridículos 15€ (suspiro... quem me dera) por pessoa já ficaria anedótico de insustentável.
hoje, estava num shopping à espera da V e do M, para jantarmos.
observei o mundo, um defeito que tenho...
lá estão... as decorações vermelhas e amarelas, os verdes falsos, as luzinhas a piscar, o Kenny G. e a sua gaita, os casais jovens - elas bexigosas e maltrapilhas, eles pançudos e carecas -, as grávidas com ar de mártir, os gajos a fumar à porta das lojas, ou de bigodes colados à montra da uma loja de electrodomésticos a ver a Sport TV, as avós perfumadas com mata-ratos e os netos ranhosos a arrastarem-se no chão e a darem caneladas no mundo porque querem o "Action Man missão na Floresta" e não o "Action Man missão no Bosque" com aqueles berros finiiiiiinhos e aguuuudos, as mulheres com olhares demoníacos agarradas aos caixotes da Zara, as filas intermináveis, inclusivé para embrulhar os chouriços do Continente...
gosto do Natal. a sério... em Outubro já começa a enjoar, mas antes até é fixe...
gosto de entrar numa loja e demorar 2 horas para pagar um gancho para cabelo. gosto que cada loja de roupa tenha as suas medidas (agora tenho de ter uma tabela para anotar as medidas das pessoas por loja E por modelo). gosto dos encontrões. gosto dos paizinhos que usam os carrinhos dos bebés para passar à frente na fila ou pura e simplesmente atropelar e fugir no corredor. gosto de ir com uma ideia bem congeminada do que quero e estar esgotado. gosto do novo conceito de "recebemos sem falta para a semana". gosto que atirem com o papel de embrulho ou caixas "do-it-yourself" para dentro do saco da prenda. gosto de as caixas multibanco nunca terem dinheiro e as lojas estarem com sobrecarga nas ligações à Unicre. gosto dos alarmes que deixam ficar na roupa e nos livros. gosto do espírito de natal nas filas de trânsito para entrar e sair dos centros, e das lojas, e das casas de banho. gosto de ir ao supermercado, e ver uma família de 6 pessoas agarrada a um carrinho com um pacote de pilhas, a passear pelo meio dos corredores como se o WCPato tivesse raios hipnóticos. gosto de receber bibelots. gosto de nunca poder estrear um par de calças no dia 25 porque têm sempre 50 cm a mais de tecido. gosto de ir para casa a trautear Kenny G...

domingo, 5 de dezembro de 2004

word

sentou-se de cigarro na boca. não era particularmente feminina a fumar. deu uma passa prolongada, deixando o fumo sair-lhe dos pulmões para a enrolar em mais um pouco de propaganda anti-tabagista. parecia neblina.
pousou os dedos no teclado, onde escreve mais rapidamente que se for de papel e caneta. apesar do prazer que o papel e caneta sempre lhe darão. não é à toa que, desde miúda, tinha uma pancada por blocos.
pensou em território. pensou em politicamente correcto. pensou em desistir. pensou em colaborar na fantasia diária da sua redoma-do-vamos-fazer-de-conta-que-a-vida-é-assim-e-que-estamos-bem-assim.
pensou com tempo. afinal, não tinha nada para fazer. estava farta de tanta inactividade, mas nem sempre das suas vontades dependiam os acontecimentos. a força falha quando não há motivação. a motivação falha quando não há entrega. os sorrisos amarelam porque tem de se sorrir. é suposto. não interessa a vontade.
sorriu. porque sim. um esgar é sorrir? não se lembrava de nada, mas tinha de ocupar os dedos. tinha uma missão. e as missões dão alento. alguém lhe tinha falado de escrita intuitiva.
mas esperava um apito. estava à beira da paranóia. apagou o cigarro. pôs as ideias em ordem e em poucos minutos organizou-se.
estava feito. por ora, a sua parte estava feita, em 3 folhas de word. agora, era acreditar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

vê se pode?

como explicar a uma mãe que é mais do tempo da máquinas de escrever o que é um i-pod?

"é como teres uma estante cheia de dossiers com documentos importantes.... e muitos cds com músicas... e queres andar com isso contigo ou levar para outro lado. o i-pod é o carrinho de mão com auriculares..."

acreditem, resulta...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

gift

saí porta fora. fiz o meu papel. depois, fui à deriva... afinal, estava cinzento, frio e caiu uma chuvada.
mas abriram-me o chapéu de chuva... via sms...
abriu-se uma caixa de algodão.
e a conversa morna prolongou-se pela noite fora.
fumei cigarros(!)
mostrei as minhas meias novas.
o café aqueceu as mãos frias.
a lua apareceu.

obrigada a todos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004


terça-feira, 30 de novembro de 2004

#1

igual a todos os últimos. vai ser amarelento.
por causa dos sorrisos amarelos. do peso e da lentidão.
talvez vista umas calças novas.
era sempre giro. mas não. agora não.
as caras que se distorcem e contorcem para me sorrir numa palmadinha nas costas, entre fogo falso, e ideias deturpadas do que é a alegria dos outros. faz de conta. hoje também? sim. faz-nos rir, fazes? faço. assim está bem?
sopra...
o vento passa, o tempo passa. há-de ser diferente.
hei-de ser eu.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

fundi o chip

às vezes não sei porquê começo a pensar na vida... como é normal, só pode sair merda, não é?

comecei a pensar muito a sério neste blog. para que é que serve? para nada, basicamente... isto parece os sermões do outro aos peixes... ou uma viagem ao meu umbigo...
estou para aqui com as minhas so-called crónicas de rotina... ou dores crónicas, ou cólicas da rotina...
mas, let's face it... não tenho grande poesia. não sei falar por metáforas. não tenho histórias interessantes para contar. não tenho uma acutilância ou ironia daquelas que dá gosto ler. desisti de saber os nomes dos políticos. não vejo a quinta das celebridades. tenho uma vidinha daquelas que não interessa ao menino Jesus...
é uma vida, como tantas outras.
que contributo presto aqui a quem me lê? sim, tu, ó pessoa...
não presto, não é?

um dia páro de escrever aqui.

gaveta

(de)parei nesta frase.

"Cada beijo redondo, cada promessa de amor eterno, cada riso excêntrico, valem bem cada gaveta da minha mesinha de cabeceira."

e lembrei-me que às vezes o local para se guardar um tesouro é um tesouro em si...

prenda de anos

ainda não fiz anos, mas este ano a prenda veio antes do dia...

qual foi a última vez que experimentaram olhar profundamente nos olhos de um desconhecido?
abrir-lhe o coração só porque sim, sem uma palavra... só de o olhar.
e contar a nossa história sem abrir a boca, e conhecer a história dessa pessoa sem um som...
e dar conosco com lágrimas a rolar cara abaixo. porquê? não sei.
emoção, só.
e os olhos das pessoas são tão bonitos quanto diferentes e plenos de vida e carinho.

este foi o primeiro exercício do "workshop" (não gosto de lhe chamar assim, foi... uma "vivência") que consegui convencer a minha família a oferecer-me... como prenda de anos e Natal... da próxima década...
chegou hoje ao fim.

dizem-me que de cada vez que ia para lá, ia encher o peito de sorrisos.

e era verdade.
foi uma experiência maravilhosa.
chorei todos os dias, faz parte do processo. porque ali a entrega é total, não há medo ou auto-censura. só simplicidade, generosidade, abertura e confiança.
em pessoas que se calhar nem temos a certeza do nome.

e sinto que cresci.
obrigada.

"Cada ser tem sonhos a sua maneira"

domingo, 28 de novembro de 2004

A de A tipo 2

pois acontece que eu tenho gatos...
dentro de casa, fora de casa... e nos pulmões...
sim, tenho asma
sim, sou fumadora.
sim, já sei, já sei...
uma simples constipação neste meu corpito degenera sempre numa garraiada de gatos a miar... os pulmões parece que mingam... e o ar parece que não quer entrar... ó amigo, preciso de oxigénio, não fuja!
ando a xarope, porque não posso tomar bombas (daria em algo como um A de A tipo 1... pois...)
adoro ser "doentinha"... já não me bastava ter 1,58m, ser pobre e morar longe!

mas o que tem piada são os meus colegas (queridos, tão amorosos) aflitos com as minhas travadinhas de tísica (Eça de Queirós Revisited)...
eu bem lhes tentei explicar que não há copinho de água que resulte... à pala deles, já me tinham nascido guelras... eheheh

e ainda me dizem: "para asmática, tens muita pica!".
então n'ávera de ter?
miauuuuu

P.S.: Há dois dias que não fumo... quero um cigarroooooooooooo

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

A de A

dores fortes e contínuas nos músculos do ombro e peito do lado esquerdo.
sensação de pulsação fraca ou desregulada.
tonturas e ligeira náusea.
fraqueza e prostração.
peso no peito.
respiração ofegante mas fraca.
pontadas ocasionais no peito.
descargas de adrenalina, em que o corpo todo treme descontrolado.
eventualidade de começar a ficar com o braço esquerdo dormente (esta então é particularmente simpática).

sensação de que qualquer que seja a posição em que se ponha o corpo, aquilo não passa.
sensação de pânico.
sensação de que se vai morrer já ali.

basicamente são também sintomas de enfarte...
mas é um Ataque de Ansiedade. distingui-los é obra, mas já tou farta de chatear os médicos das urgências... (se calhar um dia é a história do Pedro e o Lobo, mas pronto)

cura? na cabeça, dizem.
mas entretanto, Cloxans ou a alternativa da ervanária, Fórmula 137.
comer bem, a horas, domir tudo o que se precisa de forma continuada, parar com a nicotina e cafeína, tomar Valdisperts (ahahah, esta é para rir) para dormir.

ter motivação, esperança e estabilidade também dá jeito.
mas o stock tá em falta.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

mundo paralelo

há muitos mundos paralelos ao mundo. eu vivo num deles.

esse mundo cheira a madeiras, tintas, colas, cigarros, velas, maquilhagens, roupas, naftalinas, cordas, e a algo que não se sabe bem o que é... acho que cheira a espíritos...
porque ali anda gente que se materializa em corpos emprestados.
saem de uma cabeça para viver num papel até poderem transferir-se para um corpo. que os recebe. que cria os seus outros mundos. que lhes dá uma casa, uma voz, um sorrir, um andar, um pensar.
e esses espíritos apoderam-se de nós. e batalhamos para contar as suas histórias, e as suas histórias fazem-nos viver mil vezes, e chorar, e rir, e andar de formas que não são nossas.
falo num "nós", porque este mundo é sempre colectivo. é sempre fruto de muitas mãos, muitos suores, muitas dores, muitas olheiras. e não existe sem eles.

é obra... implica entrega. incondicional. implica trabalho redobrado. horas de sono que não se dormem. investimento. emocional, também. e quem pisa o palco também pode acender a luz na cara do colega, varrer as casas de banho e pintar, e coser, e ir comprar bolos à padaria de madrugada porque a malta tem fome e não há nada aberto. trazer um simples abraço para combater o desânimo. trazer um cd porque é a banda sonora perfeita daquela história... e adrenalina, toda. a qual só percebemos e conhecemos inteiramente ali. teorizar sobre não vale a pena. e da qual só nos rimos muuuuito depois...

este mundo cruza muitos mundos. imaginários e bem reais. e desse cruzamento nascem outros. voam, materializam-se, para depois rebentar. fica no ar o cheiro. fica na pele a emoção. ficam na cabeça os negativos. fica na boca o "gostinho de quero mais". fica no sangue o bicho...

sacana do bicho... eu devia estar a ganhar dinheiro, raios...


segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Quarto virado a norte

durmo enroscada num edredon espesso, com uma manta polar por cima.
estou a tentar curar os músculos do ombro esquerdo, cansados de carregar a mala e as ansiedades. como durmo de lado, tenho de me tentar virar para a direita. (não, isto não é uma metáfora política, são ordens do doutor).
detesto usar meias para dormir, mas os pés teimam em não aquecer.
mantenho as mãos fechadas, debaixo do pescoço ou da almofada.
uso pijamas de mangas compridas e calças, de materiais fofos e quentes.
tenho um recuperador de calor supra-sumo no quarto.
tapo-me de tal maneira que tenho de escavar um túnel para meter o nariz de fora.
aninho-me, enrosco-me, afundo-me nas 4 almofadas macias.
mesmo assim tenho frio.

Goodnight dear void

I'm not words anymore. I'm me, but I'm not there.
That's why these fragments will never tell the difference
between what fell on the floor and what hit me.
Sometimes pain is just pain
sometimes pain is just me
sometimes I'm just a smile
sometimes I can't be me.
I wish I could I wish I could I wish I could
Take care of me.

sábado, 20 de novembro de 2004

nikey ou a loira

lembro-me de estar a dormir e a nossa mãe, com a sua barrigona, me acordar e dizer-me que está na hora. lembro-me que devia estar frio, porque me atafulhei de casacos e cachecóis. dizem que com olhar de pânico tratei de pôr as tuas roupinhas numa mala, mas só me lembro de sair com um único objecto: um anjinho. em casa da avó, dormi com ela, no quartinho da alegria, e rezámos ao anjinho para nasceres bem.
passámos um infância tramada. entre ataques de asma, pontapés, barbies, mordidelas e pazes forçadas. mas acho que chegámos a um acordo...
e cá estás... 19 anos depois... com os teus caracóis loiros que sempre foram a minha perdição e orgulho. magrinha, nervosa, com esse sorriso maravilhoso que, por muito "castor" que te chamem, eu acho do maior charme. e cheia de poesia, esta menina...
cheia de sonhos, mas com ainda mais medos. menina... sonha, sonha. os medos são inerentes. mas só lá chegas se tentares.
dá as cabeçadas que tiveres que dar nos números e fórmulas, se és feita de letras mas não é nas letras que queres ficar.
faz sempre falta uma psicóloga na família para me curar os ataques de ansiedade...
só não cantes, pode ser...?
beijos e parabéns, mana!

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

office

Tou cá, mas por pouco tempo. Basicamente chamaram-me para fazer 60km para almoçar com elas... porreiro...
mas pronto, valeu o gesto.
E discutiu-se política com um senhor da mesa do lado... E uma velhota atravessou a rua de propósito para nos mostrar os medicamentos - genéricos - que dobraram de preço graças aos políticos do "caralho, que é o pai da humanidade, não é uma palavra feia pois não?"
acho que é uma palavra feia e bem aplicada, minha senhora!

... (suspiro)...

tenho saudades das minhas tabuinhas...

Notification:

Your computer clock may be wrong.
No, mister. My computer clock is perfectly fine, thank you.
The time is the one mistaken.

Let it be light.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

bacalhau


Procedemos agora a uma curta interrupção da emissão, para um momento de poesia insular, da exclusiva responsabilidade de Codfish Michael, com o apoio da Banana da Madeira e autorização do tio Alberto João.
...(ehem, ehem)...

És tã benuita, cheiras a hortlã
Góst tãnt de tui, hã?

;)
Beijuinhes


quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Flores e Cheiros


Hoje ando a pensar em coisas bonitas... Que me punham bem disposta em menina...
As papoilas, as azedas, os malmequeres para os amores. Os girassóis (sempre bem-dispostos, os sacanas), as frésias brancas e as túlipas.
Os meus sonhos com bailarinas e fadas, transparências e fragilidades, eternuridades e magia.
O cheiro das torradas à noite, do chá doce saído do termo dos Marretas, da roupa acabada de lavar, do batom que eu tinha escondido, da minha boneca preta, da terra molhada da praceta, da cebola a refogar e do "frango à maricas" no forno.
O som do vento a passear nas árvores da tal Praceta, os gritos e os risos dos putos, o "homem da chuva", a água a ferver para o chá, os talheres a bater, a minha mochila da escola (sempre maior que eu) com as canetas a chocalhar no estojo, os amigos a mandarem pedrinhas à janela para eu deixar os trabalhos de casa, o tilintar dos pequenos tesouros da minha caixa secreta, a buzinadela que os meus pais davam quando iam embora, a mota do Zé das Cautelas, a fogueira a crepitar nos santos, o meu cão a correr.
Costumo queixar-me da minha memória. Mas estes pedaços de mim estão entranhados na pele.

Papoilas


A esta hora, há 4 anos atrás, ainda não tinhas partido.
Mas também já não estavas cá.
Um sopro de um qualquer anjo (tenho a certeza) fez-te entrar nesse estado que para nós é ainda um mistério. Dormias. Mas não voltaste a acordar.
Eu tinha falado contigo, nessa cama de hospital, e disse-te, baixinho: "Se quiseres ir, descansar, vai, avó. Nós gostamos muito de ti". Umas horas depois, na manhã seguinte, tinhas voado.
Mas ficaste comigo. Eu sei.
Ainda tenho os pés frios. Ainda me lembro de ti de cada vez que calço umas peúgas. Que faço uma gemada quando não consigo dormir. Que ando de baloiço na Praceta. Que masco uma pastilha Gorila. Que vejo pombos no Rossio. Que encontro a forma de um coração nem que seja num bolo mordido. Que vejo uma papoila no meio do nada.
Estão aqueles dias de Inverno que adoras. Frios e brilhantes.
Estou diferente daquela menina que deixaste. Fui menina até me deixares. Durante 20 anos fui menina.
E se sorrio e brinco e rio, é graças a ti. À doçura que deixaste no meu peito. E de cada vez que sou doce, és tu em mim. Isso e a tua postura. Levantar a cabeça, sempre...
Chorei por ti há pouco tempo. Com saudades. Queria-te aqui. Foste a minha cúmplice. Queria partilhar contigo os meus dias tristes e as minhas doideiras, as minhas batalhas. Queria poder ouvir-te a cantar fado enquanto lavavas a loiça. Queria sentir os teus passos ligeiros no corredor e a tua pele tão macia no beijinho de boa noite. Queria colinho...
Mas estás aí, não estás?
Sinto que sim.
Gosto de ti.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Bife, esparguete com ketchup e merdas

Esta rotina que se instala nos tempos mortos em que não há emprego ou trabalho que me tire daqui é castradora.
Hoje foram ao hospital com o meu avô. As complicações nesta idade dão para sustos dos mais variados, mas ele volta sempre, rijo que nem uma maçã reineta.
A parte positiva é que pude estar a trabalhar no computador (unfinished businesses) e a única coisa que me acompanhou foi o silêncio. A máquina que lhe fornece o oxigénio estava desligada, e viveram-se momentos raros e preciosos por aqui.
Neste sótão está frio, acendi o aquecedor. Queria ouvir música, mas não me lembrei de nada que me apetecesse.
Fiquei por cá, a martelar nas teclas, a sentir o sol atravessar o céu.
Depois fui almoçar. A essa hora chegou a minha irmã com uma gripe. Deixei o meu bife a arrefecer à velocidade da luz na frigideira e quis dar-lhe ben-u-rons, leite quente com mel, fazer torradas. O namorado dela fez questão de tratar disso. Sentei-me a comer. Entram os meus pais com o meu avô, liga-se a máquina, dão-me na cabeça porque "o puto é que teve de fazer as torradas para a tua irmã, não tens vergonha?".
Quando há crises graves, normalmente é comigo que ficam os berbicachos porque mais ninguém tem poder de resposta. Fora essas alturas, normalmente era o palhaço. Punha toda a gente a rir. Agora tou farta da paz podre que por aqui se vive, em que ninguém quer saber nada, desde que uma pessoa chegue a casa à hora marcada e não se parta muito a loiça. É um clima egoísta e assumidamente ignorante. E deixei de rir, de dizer piadas, ou sequer de tentar estabelecer contactos, perguntar opiniões, contar os meus projectos. Claro que me olham de lado, ficam meio atónitos por verem aquela pessoa estranha de olhos tristes enrolada no sofá.
Apoio? Só quando está tudo já feito e pronto a consumir, é só bater palmas no fim. Ou então quando estou empregada cheia de olheiras, dores musculares e desanimada, ao menos sou uma "pessoa séria".
Isto muda... Como todas as famílias, é por luas. Mas apetecia-me poder ficar pura e simplesmente a uma distância segura.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Regresso a casa

Cá estou eu... em casa... O meu trabalho acabou.
Mais uma vez, a descartabilidade ataca... Por muito bom que seja o trabalho de uma pessoa, por mais que um gajo acorde às 6 da manhã e tenha o trabalho feito a horas, por muito que até precisem de mais mãos a trabalhar... Não dá... Até de mulas está a fila do desemprego cheia.
Só queria poder pagar as minhas contas. Para poder "independentizar-me" do ninho familiar.
Não me importo de viver com pouco.
Mas estou naquela altura da vida em que queria ter o meu espaço, as minhas paredes para pintar, os meus cortinados para pendurar.
A família não ajuda... Facto. Agora que dava jeito eu ter um projecto real a que me agarrar, há uma casa a ganhar pó (o único escape a custo 0) que não me facilitam...
E ir morar com uma amiga... não tenho nem terei num futuro próximo capacidade financeira de aguentar uma renda MAIS as contas... Desculpa lá, B.
Bem, fica para uma próxima.
Se calhar vou mesmo esquecer as teatradas e virar menina certinha com uma "desk job career" dos sonhos da minha mãe... Se bem que até agora, só me estou a ver com carreira a fazer unhas de gel...

domingo, 14 de novembro de 2004

Fly Away

Tive de ir deixar outro grupo ao aeroporto. Nesta altura já domino completamente a dita estrutura.
Ir ao aeroporto é sempre uma coisa estranha, para mim.
Tenho um pânico terrível de aviões (é que eu não sei voar), mas um desejo imenso de viajar.
Dá-me sempre o impulso de comprar um bilhete e ir. Simplesmente ir... É que as centenas de pessoas com as suas malas, bilhetes e sorrisos rasgados fazem-me parecer tudo tão fácil... Destinos? Qualquer um. Há tantos sítios que gostava de conhecer ou redescobrir.
Tenho uma sede imensa. Mas raramente vou a lado algum.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

muahahahah

Entro na oficina. O tipo vira-se, vê-me, supreendido. Encolhido, pergunta:
- O que é que se passa com a viatura?
(adoro quando tentam ter linguagem técnica no meio da grunhice, tipo jogadores de futebol)
- Sei que você não é o responsável directo, mas neste momento é o representante da empresa: é a segunda vez seguida que venho aqui com a "viatura", com um problema que não existia antes de cá ter estado. Portanto, vocês vão resolver-me isto imediatamente e sem me cobrar um chavo. Se não tem autonomia suficiente para decidir sozinho, chame um seu superior.
Baixou os olhos, passou por mim muito ao largo, o que fez com que fosse bater na ombreira da porta.
Cinco minutos depois, o meu carrito estava a ser tratado. Foi-me devolvido no próprio dia. Sem factura para pagar.
E desconfio que eles estão a fazer uma vaquinha para me oferecerem um cabaz de Natal...
Dominatrix!

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

dasse!

O meu carro foi fazer a revisão.
Dois dias e muitos euros depois, voltou para casa... com uma fuga que não tinha. Voltei lá. Dois dias e outros euros depois, fui buscá-lo... Tem o velocímetro e o conta-quilómetros parados! Não sei quanto a vocês, mas os mecânicos são para mim, certificadamente, a pior raça à face da terra.
O que é que estes energúmeros aprendem nesses cursos profissionais com tanta saída para o mercado de trabalho? Como aldrabar o cliente em 10 lições? Como chupar todo o sangue da carteira da pobre alma que se dá melhor nos cursos de letras? E será que há um limite máximo (negativo, claro) de Q.I. para se poder entrar para o curso? Fazem testes psicotécnicos para determinar se os educandos têm os níveis exigidos de ruindade?
Mas que mal é que a humanindade fez a esta gente? Sim, porque esta é das mais evoluídas formas de seita fundamentalista existentes actualmente! Actuam sob a forma de pobres trabalhadores de batas cinzentas cheias de óleo, ombros curvados, que ouvem a rádio Miramar enquanto limpam carburadores com o seu olhar de cão abandonado, apelando ao mais profundo sentimento de caridade, mas eu sei! Eu sei! É uma cabala! Por detrás dessa inocente aparência escondem-se monstros sanguinários de olhos injectados de sangue e caninos afiados que esperam apenas pela primeira oportunidade para sabotar aquele tubinho pequenino que ninguém sabe para o que é. E já está! Cliente de carro partido, a ter de ir à oficina repôr não sei quantas peças com nomes estranhos de que nunca ouviu falar e que nunca têm em stock: vêm do Japão ou da Alemanha e demoram um mês a chegar, e enquanto se espera cobram mão de obra!
Mas eu estou num estado total de desespero! Eles que me cortem os travões! Não tenho medo de represálias!
Se gostam de circo, compareçam hoje pelas 14:30 na Cimpomotor, ali na Av. de Madrid!
Como grande opinion maker que é, indubitavelmente, este blog, uso de todos os meus poderes para mobilizar ao boicote a esta oficina, que é, certificadamente, a mais estúpida do universo e arredores periféricos!
E hoje vai doer: já vesti as calças de cabedal, vou levar o chicote. "Say my name, bitch!" DECO!

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

gatos

Fui ver o Cats.
O sonho de uma vida... queria ter visto ainda em Londres, mas tive de esperar q passassem por cá...
Ora bem... os bichanos...
São giros, os espectáculo tá engraçado. Mas estamos 1 hora e meia a ser apresentados a personagens que afinal não têm grande coisa a ver com o enredo...
Quer dizer, basicamente também não há enredo.
O que mais me fez impressão foram os meios técnicos... Tão lá atrás...
E o palco é minúsculo: o Coliseu já morreu, pá! É o palco que tem de invadir a plateia e não o contrário, para encher as medidas do espectador, para nos envolver na magia!
Os cenários e as roupas listadas e manchadas dos gatitos confundem-se e exigem que se esteja a esforçar a vista para não acharmos que é o cenário que mexe!
Não, mas o supra-sumo são umas luzinhas tipo de natal que eles têm espalhadas pelo tecto e balcões laterais do coliseu... Que ninguém os deixe passear pelo Martim Moniz e descobrir os barretes de Pai Natal e luzinhas piscantes! Tava tudo tramado.
Mas é um clássico. Só por isso não se deve perder.
De qualidade de dança e representação, movimentação e musical fabulosas.
Miauuu, purrr...

sábado, 6 de novembro de 2004

Há dias assim

O carro esteve na revisão há dois dias e saiu de lá com uma fuga (que não tinha) no depósito do líquido de refrigeração do motor.
No trabalho, o computador que chegou para mim, para deixarmos de fazer a dança das cadeiras, funciona mas não temos monitor.
E esse trabalho acaba para a semana e logo se vê como é das prendas de Natal.
Tou com um quasi-torcicolo por causa do peso da mala, o que me dá dores de cabeça.
O teatro tá parado, e a ressaca a aprofundar-se.
Os meus pais andam de trombas, nunca vale a pena tentar saber porquê, que aquilo varia com as luas.
Não vou a um bar há meses.
Tiraram-me a casa que eu ia ter.
Não tenho gajo, mas ainda acredito no estupor do príncipe encantado.
O tabaco vai aumentar... outra vez.
O Bush ganhou as eleições.
O Portas ainda tá em funções.
... Não, não estou com SPM...
Há dias em que uma pessoa se vai abaixo. E no meu caso não me posso vingar em compras.
Sou gaja, pois!
Tomei um perfeito dum banho de espuma e marimbei-me para o mundo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Poizé!

Merda, não me calhou nada.
Não me costumo meter nestes jogos porque acho um desperdício. Acho que é tentar demais a Lei de Murphy (esse grande senhor e mentor da minha vida, bendita a Sua Palavra, Ámen, Áwoman, Ágay).
E já me basta a Loja do Cidadão, thank you...
Mas pronto, alea jacta est, como diziam os romanos do Astérix.
Como recebi, resolvi logo que tinha de gastar dinheiro em coisas perfeitamente estúpidas, como fazem as mulheres. É um problema do cromossoma X.
E, apesar de precisar de uma mochila (costumo ter a casa no carro, e agora tenho de ter o carro na mala, e tenho de correr Lisboa inteira), achei melhor comprar a raspadinha: se me saísse o belo do carcanhol, comprava a mochila, a casa, o carro, um teatro, e viajava pelo mundo.
Este costume de apostar o que não se tem num papelinho é perfeitamente parvo.
Mas olha, sempre foi o ponto alto do meu dia.

Sorte ao jogo

É para a loucura total! É hoje! É já! Os meus sonhos vão-se realizar todinhos todinhos! Vou ser feliiiiiiz!
Ou não, ou não... Só comprei uma raspadinha...

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Almas Gémeas (por encomenda*)


* Sugeriram-me que falasse de almas gémeas... Este post vai ser adendado, concerteza, pelos requisitantes... É que não vale não comentarem o blog e depois pedirem-me que escreva por encomenda e deixarem-me sozinha nos meandros filosóficos... Grrrrr.

Voltando à vaca fria (muuuu, brrrr)... almas gémeas...
Existem?
Eu acredito. Que merda, acredito como se acredita no Pai Natal quando somos putos, como se tem fé, pura e simples! Até me darem prova em contrário, para mim existe. Até porque sou da geração fã da Meg Ryan, caramba!
Mas também acredito que é difícil de se encontrarem. A química e o amor livre são muuuito bons, mas também perigosos nos dias que correm. Pode facilmente cair-se em (des)enganos... Mas isso já vai do modus vivendi de cada um.
"Acredito que há um testo feito para cada panela". Não sei se passa por serem duas pessoas tão iguais ou tão diferentes. É engraçado depararmos com combinações improváveis ou com duas pessoas que "só podiam" resultar juntas... E ambas as situações acontecem.
Acredito que há um The One.
Agora como encontrarmos essa pessoa que nos complementa e nos faz sentir únicos de uma só vez... É outro dos enigma deste tema.
Totoloto humano? Destino? Hmmm... Decisions, decisions.
Acredito nos sinais. Muito. Às vezes demais. Há coisas que batem demasiado certo. Seja num trabalho, seja numa forma de estar na vida, seja na cama. Seja uma música que toca quando não se adivinhava. Seja um pensar numa pessoa e o telemóvel tocar. Seja um sonho. Seja a sintonia entre dois. Ou pura e simplesmente o cruzar de caminhos. Só podem ser um empurrão...
É uma maravilha estar-se com alguém que nos faz acreditar nisto, de tal forma que se tem a certeza.
E acredito que o amor pode durar uma vida. Sim, como os nossos pais ou avós. Não por obrigação, mas por teimosia, dedicação e pelo facto de não haver mais ninguém no mundo que queiramos abraçar. Mas isso é a arte suprema da alma gémea, isso é que é complicado de atingir. E não acho vergonha nenhuma que não se consiga: há que viver intensamente o momento para no fim, ao menos levarmos boas recordações e experiência de vida. Olé.
Há também, para mim (óbvio, para quem haveria de ser) uma diferença entre soul mates e meant to be.
Porquê? Porque às vezes não dá. Mas luta-se por isso, claro que sim. Deve lutar-se até ao fim, bater o pé ao destino. Ter a certeza de que se fez tudo o que se pode, respeitando, claro, a vontade e o espaço do outro (qual é a piada de estar madly in love e o outro tar madly out of here?). E só sabemos que não era mesmo o destino quando morremos e já não temos hipóteses de lutar mais.
E que o medo da solidão não nos impulsione ao desespero, à obcessão de agarrarmo-nos ao que temos apesar de ser insuficiente, de não proporcionar felicidade a um ou aos dois elementos (ou três, ou quatro, eu sou uma pessoa moderna). É levantar a cabeça e seguir em frente, sem perder o amor próprio, ou, pelo menos, a nossa identidade.
Eu acredito em Deus porque existe a natureza, a vida, e porque existe o amor. E é um sentimento superior. Em todas as suas facetas. A sorrir ou a chorar, faz-nos sentir vivos como nenhum outro. Se deixamos de nos sentir vivos, o amor acabou.
O amor perfeito que é a pura sintonia entre duas almas. E só vale a pena se for assim. E que seja para sempre enquanto durar.
Tenho dito.

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

V

Pediste-me que falasse mais da nossa amizade. Oh, amiguinha, a nossa amizade já é um posto!
Já lá vão quantos...? 7 anos. Ui, tamos velhas, minha cara...
A princípio embirrámos muito uma com a outra. Achava-te beta e vinha de um sítio onde tinha criado engulhos a betas...
Mas aos poucos, conhecemo-nos melhor. Mudaste, mudei, mudámo-nos.
E ficámos.
Sempre a sorrir, sempre a desdramatizar, sempre a bombar. Tu com pele de nata salpicada de canela... E eu o caramelo com chocolate... Grande gelado, nós as duas. Tu és chuva, eu sou sol.
E somos doidas, as duas, ah somos...

E a partilha de 7 anos não se conta em duas linhas.
Deixemos só ficar os risos. As caretas à porta da sala de exames, o Narana Coissoró (é assim q se escreve?) a olhar para nós e a voltar para trás a perguntar o que é que estávamos a fazer...
- Estamos à espera para fazer oral...
Não é normal, mas nós também não somos nem fazemos questão de o sermos.
O primeiro cigarro em público, a surpresa no meu aniverário, as aulas de step, os trabalhos de grupo, as tricas e palhaçadas, os cafézinhos no Residence, as festas.
O facto de estares sempre na plateia.
E como te consegui um emprego porreiro... a minha mãe ficou danada! Então ando a arranjar empregos para as amigas e fico a brincar aos teatros?? Mas és tu a jornalista, eu nunca fui. Ela que comreenda ou não.
E a minha aventura como Teresa Guilherme. Ao estilo Sexo e a Cidade, mas mais Stress e a Cidade...
Mas correu bem. Estás feliz, e eu feliz por ti.
Agora estás tu a torcer por mim.
Somos mesmo torcidas...
Olha: Porta-te mal e fica sempre por aí, ok?

V&M

Qual é o limbo entre a intimidade e a completa insanidade, pergunto-me? (mão na testa, sobrolho franzido, olhar ausente, contemplando o infinito)
Convite para jantar de amigos... Tudo às mil maravilhas. Apesar de às 7 da noite já me estarem os olhos a querer estacionar na terra dos sonhos, vale a pena.
Ora às 20:30 os meus olhos estavam arregalados de espanto...
Conheço aquele casal há que tempos. Aliás, fui eu que os juntei, nos meus áureos tempos de aspirante a Teresa Guilherme... Oh, Senhores, o que fui eu fazer... Além de não pôr a vista em cima da minha melhor amiga durante quase um ANO (retiro... espiritual...), aqueles dois são a encarnação do diabinho da nossa consciência...
Não há conversa séria que os demova de uma boa piada. E entre cigarros e depressões, estivemos à gargalhada. Acerca de tudo inclusive a vida sexual dos próprios...
E eu pergunto-me: será que não se pode ajudar um amigo a instalar o Windows XP sem descobrir os diminutivos afectuosos que utilizam para os respectivos órgãos genitais??
Será que nunca mais vou conseguir reprimir um esgar ao ouvir palavras como podar...?

Epá, nós devemos mesmo ser de outro planeta, porque esta noite diverti-me imenso. Obrigada.
E viva a Lili... Vamos a banhos... e com esta me vou...

terça-feira, 2 de novembro de 2004

ARGH!

OK, tenho revisão do carro às 8:30 da manhã.
Levanto-me às 6:30. O que me vale é que, apesar de ter perdido o meu querido Pedro Ribeiro para a RCP (fizeram-lhe uma lavagem cerebral, só pode - é assustador ouvi-lo falar de enormes seios ao som de Roberto Carlos...), tenho o Markl ressuscitado pela Antena3.
Meto-me no carro. Frio, nevoeiro malcheiroso... Ok, aguenta-se.
Mas alguém me explica porque raio é que tinha de estar uma fila de carros de uns 15 km na auto-estrada?? Eu já moro a 30 km de Lisboa, obrigadinha, não preciso de ajuda!!!
Tudo parado... Ai que bom... Porquê? Não sei, não me perguntem. A certa altura passei de parada para andar a 10 km/h (andámos todos a infringir o código da estrada, a andar a menos 40km/h na AE), para depois andar a 40, e assim, mesmo á maluca, no finzinho, andei a 60...
Depois cheguei à Calçada de Carriche... (Ou seja, parei outra vez...)
Já tinha dores no joelho direito...
Prontos... depois foi pára-arranca até ao Areeiro.
Bonito

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Pause Still

A sensação é a de se pressionar a tecla pause de um comando.
O filme pára naquele momento, e uma pessoa levanta-se, para atender o telefone, ir à casa de banho... E o filme fica naquela posição estranha, arrastada, normalmente com um esgar do protagonista.
Ou, por exemplo, uma viagem de comboio: tudo lá fora em movimento, e uma pessoa a ver o mundo passar à janela, num tempo diferente. Não, espera, é ao contrário: tudo está parado e a pessoa é que vai em movimento...
Como explicar?
Basicamente, o mundo segue a sua vidinha. Calmamente, pacatamente. Eu não a sigo. Fico-me. Não vivo, de viver mesmo... Tipo suspensão... Tipo Matrix...
Tenho tanto medo da morte e afinal estou para aqui a desperdiçar dias.

... Nota-se muito que estive num domingo à noite, véspera de feriado, em casa, com os paizinhos, a ver a Quinta dos Famosos...?
Tenho de arranjar uma actividade... Pôr o ponto cruz em dia...

domingo, 31 de outubro de 2004

FDS Prolongado...

Esta 6ª feira, toda a gente à minha volta planeava o belo do fim-de-semana prolongado.
"E tu, que vais fazer?". Eram as perguntas animadas de quem às vezes não se apercebe de realidades paralelas bem menos agitadas.
Viagens, malas feitas, pressa para sair do escritório, telefonemas, vêm-me buscar, não sei onde é o encontro.
Hot dates, ou viagens em grupo ou simplesmente uma data de encontros com amigos para actualizar o álcool no sangue.
Reponho o sono, apesar de saber que 3ª feira já volta tudo ao mesmo. Acordo, aqueço o almoço. Vejo séries na cabo. Fumo. Janto fruta. Vejo um filme que já tinha visto no cinema. Conversa de circunstância com os pais, afinal a vida é bela nesta redoma que inventaram e onde nos querem manter à viva força. Vou à net, mas até mesmo os habituais 700 mails de colegas foram de férias. Não há contacto com o exterior. Fumo. Acabo um livro que me emprestaram. Era muito bom, obrigada.
Adormeço.
Acordo com ainda mais dores musculares. Mudou a hora. Merda, mais uma hora para ocupar. Tomo um banho sem grandes pressas, a ver se o corpo me dá folga. Cozido à Portuguesa. Nunca gostei, mas pronto. Venham os enchidos. Com um bocadinho de vinho tinto, que esse sabe sempre bem. Café. Troca-se uma molha pela cafeína barulhenta da pastelaria. Saco dos cigarros, não há muito mais que fazer às mãos. Vejo séries na cabo (Obrigada SIC). Venho ao mail, não está ninguém. Tenho de ligar a uma amiga para pôr a conversa em dia mas nem isso me apetece.
E ainda é só Domingo.

Tinha feito uma resolução de agora aproveitar o glamour da minha vida nova, da minha solidão. Ia montar a minha casinha... Já não dá (não há namorado, não há pai-lhaços). Saídas aos fins-de-semana com os amigos? Estão tão habituados a que eu não possa sair que já nem me telefonam. Actualizar o cinema? Não gosto de andar sozinha. E tenho de poupar para... sei lá o quê. Talvez seja desta que pegue nas malas e vá viver para bem longe. Mas tenho de comprar as prendas de Natal e aniversário (que esta família decidiu nascer toda ao mesmo tempo).
Oh, merda, tenho mesmo de arranjar uma vida...

sábado, 30 de outubro de 2004

Pastéis de Nata

Noite. Chuva. A potes.
Começou a tamborilar no carro.
E lembrei-me de como gostava de andar à chuva, em miúda.
Há certas alturas em que a alternativa é mesmo essa. Ser miúda.
Saí porta fora (tranquei o carro, ah pois, sou doida mas não sou maulca), tirei o tal boné azul e pus-me de cara para a chuva, de boca aberta, língua de fora, a beber as gotinhas.
Saltei nas poças, encharquei-me.
Apetecia-me ir para casa tomar um banho de espuma, mas, com a roupa e o cabelo colados ao corpo, entrei numa pastelaria.
Estava com ar de arrumador de carros.
Sentei-me e bebi um chá quente e ataviei-me de pastéis de nata.


sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Lua

"A lua desapareceu por completo na madrugada de quinta-feira. A noite tornou-se escura e envolveu a Europa, a África e a América, num eclipse total. O círculo lunar criou um verdadeiro espectáculo cor-de-laranja. Os portugueses que perderam este fenómeno, devido à nebulosidade só terão oportunidade de o voltar a observar em 2007".
[DN, 29.Outubro]

Porque é que a lua só é digna de nota quando desaparece?
O seu espectáculo, quanto a mim, é a sua presença diária, no céu e no meu imaginário, bem como no meu quarto.
Companhia infalível de cada noite, de cada km de estrada. Confesso, às vezes até desligo os faróis do carro para ver o asfalto pratear.
Ela não me abandona. Sempre lá, com cara de riso. Se influencia marés, porque não influenciar as pessoas?
E pouco me importa que ilumine as noites românticas dos casalinhos borbulhentos clichés. Aproveitem-nas. Ou não.
Ilumina as noites de quem precisar dela. De quem a quiser receber. E eu sou lunática por excelência.


quarta-feira, 27 de outubro de 2004

Jobs

Tenho um emprego giro... Não é o meu trabalho do coração, mas ponho o coração neste trabalho também.
Gosto de poder andar por Lisboa, entre ruas estreitas, antigas, às vezes ensolaradas, às vezes molhadas e escuras, mesmo ao pé do Rossio.
Gosto da Calçada onde está o meu escritório, gosto que o escritório esteja num último andar, de cuja janela se vêem os telhados de Lisboa antiga e se adivinha o Tejo.
Não gosto tanto de ter de subir tudo a pé, íngreme e comprida como é, fumadora e preguiçosa como sou.
Gosto deste mini-bairro, onde às vezes há porrada, nunca se consegue arranjar lugar para estacionar porque um velhote gosta de estar num canto da estrada a ver os carros passar e não os deixa parar ali... E um bêbado canta o fado ou assobia alguma melodia melancólica.
No restaurante-tasca onde vou, que já não suportamos pela repetição dos pratos do dia, há um senhor simpático que me tira as espinhas do peixe.
E pode-se acertar o relógio por um grupo de miúdos pequenos que sobe a calçada ás 2 da tarde com um grito de guerra para esse senhor:
"Ó senhor fixe, ó senhor fixe,
venha cá, venha cá,
dê doces à gente, dê doces à gente,
pronto, já está. Pronto, já está"
Gosto do meu grupo de trabalho. Somos 3 mulheres, terríveis. O trabalho atrasa, mas faz-se. Entre risotas e parvoíces que ajudam a descontrair. Falamos de sexo enquanto arranjamos milagres para colocação para estagiários.
Gosto de não estar muito tempo sentada à frente do computador e sair por aí, com grupos de pessoas tão diferentes. E poder sorrir-lhes e mostrar um bocadinho desta cidade, e dar-lhes novos conhecimentos.
E gosto que no fim tenham sempre uma caneca ou um postal da terra deles para me oferecer, e há sempre o convite para ir lá um dia, à terra deles...
Já tenho uma casa em meia dúzia de cantos deste mundinho... Falta-me o belo do guito para ir lá ter...
Os turcos querem arranjar-me um marido rico.
As polacas querem que conheça a Cracóvia.
Os alemães querem mostrar-me Berlim, e os espanhóis já me fizeram um guia de Sevilha.
Não gosto de ter de andar de metro uma datas de horas por dia, para a frente e para trás.
Não gosto de calcorrear Lisboa a pé, quando me dói o corpo todo.
Não gosto das filas da Carris quando tenho de comprar 37 passes.
Mas gosto de encontrar sorrisos em lugares inesperados. "A menina é que é uma simpatia por nos estar a aturar."
Eu respondi:
Se nos aturássemos todos uns aos outros assim, era tudo mais fácil...


terça-feira, 26 de outubro de 2004

Tempestade

Começou agora.
Andaram a ameaçar com ela todo o dia, cheguei a pensar que era mais uma partida deste nosso governo tão travesso (agito o dedo espetado no ar, arqueio a sobrancelha, e faço tssc tssc)...
A assustar a minha mãezinha... Coitada, bem que ela me pediu hoje para eu ir com cuidado para o emprego... Tentando confortá-la, disse-lhe "Tem calma, eu digo ao senhor condutor do metro que mandaste dizer para ele ter cuidado..."

A chuva começou a sapatear na janela do sótão, depois já não era sapatear, era mesmo aos pontapés... e o vento foi subindo de tom e tornou-se um uivo. Parece que o telhado vai desta para outra daqui a nada...
Sempre tive medo de tempestades... E ao mesmo tempo fascinam-me.
Desde miúda.

Mas ser miúda era um luxo, não era?
Qual Playstation, qual Pokemon, qual Quinta dos Fanhosos!
Eu queria era ir para a rua esfolar os joelhos na minha praceta! Roubar "giz" nas obras e desenhar a macaca, onde saltava toda a tarde. Beber chá quentinho e doce, que trazia num termo amarelo dos Marretas, e que distribuía pela turma toda. Espatifar as canelas dos meus inúmeros namorados (sim, nessa altura era concorridíssima). Andar à boleia na bicicleta de uma amiga. E parecia que corria o mundo todo, às voltas àquela pequena ilha de carros estacionados.
E a minha mãe não sabia que eu ia dançar Onda Choc para casa das minhas amigas que viviam no outro lado do bairro (longíssimo, 10 minutos a pé)... "Ela foi ao pão", dizia-lhe a minha avó. eheheh... Eu e a minha avó éramos imparáveis. Era ela a minha cúmplice. Deixava-me ficar na rua até às tantas da noite no verão, a brincar e a fazer campeonatos de balões de "Super Gorila".
Ia comigo ao café e deixava-me atravessar a rua sozinha. Íamos à Baixa, à Praça da Figueira dar milho aos pombos! (Sim, eu contribuí para alimentar as ratazanas do céu, sim!)
Íamos para o monte apanhar papoilas, para compôr os raminhos da espiga que oferecia aos meus pais.
E era com ela que ficava de noite a ouvir o sapateado da chuva nas janelas, e o vento a uivar nas árvores da praceta. Ela lembrava-se sempre de Santa Bárbara... Ah pois! e trazia-me umas meias para eu calçar "porque tens os pés tão frios"...
E cantava fado, enquanto lavava a loiça, porque sabia que estávamos só as duas em casa.
E eu agora às vezes canto fado a lavar a loiça...
E ainda me lembro dela a revirar os olhos com a tempestade, a chamar nomes ao gajo que mandava os relâmpagos...