quinta-feira, 30 de junho de 2005

dois teclados

um encontro imprevisto levou-nos ao desafio de partilhar um texto. eu sou amadora nisto, peço desde já desculpa. Nuno: escreves tão bem que não te consegues desperdiçar em palavras. um beijinho.

chá gelado

o saco está tão pesado como o meu vazio. o vazio arrasta-me os passos. não quero pensar. agora não. quero um chá gelado. mas não queria daqueles de lata. era mesmo um chá com açúcar saído do frigorífico num jarro qualquer. sento-me e entre os pares de cuecas e calções encontro o livro. peço um sumo de laranja e acendo um cigarro. a mulher que me atende é muito lenta. tudo se arrasta como os meus pés. doem-me os pés. tenho de seguir caminho. mas agora doem-me os pés.
P

o sumo de laranja sabe bem, mas a partida dói tanto como os pés, as partidas são sempre dolorosas como são todos os momentos que implicam uma separação de alguém. fecho os olhos e tento esquecer tudo o que me leva a fugir, não consigo. tento fugir ao pensamentos com o livro, abro na página marcada mas as palavras não passam de uma confusão de letras. está quase na hora da partida e recordo as tardes amarelas no jardim do príncipe real.
N

olho essas tardes de longe mas o sol ainda me acarinha a pele, o vento ainda me enrola o cabelo nos dedos de ar. os beijos são sempre mais reais quando na barriga ainda saltam as borboletas. está tudo queimado. o jardim, quero dizer. alguém numa noite quente de embriaguês adormeceu e deixou cair um cigarro que queimou tudo. se calhar é melhor assim. mas o castelo ainda se vê. os velhos ainda lá andam, os putos ainda jogam futebol. o elevador ainda sobe e desce. as mãos... ainda me tocam... vou ter de apanhar aquele elevador. sempre gostei daquela rua. mas esta será a última vez que a desço. quando tiver forças para me levantar. preciso de um beijo.
P

sim, um beijo. um beijo que desliza e voa sozinho e acaba por pousar no pescoço. a pele morena é mais doce nas tardes quentes de verão e queria permanecer abrigada do resto da vida nesta almofada. ainda agora nos conhecemos, digo-te. as mãos sentem a ternura da pele e o fim de tarde insinua-se sobre nós. não quero descer o elevador, quero ficar aqui muito tempo até a chuva voltar. lá fora a cidade arde selvagem e eu preciso de um chá gelado.
N

será que o chá me ia saber tão doce como os teus lábios? como os lábios de seda e vinho tinto que me aqueciam e queimavam em prazeres tão lentos que dóia saber que tinham de acabar? onde estás? vens-me buscar? vem, eu deixo tudo, deixo a mala aqui, o livro em cima da mesa e o sumo por pagar. deixo-me aqui para fugir contigo. não posso. demoras demais. ainda queres a minha pele? como querias como um tesouro terno a tocar com a ponta dos dedos, a possuir com os braços todos do mundo? estou tonta. é do calor. estão a olhar para mim. sinto-o na nuca.
P

é possível ser-se feliz numa noite de nevoeiro? estes olhos que me vigiam como câmaras dizem-me que é hora de fugir. tu não vens, há ali uma cerejeira que me sorri. decidida, levanto-me, saio, mergulho na lava do desconhecido. não olho para trás porque o passado é demasiado pesado para uma menina frágil com uma saia às cores.
N

pego na mala. não quero saber. largo as moedas em cima da mesa. não quero saber. meto o livro no saco. não quero saber. levanto-me. não quero saber. estou a chorar. convulsivamente. não quero saber. caí no chão. não quero saber. sabe-me a sal. o sal do teu corpo suado, de tempos em que o calor era uma desculpa para nos colarmos como o frio, que purgo nos meus olhos. os meus olhos que te eram tão fascinantese amoráveis como o mundo de elfos e folhas verdes onde vivíamos. não quero saber. agarram-me o braço. não quero saber.
P

um arrepio na pele. que fazes aqui? é demasiado tarde, deves estar enganado, já te tinha riscado do meu caderno preto, não podes aparecer do nada para me levares toda outra vez. que lábios são esses que me prendem? eu não quero, estou colada a ti mas não quero, a minha pele grita pelo teu calor mas eu não quero, dissolvo o meu corpo no teu mas não quero, não quero saber, hão-de haver noites escuras em que o manto de estrelas nos diga no meio do silêncio de que cor é a perfeição mas hoje o tempo é demasiado imperfeito, não quero saber, desculpa a lamechice, sempre gostei de finais felizes.
N

quarta-feira, 29 de junho de 2005

do querer

notas soltas que se acumulam no peito e no caderno.
sem ordem, orientação, direito ou esquerdo, só interiores.
tocava alto entre espuma fresca, recordação de azul ou verde. ou todas as cores ou nenhumas.
alheamento sem causa-efeito, apenas uma flutuação necessária.
porque a pele pede. sua e canta baixinho.
porque a pele é permeável à voz. não só ao vento arrepia. não só ao doce aquece.
o piano toca. podia não ser um piano. mas é um piano.
e as notas deslizam. são voluptuosas, envolventes, mimosas. ao toque essas notas, essas músicas, arrepiam, lambem.
feridas e pescoço.
e aos ouvidos o sabor soa mais salgado. ou mais doce ou mais macio.
o travo da lua na ponta dos dedos.
onde está?

a culpa é da vontade

de sandocha de leitão no bucho e o bilhete orgulhosamente seguro na mão, entro no coliseu.

fiquei a uma fila do palco. chão, paredes, tudo branco. uma panóplia de guitarras e outras derivadas, bateria, um piano lindíssimo, um órgão descomunal lá ao fundo, microfones à boca de cena, colunas tapadas com pano branco, amplificadores parecia que saídos dos anos 50, e uma maravilhosa caixinha estranha de madeira que já vi nas mãos do David Fonseca noutras ocasiões. tive tempo para absorver os pormenores que me circundavam porque cheguei cedo. nunca estive tão perto dos artistas e delirei só de pensar que ia poder ver cada expressão, cada tique, cada olhar cúmplice que sei que acontece em palco, qualquer que seja o contexto. já calculava que a única desvantagem seria não poder levantar-me aos saltos... coliseu é assim.

de repente olho para trás e no lugar das cadeiras estava quem as pintou de vermelho no site da ticketline. um mar de gente, tão diferente como velhotas que gostam do Camané, pessoal de meia idade que não ligava ao Variações mas que achava piada ao "Maria Albertina", malta novinha que nem sabia quem era o Variações antes do disco, pessoas como o meu pai - geração António, que o ouviram e admiraram a sua genialidade apesar dos tempos - e gente como eu, que cresceu com o pai a ouvir os LPs, e gostava de Clã e David Fonseca... ou não, mas gostou do disco.

conhecendo a sua música, sei que respeitando-o deram novas vozes e adaptações, arranjos e um toque deste século que o quis, finalmente, abraçar. não se limitaram mas não imitariam. já sabia que não tinham convidado músicos externos ao projecto, que se iam revezar entre os mil instrumentos, que inseririam músicas contemporâneas e provavelmente influências de António Variações. mas não sabia nada e esperei de alma aberta... até te escutar

entraram os músicos, uma das 4 componentes da alma de Variações. eram eles a representação das melodias que ecoariam na sua cabeça ao compôr. branco era a cor de eleição das roupas. depois as 3 vozes, 3 outras partes de António. a sensualidade e infantilidade feminina de Manuela, a loucura e desespero de David e as raízes bem portuguesas de Camané.
começou com um hino a António.

depois seguiu. sem desafinar, sem falhar, sempre a brincar. com a música, com o público, entre eles. em músicos normalmente depressivos encontrava-se uma expressão leve, sorrisos e gargalhadas. o prazer de tocar. a alma de António. aquele homem que nos seus concertos se isolava na roulotte porque ninguém queria conviver com ele, que sofreu na pele a incompreensão da sua pessoa, da sua música, da sua poesia, aqui era livre. para a época era um génio - outcast mas um génio. porque fazia música à frente de si e dos que o rodeavam. hoje seria mais um.
mas foi resguardado, numa caixa de cassetes. até que voltou em forma de novos sons, que, sem dúvida o honrariam e horaram as suas palavras.
escusado será dizer que o rabo não resistiu pregado à cadeira com as batidas irreverentes de músicas como Maria Albertina, Muda de Vida, A Teia, na Lama, Não me Consumas... o público estava louco, inclusive as velhotas arranjadas de laca da zona da orquestra.

em Gelado de Verão vi um rapaz aproximar-se da rapariga que o acompanhava e sussurrar-lhe qualquer coisa ao ouvido que a fez lançar-se-lhe aos braços e de sorriso emocionado dizer que sim com a cabeça. fez-me sentir como é bom testemunhar coisas raras, momentos únicos, mesmo que no anonimato, e saber que a paz e as coisas bonitas nos rodeiam sob as mais diferentes formas. espero que vivam um amor de conserva...

chorei muito quando a minha avó me veio beijar pela Manuela Azevedo em Anjo da Guarda.

saltei em fúria louca com O Corpo é que Paga...

o Camané saía de palco depois das suas actuações e deixava os "putos" brincarem com as músicas com mais pedalada. This town ain't big enough for the both of us foi assim uma loucura de ouvir e ver na interpretação furiosa dramática de David e Manuela. um dueto disputado à antiga.
a caixinha de madeira do David voltou a fazer magia, entranhando-se na perfeição nesta palpitação única de sons e luzes de António. António a milhares de vozes, a uma voz só.

entre recordações, novos sons e muito boa companhia daqueles maravilhosos sete amigos, foram duas horas de pura magia, roçando mas não entrando no revivalismo.

obrigada António Variações. vais viver.

terça-feira, 28 de junho de 2005

musicóle vs. carestia

entra jigle > "interrompemos a emissão de nadas deste blog para prestar um serviço público:

ainda na onda dos concertos...
... olhem lá...
agora alguém me explica como é que vou fazer para ainda ir ao hype @ tejo dia 9 de Julho e ao Iber Rock de 14 a 17 de Julho??? ah, sem falar na Casa de Bernarda Alba que tenho de visitar no S. Luís, apesar das datas manhosas.
bem haja o belo e caridoso evento que reúne músicos portugueses todos os anos nos jardins do Casino Estoril. é à borla e isso basta-me. agora é escolher consoante o gosto de cada um. ora Junho já passou, temos aqui as próximas:

Agosto
04 - Luís Represas
11 - Delfins
18 - Fingertips
25 - The Gift

Setembro
01 - Jorge Palma
08 - Santos & Pecadores
15 - Maria João & Mário Laginha
22 - Vitorino
29 - Mafalda Veiga

De certeza, mas de certezinha, apanham-me lá a 1 de Setembro.
Se não for a 25 de Agosto, bato em alguém.

e a partir de agora finou-se a agenda cultural. a ela voltaremos se se verificar essa necessidade de deprimir financeiramente por parte da blogger que vos fala. por ora, voltemos à formatação original deste blog. é sobre nadas e assim continuará." > entra jingle

...

> pára jingle

...

... olhem lá... haverá algum chãozinho para lavar em vossas casas?.. cobro baratinho...

e é lá que eu vou estar até te escutar

chega o verão... (quer dizer, diz que já é, eu não sinto nada... bem, mas assim não dá para seguir o raciocínio, voltemos à vaca fria...)
chega o verão... chegam os carros de janelas abertas a espalhar música pelo ar. chegam as tardes longas, a vontade de ficar no lounging depois do trabalho num barzinho a ouvir música. num escritório vazio sem rádio, a única companhia é mesmo a música que me chega da rádio online.
e chegam os concertos, festivais, eventos ao ar livre...
contra mim falo, que quando quero fazer peças no verão me queixo que não há público, mas chega esta altura e há que laurear a pevide... e também não há público em altura nenhuma, que se dane.
mas pronto. com o calor a música bem disposta toma-nos.
uma pessoa abre os sites, as agendas culturais, liga a tv, e a oferta é demasiada para bolsos à beira dos 21%.
que se dane a carestia de vida, ao menos suporta-se a pobreza a cantar.
ontem estive no masoquismo puro: passei a tarde no site da ticketline a ver as cadeirinhas azuis tornarem-se vermelhas (ao ritmo dos refresh) para estas duas noites de Humanos no Coliseu.

cresci a ouvir o Variações, um bom amigo do meu pai. a sala é uma bosta. tenho pouco dinheiro. mas são dois concertos únicos, não voltam. e tenho um carinho especial pelo David Fonseca, processem-me. mas é caro. olha, acabaram os bilhetes do balcão. agora só uns espalhados na 2ª plateia, na primei.... não, na primeira já acabaram. para 4ª feira então há mesmo pouca coisa... sobra a visibilidade reduzida e a orquestra. aieeee.... olha, na orquestra para o segundo dia já não há. são quê, umas 10 cadeiras na orquestra ainda livres? não vás, estúpida, tens mais onde gastar o dinheiro. não não vou, claro que não. só estou a ver. é uma terça-feira, tens de acordar cedo na 4ª. mas mas mas... eheheheh ainda por cima nunca está ninguém no escritório, se adormecer nem dão pela minha falta... visibilidade reduzida é muito mau. visibilidade reduzida é o coliseu inteiro. só se vê cabeças... e a orquestra... quer dizer... esquece lá isso... mas o que é que o meu dedo está a fazer? onde é que vai o cursor do rato?? pára! não! não! pára! aaaaaaaaaaaahhhh!

hoje vou ver Humanos.

... a culpa é da vontade.

segunda-feira, 27 de junho de 2005

trivial

penso em vinho tinto, velas, cigarros, almofadas no chão e o jogo de 1983.
praticamente 12 horas de... nós. os mesmos de sempre. acaba sempre por sê-lo, mesmo não sendo.
depois de actualizar as conversas, o quem está a fazer o quê e o que se achou do filme X, depois dos primeiros disparates, de se correr a discoteca, de umas irem aquecer o prato vegetariano ao microondas, de se dispor o frango e as batatas na mesa, de se cumprimentar os atrasados, de se comer aos poucos entre goles de risos, resolveu-se jogar. um jogo, o tal de 1983 que é presença obrigatória em certos círculos. no meu círculo. já todos jogaram, mas lembram-se sempre do jogo quando estamos juntos. anda comigo no carro para eventualidades.
este jogo tem julgamentos. se achamos que o colega está a mentir, alguém tem de o desafiar. ao P. perguntaram "Se visse a carta do colega, dizia-lhe?". ele respondeu que sim. ninguém o desafiou, passámos logo à fase de lhe mostrar a carta de julgamento a dizer "culpado"... ele perdeu... mas não importava porque quem ganhava pedia mais cartas para continuar.
o raciocínio a entorpecer à medida que o tempo passava e as garrafas se acumulavam no lixo. nessa fase, optou-se pelo trivial dos idos de 1990. a meio já se tentava ajudar os parceiros com mímica, música e "privates" que tinham tanta lógica que o ajudado ficava na mesma, de olhar etilizado.
os maços de tabaco circulavam, sem substâncias ilícitas porque não apeteceu. a embriaguês natural da amizade fez o efeito químico desejado.
o dia clareou à medida que crescia a nostalgia (e a S. gritava porque não tinha dormido). reviu-se o filme da peça. vergonha, muita. risos. saudades.
despedidas ensonadas e boleias organizadas, ficaram apenas as velas a arder entre cera espalhada na placa de vidro.

I hate mondays

regresso do almoço. o bacalhau à brás ficou quase todo no prato. o tempo não está nem está.
escritório vazio. um tem uma alergia, a outra tem febre. atentem no dicionário, hão-de aparecer como sinónimos de ressaca.
no cinzeiro arde um lucky. estou à espera que o segundo café do dia faça efeito.
na antena 3 online, aos soluços porque o servidor deve estar cheio (preciso de um rádiozinho, desesperadamente - morada de entrega disponibilizada via contacto para o mail deste blog), tentam acordar-me com "hey ya - shake it like a polaroid picture" de Outkast e "take me out" de Franz Ferdinand.
há pouco que fazer. apetece-me apanhar uma daquelas febres.
olhos parados no ar, focam o meu reflexo em contra-luz no ecrã. eu não estou de ressaca. só dormente.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

mr. bojangles

conheci-o há uns anos. voz intensa, olhar profundo, humor negro, cruel, delicioso.
pessoa enigmática, com meandros insondáveis. é mesmo assim, caranguejo.
de um charme poderoso, e uma capacidade intelectual fantástica. e o único que dançava comigo.
para falar horas a fio. agora falamos menos, a vida fez questão de nos manter ligados daquela maneira especial em que, apesar de pouco nos vermos, sabemos que estamos por ali, sempre. e saber sempre a pouco.

lembro-me que começámos ao mesmo tempo, mas no seu sangue o talento fervilha sem tempo.
lembro-me de ser uma prostituta e ele o proxeneta. de ele me fazer chorar e no fim vir abraçar-me enquanto o profeshor Lushiano batia palmas à cena.
lembro-me da lavrosca. era uma piada seca à malucos do riso transformada numa gargalhada geral porque saía dele.
lembro-me do fantasma de lençol.
lembro-me da Flóber.
lembro-me de um convencido castelhano que [me] dava apalpões no rabo da moça, e de um marido impotente.

e da voz que gritava no aviso aos espectadores "já se disse para desligar telemóveis..."
e de uma qualquer comparação de uma mulher a uma maçã vermelha. dos solavancos inventados do metro.
"querida mimi: fui violado por um extra-terrestre e agora brilho no escuro..."


lembro-me de rir às lágrimas. sempre.
lembro-me das tiradas geniais que sempre nos enriqueceram e a todos os trabalhos por onde passou. e passará.

e de um sempre-noivo que ainda me faz chorar.

em ti as palavras chegam ao seu sentido.

se fosse uma cidade seria... Lisboa
se fosse um livro seria... a biblioteca toda
se fosse um poema seria... de Mário Henrique Leiria
se fosse um génio seria... Mário Viegas
se fosse uma nota escrita seria... um qualquer caderno de peças inacabadas
se fosse um doce seria... um barquinho de ovos moles
se fosse uma frase seria... "estúpida"

se fosse uma praga seria... "e se fosses ser sodomizado por um elefante sifilítico?"
se fosse uma cor seria... laranja
se fosse uma noite seria... aquela bebedeira de vinho tinto no restaurante ao lado da Barraca, no dia em que o conheci de uma maneira diferente
se fosse um cheiro seria... o dolce&gabanna que me faz levantar a cabeça na rua à sua procura
se fosse uma música seria... mr bojangles no jipinho

estamos sempre nas estreias um do outro.
e eu estou à espera de voltar a pisar o palco com ele. porque foi também com ele que comecei. porque com ele aprendo a cada nova personagem.

é o melhor actor que conheço.
e dos melhores amigos que tenho.

parabéns, Jota.

Mónica Sintra :)

quinta-feira, 23 de junho de 2005

apetecia-me

tanto, tanto.
há dias em que se sente mais. nos pulsos, nos dedos, nos braços, no peito.
nestes dias a vontade é derrotista. era ficar por aqui.
acendo um cigarro. tenho de esperar que passe.

quarta-feira, 22 de junho de 2005

I pitty the fool

o homem já se pode considerar meu amigo.

faz-me companhia há 7 anos, desde que dei os meus primeiros toques no pedal e pude escolher a rádio que me fazia companhia até à faculdade de manhã. descobri a pólvora, se calhar para alguns, mas era mesmo daquilo que precisava.
daquele tipo de voz inconfundível e tom sempre irónico a falar-me de coisas estranhas com as suas punchlines fora do normal. das canções absurdas, parecia que inventadas na hora e escritas em cima do joelho e das músicas ainda mais obscuras que ele encontrava.
precisava de disparate na minha vida às 7 da manhã, que dizer?
para uns é um palhacito sem piada. não consigo vê-lo assim, fez-me fazer demasiadas figuras tristes no carro, na rua, a rir à gargalhada e a cantar e a fazer aqueles seus exercícios de mexer os pés e as mãos. e tinha o prazer de olhar à volta na fila e dar de caras com outro carro tão cheio de gente como o meu a rir também, e poder trocar cumplicidades e gritos de guerra com gente estranha, do outro lado de portas de metal e vidros embaciados, rodeados de caras carrancudas que achavam inadmissível como aquela gente se ria tanto sozinha logo de manhã... e uns para os outros!!
ele, o Pedro, a Lamy, o Malato, mais tarde a Maria e agora com o Araújo e de volta à Lamy. andei atrás dele por todas as estações.
depois conheci-o. e ao meu ídolo da comunicação oral, das piadas ribeirinhas, o único a quem admito a piadola seca. ficaram-me no coração naquele dia de Novembro memorável em que só os tinha a eles e câmaras de televisão à minha volta, um directo de 3 horas para fazer e a sensação de estar a ser testada e avaliada por rebarbados.
a experiência ficou por pouco mais que ali, mas foi dos melhores dias da minha vida. quando vi o alinhamento ia fenecendo na sala de maquilhagem...
anyways... hoje lembrei-me dele. porque o ouço todos os dias. a ele e ao seu cão mordido, que agora é noutro planeta, mas sempre ele.
e só tenho pena de o ribeirinho se ter passado para a RCP. é que não consigo, não consigo mesmo ouvir Laura Pausini e Elton John mais que o estritamente necessário.
e aqui vai:
ENORMES SEIOOOS!

segunda-feira, 20 de junho de 2005

mikado

rabo espetado no ar, cara encostada ao chão fresco. curva das costas para além do imaginário de um compasso, tentar controlar a respiração, as mãos a tremer, o suor a queimar a pele e os olhos que já não focam, a ameaçar o desequilíbrio. os dedos a tentarem uma estranha harmonia com o ar.
as figuras que uma pessoa faz...

... por uns pauzinhos de madeira...

sexta-feira, 17 de junho de 2005

rádio polegadas

.
bom dia blogosfera, são 10 e meia e já está um calorão que não se pode aqui no escritório, as janelas estão fechadas, não há ventoinha e a rua custou a subir. mas tudo pela vossa companhia.
em troca, tenho aqui para vocês Kaos com "crabs in the bucket" para estalarmos os dedos e balançarmos a cabeça, e logo a seguir a sensualidade dos ritmos quentes de "el kilo" de Orixas. porque já que suamos, apetece mesmo suar por uma boa causa... então um bom dia de trabalho ou de férias, refresquem-se como puderem que eu fico por aqui...
> entra música

quarta-feira, 15 de junho de 2005

prece

por um mar agitado de tormentas em olhos que deviam já ter a serenidade do profundo oceano que espelham.
no entanto, andavam perdidos entre jacarandás, num fim de tarde lilás e azul como os tais olhos.


foto de espanta-espíritos

as mãos apertavam-se de desamparo, medo, incredulidade. camisa branca de manga descosida alinhavada à mão, um anel de prata gasta e nada mais. nem carteira, nem mala nem algibeira onde as levar. cheirava a colónia de bebé.
chamemos-lhe Clara.
Clara vagueva. simplesmente.
o seu cheiro chegou ao banco de jardim com os olhos marejados de vergonha e desprotecção. a pele macia enrugada tão branca trouxe o rosto da minha avó. a voz tremida e hesitante trouxe histórias tristes, tristes, injustas, tão fora de tempo. já não devia ser tempo de viver assim. Clara, idade indefinida pelas marcas do rosto e poucos cabelos brancos, fugiu de casa. não digo porquê, não vale a pena. Clara perdeu tudo. porque largou tudo porque lhe tiraram tudo. não tinha mais nada, não tinha ninguém. precisava de um refúgio que preferia não ter de pedir.
estampado na cara o medo. de tudo. de não ter, não ser, não poder, não saber. de as palavras lhe serem levadas pelo vento perfumado de jacarandás e colónia de bebé antes de chegarem. de as palavras não chegarem.
depois o abraço. agradecido, desamparado, aflito. num segundo chorava abertamente, desconsolada, consolando-se em ombros pequenos demais para tanta tristeza.
o beijo na testa. o olhar macio e dorido saindo de si, apesar da dor, para beijar. para cuidar. com uma benção afastou-se. não antes sem aconselhar cuidado, e dizer que a sua alma ficava ali. sempre mãe, eternamente mãe era Clara.
"depois de mortos não se vive. se estivermos vivos, podemos sempre viver de outra maneira".
com Clara chorou-se, sem vergonha.
por Clara chorou-se. por Clara rezou-se uma prece de amparo. por Clara acenderam-se três velinhas pequeninas como as mãos de seda enrugada de Clara.
que os ventos quentes a tenham entregue no seu porto seguro. que os ombros pequenos sirvam de algum aconchego até lá chegar.
no banco ficaram as lágrimas de Clara e não só as de Clara. nas roupas ficou o cheirinho de Clara.

boa viagem.

terça-feira, 14 de junho de 2005

de novo...

aquela sensação...
às vezes revejo-me nas palavras de outros. e queria partilhar.
às vezes a partilha tem mesmo de ser o silêncio.

santo antoninho

tod'á malta gritou
até o padre ajudou
aperta aperta com elaaaaaa!

és tão boa, és tão boa, és tão boa!

50 cêntimos a mijinha...

é regar e pôr ao luar!

and that's all I have to say about that...

sábado, 11 de junho de 2005

open air

abriram-se as portas. na minha cabeça ressoavam as dicas do patrão, que me explicou tudo: "tu corre, rapariga, e vai reservar o teu lugar para o cinema. as melhores são as espreguiçadeiras da fila D. vês tudo deitada e estás dentro do ecrã. depois tens tempo para o resto, mas marca primeiro o lugar." tu é que sabes. fila D, tá guardado, tá a andar.
ainda joguei X-Box (no primeiro dia é sempre gratificante porque dá para quebrar records sem perceber para que servem as teclas - é que eu sou do tempo do spectrum e mais tarde da Nintendo Super Set!), tiraram-me fotos para a posteridade e tudo.
o ponto negativo da noite foi a paparoca. acontece que para a capacidade máxima daquilo, o bar-restaurante não chega. há uma fila descomunal e tudo a pensar que já não consegue ser aviado antes de começar o filme (hora a que a reserva das cadeiras perde efeito). as meninas da Optimus dizem que afinal se pode comer também nos outros bares. metade da fila desmobiliza. chega-se ao outro bar e a resposta é "as gajas da Optimus são umas otárias". estive para lhes explicar umas coisas sobre atendimento ao público, mas pensei num menu alternativo e não me chateei mais: levantei o saco de pipocas a que tenho direito, com 1 € tiro um chocolate quente numa das máquinas de self-service que lá está e espojei-me (é a expressão certa) num puff a assistir ao pôr-do-sol.
bem bom... como o recinto é todo cor de laranja, os contrastes de cor com o céu azulão de fim de dia e o rio prateado encheram-me os olhos.
chega a B. já eu estou na espreguiçadeira a acabar o pacote de pipocas.
está fresquito. as meninas da SIC distribuem mantinhas... sim, mantinhas polares por causa da aragem, senhores! as da Gazela distribuiram almofadinhas... oh, almofadinhas para o pescoço não doer...
depois levanta a tela... e que tela... um telão, senhores! realmente, assim dá gosto... dou por mim a fazer o mesmo que a menina do anúncio da já referida marca operadora de telemóveis. a virar o pescoço de um lado ao outro e de cima a baixo para abarcar toda a imagem. porreiro, é mesmo assim que eu gosto. enrosco-me na espreguiçadeira, debaixo da mantinha e começa o filme. um filmão, não só devido à dimensão da tela, mas porque a fidelidade à bd é fenomenal. na fotografia, na realização, na caracterização, no texto... aconselho. muito sanguinário, mas é mesmo assim.
depois... um Rui Veloso em delírio. é que o senhor estava uma perfeita criancinha entusiasmada com o facto de estar a tocar ao desafio com o Pepeu Gomes e ofereceram um espectáculo realmente muito bom. jam session pura. e claro, não faltou o Chico Fininho... ;)
fica a vontade, ao ler o programa, de ver uns certos concertos e de (re)ver uns certos filmes em 400m2 de tela emoldurada de estrelas, com a certeza de que na próxima há que levar marmita...

quinta-feira, 9 de junho de 2005

... tá bem!

o patrão ligou há bocado: "não há nada para fazer aí, pois não? se quiseres, põe-te a andar e bom fim de semana!"... tá bem... tou só a acabar de ler o volume dois de Sin City em BD, já vou...

ora vem aí o belo do fim de semana prolongado. a debandada em manada para terras mais solarengas e litorais. cá fico, como sempre, limitada à falta de orçamento...


mas não me posso queixar. enquanto vocês vão para as filas para sair de Lisboa (ou da vossa respectiva cidade, meus caros leitores nortenhos eheheheh) eu fico por cá a apanhar o ventinho à beira-rio no espaço Open Air. depois é cinema com uma moldura de estrelas, numa tela gigante, seguido de concerto e dj até às 4. quem lá esteve (que o meu patrão é vip e foi à ante-estreia, nós os do povo entramos nestas coisas sempre já usadas) diz que é fabuloso. há que correr para marcar a espreguiçadeira, mas de resto na boa...
portanto é mais ou menos o mesmo que ir a correr para espetar o guarda-sol no quadradinho de areia entre a marmita da família da Bobadela e os chinelos malcheirosos do velhote da casa em frente à praia, à frente da prancha do puto de 12 anos que este ano quer ser surfista e atrás da piscina de plástico dos filhos do casal secretária-gorda-pós-parto+leitor-da-bola-de-pancinha-e-boné-de-pála-do-benfica...

amanhã e Sábado estarão vossas excelências de molho e a avermelhar ao sol... hmmm... talvez dê para ir ali à Caparica dar um mergulho. se levar só a toalha pode ser que haja espaço para ela enrolada num cantinho ao pé da duna dos marmelanços... ou não... ou fico só com a minha banheira. se chapinhar também tenho ondas! e depois vou para a janela secar ao sol da urbe. boa. tá-se.

palpita-me que só nos encontraremos mesmo lá para Domingo à noite... para banhos, terei os de multidão, pelo menos. já tenho itinerário marcado: tenho de trazer a minha irmã e os amigos todos no camião do meu pai para Lisboa. depois ela abandona-me no meio das sardinhas, vai-se divertir, e quando se fartar chama-me e tenho de fazer os 30 km que nos separam do mundo civilizado para os deixar na saloia-town. depois, se tiver forças e palitos para os olhos, volto para o meio das sardinhas, das bandeirolas, dos magotes de gente, dos manjericos (adoro manjericos), da dança no único dia em que podemos ser puros-tugas (ai vou dançar tanto o bacalhau... bem, se calhar não...O QUE É QUE DEU AOS BIMBOS PORTUGUESES QUE NOS SANTOS SÓ PASSAM MÚSICA BRASILEIRA? Qué feito do Quim Barreiros, hem?).

seja como for, quando quiser voltar para o carro basta-me levantar os pés do chão. sou tão pequena que a massa de gente suada me arrasta sem esforço, já sei como é. tento esquecer-me que sou claustrofóbica (é possível ter claustrofobia num local arejado, é, basta ir para Alfama nesta noite), olhar para cima até ver mais do que costas e cabeças e deixar-me levar. weeeee.
depois é dia de dormir o dia todo, porque a noite foi mais comprida que o normal...
e já é terça feira, e aí voltamos todos ao igualitarismo!

bom fim de semana. depois quero os relatos!

quarta-feira, 8 de junho de 2005

follow me to the sin city

eu vou



ah pois vou.

deitada numa
espreguiçadeira... a comer pipocas de borla...

ah vou, pois...

8 de junho

quantos fazes? não sei, já não me lembro. 74?
não interessa. um beijinho, avó.
onde quer que estejas.

terça-feira, 7 de junho de 2005

wannabe: o regresso

pois que através de um contacto de uma colega de há muitos anos, que lá pelo seu lado conseguiu chegar a um confortável sucesso entre novelas e anúncios de tv, me chamam para um casting daqueles... já não lhes sentia o cheiro há muito tempo...
mandaram-me um mail com as horas, o local e o texto... uma dessas pérolas das novelas juvenis. nem vale a pena falar na qualidade do que ali se dizia, do mais puro português suburbiano, da viragem retorcida da cena em 6 deixas... uma treta.
mas eu não nego nada. ainda sou das inocentes que acredita que se algum dia puder mostrar a alguém importante um trabalho bem feito, seja em que área for, pode ser que consiga vingar.
claro.

o texto no mail era só o seguinte:
procuram-se jovens entre os 18 e os 23 anos, bonitos, com ou sem acting para protagonizar nova novela da NBP
...
com ou sem acting, mas bonitos, hã? são só os protagonistas...

aquilo desmoralizou-me, obviamente. do alto do meu metro e meio e uns trocos sou a típica portuguesinha... nem mais nem menos. e já não tenho idade para estas concorrências fúteis. se bem que me abanam o ego completamente. não posso negar. ver depois os escolhidos em função dá para desatar à pedrada com o mundo e comigo... porque não há botox nem plásticas que me resolvam àquele ponto.

bem, estava marcado, não se perde nada a não ser uns neurónios só de respirar o mesmo ar que os imberbes que lá andam, saídos das agências de modelos e dos cursos de 100 contos por mês (basicamente o meu ordenado... quando o recebo) com as suas figuras esbeltas, altas, e sérias deficiências na fala.
estou a generalizar, obviamente. mas eu adoro tipões. processem-me.

chego antes da hora. dou de caras com uma folha afixada que avisa: "Procuram-se primas gémeas para episódios de Verão de Morangos com Açúcar". fico logo taxada de maluca pela recepcionista porque abro um sorriso idiota. preencho a minha folhinha de gado (que tinha mais pedidos de informações sobre as medidas do que da experiência na área), entrego o CV que sei que não vão ler, as fotos, tudo lindinho, e enfio o nariz no jornal de forma a poder observar a fauna. sempre é pesquisa de actor... pode calhar-me uma personagem destas...
estão duas raparigas novinhas de umbigo à mostra com o ar mais envergonhado do mundo. sorrio-lhes. nada a declarar. mas há-de haver... uma mãe nervosa preenche o papelinho, não sei se para ela se para a criancinha que olha para todos já com aquele ar... sai um grupinho nitidamente de amiguinhos todos histéricos. primeira vez.

eis que entra a estrela. the moment we've all been waiting for!
saltos altos às bolinhas, saia às riscas, nuances loiras esvoaçantes, camisinha justa, toda fashion com a sua pochette cor de rosa. fala alto para perceberem que chegou, pede o papel do gado e ocupa o balcão da recepção todo, indiferente ao mundo além do umbigo perfeitinho. o namorado segue atrás, cabeça baixa, olhos escondidos no meio da franjinha à cão de água da moda, camisinha Calvin Klein, chaves do Golf novinho na mão. ela alarda que não sabe as medidas que tem, que não sabe o que é "confecção", vai deixar tudo em branco. tá bem, filha, já percebemos.

entra a senhora a perguntar quem está para o casting. as mulas metem silenciosamente as patas no ar. a outra diz logo pelo nariz (como fica bem):
- tou cá eu, mas ainda não acabei de preencher a folha...

a mulher ignora-a e chama-nos.
entramos, somos muito bem recebidas pelo (sempre - não sei como é que eles fazem isto) simpático realizador, dá-nos as dicas e as marcações, estão dois actores para contracenar conosco. começa o circo.
ensaio. corta. repete. não faça assim, venha mais para o centro. a actriz que devia ajudar os "castingandos" ignora os nervos alheios (farta daquilo, de certeza) e fala com uma amiga mesmo no meio das gravações. o pessoal sua das luzes. parecem todos à beira de um ataque de parkinson.
- ai, pá, que estudei tanto isto pá. ganda branca, meu. desculpe lá.
olhos colados na câmara, expressões líricas, caras escondidas no ombro do colega. e eu a retorcer-me na cadeira a pensar "desmarca-te, desmarca-te". parece que estou a assistir a um jogo de futebol.
fiquei para última. faço o que tenho a fazer. o curso de cinema (bons tempos) ainda me vem à alembradura o suficiente para fazer as coisas tecnicamente correctas. emociono-me e tudo, aproveito a tremura da mão para parecer enlevada quando o colega me toca... muahahaha, consegui fazer à primeira!

saímos. a menina dos sapatos às bolinhas, ainda na sala de espera, bufa o lindo cabelo sedoso, já colado à maquilhagem derretida. ainda tenta interpelar a rapariga que nos encaminhou, mas é novamente ignorada. começa a esparvejar com o namorado, foi para isso que ele lá foi.

saio para a rua com o grupinho que fez comigo o casting. vamos a falar, afinal vamos todos de metro. meia dúzia de estações e impressões depois, separamo-nos. mando o meu habitual "muita merda" que os faz abrir um sorriso. e pronto, de volta à vidinha.

merda, correu bem. quer queira quer não, lá vou ficar umas semanas à espera do telefonema.
I'm too old for this.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

ao que cheguei. senhores...

Lisboa, quase 5 da tarde de uma 2ª feira dessas raras: "tire 4 dias e leve 10 de férias".
algures num escritório perto do Príncipe Real, uma janela aberta deixa entrar o calor sufocante em troca de um pouco de circulação de ar. ouvem-se os rugidos dos camiões que páram na estrada, para carregar bolos da padaria em frente. provocam trânsito e buzinadelas. um alarme de carro. outro que passa de janela aberta partilhando com o mundo o seu gosto por Michael Bolton.
a esses, os da EMEL não passam multas.
uma garrafa de água, que se volta a esvaziar pela 4ª vez desde manhã.
um computador ligado, sempre com a janela do tal projecto vital aberta. havia muita pressa, por isso se ficou a trabalhar nele na 6ª até às 7 da tarde. ainda está por rever. não aparece ninguém. o telefone não toca. enquanto não houver aval, não se avança, e não há ninguém para dar o aval. pagamentos só na 4ª feira, novas ordens. se dEUS quiser, quando for a digressão vamo-nos todos vingar de ricos. eles no Brasil a beber caipirinhas com os actores, eu no escritório vazio. é o que se diz à boca pequena, eu espero para ver. mas isso não interessa, não me quero perder em divagações.
onde é que ia?
ah. o computador. ao lado um cinzeiro. 6 beatas. mais os 2 do almoço e o da manhã faz 9. tenho de reduzir. pego no isqueiro. começo amanhã.
um "crostas" manda alguém sodomizar-se. o alguém não devia ter trocos.
do alto da parede a minha única companhia é o romeu... um tipo calado, talvez por ter só duas dimensões. mira-me com olhar sofrido. já não ligo. é rico e famoso. tenho uma peninha...
o telefone está silencioso. no messenger só uma alma penada faz aparecer no cinzento do écrã uma barrinha cor-de-laranja.
arrasta-se... o tempo... pegajoso, quente, devia ser pecado isto. tanto sol para apanhar...
um grito.
- foda-se!um valete!só preciso de um valete!

fotossíntese

azul, azul, azul.
na Cidade do Pecado com Frank Miller.
enquanto o sol me lambe as feridas.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

em boa companhia

ben harper...
e depois gift...
quem virá mais cantar-me ao ouvido, hm?

John Mayer said...

...
fathers be good to your daughters
daughters will love like you do
girls become lovers, who turn into mothers
so mothers be good to your daughters too
[daughters]

um aviso ao mundo.

green bean strikes again

tive de ir a correr salvar o meu patrão das garras da EMEL!!! eheheheh
os verdurinhas bloquearam-lhe o carro e ele tinha de sair a correr para uma reunião. tinha dinheiro para a multa mas não tinha documentos (eu é mais ao contrário)... lá fui autuada com o ar mais calmo do mundo, enquanto ele voava rua abaixo à procura da próxima multa.
quando o verdurita se despediu de mim com um sério "bom fim de semana e espero que não se repita", eu só lhe disse: "oh, amigo, isto é do meu colega, ele não tinha era documentos. eu ando de metro!".
o rapaz corou, arrependido do tom "ah, foi para desenrascar o seu amigo..."
ora pois!

acho que vou pedir um aumento ;)

quinta-feira, 2 de junho de 2005

general programme coordinator

saio para o ar quente que me sufoca a pele entre o suor e os raios de sol. fim de tarde mais que soalheiro, este. olho em volta... apetece-me... sim... descer.
hoje não passo pelo jardim. no miradouro um homem lava cerejas no chafariz, três rapazes de t-shirts suadas jogam à bola na sombra das árvores e uma senhora passeia um cão castanho. o engraxador espera um par de sapatos e um velhote dorme no banco de jardim com um jornal nos joelhos. alguém toca percussão.
já há quem tenha saído do trabalho, mas neste bairro não se sabe bem o que leva as pessoas pelos passeios empedrados.
chegando ao pé do elevador páro. uma geribéria cor de laranja. é mesmo isso que me apetece.
desço, sem esperar pelo elevador. cai-me a flor da mão, mas uma menina loira que subia corada o passeio íngreme com uma mochila maior que ela às costas corre para ma apanhar e devolver. não evitei o sorriso. três velhotas desafiam a quebra de tensão, também não esperaram pelo elevador. outra senhora à minha frente corre para atravessar a rua antes que o enorme bicho amarelo a atropele. a calçada está escorregadia e as minhas sabrinas têm sola fina.
restauradores. praça enorme, cheia de luz, não me protege com sombras amigas como lá em cima os prédios velhos coloridos onde queria morar. atravesso. nesta altura já o sol me ensopou a roupa. entro na rua do Coliseu, na azáfama de camiões da televisão, cartazes do La Féria, turistas de olhos turvos. vem aí o ballet russo. cheira a sardinhas mas todas as esplanadas estão cheias de pires com caracóis. o verão saiu à rua. ainda é cedo para o assédio dos empregados dos restaurantes, mas estão cá fora, a ver passar os passeantes.
vou subir a minha calçada. já sei que me vai faltar o ar, ainda antes de chegar às escadinhas. entro naquele mundo à parte do tal bairro onde há conversas de janela para janela, discussões entre senhoras à porta das suas lojas, cenas de porrada, o bêbado assobiador, os melhores bolinhos de Belas e o grito de guerra da turminha de miúdos que passa ali às 2 da tarde.
reconheço o cheiro que percorre as paredes daquela sala de tectos baixos e chão de madeira polida, as pilhas de dossiers azuis, o inevitável pauzinho de incenso. nas paredes fotos de tantos sorrisos, de cores e credos diferentes que nos passaram pelas mãos, pela paciência. um arrepio brincalhão percorre-me, ao lembrar-me que na primeira gaveta estão os formulários para os passes da Carris. posters de Lisboa, recordações, bandeirinhas de escolas de locais longínquos. mapas, calendários, listas desorganizadas.
aqui deixei uma caneca da Polónia, o frasco das bolas de sabão que soprava aos miúdos e a minha janela sobre a calçada.
hoje, trago uma geribéria cor de laranja para celebrar a orgulhosa passagem deste testemunho.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

menina

já cresceste mas manténs a vida que te percorreu os cabelos escuros, a mão pequenina e os passos incertos, a gargalhada solta e a lágrima fácil.
andas aí, por vezes mais escondida, outras mais esquecida. estás no meio do monte, a colher papoilas, a aprender o abecedário e a picotar, a dar milho aos pombos no Rossio, a distribuir beijinhos depois do sarau, a dar caneladas no colega...
andaste, andaste tanto. e ainda falta muito. espera, menina. espera. pode ser que te soprem os ventos de sul. que entres no mar outra vez. que te beije a pele o sol. que voltes a comer algodão doce e pastilhas gorila...


apetece-me mascar uma azeda. se alguém encontrar, é favor entregar ao pé do Príncipe Real.

dádiva

dei o que podia dar. o que de melhor tinha: os meus pilares. alimento eterno de alma e de pele. que não esgota. felizmente. fiquei vazia, esgotada, transparente.
deu-se o que se tinha, de todos os lados. e isso é que é importante.
pendente ficou o abraço. talvez um dia.