sexta-feira, 28 de abril de 2006

escape



repouso

s. m.,
acto ou efeito de repousar;
sossego;
paz;

ant.,
ancoradouro.

chuva

do Lat. pluvia

s. f.,
água que cai em gotas da atmosfera;
aquilo que cai ou parece cair do ar como chuva;

fig.,
abundância;
grande quantidade;
cornucópia;

Electrón.,
interferências ou ruído na imagem, consequência de um sinal televisivo fraco e que se manifestam no ecrã sob a forma de minúsculos pontos brancos;

voo
de voar

s. m.,
meio e modo de locomoção (das aves, insectos, morcegos, aeroplanos, etc. ), através do ar;
fig.,

impulso rápido;
elevação do pensamento ou do talento;
arroubamento;
êxtase.

... até já...

give me please


the gift | coliseu dos recreios | 21.abril

é tão difícil ouvir sem sentir...

sempre


avenida da liberdade | 25.abril.2006

sabes, pequenino, eu era assim, como tu. e as pessoas saíram para a rua. um dia resolveram ser livres. esta gente? estão contentes, então... porque é como fazer uma festa de anos. a liberdade faz anos. em vez de velas usam os cravos... percebes?

quinta-feira, 27 de abril de 2006

ao fim do dia

come um bolo de arroz em belém.
descobre novas formas em dias repetidos.
agradece a ovação de pé
que te surpreende em despedida.
desprende o suor
a terra dos cavaleiros
em toalhitas com cheiro
de pó de talco.
pó-de-palco.
perfila-te com o sol,
deixa-o lamber-te as feridas.
sobe a rua em versos cantados.
fecha as listas como persianas.
conta em decrescente, ouve a música bem alta.
enrola a saliva seca de um dia de cigarros
em dois beijos bem dados.
passa as portas, que reflectem o mundo
para o lado de lá.
do lado de cá, tu. e a casa adormecida.
que acordas com ventos cansados.
onde serenas. e te aninhas.
suspiro.
café?

quarta-feira, 26 de abril de 2006

passagens e bombons

de raspão
Brízida Vaz, de novo
duas tardes
mais umas migalhas para não esquecer
[ainda?]
o caminho

sexta-feira, 21 de abril de 2006

esta noite

finding someone that cares for you and I, I'll dress my songs cause I care for you, cause I, I will take my time driving you slow. driving out cause I care for you, and then someone loves you but I don't care for you cause I, I will get my love, cause I will be your love, oh no... there were times I could care for you, but then I found that girl that can smile for you and I start to be something and I, I don't care, why should I care? I will get my life cause I will be your life oh no

don't look back, don't look back, don't look back

I will build my world I will sing my songs, I will keep my helmet on

and you can rule my world, you can rule my songs, I will keep my helmet on

the gift | am.fm | driving you slow

quarta-feira, 19 de abril de 2006

serendipity



não se encomendava à sorte. gostava de saber que fazia tudo o que estava ao seu alcance. tinha sempre esperança que o esforço recompensasse. mesmo que falhasse, sair sempre de cabeça erguida com a certeza de que perdera por não ter mais para dar. fazer o seu melhor, mesmo nas coisas mais pequenas. não ficar à espera.
mas naquele momento em que os pensamentos lhe chicoteavam a cabeça, desmembrando o vigor da água do chuveiro na pele nua, à luz surgiam apenas sombras.
as lutas travadas sem rei, os trabalhos forçados e os dias perdidos, afastados do sol e dos sorrisos, em prol de um único objectivo. que não queria ter. que a roubava ao que realmente interessa. as coisas de facto tinham perspectivas estranhas na sua cabeça e não conseguia organizar as prioridades como os outros faziam. o normal sufocava-a. mas se procurasse ar ficaria sem chão. o dispensável e o indispensável, presos um ao outro por arneses que lhe estrangulavam a alegria de viver. o chorar ao domingo à noite porque depois é segunda-feira. o sentir-se substituível onde queria sentir-se querida. a responsabilidade e a frustração, dançando à sua frente de mãos dadas, mirando-a jocosas. a incerteza de um amanhã que nem sequer queria mas que se revelava uma estúpida tábua de salvação.

o cheiro forte da madeira, que entesourava junto das motivações e orgulhos, que invocava nos momentos de abandono, agora chegava-lhe vago e apodrecido.

sentia-se prestes a seguir o caminho da água que lhe tentava aquecer o corpo, mas não o espírito. afastou cheiros com o sabonete na pele, seguido de uma generosa dose de creme hidratante. afastou os pensamentos com uma melodia cantada para o eco da casa de banho, ignorando as 8 da manhã.
tinha de haver solução. era apenas uma questão de encontrar o fio à meada. não se encomendava à sorte.
no entanto, ao sair do carro essa manhã, pensou duas vezes antes de se afastar da cigana suja que lhe queria ler a sina.

terça-feira, 18 de abril de 2006

dos montes



revisitar raízes, elos meus. perdidos com a terra. os cheiros fortes do verde novo, das cerejeiras em flor, da caruma dos pinheiros, do alecrim. nos rostos, onde a vida riscou os dias e assinou de cruz, reconhecem-se os socalcos da terra. todo um cemitério com o meu apelido, linhas e traços entrelaçados como teia fina. as mãos de calos e braços abertos. os fornos a lenha. escondidas nas arquitecturas desvanecidas ainda as pedras empilhadas em paredes escuras e postigos coloridos, chão irregular e a água a ferver para depenar a galinha. o crepitar do lume. o queimar do sol reflectido na pureza do céu. a noite tão estrelada que nunca enegrece por completo, recortando as montanhas.
o vinho. forte, penetrante, novo. cada casa tem o seu. da sua terra. em cada casa copos de vinho e presunto de salmoura e broa e salpicão. "comeide, bebeide" - quase obrigam os olhos brilhantes. e lastimam a ausência dos filhos e das forças para voltar à vinha, e o domínio dos grandes que os fazem pensar em baixar os braços a cada outono.

vejo o meu pai pequeno descalço de calções rasgados pelas brincadeiras nas fragas, a roubar fruta e a guardar cabras.
vejo claramente nos socalcos perfeitos que desenham as encostas dos montes gigantes, na profusão de flores e no brilho das pedras lavadas. nos ribeiros, riachos e curvas apertadas.

vejo-me ali e reconheço, então, o meu outro lado. sempre esteve escondido atrás dos montes. a explicação, enfim, da minha paixão pelos campos, pelas flores silvestres, pelos perfumes selvagens, da minha teimosia e da minha constante necessidade de ventos cristalinos e de fotossíntese.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

tango


[ms]

sustentar na ponta dos pés descalços o peso do corpo. endireitar o pescoço e alongar as costas, os braços. sentir as rugas da carpete poeirenta e o balanço das notas que, invisiveis, perfumam o ar e lhe revoltam os cabelos. primeiro lentamente, num aquecer ruborizado que dá a liquidez do olhar. depois perder o tino e as angústias pelo suor. quebrar os passos sem lhes querer sentido. ondular sem pudores de se tocar. forçar colinas e ondas num terramoto agridoce.
permitir ao fogo que aquece as coxas redimir-se em golpes de tango.
sem pouso definido, a pele vai sentindo a surpresa de cada passo cadenciado, partindo de pontos fluentes e confluentes de uma parede ou do chão. olhos fechados na tontura violenta. sentir as vergastadas com que as madeixas húmidas comprimem os ombros.
estacar numa náusea de prazer ofegante.
e ao fundo o olhar brilhante, voraz, sendento. a figura que se agiganta num paso doble, arrastando-se, impelindo-se pela cintura. o aproximar ardente de olhos fixos que despem e lambem. o envolver das mãos no ponto onde a cintura requebra e o calor dos peitos apertados. o possuir do corpo latejante. o bater dos corações que se compassa. a proximidade perigosa do hálito quente que absorve. e o largar voo perdido nas mãos de um anjo ardente. que despede o corpo controlado dos contornos conhecidos e o arredonda e fixa ao sabor dos seus intentos. ao sabor do que quer ver. o arquear da coluna e o arquejo do peito. silhueta fina e frágil com golpes de chicote, empurra o vento na outra que, possante, o engole. a perna que se descobre longa, orgulhosa sobe ao limite do imaginário. enrola-se com vigor obsceno, descendo, descendo. o suor que escorre sem perdão e que penetra nos lábios entreabertos, o sal misturado de duas vontades selvagens. a luta sem guerra dos corpos.

ali, naquele palco imaginado, hão-de ferver as suas peles, hão-de roçar-se lascivamente até ao limite do silêncio, hão-de gemer as dores e os prazeres confinados, hão-de depois, muito depois, abrandar os ritmos latentes, descansando-os num passo lânguido e esvoaçante, precioso e suave como a primeira passa num cigarro.

sábado, 15 de abril de 2006

o anúncio ou os desastres de polegar

para quem segue as minhas desventuras na tentativa de encontrar um lugar ao sol na área da representação, segue um lamiré da minha quinta-feira

8 da manhã na casa do Alentejo. ao mencionar "figuração especial", mandam-me subir. primeira falha da minha agência: afinal o "leva qualquer coisa mais formal" queria dizer fato de executiva... na sala de "styling" dizem que as minhas calças de ganga e blazer não têm muito a ver com jornalista [eu devo andar a ver os canais errados] e dão-me um fatinho cintado castanho e uma blusa justa de mangas à cava bege... ergh... as minhas cores preferidas. na casa de banho reconheço uma "colega de casting" e o alívio de ter uma cara conhecida ajudou a suportar as longas horas de espera. depois vejo chegar gente de calças de ganga e blazer que estão "óptimas"... go figure.

esperámos por ser maquilhadas - como nos tinham dito - e nunca aconteceu. da sala de espera víamos na maquilhagem as meninas que seriam as "Tochettes": uma loira nórdica de busto generosamente siliconado e olhar literalmente a leste; uma morena esguia muito bonita de rolos na cabeça, a stressar ao telemóvel.

esperámos duas horas. porque a morena "não sabia" que ia ter de usar calções curtinhos e top cavado. diz era despida demais. - eu não achei nada de escandaloso, elas têm corpo para isso, é por isso que são modelos, e se havia razão de queixa seria da loira, que dava mais nas vistas - de certeza que no casting já a tinham avisado, mas que fazer?... não se sabe dos pormenores, é certo que tiveram de chamar outra morena. aqui entre nós, esta púdica menina foi a que andava montada numa banana na capa de uma revista e respectivos toques jamba... go figure!

adiante. na hora de distribuir os adereços, calhou-me um micro. e a quem estava de calças de ganga, as máquinas fotográficas... aí fiz beicinho. havia uma fotógrafa de saia travada, casaco de ganga com gola de pelo e botas de crocodilo... go figure!

a minha chapa de identificação dizia "Francisco Azevedo". havia um brasileiro chamado Enfermeira Isabel... ainda troquei com ele umas impressões sobre a operação eheheh

ensaiada a primeira cena [um corredor de jornalistas tenta entrevistar o senhor doutor Tochas antes da conferência de imprensa], prepara-se tudo para gravar. reparo em dois tipos com ar de patos bravos ao meu lado que usam o telemóvel para fotografar o ensaio. a Tochette loira começar a ficar incomodada e aí percebo. estavam a levar recuerdos para as noites solitárias. ela queixa-se e o assistente dá o raspanete. no fim da gravação da cena, os tipos afastam-se a comparar as imagens gravadas. triste.

resumindo, entre cada cena eram horas de espera e chegámos à conclusão que aquilo foi tudo um desperdício de dinheiro: às tantas até turistas perdidos faziam figuração, mudavam as pessoas de sítio entre cada cena [o que dá uma continuidade fantástica], não sabiam se estavam a usar figurantes especiais [pagos para falar] nas cenas em que se falava, esperámos 6 horas de propósito para gravar uma cena... de costas... uma confusão.

outra falha da minha agência: "lá para depois do almoço estás despachada"... brincalhões, hem?

no fim de tudo, se aparecer a minha testa é uma sorte... nada mau para quem saiu de lá às 10 da noite...

entretanto falei com a minha agência: descobri que o pessoal agenciado por outros estava a receber o dobro. ora se estamos todos a fazer o mesmo... vai haver molho. baixou-me o santo e passei-me com eles. e ao fim da noite estava criado um sindicato que irá pedir satisfações para a semana...

a comida era do melhor: enchi-me de broa com queijo da serra, doces vários e cafés. os sofás da casa do Alentejo são confortáveis. o realizador tem um fetiche com loirinhas. o Tochas tem dificuldade em decorar as deixas e é mesmo avariado da cabeça. entra um cão na figuração, que é um querido. acabei por me dar com um grupinho de três "pernas-curtas", uma "perna-longa" e um "perna-longa". sim, que estipulei logo de manhã as discriminações de géneros físicos que arrancaram as primeiras gargalhadas quando completei com um "deixa estar, é só dor de cotovelo". durante o dia, dirigiam-se a mim com um "ó Francisco..." ;)

agora é esperar pela OPA! e mais não digo :)

quarta-feira, 12 de abril de 2006

para castigo...

... fiquei num anúncio...

não no das mãos, obviamente, mas noutro para que fiz casting sem estar marcado...

pois que é uma figuração especial, o que quer dizer: estar numa molhada de gente e dizer uma ou duas deixas.
conhecendo o guião, a minha deixa [muuuito especial] vai ser: "doutor, doutor"... em coro com outros tantos.

se, depois da edição e ideias mágicas em cima da hora do cliente, eu ainda aparecer, eu aviso eheh

entretanto, vou levar a moleskine... é um dia inteiro num set de filmagens... this should be interesting... muahahahahah!

segunda-feira, 10 de abril de 2006

comunismo dos corpos

casting. manhã inteira a serem-me tiradas as medidas, ser avaliada não só pelos senhores que mandam na agência, mas também pelas wannabes-cheias-de-fome-com-maquilhagem-a-mais-e-que-não-sabem-que-não-se-usa-preto-nem-riscas-num-casting com quem me fui cruzando na sala de espera.

tudo corria bem. a franja e o cabelo comprido agradaram. tive uma contracena porreira. além do meu casting, tive que fazer assistência no de outro rapaz [era um anúncio com casais], e ainda foi uma risota. mas depois foi a parte do fingir que cozinho [metia culinária] e o senhor lá me pede: "preciso de um grande plano das tuas mãos, porque vais pegar na embalagem".
está o caldo entornado.
tenho as mãos pequeninas. as montagens e nervos deixam-me pouco espaço de manobra para manter as unhas bonitas, sem as roer. isso são vitórias esporádicas. já me tinha dado trabalho suficiente vestir algo que enganasse a câmara acerca da minha barriguinha. lá estendi as mãos no fundo preto, avisando que fazer unhas de gel era hora e meia: se ficasse com o trabalho, não se preocupassem que já podia pagar umas mãos comerciais. ele riu-se.

e criei uma teoria: o comunismo dos corpos.
devíamos ser todos lindos. altos, com pernas compridas e bem torneadas, barrigas lisas, cabelos brilhantes, mãos de dedos longos e delicados, peles impecáveis, sobrancelhas arranjadas. sairmos todos, dentro do estilo e genes de cada um, com um aspecto que vendesse o l. casei imunitas, o caldo knorr, o telemóvel de 3ª geração ou o detergente da roupa 5 em 1.
depois os senhores, em vez de andarem à pesca de modelos que saibam articular, já podiam escolher só pelo talento.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

blossom by J.B.

um dia entrou-me por aqui adentro e olhou para o meu querido vaso de flores laranja, de onde sobravam apenas uns talos secos.
- isso 'tá morto?
- não sei... não tem razão, rego sempre, tenho tanto cuidado...
- pois, mas sabes, com tanto tabaco e ambiente fechado é capaz de já ter morrido.
- espero que não, gosto tanto delas... vamos ver, na primavera.
o tempo passou e nada aconteceu. as florinhas não voltaram a aparecer para colorir os meus dias. mas mantinha o vaso ao lado do rádio, à espera delas.
há uma semana, enquanto montava o cenário, ouço o assobio conhecido. lá vinha ele, sempre o primeiro a chegar, beijinhos e as chaves da torre, onde são os camarins, onde pinta todos os dias a cara de vermelho demoníaco.
- tenho lá uma prenda para ti. esqueci-me de te trazer, mas um destes dias passo lá no escritório.
- são post-its?! [isto aqui é um luxo, de facto]
olhou-me sério e carrancudo até explodir na sua gargalhada
- logo vês.
ontem, depois do espectáculo, voltei aqui para fazer as contas. estava de nariz enfiado na calculadora quando a porta se escancara com o seu sorriso. assim, de sorriso rasgado e braços estendidos, um vaso de florinhas brancas nas mãos.
- toma! a ver se não morrem estas!

assim se semeiam amizades.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

nebulosa

respiro os tons de cinzento que perfilam este meu dia. mais um sopro de fumos anelados que aquecem o peito, ardem nos olhos e preenchem o cinzeiro, sepultura cinza e laranja.
com melodias suaves escondidas no canto da secretária, abafadas em cantos urbanos de buzinas e tosses e motores. a chuva insistente que me enganou a manhã e ensopou-me o casaco de malha. nebulosas que correm e se rasgam fio a fio por luzes douradas, fugidias, efémeras.
o vento e o canto da tempestade soam dentro de quatro paredes brancas, sombreadas da fragilidade do dia lá fora. soam como folhas de papel, rumorejar de teclas e seres de metal que cospem tinta negra. soam a perguntas, apitos agudos e pedras de isqueiro.
cheira a frutos silvestres, queimados em gotas grossas, vermelhas, sangue espesso que se cola aos dedos, os queima e paralisa por um segundo, até se fragilizar e desfazer em pequenos grumos macios.
a manhã entardeceu. a tarde anoitece. sempre em tons de cinzento.
preparo-me para mais um regresso de pálpebras dormentes, e, quem sabe, casaco de malha ensopado. recordando os anoiteceres de meninez em que estendia a língua de fora, deixava as gotas tomar conta do corpo, da roupa, sem pressas. até chegar a casa e me envolver em águas quentes, espumas perfumadas da Avon e toalhas turcas, sob o sorriso cúmplice da minha avó.

segunda-feira, 3 de abril de 2006

este post não mora aqui



esfumou o desejo com a ponta dos dedos, como quem lê uma textura. depois entardeceu no silêncio esbatido do descanso, acompanhado por melodias urbanas de hábitos e pegadas. fechou os olhos.

saldades

pouso as chaves, o leitor de mp3 e o livro no cantinho da secretária. sento-me, puxo o maço de tabaco para perto do computador. antes que cheguem os outros, o primeiro pedacinho da manhã é meu. entro no messenger e uma janelinha salta avisando-me de correio, diz que é lixo electrónico. "saldades" é o assunto. antes de deitar fora, algo me leva a abrir a mensagem.

Rocha era um dos nossos carregadores. fazia parelha com o Sr. Fernando, um velhote rijo que se recusa a arrumar as botas e aposta todas as semanas no Euromilhões. todas as semanas dizia "menina, prá semana, se não me vir, já sabe! aqui o Careca ganhou o éro-milhões e pôs-se a andar prá praia! mas eu deixo um recado com o Rocha juntamente com um cheque para os putos dele e um dinheirinho para si também". Rocha ria-se. sempre na sua onda muito serena, mostrou como se dança capoeira no meio de um monumento nacional: pousou os ferros que trazia às costas e atirou-se para o chão. fazia o que lhe competia mas ajudava para além disso, apenas por achar que devia. arrumava melhor que ninguém todo o cenário no mísero espaço de 1mx2m e mostrou-me como se descarna um fio eléctrico. contava histórias da sua ascendência índia e de como tinha partido o nariz. chamava-me "patroinha" porque nunca conseguiu decorar o meu nome. apesar de poder sair, ficava depois de o trabalho acabar. seguia os actores nas visitas guiadas para conhecer melhor as pedras onde arrastava o carrinho. e depois ficava a ver o espectáculo, todos os dias. e comentava como gostava de trabalhar ali, porque afinal descobrira que gostava de teatro. ficava fascinado com os pormenores, fazia perguntas sobre o texto e ficava à conversa com os actores, trazia a mulher para assistir e pedia se podia sentar-se no meio do público. claro que podes. "se pudesse, era isso que eu faria da minha vida, sabe? ficar carregando os cenários, ajudar montar as coisas pra fazer sentido. é incrível como se cria esse mundinho de faz-de-conta."

nos dias em que nos cruzávamos com aqueles grupinhos de gente pequenina de panamás coloridos e bibes aos quadrados, ele, com sete cadeiras às costas, fazia um esgar dorido e dizia "não posso ver esses meninos, me lembram meus filhos, bate uma saudade... dá uma vontade de chorar, sabe?"
Rocha aderiu ao mundo dos computadores, instalou o messenger para poder falar com os filhos do outro lado do mundo. e tem o disco rígido recheado de fotos de sítios onde esteve e de outros com que ainda só sonha. de gente que se cruzou com ele nos vários lugares onde já viveu. "esse computador tem a minha vida. se roubassem era pior que perder o BI". um dia trouxe o computador e a máquina fotográfica. fez questão guardar no disco rígido também esta equipa, estes novos "amigos". um diabo, um anjo, um velhote de ar desconfiado, uma menina de saias às cores e outra de calças de ganga. e ele. hoje recebi essa fotografia.

Rocha está ilegal em Portugal. não faço campanhas a favor nem contra. é apenas um facto. não conseguiu ainda tratar das papeladas. teve de sair do teatro porque não recebia o suficiente para pagar o aluguer da casa e ainda mandar algum dinheiro para os filhos. "quero ficar em Portugal. adoro esse país. mas preciso trabalhar, aqui não ganho o suficiente". com lágrimas nos olhos, disse que ia para as obras e que se precisássemos de fazer mudanças, para os amigos ele tinha o Domingo e era de graça. umas semanas depois foi apanhado pelo SEF. mas um amigo deu-lhe outro trabalho numa sapataria para os lados do Rossio e prometeu ajudá-lo com a legalização. eu espero que consiga. porque ele merece.