terça-feira, 27 de janeiro de 2009

depois da apneia

já com a órbita mais estabilizada, depois de tudo o que podia correr mal correr bem, depois de ver o meu pai de volta ainda meio grogue mas de sorriso em riste e cheio de fome, posso preocupar-me com pormenores.
e depois de passar um dia inteiro num hospital, a fazer de conta que não estava nervosa, que até conseguia ler e essas coisas, posso declarar que devia haver uma nova lei:

os senhores que fornecem ares condicionados para os hospitais deviam financiar a distribuição gratuita de anti-histamínicos a todos os utentes e acompanhantes.

raistaparta, filhos da mãe que me puseram outra vez com o cérebro a sair pelo nariz, um peso de toneladas nos olhos e a voz toda lixada. assépticos, assépticos ma non troppo...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

breathe

há dias que custam a passar. este vai ser um desses.
respirar, devagarinho, e ocupar a cabeça.
é como andar de avião... :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

génios

quem foi o néscio que inventou a campanha dos Açores que consiste em deixar três vacas a apanhar frio e gases de tubos de escape [e um camadão de nervos*] em plena Praça de Espanha?!

[*os senhores dizem que preveniram situações de stress, e as vacas não são Açorianas. já se sabe que as de cá já estão a Xanax há duas décadas]

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

o subúrbio é que é fixe!*

há neve na calçada de carriche!


[*ora aqui está uma coisa que nunca pensei vir a dizer...]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

agenda

ando desencaixada das horas que me rodeiam. demasiado, demasiado. preparar uma ausência e estar já ausente de onde não devia. mas estar presente onde posso, quando posso, que são as horas que me sobram do dia, as desoras da madrugada. para levar avante promessas antigas que calharam em prazos apertados, para recriar uma passagem de ano que não houve.
entre compromissos, há o subentendido de presenciar descoordenações emocionais que me desgastam por osmose, tentar desligar-me para me manter onde tenho de estar. e tudo tão relativo. quase que dá para uma gargalhada amarga, ali, entre as três e as quatro.
a cabeça estala. o cansaço deita-se cá dentro e aninha-se. e penso se aguentarei o mês da ausência, sem o porto seguro, e sem aguentar o forte que devia aguentar.
e penso, sempre, que não estou agora onde devia estar. que tudo tem uma razão, mas que não concordo comigo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

a garrafa partida

cabeça quente, mãos geladas, terceira ou trigésima reclamação no banco, o vapor sai-me da boca, passos largos, não sinto os dedos dos pés.

dois homens discutem. penso que talvez a típica disputa territorial dos arrumadores, sigo em frente. mas os meus olhos agarram uma mão que aperta uma garrafa partida.
páro e alerto. ele tem uma garrafa partida. as palavras chegam-me vagas, um sotaque, um torvelinho entre os berros de um e os sussurros lunáticos do outro. queres-me matar? este é redondo e escuro, de casaco verde que deve ser pouco consolo neste frio. tem uma faca. o outro tem uma ponta-e-mola, aninhada no punho. o outro, de fato, gravata e cachecol mas cabelo desalinhado e óculos demasiado grossos, um olhar demasiado perdido, mais perdido, tem uma ponta e mola.
percebo a garrafa partida. para arrumador de espírito enevoado de vícios ou só demasiado azar na vida, até teve presença de espírito.
procuro um polícia. desespero, o frio a cortar-me os olhos e o medo que se corte algo mais, à procura no meio de tanto sobretudo, tanto fato e gravata, tanto salto agulha, procuro uma merda de uma farda azul escura. não. está demasiado frio para se estar na rua. e os centros comerciais até têm segurança privada.

por isso aproximamo-nos. continuam a esbracejar, mas vêem-nos chegar. o homem redondo parece aliviado por não ser transparente. castanho transparente como os cacos da garrafa que leva na mão. o outro fica desnorteado, contrariado. diz meia dúzia de ininteligências e contrafeito lá se vai afastando. fica do lado de lá da fila de carros, finge que se vai embora. mas ainda lhe vemos a cabeça desalinhada a aproximar-se de novo. vai. vem. finge que olha para os carros. estranho homenzinho pequeno de olhos perdidos e cabelo embaraçado, estranho homem que veste um fato mas que veste aqueles olhos e a mão em volta da ponta-e-mola.

ficamos de guarda. de pé, no meio do estacionamento, o homem pequeno a desistir, a sumir-se no meio dos outros fatos e gravatas, e nós a ouvir aquele sotaque do homem redondo aliviado, repetitivo, em ladainha exaltada.

uma hora aqui. olha as coisas, os carros. tem uma faca. meu peito queria matar. é maluco.

a minha cara não tem nada a dizer. pouco interessa. mesmo que bem articulado, nunca me conseguiriam explicar o que aconteceu ali.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ano novo, peça... velha

dez da noite é sempre uma boa hora para receber uma chamada do antigo trabalho a pedir para ir lá amanhã fazer uma substituição. no dia em que tinha combinado com os novos colegas ir assistir ao namorido. assim, um quatro-em-um: sei que há sítios onde ainda faço falta e onde faz sempre sentido regressar, volto por um dia ao mosteiro e aos bons dias de camarim demente na torre, tenho público "amigável" e vou fazer uma personagem que nunca fiz.

assim, do pé para a mão.

há coisas que nunca mudam. aqui entre nós, que ninguém nos lê, ainda bem ;)

vou para dentro. tenho de acabar de roer os cotos...