domingo, 31 de janeiro de 2010

credo

apercebi-me no outro dia, ao passar numa livraria, que a partir de agora só poderei comprar dicionários em alfarrabistas...

do alcatrão . actualização non troppo

queria actualizar o post anterior com mais novidades, notícias, avanços.
mas depois do clássico "sacuda a água do seu capote", as notícias cessaram. que isto de serviço público não é para o jornalismo. nem para o site da Brisa.

era aterro, tinha problemas geológicos, mas afinal já sabiam disso tudo, mas ninguém foi ver porque a responsabilidade é sempre de alguém mas de ninguém em especial.
já têm lá as escavadoras e continuam a ver se a terra continua a cair.

agora esperem.
sentados, na segunda circular.
todos vocês, os 40 mil utilizadores.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

do alcatrão ou a importância do tom

a A9 - CREL é, na minha vida, a diferença entre demorar hora e meia ou meia hora a chegar ao trabalho. um percurso entre duas zonas sem transportes públicos que as unam.

na passada sexta feira houve um aluimento de terras na dita Cintura Regional Externa de Lisboa, de manhã.
soube pela rádio que cortaram uma faixa, no sentido oposto ao que eu seguia.
pensei... tudo bem, aquilo com umas vassouradas vai ao sítio até ao fim do dia, logo à tarde estou safa. estúpida. estúpida.
no regresso ouço pela rádio - já tarde demais - que afinal já ia em duas faixas cortadas e 4 km de fila.
e eu na fila. durante uma hora e vinte minutos.

quando finalmente passo pelo "sucedido", vejo primeiro que tudo uma fila de uns trinta - não estou a exagerar - topos de gama lindos e brilhantes estacionados ao longo da berma. mais à frente um ajuntamento de uns trinta senhores e senhoras, de fatos de corte impecável, sapatinho bicudo, pasta no braço e mão no queixo, visual profissionalizado pelo colete amarelo e o capacete da praxe. todos  observavam, sem mexer uma palha, o monte caído no meio da estrada.
monte de terra de seu nome, com M de Monte Grande, enorme e que ocupava toda uma faixa de rodagem, numa imagem curiosíssima porque ainda estava coberto de erva tenra verdejante e moitas. parecia que a montanha tinha esticado o pé gigante, para não ficar dormente, e o tinha assentado na faixa da direita.
bem, e o grupinho lá observava. nem uma pá à vista. um ancinho, ao menos um serviçal daqueles que fica parado na berma da obra de enxada em punho, qualquer coisa... nada.
receosa pelo meu regresso ao trabalho, vou ouvindo na rádio. o monte foi esticando a patinha e já vai na terceira faixa da auto-estrada.

bem, mas o que é que vão fazer quanto a isto? ainda não sabem. o tom vago mas assertivo - gostava de saber como se consegue, mas parece-me arte e dom apenas d'Os Escolhidos do Ramo da Análise, Construção e Orçamentação. usam muito os graves para a coisa parecer cabal e séria, mas algo carefree porque, por favor, não podemos falar de prazos numa situação destas...
primeiro uns dias para análise da progressão do aluimento. a prioridade é - dizem - o aqueduto das águas livres. percebe-se que não se ataque a coisa à idiota para ser pior a emenda que o soneto [ou a ementa que o cimento], mas nem uma vaga ideia do que vão fazer? não. o plano - assertivamente - é ficar a observar o movimento da terra durante tempo indeterminado. e depois - vai para os agudos, arrasta as vogais - logo se vê. portanto, já vê, - regressa ao assertivo - pelo menos umas semanas de observação.

eu penso de mim para mim... então se é assim, se eu mandasse,  os senhores do grupinho ficavam de castigo: sem os popós até resolverem o assunto. só para estimular a análise. 
e só por ter usado a expressão "derivado a" na rádio,  fica já sem a carta, não vá tentar surripiar o carro da esposa. mas isso sou eu.

mas alto, descrentes! para desengano de quem achava que eles não estavam a fazer mais que ver terra mexer, um laivo de esperança, de proactividade:
dizem que já contactaram o proprietário do terreno! [do Monte Caído, não da CREL, bem entendido]

...
pois, é isto
...

podia parecer que é para terem autorização para acesso à zona para agilizar as obras de limpeza e reforço da estrutura. podia.
mas é o tom, senhores, o tom em que o constatam. o tom acusatório e algo consternado de quem acha que o proprietário tem um pacto com extraterrestres; o tom "nós estamos a fazer tudo o que podemos e o que podemos fazer é limitado porque no fundo já não está nas nossas mãos"; o tom que exonera os senhores de fato da decisão, da escolha daquele sítio para fazer passar a estrada após - suponho - vastas análises e estudos; o tom que afasta a possibilidade de saberem que ali passava um leito de água subterrâneo; o tom que explica que isso foi afastado como problema porque na altura dos ditos estudos o tal leito estava seco; o tom que os iliba, no meio de tanto estudo, do planeamento da inclinação da construção, ou da previsão da interferência geológica a médio-longo prazo.

bom, meus caros, se foi necessário o uso desse tom, então está tudo compreendido, venham de lá esses ossos...

a minha cabeça, em tempo de desespero e adivinhando a fila IC22 - Calçada de Carriche - Eixo Norte-Sul - 2ª Circular - IC19 - IC17 CRIL, não pára. imaginou logo o telefonema consternado, a virar o bico ao prego.

"tecnicamente o monte é seu. portanto ou varre o senhor aquilo dali, ou vamos ter de fechar a auto-estrada"...

domingo, 17 de janeiro de 2010

o bilhete

entraste, simplesmente. recortaste-te na luz contra a penumbra atrás de ti. a noite já se fundia no céu azul. o outono é assim. recortaste-te não pela tua figura imponente, mas pelo vermelho da gabardine, subitamente incendiado pelos néons do restaurante. olhaste em volta e em cada resquício de movimento li que o sistema da loja não te era familiar. estavas mais próxima, agora. encostaste-te ao balcão. levaste a mão ao bolso enquanto esperavas que a velha dos sacos à tua frente fosse atendida. tiraste um pequeno leitor de mp3 de marca branca e carregaste num botão. levantaste o olhar e o empregado esperava-te. esticaste o pescoço para a frente, levando os dedos aos phones e tirando-os dos ouvidos. fizeste o teu pedido. as bebidas são self-service. seguiste-lhe o dedo indicador espetado e dirigiste-te aos copos, de passo hesitante. uma cola. lá do fundo ele perguntava-te mais coisas. quer queijo? quer salada? a tudo respondias com um sorriso cansado.
sentaste-te a comer isolando os olhos do mundo no aconchego familiar de um livro de capa usada, os pensamentos embalaste com essa qualquer música que voltaste a pedir ao leitor. estavas desajustada.

dei comigo com a sandes fria, só de ficar a adivinhar-te. não consegui. inventei-te uma história. mas precisava de pormenores.
por enquanto digo-te a música: Dead Combo. não tem letra, acompanha as palavras com mais discrição.

comeste a sandes com a lentidão suave de quem ainda tem tempo. sei isso porque viste as horas por duas vezes no telemóvel e parecias indecisa, já com o canto do pão na mão, se ficavas ou saías. saíste. e eu contigo, sem me notares porque não se notam tanto os fantasmas quando a música toca alta dentro da nossa cabeça. achei que devias ter medo da cidade à noite, também os ladrões passam mais discretos, assim.

radiohead - no surprises

sabias para onde ias. paraste nos semáforos vermelhos, mesmo que a estrada não tivesse carros. encostavas-te aos postes, num misto de espera dengosa, cansaço e tempo para consumir. nunca olhaste para trás. percebi onde ias. mas a poucos metros da porta paraste. abriste a mala e do que me pareceu ser uma agenda tiraste um bilhete. o candeeiro explicou-me que havia outro, que ficou ali, preso num clip. percebi-te. chegaste à porta e no mesmo gesto elástico encostaste-te a um separador do passeio. ali puxaste de um cigarro.

nouvelle vague - I melt with you

viste de novo as horas. e deixaste-te ficar, observando em volta os carros a chegar e parar à porta, largando gente de roupa fina. outros que passavam e abrandavam como se estivessem a ver um acidente no meio da auto-estrada. olhaste com atenção a formação de grupos, as pessoas que entravam orgulhosamente de envelope na mão, como que exibindo um troféu. os casais curiosos, as velhas cheias de laca, as gentes mais novas de roupas pendonas coloridas e penteados despenteados. lado a lado com as meninas de rabos de cavalo, argolas, camisa dentro das jeans e sapato de salto agulha.
indiferente às aparências, abanavas agora a cabeça com algo mais mexido com um meio-sorriso irónico nos lábios.

divine comedy - generation sex

lá dentro, os flashes, o burburinho que não ouvias, a reverência dos porteiros e a agitação que se notava nas janelas de vidro, de mulheres bem vestidas agarradas a telemóveis. apercebias-te de tudo com a naturalidade de quem sabe o que é mas sempre foi transparente. viraste-te de costas para a entrada e olhaste para o céu. ali quis que pedisses um desejo. viste as horas uma última vez, tiraste da algibeira o leitor e desligaste-o. o fio ficou preso nas hastes dos óculos de sol, que trazias ali também. empunhaste o bilhete e no mesmo andar lento e decidido entraste. não desapareceste na turba das lantejoulas. a gabardine não deixou. percebi o teu à vontade no meio de olhares jocosos porque sabias - achavas - que ninguém te olharia duas vezes. só deixei de te ver quando desceste as escadas. mas soube que voltarias, minutos depois, o cabelo mais sedoso e as mãos húmidas. resolveste-te então a entrar. estendeste o bilhete ao primeiro senhor careca de bigode que te apareceu, solícito, ignorando a figura pública atrás de ti. seguiste-o com um sorriso para fora da minha vista.