sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

5, 4, 3, 2, 1...


imagem encontrada no google, ah pois...

já vesti, como manda a tradição da minha avózinha, umas cuequinhas azuis. para dar sorte.
agora, é esperar pela meia-noite e deixar a data mudar. espero que não usem confettis...
a minha banda sonora, como boa sagitariana com ascendente em aquário e lua em touro*:

don't look back, don't look back, don't look back, don't look back
I will buid my world,
I will sing my songs
I will keep my helmet on...
[The Gift - Am/Fm]


*(optimista, sonhadora e impulsiva, ascendente em lutadora e intuitiva, lua em esteta e pragmática)
*(ou: idiotamente crente, estouvada, ascendente em teimosa e tosca, lua em manienta e bruta)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

entretantos

no ano novo todos fazem resoluções. que normalmente não cumprem. defendo que se deve lutar pelas coisas todos os dias do ano, fazer com que aconteçam. não vou fazer dieta, não vou deixar de fumar... e se achar que devo, fá-lo-ei... em qualquer dia do ano que resolva.
porque o novo ano não me resolve. hoje há sempre 365 dias fresquinhos para estrear.
dizem que há sempre esperança. tenho-a sempre e nunca a tive.
há sempre motivos para sorrir, todos os dias. por mais que a alma chore.
deixem-me chorar mais um pouco. os sorrisos vêm, por inerência, por contraste, por complemento, por afinidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

one big happy family


nokia by thumbelina
já é uma tradição tão cerrada como a roupa velha ou as fatias douradas do meu pai. quando cá está a família toda vamos ver as iluminações de Natal. com ou sem espírito, toda a gente se deixa vaguear por ali, ignorando o mau ambiente. de mão dada com a minha prima, e em amena cavaqueira com a minha irmã e a minha tia, fui disparando com um presente que ofereci a mim mesma (com pontos, muitos pontos)...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

nota mental II:

se a mãezinha tem uma predisposição para inventar pratos estranhos e saudáveis (bleargh), NÃO lhe oferecer o Culinário da Assírio e Alvim...
ou então, comprar Kompensans...

domingo, 26 de dezembro de 2004

nota mental:

por mais que a mãezinha faça beicinho e tenha direito a gostar das suas músicas, NÃO oferecer o cd do Russel Watson, se ela tiver aparelhagem na cozinha...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

aconchego

em desassossego percorreu o corredor e pôs-se em frente à janela...
- é quase meia-noite, o Pai Natal deve estar aí a chegar. vai ver se o vês...
as palavras aceleravam-lhe o coração e rebrilhavam-lhe nos olhos mil fantasias.
de olhos fixos no céu escuro e pontilhado, tentava adivinhar um movimento.
passou uma estrela cadente. fervorosamente, repetiu as palavras que a avó lhe ensinara.
- deus te guie, deus te guie, deus te guie.
para não cair na terra e dar um desejo, que pediu, de alma aberta. perdido nos entretantos de memórias de tantos sonhos e desejos por estrear.
e perdeu-se em fantasias cor-de-rosa em que as almofadas eram as nuvens e as lanternas as estrelas. no encantamento sentiu a lua a fazer-lhe festinhas no cabelo com as suas mãos de vento. era a avó, que vinha ver se ela estava sossegada. pôs-lhe a mão no ombro, respeitando o silêncio prescrutante. e ficaram as duas a ver se aparecia o Pai Natal.
de repente, do fundo dos seus sonhos soou uma campainha.
deu um salto e de mão dada com a avó, correu pelo corredor até ao sapatinho por baixo da árvore de Natal. mergulhou nas cores, que rasgou, de olhos gulosos...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

mensagem de natal

independentemente de tudo, não custa nada e sabe bem desejar coisas boas.
aconchego, calor e paz.
para todos.
bom natal.

natal e lua cheia

deveria já sentir-se o cheiro da canela e dos fritos, da lenha a crepitar, o quentinho do forno sempre a funcionar, e da lareira. devia haver o sussurro das últimas prendas a serem embrulhadas, num vago secretismo maroto. devia sentir-se as vibrações de carinho e ansiedade pela chegada dos nossos tão queridos que chegam amanhã. que são inerentes a esta altura do ano, sempre, cá em casa. devia começar-se a espalhar velinhas pela casa. pôr as prendinhas pequeninas para aqueles que não estão debaixo da árvore. encher o frigorífico com o aprumo e dedicação, já salivando com a perspectiva dos pratos compostos. devia haver música, independentemente dos gostos. sorrir-se com a ideia de uma noite de natal com todos os que sempre importaram juntos de novo, sem hipocrisias, e com o facto de ser uma noite fria, límpida, de lua cheia, ou quase.
todos os anos o temos conseguido, bem ou mal.
este ano, a casa está fria. em todos os sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

tou-me nas tintas

cortei a banana e a pêra em pedaços não muito pequenos para ele não se engasgar. tudo num pires, um garfo e um guardanapo. o meu avô está a lanchar. a casa está vazia.
enchi uma taça com água, peguei nos pincéis e entrego-me.
deixo a tinta verter no pires, passo-lhe com o pincel, sinto-a esticar na superfície de madeira e cortiça, os cheiros suaves do acrílico. os dedos pequenos começam a ficar sarapintados.
misturo cores, criando o meu próprio arco-íris, a minha paleta.
enquanto tento fazer de um quadro de cortiça uma prenda de Natal bonita e original, ponho um cd a rodar. e ao ouvir o refrão lembro-me de um trocadilho...

...how are you doing?

I'm doing for music,
I'm doing for love
I'm doing for everyone around me
Music [The Gift - Am/Fm]

[m/p]erdas II

já que tou na mó de baixo, vou exorcizar as desgraças todas de uma vez. este blog também serve para isso. não interessa um pintelho, mas a mim também não.

há os clássicos:
o carro (única forma de comunicação com o mundo) que avaria a cada semana.
as operações multi-anuais ao meu pai, que de repente se vai abaixo com um problema qualquer novo (desde hérnias, a calcanhares desfeitos, a polipos).
a depressão da minha mãe, desde que a minha avó morreu.
a máquina de oxigénio do meu avô.
a casa que me tiraram.
a gata que não é minha.
a vida que não tenho.
o trabalho que faço por amor e não me dá dinheiro, e agora me descartou.
o trabalho que não tenho por querer poder fazer o que me descartou.
a desilusão para os pais de uma menina de notas máximas e quadro de honra que deixou a faculdade para fazer teatro.
o dinheiro que não tenho para sequer passar a passagem de ano com amigos.

agora há uma nova:
admiro imenso o meu pai. é um autodidacta e conseguiu uma distinta carreira de director comercial de uma empresa por mérito próprio, subindo a pulso e inteligência como poucos. a minha mãe também trabalhava lá. tinham uma vida desafogada. dedicaram-se mais de 20 anos àquela casa (outra...). há uns 4 ou 5 anos (no mesmo ano em que a minha avó morreu), o meu pai teve de fechar a empresa que geria. porque o sócio (que não percebeu nunca patavina de gestão) achou que era esperto e resolveu, um santo dia, começar a meter o bedelho nos negócios. fazia acordos estranhos. comprava presuntos pata-negra e fazia jantaradas com os clientes e tava-se a marimbar para os problemas financeiros. acabou por vender a empresa a uma multinacional, que a extinguiu. leis de mercado para os maus gestores. lei de murphy para os demasiado empenhados.
os meus pais estão desempregados. ainda não têm idade para reforma.
agora veio a notícia de que lhes vão congelar as contas todas.
por falcatruas que não fizeram.
o sócio? (e meu malfadado padrinho - ao estilo mafioso mesmo)
está de férias no brasil. gordo e rico.

merry fucking christmas.

[m/p]erdas

dois anos e meio. de dedicação. quando mais ninguém via ali uma ponta de interesse, eu estava lá. a batalhar, a tentar que evoluísse. falo de um lugar, mas também de um lar. que pensava que tinha. ali uni uma família desconstruída. consegui que muita coisa acontecesse apesar da grande percentagem de improbabilidade. apesar dos "o que é que estás lá a fazer". apesar de perder dinheiro de cada vez que ia para lá. fazia os 30 km com dedicação e noção de que tinha de ser, se quisesse que algo acontecesse. ensaiei até às 8 da manhã sem replicar. pintei chão. colei cartazes. lavei camarins. cosi panos. acendi luzes, carreguei no play nas alturas certas. subi e desci volumes. vendi o produto. vendi bilhetes. fiz os telefonemas todos. lutei com um computador no seu leito de morte e ganhei. fiz cartazes. textos de promoção. traduções. dirigi actores. dirigi alunos. dirigi desânimos. trouxe bolas de berlim de madrugada. dei boleias a quem não tinha como ir para casa.
tive de sair por dois meses. avisei com um ano de antecedência e honrei o compromisso de que voltaria de braços abertos. deixei também tudo preparado para agarrarem uma oportunidade que os poria de novo na mó de cima.
e agarraram.
mas chegou o momento de distribuírem papéis. e eu não estou na lista.

mais uma casa que mobilei, a que dei alma. e que perdi.
merry fucking christmas

portas de vidro

uma miúda só, no meio da multidão de sacos e músicas de Natal. paragens em lojas, sem olhar para as montras. já tenho o moleskine com pautas para o irmão músico... era a prenda maldita. resolvido. ainda em busca de um quadro de cortiça para pintar (que o dinheiro não dá para mais), recebo um telefonema. corro ao hospital, para dar apoio moral ao meu pai. a minha (outra) avó está no hospital. uma mulher com quem não tenho laços particularmente fortes. a quem desde sempre ouvimos queixas melodramáticas-hipocondríacas. o vizinho tinha uma doença e ela no dia a seguir também já a tinha. como na história do Pedro e o Lobo. agora é a sério. "problema grave nos intestinos, que provavelmente já chegou a outros lados". porque é que os médicos não dizem as palavras "cancro com metástases"? lá vem outro Natal daqueles, penso. cá em casa é assim, sempre assim. há sempre porcaria da grossa na altura das festividades. é sempre um Natal ensombrado, caraças. espero o meu pai, que está a resolver problemas com uma médica narcoléptica (fica para outro post, porque é realmente paranormal). observo tudo à minha volta. recebo o ar frio no rosto, encostada à parede, em frente à ambulância vazia. do outro lado das portas de vidro, gente disposta de frente para a televisão respira o mesmo ar rarefeito, suado, doente. numa sala fechada, em que todas as portas têm o sinal de sentido proibido. excepto a da casa de banho. de onde sai um homem com uma chucha, que entrega a uma mulher que tem uma bebé sorridente no colo. velhinhas, muitas. de ar cansado e olhos postos no nada. à espera. gente com a cabeça enterrada nas mãos, levantam-na de cada vez que há um movimento, na expectativa. ouço os seus suspiros sem som. estou (demasiado) habituada a hospitais. mas desta vez não fui capaz de entrar naquela sala.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

querido pai natal:

este ano gostava de te pedir
::umas meias às cores
::um dvd
::um livro
::capacidade de conformação

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

branding

depois de criar 114 envelopes no word, dizem-me que há 40 postais e envelopes disponíveis no escritório...

banda sonora para o momento em que carimbo os postais existentes e me marimbo nos restantes:
forever more [moloko - statues]


janela sobre a calçada

estou sozinha. não me apetece ir almoçar sozinha, mas eventualmente terá de ser. porque tenho fome. na janela do tal prédio em obras, mesmo aqui em frente, está um pombo a olhar para mim. está sol. mas o aquecedor está ligado. ainda não pus nenhum cd, e o silêncio agora incomoda.já fui 3 vezes à janela. [...]
um bairro em silêncio e ebulição. os putos devem estar a passar. hoje tenho uma surpresa para eles: as colegas ofereceram-me um frasquinho de bolas de sabão...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

ah cão! - parte 5 e 20 da tarde

a patroinha deixou a lista de afazeres: enviar postais de Natal para todas as empresas que colaboraram conosco deste ano. tendo em conta que recebemos centenas de estagiários e fizemos dezenas de visitas técnicas, seria à partida um desafio light. mas depois há que ressalvar que a bosta da lista de contactos está completamente desorganizada (não me tiveram cá tempo suficiente, e, apesar de ter começado um tipo de organização, mal saí, recomeçou a balda) e elas não apontaram metade das pessoas com quem contactaram para conseguir as ditas visitas e estágios. tive de pescar os contactos um a um de documentos soltos, descobrir endereços e nomes de pessoas do ar. isto levou-me o dia todo. depois era imprimir os envelopes. só. vai daí, o assistente de impressão em envelopes crashou, e com ele os documentos word todos. recuperei o dos endereços, mas daí a a pouco, não sei como, o ficheiro estava em branco. tenho de recomeçar tudo de novo. são 5 e 20 da tarde... as cartas têm de seguir amanhã... mas porque é que neste escritório em que tudo se faz em computador e via net, não se manda um e-card????????????? e porque é que os sagrados* mecânicos não me ligam com novidades do meu carrinho? porquê eu, porquê???

*leia-se fdp

ah cão!

acordo cedinho, que a vida não está para menos. saio a correr porque quero estar cedo na paragem do autocarro. o autocarro chega 15 minutos depois da hora, por causa do trânsito. por causa de se ter atrasado foi apanhando o dobro das pessoas pelas paragens. chega à da minha terrinha (que é a última antes da autoestrada) e "só entram 5 pessoas, peço desculpa". tuuudo bem. espero mais um cigarro, chega a outra camioneta, vazia, claro. chego a Lisboa. apanho o metro. o meu carro está pronto, tenho de o ir buscar ao Areeiro. chego lá. ainda apanho um pedaço de conversa: "e depois ela foi a um desses médicos naturais..." "naturalista." "sim, isso". pago pouco, parece que foi só um fusível. saio contentinha. na 2ª circular o carro pára. outra vez. não, outra vez não... ligo para a oficina, pergunto se é para os apanhados. mandam lá um senhor (por sinal num carro de um cliente, com os plásticos no assento). ele troca o fusível e segue-me de volta à oficina. armo outro escabeche, eles que nem pensem cobrar arranjo nenhum, deviam ter-se lembrado de ver qual era o motivo de os fusíveis rebentarem antes. lá baixa os olhos e escreve "reclamação". saio a fumegar. o pequeno almoço já desceu há horas, mas estou atrasada. metro. Martim Moniz. subo as escadinhas de calçada com laranjeiras e desço a rua. aceno ao dono do cafézinho, mas hoje não dá para segundo pequeno-almoço, de bica e bolinho de manteiga. subo as escadas do prédio. ligo o computador, escancaro a janela. cheguei...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

serendipity

provavelmente a palavra mais bonita do inglês.

penso no cigarro que não tenho porque é de noite e o maço acabou. não tenho onde ou como ir comprar mais. leio-me e desreconheço-me. mas também não.
como umbigos mais altos se impõem, vou ter de acordar cedo, mais cedo do que preciso. vou onde fui indispensável e me dispensaram até ver. suspenderam a dispensabilidade porque há reunião em Sevilha e eu dou jeito. chama-se capacidade de desencaixe. raios, detesto almoçar sozinha. lá vai ter de ser. vou ver se almoço tarde para ver se os putos sobem a rua aos berros e me fazem sorrir. costuma resultar. ao menos vou poder usar o computador grande. tenho de levar um cd giro. o silêncio esmaga. deve estar frio lá em cima. espero que esteja sol. sempre aquece a vista. ainda tenho umas compras para fazer. não tenho tempo. mas tem de ser. pode ser que encontre as tais pantufas.
bem, ao menos estou fora de casa...

1.5. comente a imagem



esta é a Maria. a Maria é a minha gata. nunca gostei particularmente de gatos, (always been a dog person) mas sempre lhes achei piada... acho-os estúpidos, que é a minha forma de dizer cómicos. porque é que a Maria é a minha gata e os outros não? não sei. sei que me apaixonei por ela quando a vi. síndroma de Garfield, se calhar... é amarela, minúscula, gordinha, tem os olhos da cor do pêlo, mais arredondados que o normal. tem 4 meses, e é metade do irmão. tem o pêlo muito muito suave, tipo angorá. é meiga e brincalhona, e não é agressiva.
era a Maria que eu ia levar para a minha-casa-que-não-é-minha-e-que-já-não-vai-ser.
a Maria está a crescer. já não vai aprender a ir ao caixote e metê-la dentro de casa agora, depois de se ter habituado à vida livre e selvagem, parece-me maldoso.
talvez um dia a Maria tenha uma filhota ou filhote, mais pequeno que o normal, amarelo e brincalhão, macio e meigo, de olhos mais arredondados que o costume. e eu já tenha uma casa-minha-só-minha.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

kidding, right?


desculpa lá Roy Lichtenstein

ora estou a 300 e tal km de casa, onde, convenientemente, deixei a carteira esquecida. é fim de semana e estou em trabalho. já vai alta a noite, como na canção do outro. estou perdida no meio de Oliveira do Douro. à procura de um salão de festas, numa quinta dessas finórias, onde vou animar 200 macacos de gravatas e/ou saltos agulha no dia seguinte. tenho de os ensinar a fazer ritmos e tocar xilofone... não perguntem... a equipa que deveria preparar o evento tá dispersa, atrasada, metade deles ainda vem a caminho. quero chegar depressa, para preparar tudo o que me diz respeito, voltar depressa e dormir um par de horas, já que no dia a seguir tenho de estar aos saltos e muuuuito animada. ando às voltas, e voltas e voltas, e o estupor da terrinha parece cada vez maior e mais labiríntica. já não sinto o rabo. dói-me o joelho porque sou pequena e não consigo pousar o pé confortavelmente no acelerador. o mapa só ensina um caminho, com o qual não dou. já passei 3 vezes pelo talho. e outra 2 pelo presépio e pelo cemitério.
o carro pura e simplesmente pára.
no meio de uma rua perdida em Oliveira do Douro.
e não lhe apetece mexer mais.
está um grizo que não se pode.
o reboque chega antes do gajo que anda perdido em Oliveira do Douro à minha procura para me dar boleia de volta. não sinto os pés.
fiquei sem carro.

demoram 3 a 4 dias a trazê-lo para Lisboa. (mais outros tantos para justificar as horas e horas de mão de obra que me vão cobrar pelo arranjo). tenho os dedos dos pés azuis.
fiquei sem carro.
voltei para Lisboa de boleia com a B. os macacos gostaram dos xilofones.
é a semana antes do Natal, tenho montes de tralha para comprar.
fiquei sem carro.
moro a 30 km de Lisboa e a última camioneta para casa é às 10 da noite. não há comboios, metro ou amigos nas redondezas.
o carro veio da revisão há um mês. passou na inspecção há 3 semanas.
...
pausa para respirar
...
tenho de ir à bruxa, arranjar uma pata de coelho, uma ferradura, um trevo de 4 folhas...
ou um carro novo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

pente 0

detesto ir ao cabeleireiro. prefiro ir à ginecologista ou ao dentista, a sério.
a saga é inexplicável. já experimentei os cabeleireiros de bairro, os da moda, os gays, as senhoras com madeixas suspeitas e mola na cabeça... o problema deve ser meu, só pode.
começam por me olhar de alto a baixo... o meu cabelo escuro, liso, escorrido e oleoso não representa (como deveria!) um desafio. perguntam-se antes porque raio é que fui ali e não ao barbeiro fazer um pente 0.
tentam impingir mil e um produtos para lavar o cabelo que, por mais que eu diga que não tenho dinheiro para comprar, acham sempre indispensáveis. a parte porreira é lavar a cabeça... sabe tão bem. porque é que nunca têm cotonetes?
"como é que vai ser?" aaaahhh! esqueça, vou andando!
já experimentei dizer para fazerem o que quisessem. já tentei levar uma foto. já estudei o léxico. já fiz por gestos. já usei metáforas (a melhorzinha ainda é "queria assim um corte bem-disposto", ao menos saco um sorriso). sai sempre ao lado. suspeito que sofro de uma terrível incapacidade de comunicação crónica com os cabeleireiros.
ao som das tesouradas, vai-se-me apertando o coração com aquela sensação do irremediável. agora já não há nada a fazer. ai senhores que não era nada disto. se calhar seco fica bem.. mas... mas... eu não pedi... mas... mas... aiiii tem aí fita-cola?
eu queria ter o cabelo compridão, sedoso... mas não há dinheiro para extensões e esperar anos não me parece. já que não posso ser elfa, lembro-me dos cortes drásticos que já fiz, que me dão um ar de hobbit rebelde, com a vantagem de ter pés bonitos. por falar nisso tenho de voltar a pintar as unhas dos pés de azulão. e deixar de roer as das mãos. é que assim os dedos parecem tortos. estes dedos não servem para tocar piano, tão pequenos. sempre quis tocar piano. ou guitarra ou bateria. eu até tinha jeito para os ditados melódicos...
isto é o que passa na cabeça de uma pessoa que está a ouvir as tesouradas e tenta não as ouvir. tento não olhar para o espelho. mas os meus olhos não fazem o que mando. não querem ler a Maria.
depois ficam surpreendidos porque não pinto o cabelo, nem tenho permanentes. da última vez disseram-me que tinha um cabelo "selvagem... assim em estado selvagem, percebe, menina? é todo natural, não tem coloração nem nada... é mais complicado de moldar"
ah.
depois secam. enrola, puxa, cai cabelo, cai, já tenho muito, não é?... eu sei o que vai acontecer a seguir, eu avisei-a... pois... o meu cabelo começa a ficar com electricidade estática e a colar-se à minha cara. aí puxam da artilharia pesada - gotas, cera, espuma, creme... - e dizem "pois, isto em casa você com ele molhado põe-lhe disto e depois dá-le um jeitinho com o secador e escova, é um instante"(leia-se "estante"). ó minha senhora eu não sei, não quero saber. eu expliquei assim que me sentei que tinha de ser uma coisa prática, que desse para lavar, secar e já 'tá... "ó menina, mas é fácil". isto enquanto fazem o balletzinho do espelho à nossa volta e nos passam a escova para tirar os cabelos que não caíram no chão. ainda me apetece ajoelhar, e atacar a senhora que vem aí com a vassoura... "nnnãooo! é meu, todo meu, larguem-me! vou pô-lo numa caixa e vou tirar um curso de química por correspondência, e descobrir uma fórmula para o voltar a colar! vocês vão ver!!!" penso, enquanto com um sorriso amarelo vou dizendo que 'tá óptimo.
saio de lá, enfio-me na casa de banho do primeiro café a molhar o cabelo, para ver se remedeia. a mentalizar-me que "aquilo" que vejo no espelho sou a nova eu. é só mais uns meses e logo ganha uns jeitos engraçados... meses?!?!?!? AAAAHHHH!
só queria cortar as pontinhas...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

centro comerciargh!

é natal, é natal, tralalalalá... uma pessoa enche o peito de ar, inspira o ar frio, recebe o sol brilhante no rosto, e pensa em lareiras acesas, a família reunida, as azevias, as fatias douradas, o bacalhau, o bolo-rei, os sorrisos das crianças iluminados pela árvore de Natal e pelas cores dos embrulhos que rasgam com um ar possuído pelo demo.
como de costume, as boas intenções esvaem-se e deixa-se as compras para Dezembro... meados de Dezembro na melhor das hipóteses.
a minha família (leia-se núcleo familiar, a malta cá de casa, tipo 6 pessoas) faz TODA anos nesta altura (excepção feita para a minha mãe, que faz em Janeiro...). Começa a 20 de Novembro e só pára no Natal... eu estou desempregada. e moro longe...
pensei em fazer umas coisitas manualmente, aquilo dos presentes feitos com amor, a tal da "intenção é que conta"... claro que depois vejo as listas de cada um (sim, temos de fazer listas porque ninguém nunca faz ideia do que é que as pessoas com quem se vive o ano todo gostam - "tu és muito esquisita, é melhor fazeres uma lista") e percebo que vou ter mesmo de gastar dinheiro, porque ficava mal, não é...?
ainda por cima somos poucos... reduzidas as pessoas ao mínimo, ficam 12... não estão todos conosco no dia, alguns durante o ano não lhes pomos a vista em cima, mas temos de gastar dinheiro com eles na mesma...
isto a uma média de uns ridículos 15€ (suspiro... quem me dera) por pessoa já ficaria anedótico de insustentável.
hoje, estava num shopping à espera da V e do M, para jantarmos.
observei o mundo, um defeito que tenho...
lá estão... as decorações vermelhas e amarelas, os verdes falsos, as luzinhas a piscar, o Kenny G. e a sua gaita, os casais jovens - elas bexigosas e maltrapilhas, eles pançudos e carecas -, as grávidas com ar de mártir, os gajos a fumar à porta das lojas, ou de bigodes colados à montra da uma loja de electrodomésticos a ver a Sport TV, as avós perfumadas com mata-ratos e os netos ranhosos a arrastarem-se no chão e a darem caneladas no mundo porque querem o "Action Man missão na Floresta" e não o "Action Man missão no Bosque" com aqueles berros finiiiiiinhos e aguuuudos, as mulheres com olhares demoníacos agarradas aos caixotes da Zara, as filas intermináveis, inclusivé para embrulhar os chouriços do Continente...
gosto do Natal. a sério... em Outubro já começa a enjoar, mas antes até é fixe...
gosto de entrar numa loja e demorar 2 horas para pagar um gancho para cabelo. gosto que cada loja de roupa tenha as suas medidas (agora tenho de ter uma tabela para anotar as medidas das pessoas por loja E por modelo). gosto dos encontrões. gosto dos paizinhos que usam os carrinhos dos bebés para passar à frente na fila ou pura e simplesmente atropelar e fugir no corredor. gosto de ir com uma ideia bem congeminada do que quero e estar esgotado. gosto do novo conceito de "recebemos sem falta para a semana". gosto que atirem com o papel de embrulho ou caixas "do-it-yourself" para dentro do saco da prenda. gosto de as caixas multibanco nunca terem dinheiro e as lojas estarem com sobrecarga nas ligações à Unicre. gosto dos alarmes que deixam ficar na roupa e nos livros. gosto do espírito de natal nas filas de trânsito para entrar e sair dos centros, e das lojas, e das casas de banho. gosto de ir ao supermercado, e ver uma família de 6 pessoas agarrada a um carrinho com um pacote de pilhas, a passear pelo meio dos corredores como se o WCPato tivesse raios hipnóticos. gosto de receber bibelots. gosto de nunca poder estrear um par de calças no dia 25 porque têm sempre 50 cm a mais de tecido. gosto de ir para casa a trautear Kenny G...

domingo, 5 de dezembro de 2004

word

sentou-se de cigarro na boca. não era particularmente feminina a fumar. deu uma passa prolongada, deixando o fumo sair-lhe dos pulmões para a enrolar em mais um pouco de propaganda anti-tabagista. parecia neblina.
pousou os dedos no teclado, onde escreve mais rapidamente que se for de papel e caneta. apesar do prazer que o papel e caneta sempre lhe darão. não é à toa que, desde miúda, tinha uma pancada por blocos.
pensou em território. pensou em politicamente correcto. pensou em desistir. pensou em colaborar na fantasia diária da sua redoma-do-vamos-fazer-de-conta-que-a-vida-é-assim-e-que-estamos-bem-assim.
pensou com tempo. afinal, não tinha nada para fazer. estava farta de tanta inactividade, mas nem sempre das suas vontades dependiam os acontecimentos. a força falha quando não há motivação. a motivação falha quando não há entrega. os sorrisos amarelam porque tem de se sorrir. é suposto. não interessa a vontade.
sorriu. porque sim. um esgar é sorrir? não se lembrava de nada, mas tinha de ocupar os dedos. tinha uma missão. e as missões dão alento. alguém lhe tinha falado de escrita intuitiva.
mas esperava um apito. estava à beira da paranóia. apagou o cigarro. pôs as ideias em ordem e em poucos minutos organizou-se.
estava feito. por ora, a sua parte estava feita, em 3 folhas de word. agora, era acreditar.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

vê se pode?

como explicar a uma mãe que é mais do tempo da máquinas de escrever o que é um i-pod?

"é como teres uma estante cheia de dossiers com documentos importantes.... e muitos cds com músicas... e queres andar com isso contigo ou levar para outro lado. o i-pod é o carrinho de mão com auriculares..."

acreditem, resulta...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

gift

saí porta fora. fiz o meu papel. depois, fui à deriva... afinal, estava cinzento, frio e caiu uma chuvada.
mas abriram-me o chapéu de chuva... via sms...
abriu-se uma caixa de algodão.
e a conversa morna prolongou-se pela noite fora.
fumei cigarros(!)
mostrei as minhas meias novas.
o café aqueceu as mãos frias.
a lua apareceu.

obrigada a todos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004