segunda-feira, 30 de julho de 2007

família feliz

sentam-se falando alto, de comida. a mãe é enorme e tem a voz aguda. parece "uma bola de berlim com um berlinde em cima". a filha é um ser sobrenutrido de sobrancelha farta e testa curta, com "corpo de trintona com 2 filhos" mas que gosta do Noddy e do Ruca. o senhor, que não parece ser o marido|pai, é grisalho e usa pólos brancos com uma risca e bolsinho no peito, à antiga. dá cotoveladas brutas na rapariga, mostrando que é um velhadas-à-maneira, percebe de tudo e da vida de todos e nada o impressiona.

atacam uns bitoques oleosos enquanto discutem não sei quem, que está gordo e devia ter cuidado. diz que não era assim, que foi depois de largar o futebol. mas tem de ter cuidado com o que come, caraças, já não é novo. entrementes o senhor comenta que não gosta do Macdonas, que não é pessoa de ambrugas nem de sande. só assim para ir para a praia é que o convencem à sande. a moça atalha que até gosta do Macdonas, mas não vai muito. a mãe torce o nariz. nada bate a comidinha caseira.

terminado o bife vai-se palitando os dentes com a esquina do guardanapo. pedem-se sobremesas. mal chegam à mesa, a senhora enumera os defeitos. porque ela já fez doces para fora. que esta receita não é tão boa. que está mole, demasiado doce e pouco frio. a sobrenutrida diz à mãe que "é por isso que se chama semi-frio" e ela e o senhor riem-se muito. está muito esperta, esta miúda. repare-se que o seu bolo de bolacha, o último a chegar, já desapareceu do pratinho, enquanto que a mãe e o senhor ainda se degladiam com o semi-frio que está pouco frio. a mãe aplica-se como uma valente, uma mártir como já não se fazem, com esgares e caretas, mastigando de boca aberta deformada em desagrado, para que se saiba num raio de 300 metros o sacrifício que foi comer o semi-frio até ao fim. que isto não é gente de deixar comida num prato, que é pecado, só por isso.

a discussão subiu de tom, um tema grave que implica um forte brainstorming: o gato, aquele que é o Garfield, às riscas pretas e brancas, ah, sim, o Tómi do Jérri, pois, preto e branco, não que o Jérri era um rato castanho e o Tómi era cinzento, então sou eu que sou daltónica, não, é o outro do pintainho, o do Mimi, ah, não é esse o nome, esse é o do coiote. Pipi, é isso, Pipi, o pintainho que havia uma velhinha e tinha um gato preto e branco.

grave dilema desvendado. venham os cafés.
com adoçante.

salvar a pátria

a colega - que é a que trata dos dinheiros e pagamentos - andava atrás dele com o livro de cheques desde a semana passada. a resposta já podia gravar um disco:
"hoje não me apetece assinar nada".
a colega ia de férias durante 15 dias. na sexta-feira a cena repetiu-se: não lhe apetecia - ao outro - assinar nada. nem mesmo os nossos cheques - cócegas no meio de ivas e i-érre-cês.

lá foi ela de férias, deixando-me o nib dela para lhe fazer o depósito do ordenado e, claro, a lista dos pagamentos a fazer quando se soltassem os apetecimentos do outro.
o meu habitual "mas eu sou de letras" sacou uma gargalhada na despedida, um encolher de ombros cúmplice e dorido de uma batalha mensal sempre igual, mas de pouco mais adiantou.

hoje ele chega-me a suar muito, conta histórias de como o chão da casa dele ferve. rimos todos. ele diz que quer comprar uns sapatos. os meus alarmes disparam, isto é um sinal de pairanço [s.m., forma de estar do patronato num escritório quando há pouco que fazer, está demasiado calor para pensar e já se viu todos os vídeos do youtube; direito patronal de ir laurear a pevide durante o horário laboral só porque sim - in 'dicionário sindical polegarês das artes do espectáculo pobre mas wannabe'].

uma estranha força toma conta de mim. talvez por não me lembrar da última vez que fui cortar o cabelo, jantar fora com amigos, ir dançar com o namorido, comprei um livro, um dvd, um cd ou um creme para a cara, dei uma passa num Davidoff. ou por me lembrar que tenho a despensa vazia, que devo 4 anos de segurança social [viva os recibos verdes e a valorização do trabalho qualificado], que a mota deu inexplicavelmente o berro e por isso ando a assar dentro de um carro sem ar condicionado que devia ter feito a revisão há quase 4 mil quilómetros.

levanto-me da secretária, dou os três passos que nos separam, estendo-lhe o livro de cheques.
"hoje não me apetece assinar nada"
isto pede um golpe ninja. a explosão de raiva saiu-me docemente, numa gargalhada cúmplice e uma piscadela de olho. assim:
- estou solidária com a tua dor. mas, sabes, aqui para estes lados já começa a ser uma questão de fome.
ele abre o livro e assina.

vou ao banco, volto já.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a história verdadeira

era uma vez uma formiga e uma cigarra que eram muito amigas, apesar de terem feitios muito diferentes.

no Outono, a formiguinha trabalhou incansavelmente, a armazenar comida para o Inverno. não parou para descansar, não aproveitou os fins de tarde nem o pôr-do-sol, não esteve com amigos, não se foi divertir... já a cigarra passou o Outono na rambóia: ele era festas, estar com os amigos... andava sempre de guitarra debaixo do braço e toca de cantar em todo o lado e divertir-se comme il faut.

chega o inverno e a formiguinha lá vai para a sua toca quentinha e confortável, recheada de provisões. está ela a ver se descansa um bocadinho as pernas quando batem à porta. é a cigarra, que lhe aparece num lindo casaco de vinil todo pimpão, guitarra debaixo do braço, óculos escuros e lenço na cabeça.

- então! tá-se? - pergunta a cigarra
- tá, tá. - diz a formiga espantada - e tu, como estás?
- fofa, vou-me pisgar por uns tempos e precisava que me tomasses conta da toca. regar os bonsais, ver o correio, essas cenas... pode ser?
- pode... mas onde é que vais?
- nem m'imaginas esta cena. tava eu muito bem uma daquelas parties q'as revistas arranjam à gente com bubas à pala, a mandar uns sons pró ar, 'tás a ver, numa d'improviso só pr'á curtição c'as minhas amigas lá da linha, quando vem ter comigo um gajo que diz qu'é produtor e que gostou de mim, qu'eu tinha uma imagem espectacular e a voz e assim. dois dias depois tava a assinar contrato! vou gravar um cd e dar concertos numa tour de 6 meses. na França! provavelmente também pode ser que venha aí um convite p'uma novela musical. não sei falar francês mas também... faço d'emigra pobrezinha. é mais cenas de nus e tal, é só gemer e cantar umas músicas. mas é um começo de estala!
- ah... boa! fico tão feliz por ti, minha amiguinha!
- iá. pode ser que entretanto escreva uns livros sobre a cena da tour e isso. era curtido, não achas? depois mandava-tos textos pa fazeres revisão, fazias-misso?
- pois, pode ser, claro...
- olha, e já agora fofa, qués'alguma cena da França?
- até queria. se não te importasses, fazias-me um favor enorme: se encontrares um tal de La Fontaine manda-o sodomizar-se por um elefante sifilítico.

um disparate baseado neste, com uma expressão - a do elefante - "roubada" a este senhor. retomaremos a emissão dentro de momentos.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

etiqueta 1.0.1.

não pedir a uma pessoa a quem pagas por mês um quarto do que recebes por semana - de outro sítio - para fazer o teu trabalho... desse outro sítio.

confuso? pois, deve ser...

terça-feira, 24 de julho de 2007

na soleira da porta



perdi os olhos no rio, à minha direita. perdi-me. em cogitações sobre os efeitos da luz do entardecer na água. como parecia uma amálgama de recortes de papel de alumínio colados com cola de batom UHU, no chão, para reflectir o céu. perdi-me nisto tudo. só no fim do percurso me apercebi que o meu corpo se recusara terminantemente a virar-se para a esquerda, a encarar as luzinhas bonitas da cidade do outro lado. a encarar o regresso.
acordei e vi uma nódoa. por mais que a esfregasse não saía e uma aflição tomou conta de mim de tal forma que chorei. chorei por uma nódoa e cheguei atrasada.

recuperei e esvaí-me a um só fôlego, parece-me. ou não me consigo reservar espírito para os dias úteis-inúteis. a ordem das coisas está ao contrário, isso é certo, mas o inconformismo desgasta-me e, mais uma vez a um só tempo, não consigo ser de outro modo.

fazes-me falta. há demasiado tempo que não te tenho, que não me tens. faz-me falta o teu cheiro e as nossas noites longas. o esforço, o suor, e os meus dedos a tocar toda a tua amplitude. tu devagar, começavas a dedilhar-me e a minha voz soltava-se. primeiro tímida, depois explosiva. porque contigo eu sei que era perfeita. ias aumentando de intensidade e eu encontrava-me coisas que não conhecia e ria alto. percorríamo-nos algures entre o lento saborear e a pressa de chegar. um dia fazíamos uma música inteira. e eu dançava com passos marcados pelo instinto. pelo teu chão, pelo chão que era meu, o meu palco. gostava tanto de quem eu era quando vivia plena no nosso abraço. o que me dói não ter esse abraço.

releio o que escrevi e sorrio. há várias cambiantes para um desgosto de amor. se o que digo fosse dirigido a uma pessoa, vendia-se que nem pãezinhos quentes.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

humming

promessa cumprida, para uma amiga.
pinta de artolas à parte [inimitável], agora já sabes o que andámos a cantar naqueles loucos 4 dias ;)

I’m gonna sing this song with all of my friends
and we’re I’m from Barcelona
Love is a feeling that we don’t understand
but we’re gonna give it to ya

We’ll aim for the stars
We’ll aim for your heart when the night comes
And we’ll bring you love
You’ll be one of us when the night comes

I´m from barcelona | we're from barcelona


segunda-feira, 16 de julho de 2007

volver


três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
o asfalto comprido, os ventos, os cheiros, os mosquitos, os ataques dementes dos condutores espanhóis, a curiosidade por uma casa caber em dois pares de alforges e em sorrisos felizes apesar da distância.
uma pequena cidadela com uma praça curiosa, rodeada de história e um teatro secular, o mais antigo da zona ibérica. igual ao que era, tratado como devia ser. o primeiro café-bombom e catalana do itinerário.
os caminhos de Dom Quixote. e um só moinho.
a aldeia perdida na montanha, a casa no campo, a praia, o descanso, a família, as guloseimas, as agua-cebadas, os percalços, a aflição e a determinação em seguir caminho. os picos, a areia. rincón de santi. a entorse. o mar da minha infância, ainda quente, ainda turquesa. vambú. noche hache, caiga quien caiga. breathe. crisis-is de celulitis-is. gilipollas!
a primeira metrópole do caminho. um sorriso às sardas no meio das árvores, o duche frio, as dores nas pernas, nos pés, o pensinho com bonecos, Gaudi, antiguidades, o apelo consumista, recordações, noites de gargalhadas em segredo, à luz da lanterna numa Sintra inventada. tão perto. daquelas vielas com música em cada esquina. tango no meio da rua. já mencionei Gaudi? a minha saia nova. assobios.
última paragem. no centro do centro do centro. o design e as bagagens. o sono vigiado por Lorca. de mãos dadas pelas ruas, a cinco minutos de tudo. descer o Prado, subir Van Gogh, descobrir Estes. as praças, as arcadas, o mundo parado ás quatro da tarde. o calor, as cañas e barrigadas de Fatigas del Querer. contas saldadas com um certo bar de jazz onde finalmente entro, tantos anos depois. às vezes é preciso passar o tempo certo para tudo fazer sentido. finalmente estou.

três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
tanto sorriso, tanto, meu amor.

venho pela presente solicitar a beatificação dos meus quartos traseiros.
com os melhores cumprimentos