segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

blue



nu. puro. intenso. quente. profundo. sonho. descanso. sensual. sorriso.

pianissimo

hoje há casting na agência de actores/modelos/manequins/qualquer coisas aqui do lado.
mais um dia em que não se consegue ir à casa de banho porque estão entupidas com meninas a retocar a maquilhagem ou a despejar as 3 garrafas de litro e meio de água obrigatórias para a hidratação da pele e para a dieta. vejo os rosto jovens, muitos muito novinhos mesmo. meninas, na sua maioria bonitas, de peles de porcelana, pernas compridas, cabelos num apanhado casual, com pontas estrategicamente soltas, dedos compridos e unhas impecáveis, roupa da moda em que, apesar de encasacadas, ficam lindas e nunca parecem chouriças com andar de pinguim...
meninos altos e atléticos, de folhas na mão, sorrisos de aparelho acabado de tirar.
meninos feitos à imagem e semelhança do mercado que pré-formata o nosso consumo. meninos mesmo dentro dos padrões que vendem ou se compram ou sei lá o quê, independentemente do que vai dentro da cabeça.
olhares de esperança sabe-se lá em que futuro...

tenho um casting [noutro sítio] e devia sair para lá daqui a meia hora. o meu cabelo está num só nó, apesar do brilho. tenho roupa quente de todos os dias que me engorda e botas de montanha. não tenho um pingo de base para disfarçar as olheiras. as unhas já se foram há semanas, entre falhas, ferramentas e nervoso. não há "charme natural" [ahahahah] que me valha e reparo que a motivação já não é a mesma de há uns tempos. falta-me qualquer coisa... talvez a inconsciência e o sentido de aventura que me permitiam jogar com a auto-estima de outra forma.

... ai...

domingo, 29 de janeiro de 2006

decorria o mui nobre e jovem ano de 2006

uma pacata família, na periferia saloia da capital, tomava a sua tradicional refeição almoçadeira de Domingo, dia santo de reunião de todos os seus elementos, dispersos pelos afazeres da semana.
de narizinhos enterrados na frugal refeição de carninha grelhada, os vários elementos faziam as suas considerações acerca da vida e do seu sentido. num momento de algum silêncio compenetrado no alimento santo, a mai'nova levanta os olhos e larga num pequeno sussuro de espanto um "olha, está a nevar". os restantes elementos direccionam os gloos oculares na direcção que provocara tal altercação. no mesmo momento a mai'velha solta o seu suave manifesto de alegria e incredulidade:
- FODA-SE tá a nevar!
levantam-se todos de um salto e o patriarca ainda consegue ter a presença de espírito, entre o atordoado da situação, de assertivar uma reprimenda demasiado frouxa à filha mais velha:
- ó Polegar, francamente, olham'essa língua...
- desculpem, desculpem mas tá a nevar!
mas o espanto tomou todos os intervenientes e todos saíram para o jardim para admirar o inédito acontecimento natural. a matriarca ria e chorava ao mesmo tempo, a mai'nova, no seu habitual recato, observava tudo sorrindo, o patriarca saiu a correr para gravar tudo na sua câmara de filmar, a mai'velha, já de gorro às riscas, saltava que nem uma cabrinha montesa, guinchava e ria à gargalhada, de braços e boca abertos, língua de fora, a apreciar o primeiro nevão da sua vida. quando lhe sugeriram que voltasse para dentro por um instante porque estava frio respondeu com um delicado:
- tás bêbado? tá a nevar!
custou a estes nossos amigáveis protagonistas voltar para dentro para terminar o repasto. e o que fizeram de seguida? claro que voltaram para a rua, vestidos a preceito, todos de língua de fora, para no caminho do café, fazerem a sua hidratação das papilas gustativas.
os flocos em turbilhão, tão vulgares para tanto habitante do interior norte deste país à beira-mar plantado, fascinaram os nossos intrépidos amigos que foram incapazes de regressar ao aconchego do lar e abandonar o primeiro nevão dos últimos 52 anos.

o primeiro instinto que tive foi de chamar a minha avó para vir ver aquele cenário que tanto pressagiara nos dias frios daqueles anos lá em casa. o segundo foi um suspiro descansado em que me certifiquei que não era preciso, ela estava ali, de sorriso aberto, a sentir também a espuma fresca gelar-lhe as bochechas macias.

de facto, os milagres acontecem...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

polaroide

o patrão entrou numa escura tarde de Novembro com um caixote dos cds da banda sonora do espectáculo que levámos ao Brasil, onde se lançou a dita B.S.O.... o meu queixo caiu ao chão quando leio na parte dos agradecimentos o meu nome... pois que não estava à espera, confesso... peguei no cd e desde então raramente saía do Mac quando queria pica para trabalhar nos projectos.
pois que pouco tempo depois volta ele ao fim de outra tarde escura e olheirenta com o seu I-pod, e de olhos esbugalhados, sorriso rasgado e carapinha de antenas no ar me revela um ultra-segredo... "tenho aqui um álbum que ainda não foi lançado. não podes contar a ninguém... mas ouve lá..."

ora foi abanar o capacete até não poder mais. foi interromper o trabalho só para pôr mais alto e parar para ouvir e degustar. agora pergunto-lhe sempre pelo I-pod onde ainda descansa o tal segredo, que respeito e só ouço acompanhada por um adulto responsável... eeeer... bem, mais ou menos responsável...
no entanto, há uns tempos pareceu-me reconhecer a música na rádio e delirei quando consegui seguir a letra...

hoje, mais uma vez vem pela rádio ter comigo o som inconfundível dos senhores (que para mim eram o P. e o J. e faziam a música do espectáculo, sem qualquer associação de nomes para além disso, porque eu para nomes sou terrível) e estendo um sorriso:
ele é show cases exclusivos de A Naifa tão privados quanto o momento do cigarro entre o fim da montagem e o ir buscar as escolas à entrada...
ele é tratar as vedetas por tu...
ele é conhecer as músicas antes de toda a gente e depois descobrir que até é hype e tudo...
ele é ter o meu nome num cd desses senhores que até são hypes e tudo...

...isto de me dar com gente importante tem um quê de cool...!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

o lado errado da avenida

caminhava ininterruptamente há muito tempo, não sabia quanto. caminhava entre palavras por dizer, entaladas no beco sem saída que o grito rasga. caminhava entre grãos de areia, minúsculos, que lhe massajavam os pés para depois lhos ferir em chagas sangrentas. sentou-se sem o suspiro do alívio. os passos seguir-se-iam, de novo.
não lhe interessou olhar em volta. não lhe interessou os cheiros nem os rostos.
pediu uma água e esperou. quando levou os dedos ao copo um reflexo no tampo de vidro riscado prendeu-lhe os olhos. um qualquer desassossego no cabelo comprido. um qualquer esgar perdido na pele sem sinais. prendeu-lhe os olhos.
permaneceu em sombria atenção ao reflexo no vidro riscado. com medo, talvez, de levantar os olhos para se deparar com uma figura diferente daquela ali gravada a duas dimensões, recortada pela luz demasiado forte do exterior.
os olhos pareciam límpidos à primeira impressão, mas algo se escondia por detrás da serenidade, demasiado transparente, demasiado simples. um travo morno subiu-lhe à lingua, abafou-lhe a frescura da água enquanto fixava os pormenores do cabelo preso numa trança comprida e escura, emoldurando o pescoço, o nariz espevitado, as mãos pousadas ao lado de um copo com um líquido amarelado. a roupa sem qualquer desígnio de tribo urbana ou moda. não marcava posição ou mania. vestida para agasalhar. vestida para despir.

estás do lado errado da avenida. sei-o nesses dedos inertes que de vez em quando fechas num punho pequeno, nesse olhar suavizado para não dizeres nada. há quanto tempo estás aí? vês-me? sim, vês, mas não me viste porque não olhaste. como eu não olho para ti mas para o teu reflexo. a que cheiras quando te deitas? ao creme que passas na testa em gestos desprendidos ou ao suor de um dia comprido? dormes nua? ouves música ou preferes que o silêncio não te tolde os pensamentos para que entres nos sonhos sem enganos? quanto tempo dura o teu sono? é sereno ou tens insónias? porque nessa pele sem mácula encontro sombras. não se vêem se te olhar de frente, eu sei. dissimulas bem, mesmo quando achas que ninguém te observa. sorris muito? e dessas, quantas vezes sorris com vontade? gritas quando fazes sexo ou choras no fim? e depois? tremes de frio e enrolas-te ou estendes-te de corpo abandonado a fumar um cigarro? fumas? a que sabe a tua boca quando acordas? sabes dançar? esse pescoço diz que sim. as tuas mãos dizem que não. porque é que não és como as outras? porque é que não tentas mostrar o que sabes o que conheces o que ouves o que lês o que fazes e repetes? estás aí parada, só parada, e só tentas mostrar que estás serena. quando todos à volta se queixam da vida em altos suspiros de desgosto tu calas. reage. se te morder a orelha para te guardar o sabor, deixas? tem um orgasmo para mim. chora-o na minha cara. sentes-te bem?

agarrou o peito e os olhos alteraram-se da serenidade para um pequeno nanossegundo de desamparo. olhou em volta sem ver e voltou à redoma de abstracção. ele levantou o corpo da cadeira sem o suspiro do sacrifício. largou uma moeda no rosto riscado. e levantou os olhos do vidro.

- olha, vem comigo, vens?
- ... desculpa?
- anda, vamos correr. se te cansares enganas a dor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

porque é que as produtoras andam aos pares?

para carregar os calhamaços do IA em quadruplicado.

ausência

falhei, outra vez.
sem explicação que vá além de que as horas não esticam e que a cabeça não tem direito a parar um pouco em si. agora não. mas nem por um momento consegui associar um dia a uma data a um acontecimento especial na vida de uma pessoa especial. não há falta de sono que o justifique, não há afazeres que o justifiquem.

faço agora uma pausa, sem tabaco. porque de repente aqui está o branco e eu e o Romeu na parede. uma ficou doente, os outros tinham compromissos incontornáveis. e eu sobro. mais uma vez. a papelada tem de estar em quintuplicado, sem falhas, encadernada até às 17:30 nas mãos de um qualquer funcionário que quer ir de fim de semana mais cedo.
e ficou a lista do que falta terminar.
eu encarrego-me disso. por uma questão de ética, da minha ética, mais do que de dever profissional a quem me paga mas depois me abandona na hora H. não vai ser por minha causa que falha. mais esse fardo não.

mas fiz uma pausa, e um segundo de lembrança chega para escrever em parangonas nos olhos o que de realmente importante falhou. de repente, num flash. que devia ter chegado ontem.

apesar da dificuldade em conseguir conter o choro neste momento, por cansaço, desgaste, incredulidade, revolta, desorientação, sensação de injustiça, impotência e obrigação de conseguir, tive de tirar um bocadinho para, aqui, poder dizer: desculpa.
falhei-te. devo-te, agora e sempre, ao menos um beijinho e o calor de uma presença inventada em palavras ao longe para um aconchego extra na hora das borboletas. e sei o que dói essa ausência e por isso sei o que te dói. aí, ao pé do bolsinho, que sentes vazio de qualquer coisa.

para uma bonequinha.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

caros senhores do IA:

muito obrigada por me tramarem mais uma noite. uma noite que tinha excepcionalmente livre para dedicar a mim e ao meu futuro e às minhas cores.
menos uma. mas cumprirei os prazos... os vossos e os meus. apesar de os vossos, oh, meus caros, por favor... deixam tudo a desejar... eu percebo-vos. os amigos já estavam informados de antemão e portanto já têm tudo feito. não se preocupam com timings. o resto se organizará conforme a Vossa palavra, alterada num decreto-lei feito à pressa na véspera da abertura do concurso.
hoje ficarei, então, muitas horas depois do jantar e da caminha onde estarão as vossas queridas e frígidas esposas de máscara de pepino na cara, no escritório, que não tem café, a dedicar-me aos textos do projecto que querem que o pessoal apresente conforme os novos objectivos [diferentes a cada concurso], à coordenação do cérebro disléxico e disperso do meu patrão com as teclas. enquanto os outros dois se dedicam aos números.
espero conseguir ser lesta com esta coordenação como sou a verborrear num teclado, porque amanhã, senhores, tenho de me levantar cedo. o meu trabalho não pára. vossas excelências ficarão, concerteza, até tarde na caminha. claro, faz bem à saúde. sabem, depois de passar o dia de amanhã [como fiz hoje, por sinal] a trabalhar [como em a acartar com ferros, aparafusar estruturas de madeira, desenrolar e enrolar carpetes de dezenas de metros... coisa ligeira], à noite vou para um estúdio gravar as vozes dos bonequinhos que os vossos filhotes tanto gostam de ver enquanto as vossas empregadas vos limpam a casa, passam a roupa da vernissage a ferro e vos preparam o martini de fim de dia...
e, caros senhores, tenho de me conseguir manter em pé na sexta-feira, para ir de novo, logo pela fresca, para o tal trabalho ligeiro, seguido de retorno ao escritório para a correria de último dia de entrega dos projectos, onde vai faltar sempre qualquer coisa.
por ora, já comprei uma caixa de donuts, um pacote de bolachas, e uma caixa de aspirinas.
a colega assaltou o cofre da empresa para comprar oito chapas para café. a pedido especial, a máquina do bar ficará ligada.
imprimimos um aviso para a porta, onde se lê: "proibida a entrada a quem não tiver o maço de tabaco cheio".

agradeço-vos, portanto, por preencherem a minha vida de uma forma tão interessante, saudável e pouco calórica.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

numero 87

ao fundo dos degraus de madeira já gasta dos passos uma porta de madeira e vidro. mais dois degraus, de pedra, um pouco mais largos, para o passeio. no segundo, de pés direitos assentes na calçada, sentava-se aquele homem. todos os dias, à mesma hora. de roupa tão neutra que não se conseguia descrever. não marcava por ser de um estilo, ser velha, nova, escura, colorida, quente ou fresca. o rosto era talvez monocromático. sem nada que o descrevesse ou tornasse único, aos olhares esquivos dos muitos que ali passavam. invisível como os passos que marcavam as pedras dos degraus, uma parte do degrau, talvez, que ocupava. uma parte da fachada do edifício que lhe servia de moldura. estático, como uma gárgula de carne e nervos desfocada da erosão dos dias. ficava direito, as costas largas apoiadas no vidro. um contraste de sombra perfeitamente delineado na luz errante do meio da tarde. poder-se-ia jurar que deixara já queimado no vidro esse seu contorno das costas. as mãos, nem curtas nem compridas, nem bonitas nem feias, nem peludas nem lisas, nem enrugadas ou jovens - assentes nos joelhos com uma precisão simétrica. ficava. estava. fantasma quieto das pedras. parecia aguardar. esperar por alguém. por vezes quebrava essa quietude com um gesto seguro em que os dedos da mão direita se esgueiravam para o tal casaco sem descrição e tiravam do bolso um cigarro. sem maço. e um fósforo. sem caixa. entre o indicador e o médio o cigarro levado aos lábios. entre o polegar e o anelar prendia o fósforo. depois fechava os dedos em torno do pauzinho e raspava-o rapidamente na pedra do degrau. a faísca e a chama, o puxar do primeiro bafo, a primeira nuvem de fumo. os dedos recolhiam ao bolso, largavam o fósforo queimado, retornavam ao joelho. e ali ficava. a deixar a nicotina desfazer-se em cinza entre os lábios, consumindo o único ar que parecia dar-lhe forma aos pulmões. e o único cheiro que o distinguiria, o do fósforo queimado, esvaía-se nos ventos, jacarandás, perfumes, suores, vozes, roçares de casacos.
não parecia reconhecido aos raios de sol quentes ou desagradado ao vento frio ou à chuva. estava. o momento em que se levantava, ninguém nunca se dera ao trabalho de contar. apenas que quando desciam as escadas, ele já lá não estava. onde ia, também não se questionavam. os outros.
dizia um condutor da carris que às vezes, em descendo a calçada ao fim da tarde, se ouvia um homem murmurar, sentado na caixa verde de metal do fundo do elevador - se era o mesmo não se sabe mas era também anónimo demais para se desenhar um maxilar ou apenas um esboço de expressão. parecia gemer e chorar. mas o rosto permanecia assim. igual. nunca lhe perguntou se chorava ou se falava apenas com as vozes da cabeça. nunca lhe perguntou como, apesar do rosto sintético e gemidos estranhos, comprava o passe todos os meses, acto tão corriqueiro. também nunca lhe perguntaram onde comprava tabaco e os fósforos. se a menina que lhos vendia lhe conhecia a cara ou também a fixara por ser a única impossível de fixar.
no dia em que desistisse de esperar, o relevo na pedra teria já abraçado a forma do seu sentar?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

da pressa

desejando estar noutro qualquer sítio, vendo as árvores e os candeeiros a fugirem dos olhos nervosos.
as mãos fechadas, estáticas, cravadas em tensão nos estofos do carro e as pernas completamente rígidas carregavam num travão invisível, na desesperança de ver chegar uma curva cheia de poças de água e temendo o descontrole de uma coisa tão falível como uma caixa de metal com rodas conduzida por um louco furioso.
as horas escorregavam nos vidros de forma dolorosa e nem a música cantada alto - desavergonhada porque desesperadamente - espantava os medos obscuros e as visões de uma noite escura em que o som da chuva soou demasiado alto e só parou num estrondo ensurdecedor.
o homem ao volante, de cenho franzido e movimentos incertos, tomava agora - tenho a certeza - contornos quase monstruosos, de ser mutante, umas horas atrás pessoa normal, agora quasi-homicida.
às vezes não percebo as pessoas, juro que não percebo. o desprendimento com que se toma responsabilidade sobre a vida dos outros. numa boleia ou numa viagem sozinho, em que se cruzam centenas de vidas à nossa volta.
a possibilidade de se curtir uma viagem de paisagens nocturnas de cortar a respiração, dignas de uma paragem para um cigarro e contemplação, completamente esmagada por um pé num pedal em nome de sabe-se lá que alívio de uma estranha frustração.
hesitava-se entre o não se lhe dizer nada para não o distrair das curvas demasiado apertadas e o falar com ele a ver se por estar na conversa abrandava. corria-se o risco, no entanto, de ele, entusiasmado com a conversa, tirar as mãos do volante para esbracejar as palavras...
demasiado tétrico para ser irónico foram as incontáveis vezes que se falou do meu acidente, em que não tive culpa nenhuma e ia devagarinho [como é que se admite esses malucos que aí andam, pá?!], e de fulano e sicrano terem morrido ou ficado com uma perna enfiada na testa por excesso de velocidade. porque o tom que circulava era o do "coitados, realmente ele há gente que não pensa... mas isso só acontece aos outros e eu posso continuar nesta desculpa esfarrapada de estrada a 150 à hora que nada me acontecerá, porque sou eu, o Rei, o Senhor do Asfalto e conduzo muita bem - olham'esta beleza a curvar e a entrar em contramão no cruzamento [e ele chateado com o cruzamento, porque não devia estar ali e devia ser mais largo], olham'esta qualidade de reacção a acelerar para ultrapassar em cima do traço contínuo [porque a fila lá à frente sempre é lá à frente], olham'estes travões que nem preciso de manter uma distância de segurança de 50 centímetros [e o lembrar-se de lá meter o pé, senhor?]. eu tenho um carro que inexplicavelmente se mantém em cima das quatro rodas mesmo quando faço as maiores barbaridades - que não são barbaridades, porque sou eu que as faço, hem?".
naquele limbo do temer pela vida e do não ter pago a viagem para me por com exigências [como faço num táxi] ou ter confiança suficiente com o senhor para lhe mandar um berro e dizer-lhe que ou ia devagar ou levava um pontapé na boca [note-se que seria em palavras menos simpáticas, mais escatológicas e anatómicas e de vogais bem abertas], mantinha-me em choque catártico, a tentar lembrar-me de respirar, a tentar não reparar de cada vez que o pobre carrinho, tão inteligente, coitadinho, apitava a avisar que se ia em excesso de velocidade [coisa frequente que se tornou ensurdecedora. mas o triste apito acabava por desistir, cheguei a pensar que de afonia], a tentar ignorar a minha cabeça feita chocalho, as minhas costas num monte de ossos sem ordem. e a pensar na desgraça que seria se o senhor em vez do carro dele estivesse a conduzir o meu falecido... e a fazer, bastaria, um terço do que estava a fazer com o dele... é que nem tinha andado 100 metros.
cheguei ao ponto de, no pânico, antever a minha morte já ali naquela curva, sendo o fantástico tecto de abrir - que me mostrava de vez em quando uma lua cheia maravilhosa - o meu voraz assassino, na pessoa de estilhaços cravados no meu pescoço...
...
... de repente, alguém se lembra que se esqueceu de uma mala. ora portanto... uma hora de tortura feita, agora mais uma para ir buscar a mala e outra para voltar ao ponto onde estávamos, mais umas duas e tal até chegar o momento em que sentiria [se realmente conseguíssemos lá chegar] o chão seguro debaixo dos meus pés. acho que nesse momento os meus olhos caíram das órbitas e os meus dedos, já dormentes, perderam o fôlego.

ainda em busca do meu carro novo-semi-novo-usado-sem-estar-muito-ao-menos-com-as-peças-todas-fashavor, dou comigo a pôr de parte a cor, o design e o consumo e a imprimir as páginas do testes de colisão, a analisar as velocidades máximas que atingem, como serão os pneus, se têm tecto de abrir... e a fazer uma lista de pessoas que nunca deixarei que peguem nele, nem para o tirar do estacionamento...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

maldisse

o dia cinzento com o sol mesmo ali, do lado de lá, mas na mesma cinzento.
o frio ainda maior que fazia nos claustros toda a manhã.
o facto de o trabalho começar cedo demais para tomar o pequeno almoço e acabar tarde demais para almoçar.
o peso das coisas que tinha de carregar.
as unhas partidas, agora que conseguira deixar de as roer, por causa dos ferros, tapetes e parafusos.
os irresponsáveis institucionais com que tinha de lidar que tinham perdido uma chave e já a queriam acusar a ela.
o tempo que demorava a chegar depois de tudo ao escritório.
o facto de ter de ir para o escritório depois de tudo.
o facto de lhe apetecer ficar sentada a olhar para a parede sem produzir a uma semana da entrega dos projectos.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser sem companhia.
a incapacidade de se sentar a comer como deve ser.
a torrada com demasiado sal, sal só nas batatas fritas.
o galão demasiado amargo.
o estado letárgico que a impedia de se levantar e pegar noutro pacote de açúcar.
a gulodice que lhe ia de certeza trazer crises de diabetes aos 30.
o facto de ter de atravessar a estrada e entrar de novo no escritório vazio.
o facto de ter mais trabalho noite dentro.
o facto de não ter carro.
o facto de não ter tempo para tratar do carro.
o facto de não ter tempo para despachar as suas coisas para andar a despachar as dos outros.
a noite mal dormida, de sono demasiado pesado.
a manhã mal acordada, o duche mal tomado, o espelho de olhos desanimados e olheirentos.
o cabelo espigado.
a preguiça de sequer por um creme na cara.
a roupa mal amanhada, nova mas já a borbotar dos carregos, que a fazia sentir-se mais trapo-fêmea que mulher.
o facto de não ter ouvido nenhuma música durante todo o dia.
a rapariga do café que, de bata branca e touca na cabeça, brincara com um cão bebé às pintas e voltara para trás do balcão sem lavar as mãos.
o facto de ter reparado mais nisso que no cão bebé às pintas.
o facto de isso a fazer sentir-se cada vez mais parecida com a mãe.
a mulher que a olhava com um sorriso-pensativo-quase-paternalista na mesa do fundo.
a máquina do café que não tinha Luckies nem Detroits.
o ter de ir gastar dinheiro em tabaco.
as miúdas estragadas que à porta do Extra todos os dias pediam uma moedinha como se nunca a tivessem visto.
o facto de lhe ser inevitável dar-lhes mesmo uns trocos ou um cigarro à saída.
o sorriso demasiado apagado quando viu um menino chinês a perguntar "quanto custa buáxás" ao senhor do Extra.
o taxista que quase a atropelou na passagem de peões.

maldisse o ter acordado com os pés de fora ou com o rabo virado para a lua ou nem carne nem peixe ou lá o que foi que a deixou o dia todo a maldizer tudo.
detesto estes dias cinzentos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

arrepios

numa dessas longas noites de trabalho, quando o cigarro à porta não sabe tão bem porque o vento enregela os dedos, quando apenas algumas luzes se mantêm acesas nas janelas da rua escura, num pequeno estúdio dos arredores de Lisboa, o trabalho tem de ser feito. doa a quem doer...


care bears | ep. 28 | personagem "arrepios" | take 1

nota: não recomendável a pessoas algo sensíveis. não ouvir com o patrão por perto.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

thumbelina's law

uma colega teve um pequeno acidente. culpada por azar, porque o outro é que ia a abrir.
ouço-a a manhã toda, enquanto enrolamos cabos e espalhamos panos e aparafusamos, ao telefone com a mãe, que está na seguradora por ela.
de regresso ao escritório, ela dá-me boleia. chamadas insistentes de um número desconhecido. pára na berma e atende. do outro lado berreiro. touro com ascendente em virgem já se sabe... exalta-se, responde já sem paciência porque a senhora esposa do condutor telefona com acusações, depois de o próprio ter passado a semana a ligar-lhe com ameaças. desliga o telefone na cara da mulher e acende um cigarro. eu acendo outro e sorrio quando o telefone volta a tocar. estendo a mão perante a cara estupefacta da minha colega e atendo, piscando-lhe o olho e com uma longa inspiração. endireito as costas, traço a perna, voz colocada e extremamente calma. vou-me divertir...

- muito boa tarde.
ouço uma respiração como se fosse começar um ataque e ficasse desarmada.
- ... b-b-boa t-t-tarde...? estou a falar com quem?
- com a advogada da Dona M. presumo que seja a esposa do senhor com quem houve a colisão...?
- s..s...sim... - pequena recuperação, retoma o registo de berreiro - mas você é advogada o quê, hem? tou mesmo a ver, e atendia agora, se ainda agora falei com ela! dê-me já o seu nome, se é advogada! olhe que eu também tenho advogado!
- minha senhora, acredite no que quiser. por acaso, além de advogada sou amiga da Dona M. e estava no carro com ela e pude assistir à vossa conversa. não lhe dou o meu nome porque prefiro manter-me apenas como amiga da Dona M. até ao momento em que se verifique a necessidade de levarmos esta situação a tribunal, o que penso que seria um disparate, uma vez que me parece que apenas há um mal-entendido...
- pois, mal-entendido! o mal-entendido é a Dona M. ter carta, sabia? pessoas dessas a conduzir como é que se admite! nunca vi! escorregou-lhe o pé no tapete, tá bem! era só o que faltava!
- minha senhora, as condições em que aconteceu o acidente foram devidamente explanadas na declaração amigável de acidente. neste momento o que há a fazer é dar seguimento ao processo com as seguradoras.
- pois mas a Dona M. não meteu os papéis! ela pensa que nos engana mas não meteu, que eu sei, porque a minha seguradora já me deu os recados de que ela não meteu. e ainda por cima é malcriada comigo ao telefone, desliga-me assim e diz que não tem nada que falar comigo!?!
- como deve imaginar, minha senhora, é complicado para a Dona M. ter recebido toda esta semana chamadas do seu marido para o telemóvel pessoal com ameaças... especialmente depois de já ter tratado de tudo, conforme a informou... qualquer pessoa fica alterada e enervada com tanta insistência em acusá-la erroneamente.
- mas não tratou nada, então não sei que não tratou?! veio com conversas que tratava de tudo mas eu tenho os recados da seguradora em como não tratou, que eu ligo para lá todos os dias e foi o que me disseram! nós somos pessoas de bem, honestas e trabalhadoras minha senhora! - aqui, falava já em metade das rotações e eu já podia manter o telemóvel perto da orelha.
- somos todos, minha senhora. mas porque é que parte do princípio que a Dona M. não é? posso garantir-lhe que ela tratou pessoalmente de tudo, tal e qual lhe disse. eu acompanhei tudo. ela deu logo andamento ao processo. depois de receber o recado do seu marido, visto que estava a trabalhar, pediu à mãe dela para lá ir esta manhã e está tudo conforme os trâmites necessários.
- então porque é que...?
- minha senhora, o que se passa é muito simples. neste momento são as duas seguradoras que têm de tratar da situação. o que suspeito que esteja a acontecer, e não seria novidade, é que estão com algum problema burocrático ou de passagem de informação, e como sabe tão bem como eu, neste país, é mais fácil culpar o cliente que assumir a responsabilidade da empresa...
- p-p-pois... se calhar. hoje em dia é tudo assim...
- o que eu lhe sugiro é que passe a pressionar a sua seguradora, e, se quiser, a dela.
- pois... se calhar é melhor eu começar a chatear a seguradora em vez da Dona M...
- e não se esqueça que isto envolve muita papelada, demora sempre algum tempo a resolver.
- pois... olhe, então desculpe lá o incómodo, sim? desculpe lá. muito boa tarde.
- muito boa tarde para si também, minha senhora. cumprimentos ao marido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

a girl has got to do what a girl has got to do


[ms]

na sequência do abrupto falecimento do meu jippy, depois das mentiras mal mastigadas do outro senhor - que nem a companhia de seguros dele convenceu -, depois da vitória do Bem sobre o Mal, depois de ter recebido oficialmente e peremptoriamente a confirmação do perito de que foi "perda total", e dado que o processo burocrático todo está a chegar ao fim, vejo-me perante a necessidade de comprar um novo carro.
não novo-novo, claro, porque o montante não dá para tanto, mas um usado em bom estado.
pensei muito em guardar este dinheiro e comprar uma vespa, mas infelizmente preciso mesmo de quatro rodas com chapa à volta para os meus carregos em dias de chuva, para não ter de viver em função de empréstimos da boa vontade alheia, que tem limite de paciência e vida própria...

por isso, venho pedir ajuda a todos os polegares que por aqui passam:
um carro recente [tipo 2002 - 2003] que beba pouco, que seja de confiança a conduzir, que não tenha revisões [normais] muito caras, que dê para dar boleia aos amigos [não necessariamente 5 portas] e seja bonitinho.
até 8000€, à venda em Lisboa.
não estou interessada em compra ao próprio porque preciso de garantia. portanto, indiquem o stand.

suggestions anyone...?

sábado, 7 de janeiro de 2006

a noiva



abre os olhos ainda não acordou o mundo. na janela ainda sem cortina passam pequenos raios de luz, tímidos, dando-lhe os solitários bons dias. a cama demasiado grande sem o outro corpo que a escolheu, revolvida da noite sem sono de borboletas na barriga, as paredes ainda largando o cheiro da tinta pintada a dois há poucos dias. larga os lençóis e a preguiça hesitante. ele já terá acordado? a água escorre fervente pelo corpo que teima em manter-se arrepiado e tenso. perde mais tempo no creme com o cheiro do perfume que a pele absorve, sedenta. umas calças de ganga, um casaquinho e rabo de cavalo. acende as luzes da cozinha e engole sem vontade uma torrada.

o telefone toca pela primeira vez. não é ele, hoje recusa-se a falar com ela. a amiga está lá em baixo à espera. desce com a carteira e telemóvel no bolso do casaco e chaves atrapalhadas na mão. a conversa amena distrai-a e as revistas no cabeleireiro também. ele ter-se-á lembrado da flor para a lapela ou irá levar a teima dele avante? o ferro queima-lhe ao de leve uma orelha e o cheiro do spray fixante para as ondas no cabelo dá-lhe alguma náusea. quando levanta a cabeça e se mira ao espelho, ainda com a roupa do dia a dia, não se percepciona.

regressa e o telefone toca de novo, abre a porta e entra a irmã de mala prateada na mão, recheada de pincéis e frascos brilhantes. senta-se à janela e vai dando dicas à amiga para escolher uns cds tentando não se mexer. será que ele gosta deste castanho nos olhos? atende mais meia dúzia de telefonemas, explica caminhos e horários. depois de meia hora de risos calmos e algumas caretas, o espelho volta a sorrir-lhe, ainda atordoado.

vai ao quarto que será escritório mas onde por agora a única coisa que o tem é um cabide com um vestido branco pendurado no puxador da janela. as mãos tremem-lhe ao subir as meias de vidro pelas pernas. não serão demais? aos dedos escapa o caminho do fecho do soutien que conhecem de cor. o verniz já secou, de certeza? o saiote que já ensaiou parece-lhe maior e a saia demasiado apertada. o top não tem aqui uma linha solta? enrola-se na pequena estola de plumas que parece não assentar nos ombros como da última vez, no atelier da costureira. a irmã dele telefona à gargalhada e diz que ele nem dormiu. será verdade? a amiga tem de lhe calçar as sandálias e a irmã ajeita-lhe os caracóis soltos perto do ganchinho.

dobra a roupa e faz a cama. será que ele já chegou? estará à minha espera? novo telefonema. parece que ele já está a roer os cotovelos, à falta de unhas. coitadinho. mas ele estava tão calmo ontem. mete numa malinha o baton e perfuma-se. pergunta três vezes se cheira bem. que horas são?

de cabide na mão sem se saber ao lado do armário, estaca em frente ao espelho. uma última vez. e rodopia. larga uma gargalhada e um sorriso ansioso. já está.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

still in rebounce

hoje fiz uma coisa que me espantou a mim própria. recusei um trabalho em teatro.
os motivos são meus. muito meus. mas pela primeira vez inspirei fundo e disse que não. depois de experimentar, claro.
as forças já não são as que eram, e curiosamente as ilusões também não.
pesei na balança os prós e os contras, as pálpebras pesaram-me e o peito pesou-me. senti-me estranha, diferente e tive medo de me sentir injusta. com os outros e comigo. entre o "há-de aparecer qualquer coisa que valha a pena", o "estás a ficar velha, oportunidades não caem do céu" e "ainda achas que vais chegar a algum lado assim?" ou até "mais vale saíres agora do que não teres coragem para sair depois" puxei de uma golfada de ar sem cigarro e no suspiro deixei sair a razão.
assim não, por desespero não. por amor. por orgulho. como sempre foi.

...

se calhar estou mesmo a ficar velha...
mas nesse caso com a idade não vem a sanidade, senhores...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

do sono ou como enlouquecer uma produtora

deixo-me dormir mais 20 minutos e chego os mesmo 20 atrasada ao tal do monumento para a montagem. os carregadores já lá estão e começamos a labuta. da colega [substituta, esta semana, mas igualmente franzina, só que mais nervosa e caótica] nem sombra. começo logo a remoer, ela no dia anterior tinha-me pedido para a acordar, o que fiz, contrariada e avisando que isso é favor que só faço uma vez. pego no telefone pronta a ouvir a coisa do "está trânsito" ou "adormeci mas já tou a caminho". ouço uma voz de almofada que me arrepia toda. "então, V.?" "então o quê?" "espectáculo... remember?" "mas que horas são?" aieee "9:30" "ai, desculpa, vou já para aí".
chegou estava quase tudo montado. uma hora e dez depois de mim. com a loucura da confusão de berbequins e porcas e panejamento, nem dei conta das horas nem das pessoas que já estavam. entra uma das actrizes a cantar "lágrima" e o mundo pára um bocadinho. não é toda a gente que tem direito a show case de A Naifa com o seu fado preferido... mesmo entre carpetes imundas e parafusos.
o momento zen termina quando, às 10:45, dou pela falta de dois actores... com espectáculo a começar às 11:00.
um foi acordado aos primeiros toques de telefone. o outro devia estar com uma moca tão grande que só acordou depois de várias tentativas. às professoras foi dito que um dos actores tinha tido um acidente de carro e estava a resolver o problema. pedimos à M que começasse a visita guiada com os 50 miúdos e que enchesse chouriços para os dois ramelas chegarem. ao contrário das piores previsões [o espírito de equipa nos bons actores é, de facto, sintomático], ela prontificou-se a fazer uma longa visita guiada por todos os meandros do dito monumento e disse que se necessário até recitava Pessoa.
assim se conseguiu evitar o desastre, e os meus joelhos fraquejaram quando o último rameloso entrou a correr nos claustros.
eu não sei... eu acho que um atraso é normal. e chego quase sempre atrasada. mas... assim? sempre trabalhei com gente que brasicamente pagava do seu bolso para poder ir ensaiar e representar... e nunca tive destas agonias! não havia a coisa [a que eu me recusei quando me passaram a pasta] de ligar aos meninos para os acordar. para fazerem 2 horas de trabalhinho pago ao mês, asseguradinho... e ainda é preciso coordenar as coisas entre o respeito pelo colega que lá esta desde manhã e o respeito pelo espectáculo em si.
o mundo, está, de facto, ao contrário...

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

imagens

de um branco leitoso e sorrisos de luzes. de pincéis desenhando meigos com pó as linhas da alegria. de orgulhos alheios e cumplicidades. divago algo alheia, satisfeita com as mãos dadas e o sim das certezas, com banda sonora fraterna. crenças à parte. teorias à parte. amor é universal e a lei que gosto de seguir. de lágrimas nos olhos, pois que chorona sempre serei quando chega a altura em que o filme é delico-doce e escorre nos meus olhos em toque de realidade.
e sigo com os olhos e a câmara para mais tarde recordar, os passos decididos num caminho de pedras sem dores.
o arrulhar dos talheres, os fumos, os goles embriagados e as conversas dispersas não me prendem. anseio pelo momento prometido em que os sons serão outros, compassados, trementes e suados. e assim entro na nova data, no novo número. dançando voraz cada nota bem disposta, rodando e arrancando sorrisos meus. ao som de uma qualquer música velhinha de rock and roll.