quinta-feira, 27 de março de 2008

feliz dia, dia feliz


ph.t. de espanta-espíritos

a quem se enterra em dúvidas toda a vida, com a paixão como único guia. a quem vive de borboletas, tecidos e pós que se desvanecem nalguma curva do caminho. a quem renasce a cada luz que se acende. a quem se alimenta de dar. a quem tem apenas o corpo para dar. e nele recebe o suor de almas que não existem. mas acredita. a quem se rasga para caber mais qualquer coisa que não se vê, para que se veja.
e a quem acende as luzes, a quem carrega nos botões, costura, constrói, inventa, pinta, escreve, captura, estende o adereço e orienta os passos. a quem conta histórias. a quem faz sentir.
hoje é o nosso dia.
feliz dia mundial do teatro.

quarta-feira, 26 de março de 2008

ar

são os pontos de encontro da respiração. tudo está ligado, todos os lábios se beijam.
cruzámo-nos. tu viste-me, não te vi.
levantaste os olhos por momentos dos teus pés que acompanhas com devoção para não teres o mundo por perto, ombros descaídos sob o peso da mochila e da vida que escolheste. levantaste os olhos vagos, vagueantes, imensos, imersos, submersos, subterrâneos. triste momento despejado por ti abaixo, gelado. desenraizado. viste-me na minha distracção abstracta com as músicas enfiadas nos ouvidos, as letras nos olhos, o livro nos dedos hesitados, sem saber o que me leres na tal aura em que acreditas. e por ali ficaste, sem um gesto, sem uma inalação, à espera que essa suspensão me sugasse direito a ti. à espera que me vaporizasse em mil estilhaços que se te arrastassem pela cara, te cortassem as veias e a escultura do perfil, para ser culpa minha outra vez. nada. só os ecos. invadiram-te. mas não eram teus, eram só perspectivas distorcidas do espaço em volta, que te tocava e não querias que te tocasse. invadiram-te, assim, sem pena nenhuma, os passos e o cérebro, a carne a rasgar-se para jorrar no chão e nas paredes tudo o que guardaste e coseste a fio grosso com agulha ferrugenta. tudo o que crias suturado. tudo o que querias queimado. cheirou-te a carne queimada. e assim a tua divindade apodrecida, e assim os véus de chumbo, os ventos de dúvidas e a tua causa em causa. o ego tem sustentos frágeis, carcome a realidade, a carne da certeza, para se manter de pé. assim fechaste os olhos e assim o altar da tua veneração te inalou. a tua cara semicerrou-se num punho altivo e desengonçou-se na estranha dança que evocas quando te assombras. sempre te disse: nada pior que os teus fantasmas para te aninhares na solução dos medos. o medo de não seres como te constróis. conhecem-te demasiado bem para te dar conforto. conheces-te demasiado bem. já não te conheço. por isso nem te vi.
desapareci no fundo da escada, alheado dos espinhos que já não procuro.
nunca foste húmido ou hidratado. choras sem água, devagar, degustando o ritmo dos teus soluços. são pequenos sulcos ressequidos, intervalos de ar grave que te soam perfeitos, como tudo na tua tristeza.
não te vi. mas todas as peles se tocam, todas as almas se respiram.

segunda-feira, 24 de março de 2008

cinco

noites de olhos abertos porque o calor não está e eu com os pés frios não consigo dormir. não está ninguém?
acendo a luz de presença, o sol desgasta-se à entrada.
o refúgio são as cores. as velharias, os livros, os cartazes, a manta de polar.
música.
e o filme antigo que o amigo me deu como amêndoa para me adoçar os olhos.
deixo que se derreta nas horas, devagar.
sorrio. não me farto de esperar por ti.

domingo, 16 de março de 2008

desacordo ortográfico

a mulher olhava-me de esguelha. de cada vez que eu abria a boca, a minha visão periférica denunciava um movimento amarelo da cabeça da senhora na minha direcção. não sei se interessadíssima na veemência da minha posição, defendida em voz alta apesar de a rapariga que nos servia o chá ser brasileira, ou se incomodada por o meu discurso ser inflamado e pelo facto de eu esbracejar, estando certamente a distraí-la da apatia do seu próprio acompanhante.
só sei é que quando peguei no jornal que estava disponível para consulta no bar, procurava o suplemento de cultura para saber em que sala e horário encontrar um determinado filme. mas o dito suplemento estava a descansar na mesa da tal loira, aberto e negligenciado, enquanto ela folheava uma revista de decoração, e eu fiquei-me pelos cabeçalhos do Expresso. como não tenho conseguido acompanhar a actualidade, pude finalmente pôr-me a par das novidades acerca do tal acordo ortográfico. e portanto a culpa de a estar a distrair é totalmente dela...

lamento, não concordo. não consigo conceber que neste país se autorize que um fato seja um facto. não percebo como é que agora uma mulher sensualmente umedece os lábios [olha, o sublinhado do corrector ortográfico]. não concebo que o hífen vá dar uma curva nas palavras compostas em que o segundo elemento comece por "r" ou "s". e no "há-de" também... que as consoantes mudas desapareçam do mapa. pior, faz-me uma comichão desgraçada que palavras como crêem e vêem fiquem carecas, ou seja, sem o acento circunflexo. porque só de olhar para elas sem chapéu, ouço-me a dizê-las mal, qualquer coisas como vâiem... ou crâiem...

a justificação de que assim se unifica a aprendizagem da língua em todas as comunidades lusófonas não me satisfaz. a coisa dos 50 milhões e a globalização e mais não sei quê. não engulo. as raízes da língua e da sua música são privilégios de cada povo. cada comunidade tem as suas adaptações fonéticas e isso obviamente tem de se reflectir ortograficamente. não sou purista, acho que se devem abraçar neologismos, estrangeirismos... ainda hoje me custa escrever instintivamente "sítio de internet" ou "mesa digitalizadora", prefiro os velhinhos site e scanner... não entro na guerra do "o português nasceu em Portugal, por isso eles que se adaptem a nós". acho é que tudo tem de ter o seu espaço, o seu respeito, e não temos de nos vergar uns aos outros. até agora temo-nos entendido lindamente assim. tentando ser racional, olho para os números. mas ainda assim, a alteração de 1,4% das palavras do português de Portugal parece-me um assassinato. como percebo que assim o pareça a alguns brasileiros, na sua alteração de 0,45% das palavras. ui, provavelmente a expressão "português de Portugal" vai passar a ser politicamente incorrecta. porque denota diferenciação. e eu pergunto-me: porque é que temos de ser todos iguais? ser diferente, ser único, é assim tão mau?

ah, e se até agora encontrar livros técnicos em português de cá era complicado, temei caros tradutores! o desemprego vai adensar-se. porque se dantes só haviam traduções brasileiras e podíamos queixar-nos e esperar que abrissem os nichos de mercado, agora foi-se toda a réstia de esperança.

o meu brio e o meu esforço por escrever como deve ser passarão a ser ridículos. vence a geração educada com revistas da Mónica e do Cascão e que tinham as cruzes vermelhas nos testes de português por causa dos então chamados brasileirismos. só me vem à cabeça a imagem da minha querida Professora Fernanda e o seu apagador que nunca me cruzou as palmas das mãos nos ditados nem nas composições. se neste momento ainda exercesse, palpita-me que andaria de apagador em riste a tentar acertar em muitas cabecinhas pensadoras governativas deste país...

não sei, se calhar habituo-me, mas por enquanto é uma dor cá dentro... a língua é a minha ferramenta de trabalho, um dos meus veículos de expressão. e a comunicação é a minha vida. ler e escrever são as minhas viagens. gosto tanto de palavras, dos seus sons, das suas manhas, de compreender os seus arabescos, que pensar que terei de desaprender nem que seja 1,4% delas me dá um aperto na alma.

enfim...

lamento então informar os caros seguidores d'A palavra deste Blog, que provavelmente terei muitas dificuldades em adaptar-me a este novo sentido das coisas. que este estaminé, até 2014 pelo menos, passará a ter, pelos vistos, muitos erros de português...

quinta-feira, 13 de março de 2008

círculo

os claustros, as personagens antigas, as pedras que me quebram os passos.
e parecia que não tinha saído dali. como se ao descer as escadas com os figurinos se estivessem a apagar os últimos 6 meses.
é tudo cíclico, dizia-me eu a mim. saltei, fugi, corri, bati o pé, desviei-me, mas a espiral encontrou-me outra vez.
mas encontrou-me diferente. encontrou de mim apenas o que eu quis dar, nas minhas condições. sem teclas, sem dias de passos arrastados, de cinzas macilentas.
e pela primeira vez nestes anos todos, estou a trabalhar unicamente naquilo que sou.
será que consigo manter-me à superfície? logo se vê. agora? aproveito para respirar. logo se vê para quanto dá o fôlego.
borboletas na barriga. hoje vi papoilas. jogo à macaca, salto à corda, que linda falua, um dois três macaquinho do chinês.
avó, vou brincar para a rua.

segunda-feira, 10 de março de 2008

orgulhosicamente

há anos que não assistia ao Festival da Canção. o meu regresso foi de coração apertado, num espírito de missão. suportei estoicamente o rol de músicas óbvias e a roçar o pimba, aliviei-me na número 7 quando a "Canção Pop" do Nuno Markl interpretada pelo Ricardo Soler me fez bater palmas e dizer "ah, isto sim". e continuei em deprimidas, à espera de mãos cerradas, pela que seria a última da noite.
estavam lá três amigos meus, parceiros de cesta de frutas, numa versão non sense do que pode ser este evento. claro está que o espírito passou incompreendido, mas eu fiquei a noite toda a cantarolar.
parabéns. há anos que não sentia este cheiro de coragem e alegria. a contrariar o tal espírito luso das tristezas, o épico deprimido, o mar e o amor incompreendido.
até gastei os tais dos 60 cêntimos mais IVA... :)

sábado, 1 de março de 2008

bons vizinhos

não tenho razão de queixa. a cusca do lado, para além de povoar a escada com uma selva amazónica, não chateia mais do que ouvi-la a espreitar à porta de cada vez que abro a minha. no rés-do-chão, o homem-torre e a esposa de cabelo vermelho são caladinhos, têm um gato engraçado que já salvámos um par de vezes e só se vestem com fatos de treino ao fim de semana. o bêbedo do benfica só tem conversas um bocado longas e de bafo etilizado quando o encontramos na tasca, mas está fora no Brasil e tudo. os velhotes do segundo andar nem piam, e o outro velho esquisito só é massacrante nas conversas das teorias da conspiração nas reuniões de condomínio, uma vez por ano, ou quando teima que quando não consegue estacionar o carro dele na garagem não é por ser um azelha a quem devia ser retirada a carta de condução, mas porque o resto dos condóminos arrumam mal os carros deles. por fim, o Vasco está a administrar condomínio há 3 anos porque toda a gente se descarta e ele até faz um bom trabalho. razões de queixa do Vasco? só o facto de ter forrado a casa a tijoleira branca. de resto, é um porreiro pachola.
todos acham muita graça ao facto de terem um casal de artistas no prédio, a actriz e o fotógrafo, a quem por isso perdoam os horários fora do vulgar e o barulho da porta da garagem à hora do sono dos comuns mortais, as cantorias sobre legumes em tempos de ensaios e outras pequenas situações.
damo-nos todos bem, até se for preciso vamos bater à porta do lado a pedir emprestado um comando da garagem se o nosso parar de funcionar, pagamos cafés de vez em quando uns aos outros quando nos cruzamos na tasca, a coisa é pacífica, quase de pequena aldeia.
agora temos um novo vizinho, que veio ocupar a casa por baixo da nossa, sucessor da senhora que gritava com o marido a toda a hora e dizia coisas de um português que eu desconhecia. o vizinho é simpático, tem uma filhota (como quase todos neste prédio), apresentou-se na reunião de condomínio e disse logo que adora música.
gostei da sinceridade, até pisquei o olho porque tenho o mesmo problema.
agora deparo-me com uma "situação". o senhor é um querido, mas ouve kuduro e morangos do nordeste toda a santa tarde de sábado. num volume que nos faz pensar que se calhar isto é festa da junta de freguesia no largo do café... mas não, é já aqui por baixo...

aaaaii, é a dooooor, ai ai ai é a doooor, é a dooor :S