quarta-feira, 27 de setembro de 2006

sem senso


foto de ms

deixou o poema numa amálgama de vidros partidos. soltou-os no cinzeiro com as mãos em concha. preencheu os fios de neblina com aromas doces, gelatinosos. teceu-lhes a música do silêncio chuvoso. espalmou os dedos como carimbos queimados de encontro ao tecto. saiu, fechou a porta e os olhos aos peixes voadores e ao homem do cachimbo. o cheiro. batia-lhe nos sentidos como uma franja violentada pela brisa. escalou a calçada rezando para não cair num buraco. já se sabe que os buracos são fundos e não é fácil sair deles. entre o zigue e o zague era outono. as paredes acastanhavam e aguardou o toque rosa do fim do dia. a árvore velha escureceu-lhe as válvulas da alma, deixando coágulos de luz pendurados no chão. pensou em fazer um quadro de serradura para poder ver o céu. o vento soprou-lhe qualquer coisa ao ouvido. penteou uma madeixa solta.
não se apercebeu de que agora o cabelo brilhava com estilhaços de palavras.

detesto produçao II

- um apoio [bla bla bla]
- apoio? para apoiarem a nossa empresa?!
- não, para fornecerem material para a construção de cenário com retorno de 130% nos imp...
- oh senhora, nós darmos coisas? oh senhora, peça ao Sócrates que ele ganha bem!
- ...
- ou o Cavaco! peça ao Cavaco!

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

o furto


foto tirada em Londres, para exposição, antes da compra

não sei o que me falta mais...
este fim de semana, animação no CCB, para ganhar uns trocos extra. saíram-me caros, devo dizer.
guardadas as coisas que não iam ser necessárias na apresentação numa despensa, lá fomos vender "Pharmaton" para um público ao princípio hesitante, depois contagiado... pelas vitaminas, claro.
regressando à tal despensa, pegar nas coisas para sair. deito a mão à mala para tirar uma coisa da carteira e zás! não está lá.
simplesmente desapareceu. claro, como sou cabeça no ar, pus em causa o facto de me lembrar de já ter mexido na carteira nessa manhã, e pus a hipótese de ter ficado caída no carro ou em casa.
pois que não.
foi-se. evaporou-se. os telemóveis [pois, são antigos] permaneceram intocáveis, bem como a restante mochilagem dos outros elementos da equipa.
contactada a organização do CCB dizem-me que vão "perguntar à equipa". peço muita desculpa, mas nestes casos eu revistava a equipa sem apelo nem agravo... são todos inocentes até prova em contrário, mas quem não deve não teme, não é? além disso, é o bom nome da empresa que está em causa... alguém lá de dentro roubou uma carteira... mas nããão, vamos esperar que o dia chegue ao fim, para lhes dar tempo de se livrarem das provas, perguntar e esperar que alguém comece a tremer o queixo, se atire ao chão de joelhos, e grite em lágrimas e ranho "eu confesso, eu confesso! torture-me, eu mereço!"...
ainda andaram a ver os caixotes do lixo, mas nada.
depois de cancelar os cartões, dei 12 horas para me dizerem qualquer coisa. ai ninguém sabe de nada? que estranho... bom, então vou à polícia. a quem tiro o chapéu, uns senhores como já não se fazem, pacientes, simpáticos, eficientes, informatizados[!], com quem deu para ter inclusive uma conversa sobre um delicioso rádio velhinho que estava numa prateleira. disseram-me para esperar 10 dias antes de ir tratar dos documentos, "pode ser que apareça a carteira num caixote de lixo"... deram-me uma declaração para confirmar que existo e que me roubaram todas as provas disso.

contas feitas, foi isto:
a minha carteira, uma querida recordação de Londres, fabrico artesanal português, comprada na banca de um amigo meu, no Sunday Up Market, em Londres. feita de sacos de plástico, exterior verde-alface [sacos da Bershka e da Área], fecho em velcro.
todos os documentos possíveis e imaginários, cartão de crédito, de débito, BI, carta de condução, documentos do carro, passe, cartão de contribuinte, da segurança social, do posto médico, da Médis, de eleitor, do banco online... eu sei lá... basicamente quando eu entrar na Loja do Cidadão, não pensem que desapareci se não der notícias ao fim de uns dias... ainda lá estou a recuperar o plástico perdido.
a minha foto preferida: eu bebé com a minha avó. a moeda da sorte que a V. me trouxe de Itália. e mais umas papeladas de grande valor sentimental.
e, claro, o dinheirinho... que, por acaso, a minha mãe me enfiou no bolso na noite anterior, para ajudar à gasolina...

lindo serviço. agradeço desde já à pessoa que me escolheu para este acontecimento. espero que se divirta com os cartões [cancelados] de contas com saldo negativo às quais eu não vou ter acesso durante uma semana, que é o tempo que as segundas vias demoram a chegar... isto se não se extraviarem como de costume.

... espero também que lhe nasça uma verruga no rabo que lhe tolha a capacidade de se sentar durante o resto da vida. que permaneça de pé até ter uma infecção muscular, que se transforme em gangrena.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

a um amigo

cada dia é mais raro dizer que se ama.
honro-te a ti, que o fazes, de peito aberto.
porque de mãos dadas é mais fácil sorrir.
e chorar, também.
porque o sorriso dela é o sítio perfeito para descansares.
há momentos que não têm palavras.
este vai ser um deles...

hoje é o primeiro dia do resto da tua vida...

o assobio da cobra

São Luiz Teatro Municipal, até 26 de Novembro.
Quarta a Sábado às 21h, Domingos às 17:30
um musical encenado por Adriano Luz


foi o meu primeiro convite oficial e directo para uma estreia deste teatro [a/c Polegar e tudo], fruto de uma colaboração que teremos num futuro próximo. peguei em mim e aproveitei, que os bilhetes estão pela hora da morte...

primeiro que tudo, uma nota: as vedetas por favor cheguem uma hora a trinta minutos antes do início do espectáculo sob pena de deixarem os anónimos na sala à espera enquanto voscenças são fotografadas para a posteridade do dia a seguir... é de muito mau tom fazer um espectáculo começar 20 minutos atrasado só porque a Catarina teve de ser fotografada e depois ainda teve de dar um beijinho ao Moniz e à Bocas...

a história: pois que não se percebe muito bem... passa-se numa noite, num bar desses de periferia, algures entre os dias de hoje e os anos 50, onde vão só os habitués beber até terem sangue no álcool em vez de álcool no sangue. cada personagem tem pequenos segredos. nesta noite específica, duas pessoas "estranhas" vêm destabilizar os frequentadores habituais e, supostamente, criar conflito. mas o texto foi criado a partir do CD, basicamente para estabelecer uma ligação entre as músicas... ora o que é que se faz quando não se sabe bem como colar músicas com texto? opta-se pelo "ambiente denso", os "mistérios implícitos", "as verdades ocultas" e... deixa-se o final em aberto... o problema é que o entretanto também está mal tecido, cheio de buracos. chegamos ao fim e ficamos absolutamente na mesma. os conflitos existirem ou não é o mesmo que deitar uma colher de água no mar. além disso é tanta música [que não adianta nada à história, simplesmente páram para cantar], que por vezes corta o fio lógico das cenas.

a música: ponto fulcral do espectáculo, ou não fosse um musical. dado o desconto dos nervos da estreia, temos uma banda fantástica, revelações de alguns actores como cantores [ou simplesmente bons profissionais da voz], letras bonitas. chateiam os microfones, que não estão calibrados para a projecção necessária do cantar, e fazem com que se ouçam pequenos estalidos durante a peça. coreografias simpáticas, mas o facto de terem metido um par de bailarinos na figuração desequilibra a coisa para os outros.

o cenário: girinho, dentro do estilo quase-cabaret. o espelho que revela os segredos mais profundos das personagens é uma mariquice... toda a gente percebe que o travesti vive na dúvida de quem é e no pânico de ser apanhado, que o abandonado queria casar com a que o deixou, que o cómico queria ter piada, que a velha queria ser nova...

os actores [estala os dedos, cospe nas palmas das mãos]: são demasiados. aquilo fazia-se com metade, e ainda se ficava a ganhar porque havia menos ruído visual nas cenas.

duas das senhoras mais velhas, por terem de cantar em palco fazem aquilo em tom revisteiro. cruzes, apetece dizer-lhes: olhe, desça até aos restauradores e atravesse para o outro lado... peça para falar com o senhor LaFéria.

puseram dois bailarinos carecas a fazer de machões... não convence.

a menina grávida [Adriana Queirós] é... indiferente. é o "vai benzinho"... o mesmo se aplica ao resto do elenco secundário que não encanta nem desencanta. o João Reis lá tem um acesso de fúria dramática, a passar-se por bêbado irado... mas até isso é desadequado.

destaca-se o Pedro Laginha [o D. Pedro de "Pedro e Inês" da RTP que ia tão mal, tão mal, que quando estava irado parecia apenas estar com um grave ataque de diarreia], uma surpresa em palco, num delicioso loser cujo único objectivo é ser comediante, tendo escolhido os "amigos" como público... eheheh má escolha, tão má que é tão boa de ver...

a Patrícia Vasconcelos, essa grande diva dos castings que diz que também é cantora... podia ficar-se a fazer os castings... um cepo, um cepo, um cepo... imagine-se uma Jessica Rabbit... agora imagine-se uma cantora de tasca de fados com a roupa da Jessica Rabbit. pronto. uma mulher que numa coreografia de braços parece a personagem do Monchique no saudoso C.R.E.D.O.. aplica-se: credo! não sabe porque é que está a fazer as coisas, os gestos saem maquinais e sem o mínimo de sensualidade... e desafina!

o Diogo Infante: salva o dia... uma delícia. a personagem mestramente construída, o homem que é travesti, que dá grandes espectáculos sem nunca saberem quem ele é, e que vive no pânico de ser apanhado, portanto, fazendo-se de machão. e o homem é isso tudo. e continua a contar-nos a sua história enquanto dança, só com os olhares, enquanto canta, ao descair-se... só vendo. um dos poucos que, de facto, não se preocupou só com as cantorias. bravo a ti, mais uma vez, que sempre tiveste o condão de me despoletar um arrepio que me sobe pelas costas e rebenta em lágrimas, só pelo bom que é ver-te trabalhar.

posto isto, nota final: vê-se, é levezinho, é rápido [1h20], é colorido. não aquece nem arrefece. para maníacos do acting com dinheiro para gastar, vale a pena pelo senhor Diogo Infante. só não levem em conta a sinopse...

mas isto sou eu...

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

calçada de carriche

sobe polegar, sobe a calçada
sobe lenta porque isto não anda nada
ponto de embraiagem
travão de mão
puxa, baixa, acelera, tanto não
pára arranca um metro à vez
chegarás ao destino amanhã, talvez
dói o joelho do acelerador
convive, polegar, convive com a dor
a besta do lado meteu-se à bruta
vai-te a ele polegar
chama-lhe filho da puta
sobe polegar, sobe a calçada
em dia de greve e chuva é piada
a espera, as unhas, cigarros e fome
é bom saber que o povo não dorme
sobe que sobe
sobe a calçada

adaptação livre - e extremamente fraca em termos de métrica ou criatividade - do poema de António Gedeão

hoje, ao sair de casa, recebo uma sms: "se tivesse a minha casa [em Lisboa], não estava há duas horas na Padre Cruz. V."
lembrei-me de um episódio... à nossa ;)

há uns anos, em dia de greve geral dos transportes públicos, o meu jipinho resolveu simplesmente entrar em coma em plena entrada da Calçada de Carriche, fila do meio, à beira da placa que dizia Lisboa.
foi uma manhã épica: eu e a V, fechadas no carro, a ver os outros passarem com má cara porque não conseguíamos meter o meu na berma, à espera do reboque que demorou duas horas a chegar porque, claro, também apanhou com a fila.
estávamos sem tabaco.
éramos jovens.
começámos por muito profissionalmente ligar para os respectivos trabalhos [a minha patroa das nails, com BMW e casa na Av. de Berna não compreendeu muito bem o conceito de greve geral dos transportes públicos...].
falámos, enervámo-nos, momentos de silêncio.
angústia.
depois... música em altos berros [o problema não era, portanto, da bateria...], a dançar feitas parvas. uma gaja tem de fazer qualquer coisa para que o tempo passe.
começou a agravar-se a ressaca da nicotina. descemos ao mais baixo: abri as janelas e pedíamos aos carros que passavam/paravam ao nosso lado se nos dispensavam um cigarrinho...
estranhamente, no trânsito de um dia de greve geral, perante duas raparigas desesperadas num carro avariado, o mundo suburbano meteu a mão na consciência e deixou de fumar... e de ter tabaco.
daí a pouco fomos notícia nacional. toda a gente sabia, pela rádio, que "está um carro avariado na faixa do meio do acesso à Calçada de Carriche, o que está a piorar ainda mais as coisas". insensíveis.
quem deu um cigarrinho à Polegar e à V, quem foi? o senhor polícia que chegou de mota, e muito simpático, com o colega nos ajudou a empurrar o carro até à berma, parando o trânsito para podermos atravessar as faixas.
lá se foram embora, aconselhando cautela [só faltava dizer "olhe lá a velocidade, hem?"], e nós ficámos à espera até sermos salvas pelo reboque.
um dia bem passado, que me foi parcialmente cortado do ordenado, com possibilidades de recuperar o dinheiro fazendo dois turnos de unhas de seguida...

p.s.: uma nota para os senhores grevistas: se querem a simpatia do povo para com a vossa causa, que tal mudarem de estratégia? em vez de pararem a cidade e lixarem a vida a toda a gente, mantenham o metro a funcionar mas deixem as portas abertas e desliguem as máquinas de bilhetes... prejudicam os senhores patrões maus e deixam os pobrezinhos ir ganhar a vida... hem? que tal?

terça-feira, 19 de setembro de 2006

detesto produçao

contactar empresas de madeiras. que possam dispensar material, mesmo que com defeito. com retorno de 130% nos impostos. 93 números de telefone de empresas. reuniões, horas de almoço, não está. depois há os que estão...

- [voz de velha ranzinza] tou?!!!!
- estou sim, muito boa tarde, seria possível falar com alguém do departamento comercial?
- é pró quê?
- estou a ligar-lhe da produtora XXXX. estamos neste momento à procura de apoio, em madeira para cenário, para um espectáculo que vai estrear em Janeiro com a Maria Rueff...
- ah nós não fazemos cá disso. a essa, a gente vê na televisão. [como se recitasse a bíblia] temos de cortar nas despesas [job, 3:45].
- eu não sei se tem ideia, mas terá um retorno de 130% do que investir...
- isso dos espectáculos não nos interessa.
- ..... pronto, então muito boa tarde........

[nem 5 minutos depois]

- [bla bla apoio em madeira para o cenário, Maria Rueff, Miguel Guilherme, 130% de retorno nos impostos bla bla...]
- sim... [suspiro pesado] sabe, isto hoje em dia recebemos muitos pedidos... ele é as irmãs samaritanas, é a associação Sol... este país está a ficar um país de [enojado] pedinchas.
- ...
- [enojado-tipo-comi-um-macdonalds-fora-do-prazo-que-cheirava-a-pés-com-chulé] as pessoas só sabem pedinchar...
- [irada] por isso é que o Estado, para projectos culturais, vos reembolsa a totalidade MAIS 30% do investimento. para não perderem dinheiro e ainda terem lucro. não são pedinchices, é mecenato [ca%$#@o]!
- [silêncio. muda de tom] posso falar com o meu sócio, ligue amanhã para lhe dar uma resposta.

passei-me. passei-me. estou-me a passar. e estou com medo de voltar a pegar no maldito telefone.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

olé

A Espanha é o primeiro país a aplicar normativas que regulam o sector da moda, proibindo manequins profissionais demasiado magras e abaixo de valores considerados "nutricionalmente" saudáveis, apostando na definição de padrões comuns para o tamanho da roupa. [...] Nas últimas semanas, dois certames de moda, entre eles a conceituada Pasarela Cibeles em Madrid, proibiram o desfile a mulheres demasiado magras - ou seja, modelos profissionais com parâmetros abaixo de 18 por cento de massa corporal, o que corresponde a 56 quilos para uma altura de 1,75metros. [...] a Esquerda Republicana da Catalunha [ERC]anunciou que vai apresentar uma moção para que a União Europeia aplique a todos os Estados-membros padrões idênticos nos tamanhos da roupa [...] O documento inclui medidas no sentido de impedir a participação de jovens modelos, com menos de 18 anos, e para evitar que a maquilhagem usada simule rostos demasiado magros ou "doentios".

in Público | 16 Set 06


diz que sim, diz que Milão achou graça à coisa. diz que um porradão das meninas nem sequer quiseram ser pesadas. diz que as agências falam de... discriminação! ah! oh! inclemência!

será? uma ponta de esperança? hoje Espanha, amanhã o mundo! hoje o peso... amanhã a altura!!! hoje os cabides... er, modelos, amanhã os actores! ponham-se a pau, morangos, que qualquer dia começam a pegar mesmo em real people! se calhar até começam a escolher gente que saiba falar! ou, loucura das loucuras, que saiba representar!

- Carmen, come la sopa.
- Que no quiero mama... dejame comer solo la lechuga...
- No. La sopa, el pollo y la ensalada! Todo!
- Que no quieroooo
- Coño! Mira que si no comes, no puedes ser modelita!

muahahahahahah!

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

a day without a night

passou por mim no jardim. o carro de janelas abertas e som demasiado alto. estava embebida em verdes, crianças a brincar, o homem estranho que pinta quadros do quiosque, as vedetas na esplanada, os turistas de nariz no ar, os velhos, os hippies, os intelectuais, a tia a passear o beagle. mas olhei para trás, seguindo o rasto de som que ainda restava no asfalto.
alguns cigarros ardidos depois, na esperança de esfumar o resto da tarde, a janela aberta para receber a chuva na corrente de ar. já saíram todos. ainda cá estou.
perdi-me em lembranças, porque me perguntei "o que estava eu a fazer há um ano". passou-se, assim de repente, desde que pisei um palco com as palavras de outros. desde aqueles dias que valem a pena, que nos esgotam de prazer. desde que pude contar uma história. desde as borboletas a esvoaçar no peito, o calor das luzes e dos olhos, os espíritos que nos ensinam segredos e as fadas que perdem brilhos se não batermos palmas.

reli as conversas, as histórias que contei. dá-me para isto às vezes. reencontrei-me com os meus fantasmas.
deslizei pelas letras todas, contadas de trás para a frente. choradas de novo porque o que se perde não se recupera e as forças não chegam para tudo. revivi-me. emoções instantãneas, ao alcance de um dedo.

não tive oportunidade de reflectir.
passou de novo o mesmo carro - só pode ser o mesmo. da janela dele para a minha, de novo a mesma música. o Romeu de papel estremeceu. é o vento. eu fiquei estática. são demasiados flashbacks num dia...

al fresco

Praça de Espanha, 10 da manhã. 22ºC. ventinho. humidade. semáforo.

no passeio ao lado distribuem o "Metro". duas raparigas em nada mais que lingerie, botas e chapéu de cowboy e o corpinho que deus lhes deu, correm entre a pilha de jornais debaixo de um chapéu de chuva - para proteger o papel da humidade - e os carros que vão parando na fila. os olhos estão vazios. não apelam à cuequinha de algodão com padrão de ganga, não simpatizam com quem olha.
horrorizada, abro o vidro no instinto básico do "dê cá isso para ver se o molho de jornais acaba depressa para você poder vestir-se... e vá para casa beber um cházinho quente"

o ponto a que chegam as campanhas de publicidade neste país começa a repugnar-me. já não basta o "ELES não gostam de celulite" - as gajas adoram os buraquinhos nas pernas, mas se eles estão desagradados, vamos lá enfiar agulhas no rabo; os anúncios de cerveja em que só há corpinhos bem feitos a serem galados, e a gordinha a passear na praia a ouvir "pssssst" e a pensar enganosamente que por uma vez na vida vale a pena ser gordinha e passear na praia - só para nos[?] fazer rir...

eu sei que o outono chegou contra as indicações maiores dos Deuses da publicidade. e que era suposto estas meninas passearem-se glamorosas nas novas Sloggi Wild Jeans, a fazer babar os do costume: os merdas que páram para apitar qualquer coisa que se mexa, quanto mais meninas em roupa interior - e que, convenhamos, a última coisa de que se lembram é de comprar uma prendinha para as respectivas.

ver duas raparigas a gelar em plena Praça de Espanha logo pela manhãzinha, naqueles propósitos que de tão degradantes perdem qualquer ponta de sensualidade... é a genial ideia da grande campanha de lançamento de uns soutiens foleiros.

haja estômago.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

algodao doce



onde é que estamos? será por aqui? acho que sim, lembro-me da igreja enfeitada. tanta gente, que confusão. vê lá não atropeles nenhuma velhota. que horas são? interessa? não. queres ir? e tu, queres ir?

o sorriso não mente. são perdidos e achados no meio dos montes, são encontros com as fileiras de lâmpadas coloridas. ali ao canto viram-se frangos e não se vê mais que as mãos no nevoeiro aromático. cheira a comida e a doces, a farturas cheias de açúcar. a olhos açucarados. depois da alma lavada no rio, raspada com cuidado nos seixos para sair a fuligem, sujam-se os pés na terra pura do chão da aldeia. as vozes abafadas pelos microfones, o acordeão, os ferrinhos, a pandeireta. as cores fortes e o aroma inconfundível dos dias de infância.

compra-me um balão. estás a brincar? não, compra-me um balão. qual queres? adivinha.

era esse mesmo. os dedos cuidadosos envolvem o pulso com o cordel. como dantes se fazia para não se perder o balão. os olhos curiosos de uma menina a ver outra já grande de risota com um urso azul. rodopia pelo chão, levanta pó como ela, a menina, gostava de fazer, mas o vestido é novo e tem de se vestir de festa. a dança é a dois, dois grandes ali no meio, de sandálias ainda molhadas do rio, não têm medo de sujar os pés, que no despique com o desfile de cores, chegam à meta gulosa.

queres? eu não. ó senhor é um bem aviadinho que eu sou gulosa e ele diz sempre que não quer, mas rouba-me sempre quase metade

ó senhor das faces redondas, coradas, boné de tecido grosso, algures entre o incrédulo e o bem disposto, faz-me um algodão doce. os dedos rodam sobre si mesmos, fazendo dançar o pauzinho. cresce a pequena nuvem de fiapos que se vão juntando, perante uns olhos tão ansiosos e brilhantes de estrelas de massapão como eram há tantos anos. agora cresce cor de rosa. dantes era mesmo branquinha, como as do céu. os fios ainda hoje surgem como por magia nas paredes de metal. de onde vêm os pauzinhos? no tempo das papoilas pensava que havia uma árvore cujos galhos eram assim. compridos, finos e lisinhos. de quatro faces. e que o algodão doce era raptado das nuvens em dias de neblina matinal e vento fraco a moderado, naquela hora do lusco-fusco em que toda a gente dorme e elas passeiam mais à vontade cá em baixo. depois era só juntar açúcar.

pronto, gulosona, já está satisfeita? pronto digo eu, já estás a roubar-me o algodão! vamos dar uma voltinha. sim, vamos. olha as rifas são só pratos e terrinas! um luxo, um luxo. ai, controla o balão que está a bater em toda a gente. desculpe, desculpe. a banda desafinou. queres dançar?

se me fotografasses agora verias o meu espírito. as auras, a alma e todos os fenómenos paranormais. em fogo de artifício suave, de mão dada e sorriso rasgado, sem vergonha de ser menina, em noites de verão com nuvens de algodão doce.


[ms]

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

ouvido à boca cheia

homem - ele pode dizer o que quiser, pode fazer o que quiser, dar lá as voltas dele, como entender. um gajo tem de se orientar...
mulher - claro, claro, mas eu acho que...
homem - já ela...
mulher - é uma puta, é o que é. uma puta.
homem - é um bocado atrevidota, é...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

fui etiquetada

a pinky mandou-me a máquina das etiquetas:

quando fores etiquetado tens que escrever seis informações aleatórias sobre ti. depois escolhes seis pessoas para etiquetar e lista os seus nomes.

ora portantos... vamos lá virar-me do avesso...

:: XS | é a etiqueta do primeiro impacto visual.

:: XXL | é a etiqueta da minha visualização de mim mesma. passo a explicar [e isto foi-me comprovado astrologicamente]: quando em confronto, tenho tendência para não ter noção do meu tamanho. começo a inflar lá do alto do meu metro e meio e uns trocos... além de ser bastante argumentativa e inflamada [inflamável, também], tendo realmente a ver-me fisicamente muito maior do que sou... no trânsito, consta que me começa a crescer o bigode e pende um crucifixo do meu retrovisor e tudo...

:: handwash, handle with care | apesar disso, sou gaja, não é? emotiva, sensível, aquelas coisas do costume.

:: 99% cotton, 1% silk | o meu modus vivendi, do meu modus operandi. simples, resistente e macio. com um toque de quelque chose...

:: this side up | o lado racional, a capacidade encarar as coisas com olhos de ver, a batalha constante para estar à tona.

:: promoção | gosto de pessoas, gosto de me dar. derreto-me com facilidade e dou todas as segundas oportunidades - chama-se ingenuidade, acho eu. estou sempre de tacha arreganhada. entrega total em tudo o que faço e me apaixona.

passo a etiqueta a:
espanta-espíritos
colher de chá
MPR
rantanplan
câmara lenta
Simão

nota: eu optei pela brincadeira do trocadilho das etiquetas comerciais e de roupa, mas não é necessário, hem?

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

retornos

olá! bem dispostinhos? tudo em ordem? encontraram lugar à porta? a pilha de papel na secretária, cresceu? ou ainda está tudo a meio gás? já desistiu da dieta? já não vale a pena, não é? agora fica para as resoluções de ano novo. isso e deixar de fumar, porque mal se entra no gabinete já se sabe, os colegas também já deixaram as férias e as resoluções para trás...
é que os patrões vêm assim todos motivados, cheios de energia - pudera, depois das três semanas em Cancun e sabendo que daqui a um mês voltam a sair - e uma pessoa nem tem tempo para se habituar ao ritmo. depois cai-se em tentação.
começa logo com o café. tinha reduzido e tudo... já era só um ao almoço, mas a bica e o queque... pronto, é aquela coisa...
e depois o fumo e o cheiro e o vício de dedos, logo agora que já tinha deixado de roer as unhas... que maçada...
e a colega, trouxe as fotos do Algarve? o Joãozinho está enorme, não o fazia assim! e o bronzeado, mas que belo bronzeado, parece que Deus o deixou a cozer um bocadinho a mais. mas só um bocadinho. assim como assim está melhor que a Xenica das revistas.
então, ainda se lembra como é que se mexe nas teclas do computador? um bocadinho mais lento, não é? isto ainda com areia psicológica nos dedos custa mais... mas vai lá. e agora até dá gosto, com o novo fundo com o mai' novo a fazer caretas e a mai' velhinha agarrada a ele muito queridinha, com o fato de banho e as molinhas parece mesmo a Floribela...
oh! o messenger! parece que regressou à vida... ainda nem se acendeu o primeiro cigarrinho já as janelinhas palpitam para saber novidades... e para mostrar novidades, que há sempre as épicas carraspanas dos mais jovens e as fotos novas daquelas sorridentes em que se consegue ver ao fundo, mas bem ao fundo, hã? a família sentada num camelo...
comprou umas ch'nelas novas daquelas da moda, com a bandeirinha do Brasil e tudo? ai mas que bem... é que as modas este ano são mesmo de apetecer...
contente contente, mas contentinha da vida está a dona do café lá em baixo, com a casa cheia, já não é a pobreza que se via em Agosto, não é... que a senhora até andava meio angustiada, dava-se-lhe assim umas azias só de pensar como é que pagava as contas da Makro.

isto é que é... o fuminho dos escapes, as filas logo pela fresca, o roça-roça das peles - ainda escaldadas - no metro... o ar condicionado avariado [ou assim dizem porque é caro como o raio] e esqueceram-se outra vez de ir às promoções das ventoinhas...
três projectos despachados logo pela manhã que o patrão tem mais que fazer à tarde... uns telefonemas e a esplanada a chamar lá fora... dois dedos de conversa com quem nos tomou desaparecidos e só por isso não teve paciência de vir cortar o silêncio das paredes durante o último mês... sai um chato a querer ligar para o posto médico apesar de já ter sido informado que o número é ao contrário... já pinga o suor no vestido do Avante - sim... vi pessoas... aaah! - e o Paul Auster estava a comer na mesa aqui ao lado...

estão 32ºC aqui dentro - e a subir - e mais um par deles lá fora... toca a bulir...