quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

a posta de natal

este ano a coisa anda complicada. embora às vezes até tenha algum tempo, nesse mesmo tempo encontro-me num estado vegetativo de fazer inveja a muito tubérculo. a nível mental, também, vaziazinha de ideias ou de memórias de momentos destacáveis para colar por cá.
no entanto, muni-me de uns fiapos de força que encontrei por aí, arrastei comigo o namorido, e aqui está o nosso vídeo de natal. com música, animação e, claro, gorros vermelhos.

fiquem bem. aconchegados, a entupirem-se de doces como manda a tradição :)
eu vou ali recolocar-me a soro a ver se recupero.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

29


foto roubada à Manel

meia-noite com a alcateia, pequeno-almoço na cama, estrelas de feltro ao lanche com a boneca.

passeio de mãos dadas a olhar para a nossa amiga que, só hoje, trazia brincos*.
seria para a minha festa?

*vénus e júpiter, amor e criação do dia, segundo uma especialista da coisa.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

bonjour

o ambiente no meu camarim é geralmente épico. língua afiada e pouca cafeína, acho eu. portanto entro, maquilho-me a contar até duzentos para não rebentar com as enormidades que se vão acumulando no ar, e saio a abrir para aquecer no corredor.

no entanto, hoje aconteceu um pequeno milagre.
os clássicos da disney, em brasileiro, salvaram a minha manhã.
e por isso, agarrei a oportunidade e cantei tudo o que me lembrava, fazendo as vozes de todos os personagens incluídos em cada número.
em plenos pulmões.
eu, que não canto.

só por um bocadinho de paz, de gargalhadas com gosto enquanto pintava [literalmente] o focinho.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

tu és tão grande



deixa-me ver a tua mancha.
mas és uma pessoa, não és?
vais sair daí?

mais ou menos.
[isso de] ir ou ficar.
onde estaria?

descansar. sim. só.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

são martinho


foto de espanta-espíritos

por estes lados a rua fria ainda cheira a lume.
em casa, uma manta, o aquecedor e a nossa mistura perfeita das melhores tradições: castanhas no forno e vin chaud.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

pânico combustível

na bomba de gasolina, ouve-se a voz roufenha de uma rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, desligue o telemóvel.
começam a rodar cabeças à procura do imbecil. volta a voz, um pouco mais alterada:
- senhor da bomba cinco, por favor desligue o telemóvel.
vemos o imbecil, continua imperturbável - vá, talvez o barulho do intercomunicador esteja a chatear um bocadinho, mas pronto -, telemóvel numa mão, mangueira de abastecimento na outra. esbracejamos, mas nada. eu começo a gritar na direcção do imbecil, tentando comunicar pelo único meio que acho que ele compreenderá: "ó senhor! trrim-trrim não! gasolina! fssst cabum! morrer! explosão! dói!" a menina da caixa insiste, cada vez mais nervosa:
- senhor da bomba cinco, é proibido falar ao telemóvel. está a ouvir? desligue o telemóvel. senhor da bomba cinco?
o meu namorido começa a encaminhar-se na direcção do imbecil, fazendo-lhe sinais para parar. abana-o para ele levantar os olhos. ele lá se apercebe que a conversa é com ele e desliga. no ar, a última frase em pânico da rapariga da caixa:
- senhor da bomba cinco, sou muito jovem para morrer.

os senhores da bomba seis têm um ataque de riso no meio da estação de serviço.

domingo, 9 de novembro de 2008

quando se pensa que já se viu tudo

vai-se comprar farinheira ao supermercado e vê-se numa estante um Trivial Pursuit edição DVD...
porque deve dar muito trabalho às novas gerações essa coisa de atirar os dados ou mexer o queijinho.

chega-se a casa e, abananadamente, descobre-se que até há a versão digital do bicho, tipo Game Boy, ou para os mais modernos, vá, PSP, para acabar com o incómodo dos cartões...

medo...

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

um pedaço de história americana

nos bastidores de um teatro em Lisboa, uma colega estava quase histérica no camarim, de contente. durante o aquecimento, em vez de "força, merda", gritou-se "Obama".
soube por fonte fiável que noutro espectáculo uma "menina" da Brízida Vaz também gritou, mas em cena, pelo Obama [aqui entre nós, lixando um bocado toda a dramaturgia do Gil Vicente, eheh]...

hoje está tudo parvo em bom.
faço parte desse sentimento.
sei que um homem não resolve uma crise mundial, mas identifico-me mais com as suas intenções e planos práticos do que com outros.
e sei que, acima de tudo, um povo inteiro que vivia arreigado numa pequenez de espírito assustadora deu um passo incrível por cima dos costumeiros preconceitos fúteis para acreditar na força e propostas desse homem.
e como, por acaso, esse povo tem uma influência gigantesca em tudo o que se passa por todo o lado, eu agradeço.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

adenda do dia não senhor

descobri entretanto que a causa de o meu despertador não ter tocado foi, literalmente, isso: o altifalante do telemóvel [meu despertador] pifou. assim, da noite para o dia. portanto agora o piqueno não toca, só vibra. também não posso falar em altavoz no carro. o que me vale é que com auscultadores ainda posso ouvir música no metro...
para breve, o enterro do dito pequenito, que não sei bem como vou substituir...

ADENDA DA ADENDA:
o namorido lá me esventrou o telelé e arranjou-o! iupi!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

dia não senhor

acordo com um telefonema, a patroa a perguntar onde estou. no momento em que pego no telemóvel começo a hiperventilar. faltam 20 minutos para a peça começar. gaguejo qualquer coisa como "ah uh ah ghlagh tou ah a ir agh" e desligo. 3 minutos depois, estou montada na mota a repetir autisticamente "faltam 17 minutos, faltam 17 minutos, eu não acredito nisto, faltam 17 minutos", de dedos cravados nas costas do namorido - ensonado, atordoado e petrificado de medo porque nunca por nunca gostou de conduzir a mota à chuva e, claro, hoje choveu, daquela chuva que transforma o chão em manteiga, mas por isso há mais trânsito, por isso nem tempo para carro nem para metro.

na antónio augusto de aguiar atendo outra chamada da patroa e tento explicar, agora mais articulada, que o despertador não tocou, que a única coisa que me separa do teatro são os semáforos - todos vermelhos, como convém. explico que se não me caracterizar para a primeira cena, são 30 segundos para me vestir e estou pronta. ela acalma-se.

chego ao teatro 5 minutos depois da hora a que devia começar o espectáculo, visto-me num relâmpago e alguém me traz o microfone, já ligado, que coloco no cinto, fecham-me dentro da camisa de forças que é a minha girafa e corro pelo corredor de patas da frente levantadas no ar. passo por um colega em cuecas e penso, pronto, vou ficar à espera deles. claro, estavam todos à minha espera, claro, e não valia a pena estarem todos a postos. chego a bastidores e fico mais quase 10 minutos à espera que esse colega e os outros acabem de se vestir de elefantes.
a peça começa 15 minutos atrasada. no fundo, à hora do costume. só que hoje, de todos os dias, era o que tinha menos público, portanto os putos já estavam todos sentados há mais tempo. e hoje os do costume têm um bom novo pretexto para não fazer o trabalho como deve ser: eu. vá, o resto do elenco vale a pena. tem calma, acontece a todos, dizem-me. entro de voz fria, corpo enregelado e rezo para que o dracalon do fato faça o efeito que deve, de me pôr a suar antes que as articulações dêem de si comigo a sentir tudo. a peça flui. o colega que não é mau rapaz mas tem a mania que é engraçado e um tacto do caraças, mete duas buchas sobre a girafa chegar atrasada a todo o lado. buchas de qualidade, portanto, que valem a pena, porque engrandecem o espectáculo. e me fazem sentir ainda melhor do que já estou. faço que ignoro.

depois da peça há ensaio para correcções. eu de jejum e a subir às paredes por um cigarro. mas diz que é já. esquece o cigarro. o já prolonga-se. claro. de repente, chamam-nos com urgência urgente ao palco. para lá ficarmos mais 15 minutos à espera. faz-se o ensaio, ouço mais duas bocas sobre atraso do mesmo [e único, e sempre extremamente profissional, que nunca se atrasou] engraçadinho. faço que ignoro. estás chateada? [em tom de "esta não aguenta uma piadinha de categoria"] não, pá, está tudo fino [em tom de "continua, que estás a melhorar a minha auto-estima assim upa-upa"]. vou tomar banho.

enrolada na toalha, recebo a notícia de que o único cartão multibanco da única conta que contém os únicos 40 euros deste agregado familiar pifou. subo às paredes mais um bocado, seco-me e agradeço ao Senhor do Visa, que me vai comer couro e cabelo pelos levantamentos, mas que me vai salvar até poder ir ao banco.

numa pilha de nervos, não consigo visualizar a viagem básica de carro [que o namorido entretanto foi buscar] até à outra ponta da cidade [para onde não há transportes], onde tenho um casting de voz. resolvo que já dei o tilt, que vou de táxi e que fica ele com o carro e pronto, que já não consigo pensar. e desato a chorar.

pronto. já passou.

beber um café, comer meia sandes que não entra mais. e falar com os colegas sobre filmes durante meia hora, achar que descontraí.

sair para o meio do trânsito na boleia inesperada do namorido, cujo compromisso foi adiado e por isso pode levar-me de carro ao casting. a única boa notícia do dia.
nota: num edifício de funcionários públicos, não se conhecem entre eles apesar de trabalharem no mesmo piso. que isto não há misturas. como não há misturas, demoro um bocado mais a perceber onde é que me vou encontrar com a senhora que me chamou, mas lá me arranjo e sento-me à espera. a ler. a tentar ler, porque as mãos ainda me tremem da descarga de adrenalina. casting. dirigido por uma senhora simpática, mas directora de programas que pelos vistos não gosta de dobragens e não sabe como dirigir actores. mas faz-se. pergunta-me como estou de disponibilidade. explico-lhe que depende do cachet. pimba. sim, que para abdicar de trabalho para fazer trabalho para a função pública, nos termos deles, é preciso pagar o estorvo. saio às 16:30 do casting, com a senhora directora também de malas aviadas, e já estava a despegar do trabalho atrasada. coitadinha.

ala para o centro comercial, comprar umas coisas que faziam falta, pegar no carro e pimba, trânsito da hora de ponta para demorar 45 minutos a fazer 15 quilómetros. carro esse que, na fila, se começa a queixar de sobreaquecimento quando levou líquido de refrigeração novo há pouco tempo. roer as unhas até a luz se apagar. olhar para os esgares monocelulares assassinos nos carros ao lado e pensar que, apesar de tudo, é boa esta vida que consegui, que não tem [normalmente] filas estúpidas, prestações de plasmas, trabalho sedentário, imbecilizante e monocromático. mal paga na mesma, mas com gosto, porra.

chegar a casa, vestir o pijama e escrever este post com medo de que o computador entre em combustão espontânea.
que isto ainda faltam umas horas para o dia acabar...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sonoro

descia descuidada a avenida, restituída à ordem natural depois do fim de semana de sete milhões de euros que legalizaram - temporária e exclusivamente - as corridas de carros, o tuning e o barulho excessivo em áreas residenciais.
[by the way, o público surpreendeu-nos, recusando os apelos da grunhice intrínseca de cada zé tuga, enchendo-nos a sala apesar do circo à porta, das estradas fechadas, do incómodo de mudança da hora, do sol lá fora e nós aqui. amén a todos vocês, benditos anónimos, que nos forraram a plateia com mais de seiscentas almas receptivas e bem dispostas.]

mas dizia eu que descia a avenida. passando o nevoeiro das castanhas na esquina, evito que uma senhora seja atropelada na passadeira e continuo na luta interna de conseguir chegar à mala apesar das várias camadas de roupa, do capacete, do desastre natural da minha pequena estatura que não me permite equilibrar tudo nos braços. tiro o sete colinas e o telemóvel, carrego no play. já vai a meio a canção e é das que dão para abanar a cabeça. que levanto.

à minha frente, emperiquitadas no alto dos saltos, um duo dinâmico de capilares reflexos vermelhos nitidamente acabado de sair do Beauté, aqui ao lado. na minha cabeça atropelam-se etiquetas como a brigada da laca ou esquadrão da mise. assim, cabelos em Peter Pan da alta, tufados, flutuantes, alheios às leis da Gravidade, como que suspensos por molas. molas, também, os brincos demasiado grandes para uma cara enrugada mas disfarçada em betume, perdão, base, os cachuchos em cada dedo disponível - mais houvessem, a crise não chega às mãos -, as pulseiras que davam cintos. o cinto do casaco estampado de leopardo em roxos, o outro em pretos discretos mas com correntes, o andar de gazela em botim de pele [da própria, quem sabe] em perfeita dislexia da pochette e da bolsa de cabedal, e a lapela altiva de gabardine que [des]compensa a falta de altura. e no alto, esse corolário inevitável, que reclama todas as atenções apesar de tanto onde perder os olhos, a farta cabeleira no que se adivinha ser um ridículo pau de giz se, bem vistas as coisas, a cabecinha fosse demolhada e lhes decapassem todo o spray fixador.

abro a agenda, desesperada, e escrevo umas linhas para me lembrar mais tarde. desenho outras tantas - linhas - para não me esquecer de outros tantos movimentos.

e nos ouvidos, dispara, sozinha, por ordem aleatória do abecedário da tecnologia móvel, esta canção.

Listen "Seu jorge Burguesinha"


dispara-se-me a gargalhada no meio da rua. disparam os olhos das emperiquitadas, perturbada a redoma não insonorizada do âmago umbilical da conversa. pulverizadas, as conversas emperiquitadas, pelas minhas ondas sonoras.
sonoras, pois. que na vida há alturas em que está tudo ligado, e há mesmo bandas sonoras, não me lixem.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

do que há-de vir

a caminho do trabalho, um taxista pára para deixar a mota passar. dois tiochos daqueles que costumam ser pedantes e nem olhar para o lado [desses que aparentam não ter problemas de créditos, euribores, nem de combustíveis a julgar pela assentadura] abrem as alas dos espelhos - eléctricos - também para nos deixar passar.
ao telefone, massajam-me o ego profissional. duas vezes.
e, já em casa, um senhor da cabo liga a oferecer um desconto na factura mais telefone grátis durante um ano.
o namorido põe-se a arrumar as gavetas.
e isto. que não sei se ria, se chore.

e tudo faz sentido quando uma senhora no intercomunicador do prédio me pergunta se eu acho que Deus vai resolver o problema do aquecimento global e da bacarrota da Islândia.

mais descansada.
afinal são só sinais do apocaliptro...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

paracetamol

o corpo em descanso, pela primeira vez de dois meses de tensão, em vez de ficar agradecido, vinga-se da negligência com dores absurdas em sítios que pensava que não tinham terminações nervosas, a cabeça pesa mais do que o pescoço aguenta, os olhos querem saltar das órbitas e é toda uma moleza inominável que me prende impotente ao sofá. assisto às mudanças de luz na sala, que lambe as paredes devagarinho, destaca e esconde os títulos dos dvds, dos livros. e penso que devia ir aspirar o chão.
tinha coisas para fazer.
apetecia-me sair de mão dada, apanhar ar, comer travesseiros ou castanhas ou sushi, comprar um casaco, ler um livro de fio a pavio, acabar o quadro grande, e essas coisas que andei a adiar. apetecia-me convidar amigos para um café, um filme, qualquer coisa que me fizesse sentir acompanhada, descontraída, com vida pessoal outra vez.
tudo engolido por uma dolorosa apatia. quebrada apenas pelo ritual de, às 8 da manhã, dar um salto na cama a pensar que estou atrasada para os ensaios.

não te preocupes, diz a voz na minha cabeça, a partir de amanhã já tens peça outra vez...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

contagem decrescente ou it's a jungle out there



um elefante com uma luxação, um impala com um torcicolo, uma tribette com os ombros inflamados, outra tribette a recuperar de uma pneumonia, uma elefanta bebé com quebras de tensão, uma criança-mona com alergias e um elefante-macaco substituto que tem dores só de vestir o fato.

a girafa mais pequena do mundo com os dedos dormentes.

faltam 3 dias...

domingo, 5 de outubro de 2008

malas aviadas



começa agora a contagem decrescente.
fazer as malas para viver 5 meses num teatro é muito parecido com a preparação de uma viagem de campismo. mas leva-se mais mariquices de gaja...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

funny face ou havia muito a dizer acerca disto






You Scored as Audrey Hepburn

Audrey Hepburn

75%
Betty Page

69%
Mae West

69%
Betty Grable

63%
Jayne Mansfield

50%
Marilyn Monroe

44%

which 1950's pin-up girl are you?

terça-feira, 23 de setembro de 2008

seis horas



de suor a derreter no peito de asfixia de ácaros na garganta de cinzento de pó de pés em meia ponta de costas encaracoladas de pontadas nas mãos de deixas penduradas de dedos esvaziados de recusas de vontade de noites de tinto de incongruências de gripes de ânimo enfraquecido de ego que nem com muletas de ausências de desorientações de cadeiras partidas de cigarros a meio de fitas de amuos de idiotices de palermices de risos cansados de dias que já se esvaíram quando se sai para a rua sem os ter visto.

domingo, 14 de setembro de 2008

cabaret

teatro maria matos até 28 de Dezembro
Adriana Queiroz, Ana Cláudia Ribeiro, Ana Lúcia Palminha, Bernardo Gama, Carlos Gomes, David Ripado, Dima Pavlenko, Fernando Gomes, Henrique Feist, Isabel Ruth, Meredith Kitchen, Paula Fonseca, Pedro Laginha, Sandra Rosado e Sara Campina.
encenação de Diogo Infante
bilhetes entre 15 e 25€

já toda a gente sabe que a minha vida é um musical, que nasci na época errada e com um estranho pânico, vá, respeitinho encolhido por cantar em palco.
sendo este musical um off-La Féria, não me podia escapar.
aviso já que neste género quero ser bem servida, quero tudo - porque já vi o tudo - mas, mais do que esperar cantores exímios e dançarinos exemplares, vou à procura de representações poderosas que elevem as notas musicais ao tão estimado arrepio.

já se sabe que vamos entrar numa Alemanha quasi-nazi, num submundo boémio e nas relações e ralações dos vibrantes seres desse mundo e dos que o rodeiam. não querendo ser acusada de fornecer spoilers, fico-me por aqui.

em termos de ambiente, senti falta da sujidade, da confusão dos bastidores, do fumo de cigarros [mas é normal, o encenador deixou de fumar], da deliciosa decadência, do tal abraço que nos envolve, agarra e só cospe no final. houve algo de frio e quase asséptico nesta encenação que nunca me permitiu entrar realmente no tão afamado cabaret. só me salvou o corpo de baile e seu Emcee, cheio de energia e vontade de nos cravar as unhas.

a nível de cenário também tudo muito bidimensional, esperava que o espectáculo [me] entrasse pela plateia adentro. acima de tudo, depois de uma Dúvida pelo lápis de João Mendes Ribeiro, esperava uma surpresa. a sorte é que esperei sentada.

as músicas foram uma não-surpresa muito agradável. sim, Ruben Alves e a sua banda levaram-me para os tais outros tempos. a tradução das letras para o português justificava-se [um dos meus medos quando se mexe nestes clássicos] e na sua maioria tinham uma adaptação bastante fiel, se bem que não se apiedavam dos cantores em termos de métrica e espaço para respirar. no entanto - eu sei, há sempre um destes - algumas das letras pareceram-me estranhamente mal traduzidas e adaptadas, como se tivessem resolvido introduzir mais músicas no espectáculo à última hora.

a encenação teve alguns apontamentos de humor quase non-sense que não esperava de um senhor tão bem comportadinho como Diogo Infante. destaco a cena de "two ladies", que considerei soberba e me fez largar boas gargalhadas. ora toma. a primeira aparição de "tomorrow belongs to me", com David Ripado, tem o twist no sítio certo para nos fazer sentir culpados por termos estado a gostar tanto da música. sacanagem da boa.
por outro lado, na sua maioria, as cenas mais dramáticas eram arrastadas ao ponto do suspiro e de sentir a cadeira no rabo.
houve ainda algumas opções artísticas que me fizeram levantar a sobrancelha, questionando-me se aquilo era falta de estudo [o que me recuso a acreditar] ou simples vontade de fazer algo... diferente? por exemplo, a cena de "if you could see her [through my eyes]" foi interpretada com tanta graça pela dupla Hentique Feist e Adriana Queiroz que só por isso me permitiu fazer vista grossa à estranha opção artística da escolha do bicharoco representativo dos judeus.
o final deveria pertencer a Herr Schultz sozinho, encolhido. assim se mataria um público.
ah, e já agora, os homossexuais levavam uma estrela cor de rosa...


os intérpretes, como grupo coeso, funcionam. a nível individual já fia mais fino.

a nível coreográfico e musical são um todo metódico, eficiente, intenso e em certos momentos quase pungente. levam a perna à cabeça sem uma fífia. à excepção de um mocinho muito alto e loiro que em vez de levar a perna à cabeça estava era a tentar não cair da cadeira, servem o espectáculo como um grupo o deve fazer, marcando o nível que todo o musical deveria ter. gostei da mistura de estilos, de corpos, de assimetrias. gostei que não fossem todas altas e espadaúdas, que houvesse, por assim dizer, um tipo de mulher para cada homem. e vice-versa. e vice-vice, está claro. à semelhança do meu imaginário da fauna dos cabarets nos anos 30.

Henrique Feist estava como peixe na água neste seu Emcee: não houve nota ou fio de cabelo a mexer-se se ele não quisesse. agarrou este seu sonho com unhas e dentes. e com aquela voz. e estava tão verdadeiro... um bálsamo.
a dupla sénior, Isabel Ruth e Fernando Gomes tem aquele estilo de representação que, quando sozinhos, nos transporta para um filme português antigo. e só aí [e por isso] consigo esquecer-me que aquela entoação musicada e as pausas longas estão algo descontextualizadas do resto do espectáculo. "It couldn't please more" é das maiores delícias da peça. podiam ter agilizado [vá, cortado em pedaços mais pequenos] duas músicas dramáticas que canta Isabel Ruth e, com isso, poupado a actriz e os espectadores a duas cenas tão compridas e repetitivas, com as naturais falhas de quem não canta pelo meio. Já Fernando Gomes, na sua figurinha pequenina curvada, tom frágil, doce e meio pateta, conseguiu conquistar-me, com uma ternura imensa. apetecia, mesmo naquele seu género "que já não se usa", meter no bolso e levar para casa.
Paula Fonseca, no seu pequeno papel individual, conseguiu também arrancar-me umas gargalhadas e fazer-me crescer a irritação ao ponto de lhe querer bater [como pedia o papel, atenção]. e canta que se desunha.
o senhor que fazia de Ernst Ludwig era tão estranho e desconcertante de uma forma pouco lisonjeira que a única imagem que tenho para o descrever seria um nazi de Alfama. klop.
Pedro Laginha está esforçado. acho-o capaz de muito mais. parece-me que lhe falta uma qualquer coisa. um clic. um deixar-se ir e acreditar naquilo que está a dizer, independentemente de quem está lá para o ouvir.
isto porque - e vamos ao momento mais temido - na minha opinião, Ana Lúcia Palminha não está mais do que sofrível. nada de Liza. está um perfeito boneco da Velma Kelly da versão cinematográfica de Chicago, do figurino aos tiques de corpo. mas falta-lhe a alma, a garra da senhora Catherine Zeta-Jones para isso. a amplitude vocal é bastante limitada, e nota-se mesmo em músicas totalmente adaptadas ao seu tom. brilha nos graves, mas fica sem ar num instante. e sente-se. nos mais graves já só arranha e quando tem de ir para o falsete acabou-se. "money makes the world go round" lá ficou pelo caminho, nitidamente por falta de ar, entregue unicamente a Henrique Feist. compreende-se... ou não...
como actriz - o que, para mim, era o essencial - surpreendeu-me a total falta de verdade na interpretação. na maioria das cenas roça o histerismo frenético, uma musiqueta irritante na entoação, e por lá assenta. sempre na forma. parece que se está a poupar de qualquer coisa. pois agora já nem está nos ensaios, estará a poupar-se de quê? e escolhendo tão obviamente "Life is a Cabaret" para o ponto alto da personagem - Sally em cena num momento de derrota e desespero -, não queria acreditar no que parecia ser a total falta de lembranças da actriz, de experiências próprias, qualquer coisa que a ajudasse a fazer a cena com menos esgares e mais emoção. revirei os olhos e recostei-me, desconsolada. não acreditei nela. deixou-me as músicas sem alma, a roupa sem vida, os olhos sem história, Cabaret sem Sally.

como qualquer actor que sabe fazer tudo na forma, sem se gastar, Ana Lúcia levou o Maria Matos à loucura, e naquela noite ouviram-se bravos e gritos e tudo. eu saí de lá pouco convencida com ela.
estou convencida, sim, que este musical está muitos furos acima de um La Féria. mas ainda a um passador de distância de uma Broadway, de um West End da minha vida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

mercado alternativo

ando em profundo contacto com África, por estas alturas.

valho 20 camelos, 2 cabras e 9 ovelhas. just in case...

a quanto estará o maço de Davidoff por aqueles lados?

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

cinzentamente

sair porta fora e o mundo está pendurado nas pálpebras, pressiona-as de maneira a que tudo se veja apenas por entre as aranhas das pestanas, em cinzas vários e cada um mais desinteressante que o outro.
terá sido falta de café, mas há dias despojados de toda a boa intenção. que nos é sugada por antecipações, previsões, confirmações. interjeições. sim, essas são as piores.
a interjeição do ego, essa cabra. que salta e arranca um braço a quem já estava de mãos preparadas para a defesa - dizem que é o melhor ataque, mas tinham de conhecer certas interjeições.
e a dor de cabeça, claro está. terá sido falta de café. ou falta de força. ou repressão de força para um bem maior que já não se sabe bem qual.
e palavras ditas em desdém, e desdenhadas e desenhadas com tanta força que a ponta do lápis parte. cansa. a doença alheia que calcorreia corpos, suga e cospe os despojos do que fomos.
há coisas que nos absorvem e não nos devolvem e vamos para casa à procura de onde estamos.
mas deve ter sido falta de café.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

wiiiiiiii!




os senhores do Imposto Redutor de Sorrisos demoraram demasiado a mandar a cartinha da cobrança. por isso, e fazendo orelhas moucas ao bom senso, fizemos foi o gosto ao dedo.
mais fãs de jogos de tabuleiro [mas com poucas visitas aos "arrabaldes" para dar asas à loucura como deve ser] e de longas noitadas de mikados e scrabble a dois, tínhamos no entanto uma pequena fraqueza. branquinha e sem fios.
andávamos há demasiado tempo a namorar uma coisa destas. a minha primeira desde a Nintendo Super Set, e a única que nos fazia sentido: faz-se exercício e é perfeita para jogar em grupo.

desde há um tempinho que as noites são passadas a jogar. ou a fazer ginástica.

curiosamente, desde a divulgação do Advento da Compra, um pequeno grupo de peregrinos - anteriormente estranhos a este local, mais conhecidos como a irmã e os amigos da irmã da Polegar - ruma frequentemente à nova Meca, para estabelecer contacto com a estranha consola imaculada, assaltando frigoríficos pelo caminho.

nós dizemos: visitas? wiiiiiiiiiiiiii!

domingo, 17 de agosto de 2008

profilaxis

há coisas absurdamente geniais. num dos meus sotaques preferidos, com as doses perfeitas de "testemunho danone", clipping vintage, comédia da mais fina, mesmo que escatológica, e, claro, actores fabulosos. 9-minutos-e-tal desconcertantes.

se eu tivesse forma de sacar isto, dava-me ao trabalho de legendar.
onde encontrei? mesmo depois de Studio 60 on the Sunset Strip ou antes de Flight of the Conchords no canal FX, que está a passar curtas espanholas entre programas, aparentemente de forma aleatória, sem os identificar no menu da programação. nem todas são do meu agrado, mas esta... foi de parar tudo para tentar perceber se eles estavam mesmo a contar a história que eu achava que estavam... quero gritar ao mundo que existe.

enjoy :)



profilaxis, produção de 2003 de prosopopeya producciones

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

três quilos e trezentas


ph.t. e mão conquistada de Simão

por três quilos e trezentas desatámos aos pulos na cozinha, abraçámo-nos e demos vivas.
três quilos e trezentas de uma pessoa nova, doce, decidida e delicada, de olhinhos já atentos, a quem o mundo ainda não faz confusão.
por três quilos e trezentas de gente há lágrimas e um sorriso de leste a oeste cá em casa. porque também é um bocadinho nossa.
a nossa família emprestada de Paris está, agora, mais-que-perfeita. chegaste, Joana.
sim, Joana, mais-que-perfeita, sem pretérito mas com travessões para ficar tudo juntinho, porque é tanto o amor que se respira desses dois que te fizeram que a tua casa é sempre assim quentinha para quem por lá passa, cheia de abraços e gargalhadas.

e sim, Joana, fomos nós que te andámos a fazer festinhas e sussurrar disparates num francês macarrónico este Maio que passou. fomos nós que levámos os teus pais para as escadas exteriores - de que eles só se lembram quando lá estamos - para ficarmos todos à conversa até às tantas com vista para os telhados, a vie en rose, a primavera e a gata da vizinha. a beber cafés - e chá para a tua mamã -, a falar português, a fazer teatradas com um troll e uma vaca perdida.

e agora as saudades? com um novo motivo para voltar... e agora as saudades? quem é que as atura?

bonjour, Joana de Paris :)

por onde, mesmo?

uma pessoa tem uma consulta no médico, para a qual vai ter de faltar a uma parte considerável de um ensaio. para lá ir ter o mais rapidamente possível, pondera utilizar os transportes públicos porque não quer caos, poluição, perdas de tempo em filas, taxistas enraivecidos e essas coisas.
por isso, vai ao site da Transporlis [linkado no da Carris] informar-se do melhor percurso, e de quais os transportes a utilizar.
insere como ponto de partida a Avenida 5 de Outubro, e o de chegada a Avenida Gomes Pereira. pois que manda pesquisar e o bicho diz que falta inserir ponto de partida ou de chegada. depois de estouradas várias tentativas de "vai buscar", recebendo sempre o mesmo recado, a exasperada pessoa resolve ignorar o bug e usar como alternativa o mapa disponibilizado no site para indicar per se - ou à la pata - os ditos pontos. perde-se por vielas e ampliações de ruas estranhíssimas, num mapa que indica que o Hospital de Santa Marta fica a norte do Parque Eduardo Sétimo. mas como a pessoa é abnegada, lá finalmente dá com os ditos pontos.
a primeira sugestão [pedida como "menos transbordos"] sugere um autocarro, mais de 300 metros a pé e 43 minutos de percurso.
vá, se calhar é melhor pedir a sugestão "mais rápido". e a que surge é mais rápida, sim senhor. 3 autocarros e umas poucas dezenas de metros a pé. o percurso tem uns estonteantes 2 minutos a menos que o anterior.
mas não é que a pessoa não goste de andar, ou não suporte autocarros. a pessoa tem a tal pressa para chegar ao ensaio.
a pessoa recebe a sugestão de sua cara-metade de ir de metro até Entrecampos e lá apanhar o comboio para Benfica.
depois de um "como é que não pensei nisso antes", vem a apoquentação, seguida da já conhecida obstinação. porque é que esta porcaria de site não me sugeriu isso? já sei, vou obrigá-lo a responder-me assim. vou pedir a opção de percurso utilizando só metro e comboio.
tick tick. enter.

e sai esta resposta:

ir até à estação Campo Pequeno (Metro) 355 metros
apanhar linha Amarela - direcção Rato (Metro)
sair na estação Marquês de Pombal
apanhar linha Azul - direcção C. Militar (Metro)
sair na estação São Sebastião
apanhar Linha Azul - direcção Amadora Este (Metro)
sair na estação Jardim Zoológico
ir até à estação Sete Rios (CP)
apanhar linha Roma Areeiro - Mira Sintra Meleças
sair na estação Benfica
ir a pé até ao destino (580 metro)

tempo de percurso: 45 minutos

[suspiro]
nota mental: pedir ao tal médico uns Xanaxs

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

mimo

disto, assim.
acordar com um elogio profissional. um buraquinho-para-café sem hora marcada na tarde do Chiado [como há tanto tempo]. um corte de cabelo. um livro e filmes para a colecção. e o regresso a casa com as mãos nas tuas costas.

domingo, 3 de agosto de 2008

outtake


ph.t. espanta-espíritos

quarta-feira, 30 de julho de 2008

o homem, o gato, e o bicho mau

gato foge. dono pede ajuda. vizinho homossexual prontifica-se e resgata-o. dono vê vizinho com o gato. dono pensa que vizinho não salva gato. dono pensa que vizinho sodomizará o gato. dono pensa que pela sodomia vizinho homossexualizará gato. dono dá tiros no vizinho. dono não acerta no vizinho. dono acerta na vizinha.
stop*

*via ondas marklianas

sexta-feira, 25 de julho de 2008

sic mulher

entalado entre os anúncios a detergentes e desodorizantes, deparo-me com um "new look", à laia de extreme makeover dos pobrezinhos, em que um senhor cheio de não-me-toques que nunca esboça um sorriso porque enruga, aplicou uns reflexos acobreados foleiros tipo anos 80 e cortou 2 cm às pontas do cabelo da mocinha. isto depois de lhe aplicar um champôm intense repére.

outro, mais simpatiquito, aplicou à Carla [a mocinha] uma sombra nos olhos, enquanto dizia: "agora aplicas com a esponja assim, queres ver? fecha os olhos"

a consultora de moda - a.k.a dona de uma loja ali no Fonte Nova - sugere à funcionária pública [ou será estagiária, ou será reciba-verde?] do IPJ um versátil... vestido de cocktail beringela, um casaquinho de malha com apliques de pérolas e umas sandálias de salto agulha prateadas para a mocinha levar para o trabalho. como alternativa tem sempre umas alpercatas com sola de cortiça e vime de salto compensado.

e a Carla diz que se sente muito bonita. que é tudo lindíssimo. que não tem palavras.

cada um tem o que merece.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

sim

tenho dias.
e aí questiono-me.
se será sensato tanto instinto.
tão pouco estudo das coisas, tão pouca dissertação. tão pouco pretenso pretensiosismo.
se de tanto apreciar o que é simples não me tornarei simplória.
nunca fui disso dos estudos. não fui de debitar nem dissertar. tinha de perceber. simplesmente perceber. o sentido, único ou não, mas o meu, o que lhes dava, o que me davam. era disso que eu gostava.
saía-me assim. saía-me sempre.
e depois, claro, cansou-me.
e foi assim. foi por isso que voltei ao que gostava. dos bonecos e não dos rótulos.

para falar, saboreio. é que bastam-me as palavras.

em vez de pensar, cheiro.
em vez de medir, abraço.
em vez de olhar, mergulho.

não hei-de eu ser chanfrada...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

big band


Glenn Miller - imagem tirada daqui

ontem à noite estava uma big band no Rossio.
podia comentar aqui uma série de defeitos que encontrei, especialmente na falta de profissionalismo e humildade de algumas pessoas.

mas o poder daquele som, da harmonia de metais, contrabaixo, bateria e piano, o fumo do cigarro, o arrepio constante e a lua.
a viagem no tempo incomparável. a saia-suspiro ou bem travada. e o risco nos olhos. a boquilha, as luvas, os saltos altos.

cada vez mais estou convencida que nasci na época errada...
ou que vi demasiados filmes em miúda...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

acordaste, Lisboa?

tenho-me queixado frequentemente que a Baixa está moribunda. por falta da dedicação de... todos. falta-lhe uma pulsação própria fora do horário de expediente. falta-lhe gente que a viva. e também me queixo das pessoas, da apatia, do comodismo, da falta de vontade de sair dessa modorra que assola tudo e todos. da mania de se queixarem e de não se mexerem para fazerem o que querem. da incapacidade de se unirem no que realmente interessa. da incapacidade de se levarem menos a sério e de se entregarem mais uns aos outros.

ontem ouvi falar nisto. já conhecia algumas iniciativas dessa maravilhosa arte urbana do improviso com multidões, da espontaneidade deliberada em cheio na testa do quotidiano, a que se chama flash-mob. e quis fazer parte.

armada em agente infiltrada, com o rádio sintonizado na antena 2 e uma câmara na mão, fui ver como era.
e dei por mim submersa.
e soube bem.

soube bem porque à minha frente eram velhos e novos, deitados no chão a ouvir as trepidações dos passos. deitados no meio do chão. a sentir as reentrâncias das pedras que pisam a caminho de casa. estavam mornas, as pedras, mornas, com rugas, macias e polidas como pele humana.
andar de olhos fechados, sem medo de chocar, sem pensar no jantar mais logo. a rodopiar, sim, senhoras bem postas de salto alto a rodopiar, tão tontas como as donas de casa que rodopiavam mesmo ao lado.
estátuas, vivas, com o gesto que queremos que seja. faço eu, fazes tu, tira-me uma foto para não me esquecer que era isto que eu queria hoje.
colar-se aos vidros das montras, está fresco, e os reflexos, "olhe desculpe, o meu rádio deixou de funcionar, dá-me uma ajuda que eu estou-me a divertir tanto".
a cumprimentar-se sem se conhecerem, a tocar-se, as pessoas tocaram-se. e era isto tudo que eu lhes queria explicar, que é bom tocar, trocar, entregar, receber.
a correr rua Augusta abaixo, velhos e novos. os velhos tão entusiasmados como os novos, os novos tão compenetrados como os velhos, esquecem o vizinho que chateia com a música alta e esquecem a consola, esquecem as contas, o empréstimo, o sono, só um bocadinho. era isto, era isto.
dançar ao som de uma música que só nós ouvíamos. dançar, em bailarico, passos lentos, passos enraivecidos, está sol, estou vivo, e bater palmas - essa foi a verdadeira revolução, o motim às palavras da rádio, ninguém mandou bater palmas, mas isto de dançar sem bater palmas é maldade.

e os olhos, os olhos de quem não tinha rádio divertidos, confusos, deliciados. porque é estranho, é de loucos, é mesmo disparatado. mas estamos juntos, não nos conhecemos, tocamo-nos, rimo-nos, esquecemos, fazemos o que pensámos "um dia eu faço", vemos o céu deitados no chão porque parece uma boa sugestão.
e é.
brincar, simplesmente brincar. sem pensar no que estarão a pensar.

sim, era isto. era disto que eu falava. este é um outro sabor de liberdade.



video editado por mim, [quase toda a] imagem de espanta-espíritos
pedimos desculpa pela falta de qualidade, mas ainda somos amadores no rendering de videos...

segunda-feira, 30 de junho de 2008

super-pateta



noites de vinho tinto, séries, filmes.
a brisa, a lua refrescante, as cortinas coloridas.
nós os dois.
e chorrilhos de disparates.
dizer o que dá na gana.
sem travões. sem censuras.
rir de tudo.
rir com gosto.
rir com garra.
rir todos os dias.

só me ocorre uma coisa...
és o meu super-amendoim.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

entrementes

acordada desde as 7 da manhã, desesperada por penumbra e colo, vou a casa entre peça e gravações.
- que é que queres comer?
- ... não sei...
- que enjoo, queres sempre comer a mesma coisa, safa!

terça-feira, 24 de junho de 2008

só bronze e sonho

entre nervos e risinhos frescos de coisas pequeninas a quem contámos histórias de gente grande.
o medo de as histórias serem pesadas, de não estarmos a ser ciganos como deve ser, evaporou-se nos olhos atentos, nos comentários murmurados e nas risadas francas sempre que a ocasião o propunha.
com estes pequenos seres não há meias medidas. trespassam-nos com a franqueza, topam-nos um passo em falso. por isso foi de peito aberto e olhos nos olhos.
depois o momento decisivo, engolir em seco e atravessar a parede que nos protegia.

"mostra a mão, senhora" [pequenina, perdida na cadeira maior que o mundo dela, de trancinhas com missangas].
um segundo de hesitação e... uma mãozinha esticada, pequenina, curiosa, a ver-me percorrer as linhas ainda por desenhar e outras que não estão lá. olhos pasmados "um rapaz te quer muito, e outros te falam de amores". cora e ri. depois mostrou-me o dói-dói na perna. fiz-lhe uma mezinha de beijocas e passei ao próximo cliente. levanto os olhos.
três ciganos de lantejoulas, pele dourada e t-shirt do Quaresma de mãos estendidas e sorrisos rasgados a querer saber a sina.

sim, estamos a fazer qualquer coisa certa.

e no fim, já depois das palminhas, pegar nos adereços e subir aos camarins, ainda ouvimos, alto e bom som: "que bonito"

pronto, ganhámos o dia...

raspões

corre corre, polegar.
dos estúdios afogada em papéis e vozes.
para o ensaio geral.
povo das estrelas, canções, sinas e verde que te quero verde.
ainda não vi bem o sol.
pinto-o na cara para parecer cigana.
contagem decrescente: uma semana para respirar.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

repto ao norte

pessoal da zona do Porto, aqui vai um pedido muito especial:



se alguém passar nas imediações do Teatro Nacional São João nestes dias, vejam se por acaso lá continua o telão do FITEI e fotografem-no.
é que os senhores acharam tão pouca graça a esta foto de cena do meu namorido, que virou quase uma "imagem de marca" do evento este ano.
os membros do elenco e equipa artística do espectáculo fotografado, que lá estiveram em digressão, vieram todos contentes contar que estava um telão enorme com esta imagem, cito, "a cobrir o teatro inteiro"... mas não se lembraram de tirar uma fotografiazinha para atenciosamente alimentar o ego agastado do fotógrafo que tão bem alimentou o ego dos intervenientes com cliques do mais alto coturno.

assim, peço ao pessoal do Norte que possa fazer o obséquio de, se tiver possibilidade, me enviar uma foto do teatro com o dito telão na fachada. eu retribuirei com fotos do que precisarem de Lisboa, e, se cá passarem, contem com uma bic... um cimbalino e dois dedos de conversa*. o meu e-mail é solpolegar@gmail.com
obrigada, carago

*se preferirem, podemos fazer o planeamento de uma remodelação de casa de banho de orçamento reduzido...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

de uma assentada

vou ali rever, dirigir, dobrar e ensaiar.
volto já.

ps: doem-me as costas, caramba.

terça-feira, 27 de maio de 2008

banlieue*

há coisas tão boas que se sentem com o sabor do pecado.

sabe a pecado perceber que nos visualizamos a viver ali ou ali. sem dificuldade, acreditamos que simplesmente podíamos ir ficando, por um enquanto indefinido. derrete-se a língua nova na boca, sabe-se que se vira à esquerda e o rio é já ali, que é tão fácil criar raízes entre bancas de roupa vintage. as rotinas são coisas que nascem espontaneamente, o café preferido e o sítio onde comprar a baguette, o restaurante japonês barato, o mercado de rua e o supermercado do leite bom. de repente já são nossos, dados adquiridos como saber que descendo aqui a rua vai dar à tasca onde o vizinho dispensa um pão ao domingo à noite.
gosto de não precisar de um carro para nada. gosto de poder ir a pé ou de bicicleta, do é já ali sem cansaço, gosto de ter transportes para todo o lado, de o passe ser barato e dar para tudo a toda a hora, de a comida ser barata, de os jardins serem para todos e de haver muitos jardins, de se poder pisar a relva, de haver arte no meio da rua, de ver artesanato a torto a direito, e de poder comprar um comprimido para as dores de cabeça ou para as alergias às 11 da noite já na esquina.

o pecado é a rapidez com que tudo se nos entranha. é o nariz no ar a ver que até dava para trabalhar ali ou acolá. fazer as contas e pensar... se tantos conseguem...
é pecado, sim, pensar seriamente que se calhar perdia-se era o amor ao dinheiro já gasto no bilhete de regresso e pairava-se por ali, a duas horas e vinte dos dois pólos dos nossos novos mundos que os passos já conhecem de cor.

é um planisfério pessoal que se desenha a sorrisos. a única dor é nos pés, de 5 quilómetros diários feitos meio de passeio, meio de descoberta.

segue-se a ressaca do regresso, há sempre que pagar a factura do querer.
atenua-se com algum trabalho e o aconchego de ter a certeza - tão absoluta - de que se estou contigo estou bem.
onde quer que seja.

*subúrbio - em francês deriva de "lugar dos banidos". e as notícias mostram-me cada dia mais sentidos nesta palavra quando aplicada de uma forma geral a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado...

domingo, 11 de maio de 2008

banho de cultura



vou ali tomar um banho de cultura e já volto...

:)

sexta-feira, 2 de maio de 2008

senhora directora

de um dia para o outro, a uma semana de desaparecer por uns tempos, vira-se-me a vida do avesso. quando pensava que tinha uma semana de descanso, para preparativos, entregas de IRS e dormir o dia todo... pam!
de novo os bonecos. e agora, a gerir os dois lados da barricada.

é no que dá um "padrinho" que tem uma fé cega no meu talento e me recomenda a torto e a direito, salvaguardando:"achas que dei o teu nome só porque és gira?"
e é no que dá um namorido que tem um poder, o tal do tão afamado secret. que quando digo que se calhar não passei no casting de voz porque estou enferrujada, me responde que até vou progredir na carreira. que me vai levar de uns lados para os outros "porque de mota é mais rápido", abdicando de merecidas horas de descanso até no próprio dia de anos. e que está ali à minha espera com um lanche de leite fresco e pão com tulicreme para me acalmar do dia inacreditável que foi este...

a minha vida é muito bonita. podia era ser menos intempestiva, bolas. pedir licença não custa...

mas é tão bonita... :)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

wall [air] street

acompanhar as mudanças de preço dos vôos das low cost assemelha-se, em arritmias e mudanças de estratégia, a jogar na bolsa de valores...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

o canto da rosa


foto de Martim Ramos, tratada por mim

bar do Teatro da Trindade
11 de Abril a 3 de Maio, sextas e sábados às 23h
* bar do Teatro da Malaposta . 16 e 17 maio às 23h.

criação e encenação colectivas
dramaturgia e direcção: Ana Sofia Paiva
com: Ana Sofia Paiva, Anabela Tomás, Cristina Andrade, Luciana Ribeiro
músicos: Tiago Morna e Rodrigo Augusto
produção: Kalpa Comunicação e Cultura
preço: 8€ [vários descontos disponíveis]

quem me conhece sabe que tenho por princípio, neste blog, fazer as minhas pseudo-críticas a espectáculos a que tenha assistido mas nos quais não trabalhe ninguém que eu conheça. maioritariamente para evitar ferir susceptibilidades [com a minha maldita mania de dizer o que realmente acho] e já agora para não parecer que só faço publicidade aos amiguinhos e mesquinhices parecidas.

no entanto, hoje faço excepção. uma grande amiga minha faz parte deste elenco.

entramos na casa de fados de D. Maria da Rosa, que nos vem receber à entrada. a gerente da casa dá por aberta a noite de fados enquanto a jovem Rosinha nos vai servindo os cafézinhos. é apresentada a grande vedeta da casa, Rosa Maria, acompanhada pelos seus músicos [um deles é o marido]. numa mesa de lado, atenta ao espectáculo, está a fadista - prata - da - casa - já - aposentada, uma boémia trocista sempre com o remate pronto [cujo nome não recordo, mas também é arraçado da rainha das flores].

ao longo de uma hora, somos simplesmente brindados com um espectáculo de fados enquanto assistimos a revelações da vida daquelas personagens, dignas de uma trama de novela de faca e alguidar, ilustradas passo a passo, claro está, com músicas a preceito. para nos compensar de uma noite tão constrangedora e atípica daquela casa de renome, ainda temos direito a uns copitos de vinho e chouriço assado no fim.

é um espectáculo canalha e castiço. é simples, ligeiro, disparatado e muito divertido. sem nunca ser brejeiro ou estupidificante. para quem já esteve em casas de fado e conhece o ambiente de bairro, reencontra ali as personagens típicas [ou tipo], obviamente com tiques e deixas bem condensados, como requer uma construção baseada em caricaturas. muito bem cantado, com interpretações algo desiguais, mas que se enquadram nos seus jeitos sem comprometer o espectáculo ou a verdade do que ali se faz. o destaque vai para [e agora vou mesmo parecer tendenciosa, bite me] Luciana Ribeiro, que tem uma garra, uma voz, uma parvoíce inata e uma capacidade de improviso fora do normal, e para Ana Sofia Paiva, que faz uma velha glória fabulosa em termos de corpo, voz e tempos de comédia.

aconselho vivamente a quem passe pelo Bairro Alto a caminho da noite, a ir aconchegar o estômago e a alma no bar do Trindade. a lotação é limitada, portanto reservem com alguma antecedência. e lembrem-se que, como muitos artistas da nossa praça, eles estão ali sem ordenados, à bilheteira e por amor à camisola, mas com todo o profissionalismo. não se acanhem.

terça-feira, 22 de abril de 2008

conjecturas de inspiração vagamente escatológica*

*que se transformou num romântico dueto de classe - ou dinâmica de um relacionamento condenado à partida a um abanamento de cabeça enquanto se rumina entredentes o[s] ditado[s] "só se estraga uma casa" e|ou "um diz mata, o outro diz esfola"

eu só disse mata:

há qualquer coisa de big brother nas engenhocas públicas demasiado modernas.
eu já brincava com os parques de estacionamento em que uma voz diz "bem vindo ao parque não sei do quê, insira o seu cartão. obrigado e boa viagem". dizia "a senhora deve sofrer muito, ali enfiada todo o dia". ou "diz-se obrigadA, ó estúpida".
mas pronto, passava. agora mais tétrico é nas casas de banho...
não sei. aquela coisa de uma pessoa fazer o xixizito [meio de pé para não contactar com nada daqueles cubículos] e ainda está a subir a calça já o autoclismo, por sua auto-recreação, faz a descarga, no "exacto momento preciso".
não sei.
fico sempre a pensar se o sensor não será uma aldrabice. se não haverá por ali uma câmara e se não estará alguém do lado de lá a observar os rabiosques ao léu, especificamente treinado para avaliar o ângulo de inclinação da pessoa para no momento certo puxar no autoclismo...


vai o outro e diz esfola:

soube de fonte próxima que não há câmara nenhuma pois isso aumentaria muito os custos de manutenção da casas de banho. há sim um pequeno corredor atrás das sanitas onde anda uma pessoa com um balde a espreitar pelo suposto "sensor", que fica um pouco acima da sanita, a despejar água por um funil no cano do suposto autoclismo.
como todos os trabalhadores de centro comercial e artes, este sujeito trabalha a recibos verdes, durante 12 horas por dia e aufere 500€ mensais brutos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ella e um cigarro

a melancolia de um abril a cântaros a lamber o vidro. a precisão de um suave berbequim nas fontes adivinha que a rinite dos fenos terá rima. pobre, mas rima. aguardo com dois comprimidos e um carioca de limão a que está por vir. a anunciada pelo esforço de me fazer ouvir em claustros com ventanias e trocas de roupa em pele ainda assim suada. a anunciada, a que rima... não? não rima propriamente, mas há um qualquer arabesco de som que me avaria a percepção perfeccionista.
rinite... gripe.

sigamos
enquanto o vinil não se cura - mesmo assim - um crepitar... a música a raspar pela chuva adentro. um pequeno vazio ao canto. quase microscópio, o vazio. da poeira, o canto. encosto os pensamentos à parede e a língua solta-se menos literária.

não desfazendo.

tenho saudades de certas palavras. daquilo que sei que sei fazer. de fazer de conta a sério.

a sério?
tenho saudades subir por ali acima, ir por ali afora e

deixando-me de rodeios
dar valentes pontapés na genitália emocional de uma sala cheia.

pois, isso
how high the moon

domingo, 13 de abril de 2008

wc cheap&chic makeover

ora passámos disto



para isto



quem diz que uns pés-descalços do subúrbio não podem ter um Roy Lichtenstein na banheira?
com direito a um armário exclusivo para viagens sensoriais ao passado, recheado de pequenas antiguidades da higiene e cosmética por nós coleccionadas através de incursões a drogarias de bairro.

trabalho feito por uma equipa de dois, em 8 dias, por um terço do preço que custaria mandar fazer por "profissionais".

há por aí alguém que precise dos nossos serviços de consultoria? fazemos orçamentos grátes e vamos a casa...

terça-feira, 8 de abril de 2008

megalomania

após uma visita ao Ikea na passada semana, por ocasião das obras na casa de banho, concluem-se três coisas:

o meu namorido é o mestre do tetris
eu posso vir a ganhar a vida como contorcionista
o meu C1 é um camião, carago!

terça-feira, 1 de abril de 2008

extreme makeover - bathroom edition

é desta. vai daí, saídos dos lençóis para um café na tasca do lado, aproveitando a folga e a tarde solarenga, voltamos a casa com uma estranha vontade violenta.
tantas guerras, tantos baldes de tinta, tanta martelada no dedo, havia no entanto uma divisão que nos estava atravessada: a casa de banho.
desistimos dos grandes projectos, não encontrámos quem nos assentasse uma mão cheia de pastilha por um preço acessível. por isso terá de ser como tem sido até agora. a dois, inventando do ar, imaginando e rabiscando os meus cadernos cheios de raspas de lápis de cera, como as cores fortes da casa, recorrendo ao engenho e ao "gosto disso".
tudo medido de mãos dadas pelos azulejos acima, com risos e chaves de fendas a caírem nos pés descalços, decorreu hoje a cerimónia de início da remodelação da casa de banho.
com uma vontade e uma mestria saídas não sabemos bem de onde, encaixotámos pertences, arrancámos móveis e loiças e vedámos saídas de água em poucas horas.
e agora que já só temos a banheira e sanita a funcionar, já não podemos mesmo "ir fazendo"...

eheheh

quinta-feira, 27 de março de 2008

feliz dia, dia feliz


ph.t. de espanta-espíritos

a quem se enterra em dúvidas toda a vida, com a paixão como único guia. a quem vive de borboletas, tecidos e pós que se desvanecem nalguma curva do caminho. a quem renasce a cada luz que se acende. a quem se alimenta de dar. a quem tem apenas o corpo para dar. e nele recebe o suor de almas que não existem. mas acredita. a quem se rasga para caber mais qualquer coisa que não se vê, para que se veja.
e a quem acende as luzes, a quem carrega nos botões, costura, constrói, inventa, pinta, escreve, captura, estende o adereço e orienta os passos. a quem conta histórias. a quem faz sentir.
hoje é o nosso dia.
feliz dia mundial do teatro.

quarta-feira, 26 de março de 2008

ar

são os pontos de encontro da respiração. tudo está ligado, todos os lábios se beijam.
cruzámo-nos. tu viste-me, não te vi.
levantaste os olhos por momentos dos teus pés que acompanhas com devoção para não teres o mundo por perto, ombros descaídos sob o peso da mochila e da vida que escolheste. levantaste os olhos vagos, vagueantes, imensos, imersos, submersos, subterrâneos. triste momento despejado por ti abaixo, gelado. desenraizado. viste-me na minha distracção abstracta com as músicas enfiadas nos ouvidos, as letras nos olhos, o livro nos dedos hesitados, sem saber o que me leres na tal aura em que acreditas. e por ali ficaste, sem um gesto, sem uma inalação, à espera que essa suspensão me sugasse direito a ti. à espera que me vaporizasse em mil estilhaços que se te arrastassem pela cara, te cortassem as veias e a escultura do perfil, para ser culpa minha outra vez. nada. só os ecos. invadiram-te. mas não eram teus, eram só perspectivas distorcidas do espaço em volta, que te tocava e não querias que te tocasse. invadiram-te, assim, sem pena nenhuma, os passos e o cérebro, a carne a rasgar-se para jorrar no chão e nas paredes tudo o que guardaste e coseste a fio grosso com agulha ferrugenta. tudo o que crias suturado. tudo o que querias queimado. cheirou-te a carne queimada. e assim a tua divindade apodrecida, e assim os véus de chumbo, os ventos de dúvidas e a tua causa em causa. o ego tem sustentos frágeis, carcome a realidade, a carne da certeza, para se manter de pé. assim fechaste os olhos e assim o altar da tua veneração te inalou. a tua cara semicerrou-se num punho altivo e desengonçou-se na estranha dança que evocas quando te assombras. sempre te disse: nada pior que os teus fantasmas para te aninhares na solução dos medos. o medo de não seres como te constróis. conhecem-te demasiado bem para te dar conforto. conheces-te demasiado bem. já não te conheço. por isso nem te vi.
desapareci no fundo da escada, alheado dos espinhos que já não procuro.
nunca foste húmido ou hidratado. choras sem água, devagar, degustando o ritmo dos teus soluços. são pequenos sulcos ressequidos, intervalos de ar grave que te soam perfeitos, como tudo na tua tristeza.
não te vi. mas todas as peles se tocam, todas as almas se respiram.

segunda-feira, 24 de março de 2008

cinco

noites de olhos abertos porque o calor não está e eu com os pés frios não consigo dormir. não está ninguém?
acendo a luz de presença, o sol desgasta-se à entrada.
o refúgio são as cores. as velharias, os livros, os cartazes, a manta de polar.
música.
e o filme antigo que o amigo me deu como amêndoa para me adoçar os olhos.
deixo que se derreta nas horas, devagar.
sorrio. não me farto de esperar por ti.

domingo, 16 de março de 2008

desacordo ortográfico

a mulher olhava-me de esguelha. de cada vez que eu abria a boca, a minha visão periférica denunciava um movimento amarelo da cabeça da senhora na minha direcção. não sei se interessadíssima na veemência da minha posição, defendida em voz alta apesar de a rapariga que nos servia o chá ser brasileira, ou se incomodada por o meu discurso ser inflamado e pelo facto de eu esbracejar, estando certamente a distraí-la da apatia do seu próprio acompanhante.
só sei é que quando peguei no jornal que estava disponível para consulta no bar, procurava o suplemento de cultura para saber em que sala e horário encontrar um determinado filme. mas o dito suplemento estava a descansar na mesa da tal loira, aberto e negligenciado, enquanto ela folheava uma revista de decoração, e eu fiquei-me pelos cabeçalhos do Expresso. como não tenho conseguido acompanhar a actualidade, pude finalmente pôr-me a par das novidades acerca do tal acordo ortográfico. e portanto a culpa de a estar a distrair é totalmente dela...

lamento, não concordo. não consigo conceber que neste país se autorize que um fato seja um facto. não percebo como é que agora uma mulher sensualmente umedece os lábios [olha, o sublinhado do corrector ortográfico]. não concebo que o hífen vá dar uma curva nas palavras compostas em que o segundo elemento comece por "r" ou "s". e no "há-de" também... que as consoantes mudas desapareçam do mapa. pior, faz-me uma comichão desgraçada que palavras como crêem e vêem fiquem carecas, ou seja, sem o acento circunflexo. porque só de olhar para elas sem chapéu, ouço-me a dizê-las mal, qualquer coisas como vâiem... ou crâiem...

a justificação de que assim se unifica a aprendizagem da língua em todas as comunidades lusófonas não me satisfaz. a coisa dos 50 milhões e a globalização e mais não sei quê. não engulo. as raízes da língua e da sua música são privilégios de cada povo. cada comunidade tem as suas adaptações fonéticas e isso obviamente tem de se reflectir ortograficamente. não sou purista, acho que se devem abraçar neologismos, estrangeirismos... ainda hoje me custa escrever instintivamente "sítio de internet" ou "mesa digitalizadora", prefiro os velhinhos site e scanner... não entro na guerra do "o português nasceu em Portugal, por isso eles que se adaptem a nós". acho é que tudo tem de ter o seu espaço, o seu respeito, e não temos de nos vergar uns aos outros. até agora temo-nos entendido lindamente assim. tentando ser racional, olho para os números. mas ainda assim, a alteração de 1,4% das palavras do português de Portugal parece-me um assassinato. como percebo que assim o pareça a alguns brasileiros, na sua alteração de 0,45% das palavras. ui, provavelmente a expressão "português de Portugal" vai passar a ser politicamente incorrecta. porque denota diferenciação. e eu pergunto-me: porque é que temos de ser todos iguais? ser diferente, ser único, é assim tão mau?

ah, e se até agora encontrar livros técnicos em português de cá era complicado, temei caros tradutores! o desemprego vai adensar-se. porque se dantes só haviam traduções brasileiras e podíamos queixar-nos e esperar que abrissem os nichos de mercado, agora foi-se toda a réstia de esperança.

o meu brio e o meu esforço por escrever como deve ser passarão a ser ridículos. vence a geração educada com revistas da Mónica e do Cascão e que tinham as cruzes vermelhas nos testes de português por causa dos então chamados brasileirismos. só me vem à cabeça a imagem da minha querida Professora Fernanda e o seu apagador que nunca me cruzou as palmas das mãos nos ditados nem nas composições. se neste momento ainda exercesse, palpita-me que andaria de apagador em riste a tentar acertar em muitas cabecinhas pensadoras governativas deste país...

não sei, se calhar habituo-me, mas por enquanto é uma dor cá dentro... a língua é a minha ferramenta de trabalho, um dos meus veículos de expressão. e a comunicação é a minha vida. ler e escrever são as minhas viagens. gosto tanto de palavras, dos seus sons, das suas manhas, de compreender os seus arabescos, que pensar que terei de desaprender nem que seja 1,4% delas me dá um aperto na alma.

enfim...

lamento então informar os caros seguidores d'A palavra deste Blog, que provavelmente terei muitas dificuldades em adaptar-me a este novo sentido das coisas. que este estaminé, até 2014 pelo menos, passará a ter, pelos vistos, muitos erros de português...

quinta-feira, 13 de março de 2008

círculo

os claustros, as personagens antigas, as pedras que me quebram os passos.
e parecia que não tinha saído dali. como se ao descer as escadas com os figurinos se estivessem a apagar os últimos 6 meses.
é tudo cíclico, dizia-me eu a mim. saltei, fugi, corri, bati o pé, desviei-me, mas a espiral encontrou-me outra vez.
mas encontrou-me diferente. encontrou de mim apenas o que eu quis dar, nas minhas condições. sem teclas, sem dias de passos arrastados, de cinzas macilentas.
e pela primeira vez nestes anos todos, estou a trabalhar unicamente naquilo que sou.
será que consigo manter-me à superfície? logo se vê. agora? aproveito para respirar. logo se vê para quanto dá o fôlego.
borboletas na barriga. hoje vi papoilas. jogo à macaca, salto à corda, que linda falua, um dois três macaquinho do chinês.
avó, vou brincar para a rua.

segunda-feira, 10 de março de 2008

orgulhosicamente

há anos que não assistia ao Festival da Canção. o meu regresso foi de coração apertado, num espírito de missão. suportei estoicamente o rol de músicas óbvias e a roçar o pimba, aliviei-me na número 7 quando a "Canção Pop" do Nuno Markl interpretada pelo Ricardo Soler me fez bater palmas e dizer "ah, isto sim". e continuei em deprimidas, à espera de mãos cerradas, pela que seria a última da noite.
estavam lá três amigos meus, parceiros de cesta de frutas, numa versão non sense do que pode ser este evento. claro está que o espírito passou incompreendido, mas eu fiquei a noite toda a cantarolar.
parabéns. há anos que não sentia este cheiro de coragem e alegria. a contrariar o tal espírito luso das tristezas, o épico deprimido, o mar e o amor incompreendido.
até gastei os tais dos 60 cêntimos mais IVA... :)

sábado, 1 de março de 2008

bons vizinhos

não tenho razão de queixa. a cusca do lado, para além de povoar a escada com uma selva amazónica, não chateia mais do que ouvi-la a espreitar à porta de cada vez que abro a minha. no rés-do-chão, o homem-torre e a esposa de cabelo vermelho são caladinhos, têm um gato engraçado que já salvámos um par de vezes e só se vestem com fatos de treino ao fim de semana. o bêbedo do benfica só tem conversas um bocado longas e de bafo etilizado quando o encontramos na tasca, mas está fora no Brasil e tudo. os velhotes do segundo andar nem piam, e o outro velho esquisito só é massacrante nas conversas das teorias da conspiração nas reuniões de condomínio, uma vez por ano, ou quando teima que quando não consegue estacionar o carro dele na garagem não é por ser um azelha a quem devia ser retirada a carta de condução, mas porque o resto dos condóminos arrumam mal os carros deles. por fim, o Vasco está a administrar condomínio há 3 anos porque toda a gente se descarta e ele até faz um bom trabalho. razões de queixa do Vasco? só o facto de ter forrado a casa a tijoleira branca. de resto, é um porreiro pachola.
todos acham muita graça ao facto de terem um casal de artistas no prédio, a actriz e o fotógrafo, a quem por isso perdoam os horários fora do vulgar e o barulho da porta da garagem à hora do sono dos comuns mortais, as cantorias sobre legumes em tempos de ensaios e outras pequenas situações.
damo-nos todos bem, até se for preciso vamos bater à porta do lado a pedir emprestado um comando da garagem se o nosso parar de funcionar, pagamos cafés de vez em quando uns aos outros quando nos cruzamos na tasca, a coisa é pacífica, quase de pequena aldeia.
agora temos um novo vizinho, que veio ocupar a casa por baixo da nossa, sucessor da senhora que gritava com o marido a toda a hora e dizia coisas de um português que eu desconhecia. o vizinho é simpático, tem uma filhota (como quase todos neste prédio), apresentou-se na reunião de condomínio e disse logo que adora música.
gostei da sinceridade, até pisquei o olho porque tenho o mesmo problema.
agora deparo-me com uma "situação". o senhor é um querido, mas ouve kuduro e morangos do nordeste toda a santa tarde de sábado. num volume que nos faz pensar que se calhar isto é festa da junta de freguesia no largo do café... mas não, é já aqui por baixo...

aaaaii, é a dooooor, ai ai ai é a doooor, é a dooor :S

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

frases a reter

"está maluca"
"temos uma situação"
"se te deixares enganar, parece que os barcos estão no céu"
"vais entrar em palco no último dia, sim senhora"
"desculpa a confusão em que te meti quando te convenci a fazeres o casting"
"anima-te, dentro em pouco estaremos com os nossos amores"
"este teatro é mais bonito do que os olhos conseguem ver"
"tu, aqui!"
"sinto-me como se fosse domingo à noite e tivesse acabado o MacGuyver: não sei o que hei-de fazer agora"

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

a roda dos alimentos de pantanas

de repente, regressa a maldição do pé torcido. e eu, que já me tinha despedido das minhas personagens, que adivinhava uma estadia pacata, a contra-regrar e a sentar miúdos daqueles que ainda sobem escadas de gatas, tenho de voltar.
e encarar aquelas dificuldades que julgava engavetadas [por agora]
hoje estou ainda em choque. cansada, moída.
e os olhos cheios de sono que não se fecham para descansar. ao menos a cabeça limpa para relativizar. vou tentar dormir. quem sabe amanhã corra tudo pelo melhor.
e daqui p'rá frente...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

pequenas observações

antes de partir, há tempo para umas coisas...
passar pelo antigo emprego, onde me cravam 2 projectos para fazer em 10 dias.
saber que me querem de volta, mas ainda a tentarem fazer-me as papas na cabeça.
saber que ganhei um distanciamento destes senhores que me permitiu deixá-los a resfolegar durante as negociações... que ainda não acabaram... é deixá-los suar... e ver até quanto posso esticar.
saber que por mais apetecível que seja voltar a ter ordenado certo [ainda que pequenino] todos os meses do ano, valho mais que isto. e a minha saúde, mental e emocional, vale muito mais que isto.
saber que aos 28 anos ainda não perdi o estúpido costume de não me acomodar.
saber que, pelas escolhas que faço, ainda não é desta que venho morar para Lisboa.
saber que o mais certo é voltar a não ter férias.

saber que, à medida que vou aviando as malas, me dói um bocadinho mais saber que nós vamos estar longe um do outro tantos dias, tantas horas, tantos segundos.
e o silêncio adensa-se cá dentro.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

próxima paragem

antes do desemprego: Porto.
directamente da avenida da Liberdade para o auditório da Exponor... tripeiros, temei, a Polegar vai em digressão...
serão 15 dias de rambóia. bem, da possível, tendo em conta que faremos uma trintena de espectáculos num curtíssimo espaço de tempo.
e o hotel tem piscina... eheheh

sábado, 26 de janeiro de 2008

[d]a ficção

no fim do espectáculo, ainda vestindo a personagem, vou passear para o foyer e falar com os miúdos que por ali andam.
uma menina de uns 5 anos aborda-me. diz que gostou muito de mim, fui a preferida dela porque também me chamo "Ana". e puxa-me de lado, em estilo de confidência:
- olha lá, Aninha, aquela bruxa não era a sério...
- [abro muito os olhos, com o meu ar mais espantado] a Doença? não era a sério?! claro que era! eu fiquei mesmo doente há bocado, senti-me muito mal! só me safei porque comi as verduras!
- [em tom condescendente, de mão na anca, a revirar os olhos] ó Aninha! isto é teatro, é uma peça... as bruxas eram a fingir, não te podiam fazer mesmo mal!

peticionando

esta era-me impossível não divulgar.
vá lá, dêem um pulinho aqui e assinem...

mais uma vez, as condições de vida dos chatos dos artistas e do recibamento verde: por exemplo, somos obrigados a pagar um mínimo de 150 euros/mês de segurança social, independentemente de nesse mês [e há muitos] só termos feito um trabalho de 50. e depois não temos direito a subsídios de desemprego, de gravidez ou baixa... os contratos de trabalho não são contratos: basicamente são contratos de prestação de serviços e não nos protegem ou dão quaisquer regalias típicas dos contratos.
e o Senhor Estado resolveu que, numa nova lei, ia usar o termo "intermitentes", inteligentemente utilizado e regulamentado em França, mas para manter o nosso estatuto basicamente na mesma, senão pior.

tenham a bondade de nos auxiliar...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

t.p.c.

constantinopolitano, quando te desconstantinopolitanizarás?
eu me desconstantinopolitanizarei quando todos os constantinopolitanos forem desconstantinopolitanizados.

domingo, 20 de janeiro de 2008

fado



são dez da noite e a calçada ainda cheira a chuva. arabescos de fumo confundem-se com o céu nublado e esperamos ouvir os saltos da Lu chapinhar nas poças. depois de um abanar contente do guarda-chuva, entramos.
é tão discreto, secreto, lento o ar ali dentro. nada se mexe para não fazer barulho. até as bolhinhas da cerveja dançam devagarinho. ao fundo, depois das cabeças, o preto. o negrume das mãos postas na tensão da nota, ou será da palavra. não importa. são as mãos, as mãos e os riscos dos olhos que saltam, que vibram, que escorrem nas paredes, para dentro do colarinho e arrepiam devagar a pele desidratada de música.
nos intervalos há conversas, há risos roubados ao silêncio, que recua com uma certa benevolência. são jovens, todos, deixá-los. depois voltam, com as guitarras, com os xailes e o preto, às suas outras personagens.
observo. as notas, as cadências e as mudanças de volume.
escuto. os corpos parece que inchados, direitos, o queixo ao alto à procura. e as outras mãos, os outros olhos fechados, pelas cordas que cortam os dedos.
ouço que ferem devagarinho, como uma faca a cortar manteiga.
abro o caderno.

demos as mãos
e senti as tuas veias
movediças como areias
latejando no meu pulso

demos as mãos
e a tarde ficou cativa
daquele primeiro impulso
que faz a gente estar viva

demos as mãos
e aconteceu a vida
vida própria e desmedida
e à nossa dimensão

demos as mãos
e começou a subida
do coração à cabeça
da cabeça ao coração

demos as mãos
e morremos devagar
no amar e odiar
dos amantes perseguidos

demos as mãos
e ficámos no lugar
das horas por despertar
no relógio dos sentidos*

- ouves?
- sim.
- estão a "cantar de nós".
sorris.

fecho o caderno. a cerveja amoleceu.
importam os traços ao sabor dos choros e das conversas castiças das guitarras.

*josé carlos ary dos santos

serviço [que pode irritar algum] público

que podia ter o título alternativo "só lá vai quem quer"

neste blog
, encontra-se a tentativa de ir listando os locais [restaurantes, cafés, bares, etc] onde fumar continua a ser um direito, sem trazer inconvenientes de maior para os não fumadores. pode contribuir-se via mail ou comentário.
também encontrei este site, sobre bares.

espero sinceramente que a ASAE não o leia, porque senão lá segue a perseguição. perdão, a inspecção que pretende ser totalmente aleatória e que por acaso só tem ido a estabelecimentos com dísticos azuis.

repito: "só lá vai quem quer"...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

teste

este post será para apagar... o que se passa é que consigo fazer tudo menos ver o meu blog...

será que fui fechada pela ASAE? :|

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

imperfeições

o pequeno pedaço de tinta lascada na parede conta que foi lata a lata que as pintámos todas.
o relevo das frutas nos azulejos da cozinha contam que já foi tudo bege-desespero e agora é verde-alface.
a ponta de papel de parede levantado fala da festa que foi esconder os azulejos da entrada, e do ataque-relâmpago da nossa gata.
e o sofá, que era branco e que agora não vive sem uma manta, invoca das noites quando nem cama havia.
o vestido de festa no armário conta que só tu é que me convences a comprar roupa sem ocasião, só porque me achas bonita.
a mancha de café no colchão sorri e diz que somos gente de pequeno-almoço almoçarado na cama.
os riscos na máquina fotográfica são prova dos teus inúmeros trabalhos.
as molduras de madeira por pintar são o rol das fotos e dos cartazes, das viagens e sorrisos.
a queimadura na mão traz-me aos olhos quem esteve comigo no meu dia de anos.
o quadro por pendurar lembra-me que me devolveste coragem para voltar a pintar.
a cama por fazer avisa que ficámos no quente um pouco para lá da hora marcada.
o telemóvel quase sem bateria conta que lhe puseste lá dentro as minhas músicas preferidas.
as calças húmidas nos joelhos são do passeio de mota de há bocado.
esse fio de cabelo mais comprido que os outros pisca-me o olho e lembra-me que só em mim confias para cortar o teu cabelo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

taxicidade



"Um táxi. Cinco motoristas. Cinco dias úteis. Inúmeras histórias escritas nos estofos gastos de um velho Mercedes. O passo lento do taxímetro leva ao destino personagens que se revelam durante o percurso da viagem e das suas vidas".


o Damon, um blogger que me acompanha quase desde o nascimento deste cantinho, sempre me surpreendeu com textos de ficção lindíssimos. nas poucas vezes que nos vimos [ele é do Porto], sempre veio à baila um sonho, um projecto, mas que lhe parecia muito longínquo. cá para mim ele tem talento para dar e vender, força e, acima de tudo, merece. mas pronto. ele achava que não.

sinto-me, portanto, muito honrada em anunciar que saiu para as estantes das livrarias o seu bebé, o livro Taxicidade, escrito em parceria com outros 4 jovens. além de ter um tema que apetece e a garantia do contributo criativo deste meu amigo, tem ainda uma capa lindíssima [que as capas são logo um chamariz para a gula literária].

no próximo sábado, os autores descem à mouraria para apresentar o bebézinho aos murcões :P

infelizmente, e apesar de lhe estar a dever umas surpresas impecáveis com que me tem presenteado, não poderei participar da leitura na apresentação. não por falta de vontade, mas porque estarei à mesma hora a trabalhar.

no entanto, retribuo como posso, lançando o repto aos leitores aqui do estaminé: passem no Sábado, dia 12, às 16h ao Magnolia Café do Saldanha Residence, para conhecer um bocadinho melhor este trabalho.
eu prometo que apareço para, finalmente, comprar um exemplar, que quero autografado com dedicatória :)

se lá forem, metam conversa com o Carlos, façam-no corar [não é difícil], dêem-lhe um abraço. e digam que vão da minha parte. eheh.
todas as informações sobre o livro aqui.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

há coisas fantásticas, não há

sexta feira foi um ponto de viragem nesta pequena família suburbana. resolvemos que o orçamento familiar aguentava mais um compromisso a longo prazo: tv cabo e internet normal. o nosso sonho de há muito tempo: mandar o leeento e limitaaado modem zapp à vida, e despedirmo-nos sem pompa nem circunstância das noites de tvshop e aqueles concursos de telefonemas com as mamalhudas de cérebros monocelulares.

pesquisámos muito, porque o orçamento é curto. eu queria alinhar nos pacotes da Clix: mais baratos, mais velocidade de internet, tráfego ilimitado, conjunto de canais compostinho em que depois se pode escolher mais uns quantos, tipo pizza. mas a Clix não tem as Foxes todas. e um amigo [ainda não decidi se convicto ou com acções na TvCabo] aconselhou-nos a optar pela TvCabo/NetCabo. porque diz que os outros não podem garantir isto e o outro, cabo de fibra óptica e mais uma catrefada de coisas. e tem as Foxes todas. pronto, siga.

começou, então, a aventura a caminho da civilização.
mal se clica lá num cantinho da página, podemos inserir o nosso número de telefone e eles é que ligam para nós. um luxo. assinar a TvCabo é um instante, simples. diria até Simplex. sem cartões, descontões nem mais complicações. segunda-feira, viria então o técnico montar tudo.

sim senhor, chegou, pontual, simpático, novinho, com o cabelo cheio de gel como se quer para encantar as meninas de Odivelas. fez-nos duas menos necessárias crateras no estuque, mas nós contentíssimos da vida! é para isso que há gesso. e aspirador. tudo para voltar a ver o House a horas decentes. e o Heroes, e o CSI Las Vegas, e....
depois lá assentou arraiais de volta do router wireless [dá jeito, com dois portáteis em casa], e enquanto a televisão sintonizava os milhares de canais inúteis e a meia dúzia de essenciais, já havia net de boa velocidade. era o milagre e estávamos felizes.

navegámos toda a tarde na net, com o Fox ligada. um luxo.

depois parámos.

depois quisemos voltar a entrar na net. mas nada. pede a palavra-passe, e dali não passa. nao diz água-vai, simplesmente não estabelece ligação.
contactámos o centro de assistência técnica. da primeira vez o senhor, incrédulo depois das tentativas óbvias, sem perceber bem a parte de "um é mac, outro é pc, são os dois portáteis, nenhum acede", até queria que fizéssemos reinstalação do software do próprio computador. o telemóvel ficou sem saldo, a chamada a meio.
segunda tentativa. fazer tudo o que o outro já tinha pedido [excepto a reinstalação, porque o novo técnico percebeu logo que era estupidez], avisando sempre que o segundo o telemóvel estava quase sem saldo. "mas você não me pode ligar daí?" "não, minha senhora, não temos autorização, temos os telefones bloqueados". bonito. ao fim de um bocado, o moço diz do lado de lá "pronto, depois desta reconfiguração, é impossível que não tenha a rede reposta". não, nem reposta nem às postas. nada de wireless. ainda ouvi um "mas mas" antes do "tututututu" do sem saldo.
fiquei piursa. foram quase 10 euros de telefone à vida por um erro nitidamente de hardware defeituoso. então se há o sistema do telefonema grátis para nos venderem a assinatura, é mesmo para ali que vou chatear. nisto sou bera como a ferrugem. e o moço do departamento comercial, muito ressabiado com a minha falta de respeito às hierarquias das linhas de apoio "tem de ligar para o apoio técnico". mas eu não tenho saldo, já despejei dois telemóveis convosco. "mas daqui não posso fazer nada". eu sei. por isso é que pedi para falar com um responsável, uma pessoa acima de si na cadeia alimentar. não é consigo, que não tem culpa. mas eles adoram os responsáveis, mais que as mãezinhas, devem fazer um pacto de sangue e cuspo quando entram para os call centers. e não me deixaram falar com ninguém. deixaram-me em espera e passaram-me o recado do tal responsável omnipresente, omnipotente, omnívoro, mas transparente: "o apoio técnico já devia obviamente ter agendado consigo uma visita do técnico a sua casa, uma vez que obviamente o problema não é possível ser solucionado por telefone". pois, tá bem, obviamente.

carrego o telemóvel - pela net, via modem zapp - e volto a ligar para o apoio técnico, para pedir... o apoio técnico de um técnico.
"sim, sim, podemos mandar-lhe um colega a casa. são 40 euros. quer agendar ou prefere fazer umas tentativas de correcção via telefone?"
"já fiz 20 euros de tentativas. diga-me só uma coisa: quanto tempo tenho para devolver o equipamento e cancelar a assinatura sem ter de indemnizar a tvcabo?"
em espera, musiquinha - the only one who could ever reach me was the son of a preacher man. a sério.
"tem 15 dias a partir da data da entrega"
"obrigadinha e boa noite".

se alguém conhecer alguém que me possa ajudar presencialmente dentro dos próximos 14 dias, a troco de um jantar e uma bica das boas, avise-me.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

publicidade meio institucional

o meu amigo MPR vai, em breve, levar a cena um espectáculo. finalmente, com texto e tudo. enquanto me delicio com os seus ataques, e o ouço vezes sem conta falar das cenas, das dificuldades, das roupas, dos nervos, enfim, de todo um novo mundo que se lhe apresenta, sou também assediada para fazer divulgação da sua peça.
só porque é para ti, abro uma excepção e falo dela antes de a ver... ;)


GODOT NOS INFERNOS



Pelo grupo de Teatro Hipócritas


Texto, adaptação e encenação de Alexandre Borges, baseado em "Huis Col" de Jean-Paul Sartre e "À espera de Godot" de Samuel Beckett.

Com Ana Chambel, Filipa Pais de Sousa, Manuel Barbosa, Miguel Pires Ramos, Selma Totta, Sara Totta, Sheila Totta, Sofia Ribeiro e Ricardo Lérias.

Instituto Franco-Portugais - Av. Luís Bívar, 91, Lisboa
11 de Janeiro a 10 de Fevereiro
Sextas e Sábados às 21:30h [dia 18 não há espectáculo]
Domingos às 17h [apenas dias 20 de Janeiro e 10 de Fevereiro]

Preço: 6,50 euros
[com desconto de Pin Cultura, maiores de 65 anos, estudantes, profissionais do espectáculo e grupos + 10: 5,50€]
Informações e reservas: 966419650 | hipocritas@gmail.com


Sinopse:

"Ok. Nem Deus nem o Diabo atendem. Então, quem me vem buscar?

Inês, Estelle e Garcin estão no inferno. Mas não há fogo eterno nem demónios nem tridentes. Não há, sequer, outros condenados. O espaço não é vermelho nem quente, mas vazio. Há três canapés e uma estátua do Super-Homem. Nenhum espelho. A única coincidência com o imaginário colectivo é talvez o Criado, que poderia ser Caronte. Vladimir e Estragon estão no mundo, parece. Mas não há casas nem árvores nem carros nem portas nem janelas nem outras pessoas. Apenas uma árvore de natal. Artificial. Depois, vêm Pozzo e Lucky, mas sabem tanto ou tão pouco do mundo como Didi ou Gogo. Nada mais. Existir é isto, dum lado e doutro da vida. A menos que alguém venha. "


uma peça com um texto simples e irónico, bem entretecido, sobre um outro inferno das pessoas. e uma estátua do super-homem.