quinta-feira, 31 de agosto de 2006

bocas doces


no meio da colecção das embalagens antigas, há sempre uma tradição que se mantém. essa, mais que para fazer uma colagem de latas de farinhas alimentícias e caixinhas de chás e pós aromáticos, é uma constante nas línguas gulosas. nos dias de calor, observar o caramelo a escorrer lânguidamente pela forma transparente enquanto se espera que a mistura ferva no leite e adivinhar, depois de um tempo de frigorífico, o eterno sabor de infância, fresco e doce, desfazer-se na boca. sem gosto da Ásia, verdade, mas açucarado como uma gargalhada embriagada de tempo bem passado. pés descalços na pedra fria, prato na mão. na sala canta com grãos de areia na voz um antigo vinil. fotografias a preto e branco, debotadas e dobradas nas pontinhas. inventam-se histórias para rostos desconhecidos. gotas de caramelo confundem-se no suor de uma colherada atabalhoada...

terça-feira, 22 de agosto de 2006

quantum leap

a insónia tem destas coisas... quando a ansiedade se apodera de nós, no desespero de encontrar distracção das palpitações e não querendo cair na teia dos ansiolíticos, saltitamos de nenúfar virtual em nenúfar virtual até dar com um qualquer blog [que no dia seguinte já não conseguimos lembrar, tal era a trip onírica de sono que para aqui andava] onde um vídeo nos aguça os despojos de curiosidade ainda despertos.
hoje sou uma mulher nova. renasci das cinzas da vida boémia e converti-me. eu até já gostava de sabrinas, mas isto... isto é a epifania por que todos ansiamos ao longo de toda uma vida, a revelação a que só alguns chegam. eu posso dizer: vi a luz! e não me refiro ao écran do computador às 5 da manhã... não, isto é the real thing!



eu sabia que havia uma razão para não ter TV Cabo: era um sinal divino!
oh sim! oh sim! era tudo o que eu esperava! agora sim, terei uma juventude sem mácula...

e cantem, cantem comigo:

Hagamos juntos, este crucigrama
Aplacemos lo otro para mañana
Cantar contigo, me llena de alegria
[sha la la la..sha la la la la]
Dejemos todo lo demas para otro dia
Quisiera besarte pero sin ensuciarte
Quisiera abrazarte sin dejar de respetarte.
Amar es saber esperar, es saber esperar, es saber esperaaaarrrr...

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Joven, recuerda que el amor nace del respeto
que no hay nada mas hermoso en una pareja
que saber esperar juntos
ese momento maravilloso
que es la consumación del amor...
¡TU PACIENCIA TENDRÁ RECOMPENSA!

Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio
Amo a Laura, pero esperaré hasta el matrimonio

No voy a arrancar esa flor,
quien la destruya,
no seré yo...

Los Happiness | MTV


agora um àparte, das reminiscências do meu antigo eu, escuro e sujo, aquele eu que adorava uma trancada bem dada cheia de amor e íntimas suculências e tudo a que se tem direito [fricciona levemente, com o indicador, o apêndice nasal] isto tem ou não tem um piquinho a azedo?

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

enquanto houver estrada para andar



se tudo fosse asfalto. se tudo fosse o vento a envolver-me em giestas, pinheiros e eucaliptos. se tudo fosse um horizonte que se desnivela conforme as curvas da estrada. se tudo fosse já ali, não interessa onde. o calor a lamber-me o suor, o frio a rasgar-me os olhos. a sombra presença constante nos riscos, socalcos e vegetação, nos verdes, nos ocres, nas papoilas, nos prédios, nos girassóis. os mapas e as decisões aleatórias, como as linhas das mãos. um tecto enrolado atrás de mim, ou a vaga ideia de uns lençóis brancos algures. se tudo fosse o teu cheiro a brincar nos meus cabelos. o ronronar do motor e o recorte perfeito do teu pescoço. se tudo fosse o adejar da tua camisa, para o assomar das tuas sardas onde passeio os dedos, onde descanso enfim.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

varanda



o dia vai silenciando os movimentos. já se conseguem contar as luzes em volta. luzes de presença no breu cálido da vaga de calor que não amaina depois do crepúsculo. no anonimato de mais um andar, os movimentos lentos de quem procura uma brisa que alivie as gotas de suor. ecos vagos de vidas que adormecem. abrandados pelo peso quente do ar. um jornal virado. um riso jocoso vindo da tasca ao fundo. um carro que passa. pratos tilintam num lava-louças. uma tosse. um choro de bebé. numa janela recortam-se dois corpos. preparativos do sono perante cortinas abertas. devem falar de como correu o dia. ou outra conversa qualquer. corriqueira. rotineira. sente-se nos gestos afastados e casuais. ele adormece de costas para ela, que lê. daqui a nada ele reclamará do calor da luz acesa.
mas na varanda já se desviaram os olhos. para o céu pontilhado de branco que se confunde com a montanha em frente pontilhada de laranjas. pontilhada de vidas. respira-se devagar, espera-se ainda a piedade de um sopro fresco. as costas colam-se no vidro. um miado avisa que a música se calou.
ligeiros estalidos dos pés no chão. a música regressa. a cortina ondula. suspiro.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

floribelas

suo por todos os poros. não aguento quando a ventoinha se afasta de mim. zapping de tarde. estou a tentar poupar os DVD's de "O Sexo e a Cidade", os filmes emprestados, os livros. dou uma desesperada oportunidade aos programas da tarde da televisão nacional.

do alegre Malato e as suas velhinhas e emigrantes, salto para uma qualquer coisa sobre segurança no trabalho, e depois para...
um concurso de mini-Floribelas. sim. as crianças deste país adoram a menina das flores e das saias às flores, e as canções das flores e as purpurinas e o enredo de novela mexicana... com flores. querem ser tal como ela. e o abençoado canal responsável pela súbita explosão de adeptos à horticultura continua a exploração até ao tutano desse grande acontecimento cultural. agora as nossas crianças mandam vídeos das suas interpretações e coreografias, desenhos, e têm até direito a aparecer no prime time das donas de casa: os programas da tarde.

ali estavam: três meninas pequenitas que tinham de cantar, em competição, claro, a canção do "sou pobrezinha mas boa pessoa" - essa grande lição de vida, tão útil nos dias que correm, em que, de facto nos devíamos conformar com a crise. os ricos que fiquem cada vez mais ricos! serão sempre infelizes! eu não sei como pagar as contas, mas sou do Bem! toma!
e por isso, um dia um rico oxigenado há-de apaixonar-se por mim, ver como a vida de pobre é muito mais alegre, deixar de fugir ao fisco, cancelar as contas na Suíça, para se vir meter comigo num apartamento no subúrbio cheio de flores, com o rendimento mínimo, onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos a big-macs e danoninhos.
não, espera. não é assim... ah! o rico apaixona-se por mim e pela minha alegria de pobre e leva-me com ele para a sua mansão em Cascais onde viveremos felizes para sempre, ricos, e onde alegremente lhe passajarei as meias e criarei os nossos 5 filhos surfistas a big-macs e danoninhos.


ah, essa mais recente geração que ainda mal sabe falar mas que os papás já estão ansiosos por meter nessas novas amas que são as 12 horas de gravação por dia com catering e carrinha, ou a fazer anúncios a ecopontos para depois os progenitores se gabarem - sim, já aconteceu à minha frente - perante as outras crianças que estão nas filas para novos castings.
essas filas de carne para canhão, de gente que vinda do nada espera a sua oportunidade no mundo do tudo, tão fácil, tão evidente, dispostos a serem explorados pelos seus 15 minutos de fama sem terem noção do que estão a fazer no mercado em termos de condições de trabalho para os profissionais que depois quiserem exigir as coisas como deve ser e bem pagas... mas isso é outra conversa...

regressando ao ponto alto do meu dia: Nuno Graciano entrevistava então a mais novinha das três... errr... concorrentes. tinha uns três, quatro anos. de cada vez que o apresentador lhe punha o micro à frente para responder a uma pergunta feita com aquele tom paternalista que cai sempre bem, a piquenita começava com o sumido mas assumido "não te-no na-da ma te-no te-no tu-do". todos no público sorriam, derretidos, paternalistas, viam-se nos écrãs e compunham o colete e o vestido que tinham comprado para o baptizado da Cátia Marisa. ai, a menina, que encanto: caracolinhos escuros, purpurinas nos olhos, sainha com flores... era de facto uma gracinha.
depois a gracinha, à pergunta do Graciano "bem, agora vamos ouvir as outras meninas a cantar?", respondeu... levantando a saia e voltando a catarolar "não te-no na-da..."
Nuno Graciano não se deixa demover com a manobra de marketing infantil e pergunta:
"oh, então que é isso? de cuequinhas à mostra na televisão?!" com o grande sorriso profissional embebido no tom de cutchi-cutchi-bilu-bilu.
mas a pequena é ainda mais profissional. e entre um plano da suposta mãe babada, a menina mostra a autenticidade do seu à-vontade perante as câmaras: mete as mãos entre as pernas e coça-se. sempre a cantar, como qualquer bom entertainer.
nesta forte competição, não entre Floribelas, mas entre profissionais de gabarito, Nuno Graciano aposta em não se deixar intimidar pela nova artista de palmo e meio:
"queres fazer xixi, é?"

foi a estocada final no meu dedo, que desligou a televisão e me obrigou a estourar mais uns episódios de "Sexo e a Cidade".

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

o trauma de agosto



pequena explicação: há quem trabalhe neste país a recibos verdes porque não tem outra hipótese. não falo de advogados nem de médicos, falo de mim e, como eu, de outros tantos. nesta situação, misturam-se num estranho limbo os "direitos" de quem trabalha como independente e os "deveres" da entidade patronal, que nos contrata a recibos mas depois... horários de trabalho iguais aos dos contratos, às vezes piores, ficamos nós encarregues dos próprios descontos, não há cá 13º mês ou subsídiio de férias e a santa entidade resguarda-se a possibilidade de suspender o trabalho quando não quer/não pode pagar.

não há espectáculos desde Junho. portanto, não há dinheiro a entrar...
não há produção em Agosto,porque os "todo-lo-mandas" deste país e respectivos assessores, secretárias e empregadas da limpeza vão de férias. por escala. ou seja: na primeira parte do mês vai o patrão e é preciso uma assinatura ou um parecer, na segunda parte vai o assessor e sem ele a reunião não tem efeito. continuidade da produção? em Setembro... ou melhor, a partir de 15, 20 de Setembro.

juntando estes três factores, encontramos o trauma de Agosto para quem trabalha no mundo do espectáculo: não há dinheiro a entrar, a produção é fraca, e o patrão pode, se bem o entender, suspender o trabalho durante um mês para poupar.

assim, vejo-me na obrigação de ir de férias. sim, obrigação. apesar de precisar de não ouvir aquela voz sempre a 200 à hora durante uns tempos, de descansar os olhos do computador e de dormir, eu gosto de ser EU a decidir quando vou de férias: por causa da companhia e das possibilidades financeiras.
resumindo: tenho de aguentar o ordenado de Julho durante o mês de Agosto e chegar para em Setembro ir trabalhar, só recebendo no fim desse mês...

ora, portantos, ele não pode haver o "pegas no carro e vais à praia", ou "vai ler para uma esplanada com uma jola à frente" ou o "pegas na tenda e vens passear com os outros veraneantes abandonados de Lisboa". não, senhores, comigo terá de ser a reclusão total.
eu, a gata, o terceiro andar de exposição solar total sem direito a nortada e a ventoinha.

antes de entrar em total colapso de frustração (porque não pude ir de férias quando queria porque o trabalho era demasiado e depois deixei de poder e agora tem de ser e estou sem dinheiro e sem companheiro de aventuras), resolvi passar a minha primeira tarde em boa companhia: um elegante escabeche no banco porque me emitiram 4 cartões de débito para a mesma conta d.o., um longo passeio pela Almedina com direito a encontro imediato com os senhores Pratt e Manara no mesmo livro, e um chá com o Gabriel (o Márquez) e a Colher de Chá numa esplanadinha.

manter-vos-ei, quanto possível, a par da fantástica actividade que pautará as minhas férias. por isso não contem com muitos posts.

parece-me que terei de me despedir como tantos bloggers com o cliché: então boas férias, hã...