segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

hou la da barca, hou la!

todas as actrizes do elenco (e há três para um papel, já por causa das coisas) estão ocupadas em lançamentos de cds e digressões de outras peças, pelo que dois dias de espectáculo estão em causa, sem ninguém disponível. depois, se não se fizerem esses espectáculos, não há dinheiro para pagar às pessoas.
who 're you gonna call?
à pessoa que também tem de fazer a montagem, dar formação ao técnico que entra novinho em folha naquele dia, ao carregador novo, que com o velho terá de carregar duzentas cadeiras. ah, e fazer a bilheteira e tratar de encaminhar as manadas de meninos... valha-me a santa colher, que estava com tanta febre que se ofereceu a safar-me de mais esta...
cá estou, a decorar falas vicentinas, para daqui a dois dias ir fazer um espectáculo, sem que o encenador ou o assistente de encenação se dignem a passar texto comigo. e sem ensaio de palco. pelo menos os colegas dizem-me que vai correr tudo bem... pois claro.
ainda por cima tenho de cantar... não vale...

bem, vou-me embrenhar na canção da outra e a ver se deixo de trocar o "não hei eu i d'embarcar" com o "nom quero eu entrar lá".

"pera o paraíso vou"... ah vou, pois, depois desta tenho mesmo de ser "apostolada, angelada e martelada"... estou a fazer "cousas mui divinas"! "eu sou ua mártela tal... açoutes tenho levados e tormentos suportados que ninguém me foi igual..." olha, é quase biográfico!

para desanuviar, sugiro-lhes que vão recordar os bons velhos tempos aqui. eu já andei a recordar as minhas viagens de cavalo alado e espada mágica com a She-ra e as noites de Vitinho e, e... mais não digo... boa viagem...

à barca, à barca da vida... ai ai ai...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

pontes


foto roubada a nelson d'aires

o tempo foi perdido, não por nós mas por tudo o que nos fez sermos quem éramos quando nos cruzámos. a desorientação no espaço é inevitável para quem não é mais que um fragmento de si, sem compasso de relógio, sem desejos nem carne. sem sangue. de sabores dormentes. quando o tempo nos toma as rédeas, fica-se suspenso. tudo muda à volta. permanecemos assim, sem o norte. mas sabia onde ficavam os pedaços dos meus dias úteis. e mostrei-te. nessa ponte encontraste a passagem. ali. e descobri que aquela passagem era minha também. escorremos como rio violento, quebrante, fugimos do tempo escondidos na humidade dos peixes. acampámos no limbo do destino, espetámos-lhe as estacas com a volúpia da vingança nos dedos, enquanto o tempo nos procurava. esquivámo-nos em gritos insanos para dentro um do outro. e o sabor acordou. o da tua carne na minha língua, o da tua vida no meu peito, o do meu peito nas tuas mãos, o dos meus gemidos nos teus cabelos brancos. o do sonho nos nossos dias. o amor, enfim o amor. depois não. depois o tempo voltou. depois foi quando os nossos corpos se separaram* e parámos de novo, cada um nos seus pontos recortados de alguma agenda amarrotada por um ser sem nome nem caneta para nos unir. porque não somos mais do que nos deixamos ser. o encontro nem sempre une. permanecemos quedos, querendo o tempo a passar até sermos de novo pedaços de pó. nessa liberdade soltei-me ao vento e à água ao teu encontro. dei-te a minha morte. no fim, fui tua de novo, meu amor.

não sei porquê. mas tive a certeza. este tipo de certezas só se tem uma vez na vida.


*a naifa | três minutos antes de a maré encher |

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

folias :: o rescaldo

o som é maravilhoso. já gostava, agora gosto mais. dos senhores, da força e balanço da música, da audácia dos convidados especiais...

de resto... bem, de resto a nota negativa vai unicamente para os convivas... é que ir ao lux é "bem", mas continuaram sem perceber porquê... havia com cada um... ora vejamos, enquanto ainda balanço ao som de "miúdo":

.: as tias de casacos de peles e ar-tão-pedigree que desceram logo que abriu o acesso ao piso da discoteca. não podiam perder pitada, mas parece-me que acabaram meio perdidas. ficaram à frente mas perderam a pose: sem perceber porque é que o peeling estava a derreter e a desfazer-se com a vibração e porque é que os cintos cheios de metal e lantejoulas as puxavam na direcção das geringonças que faziam som - esse som estranho que não tem nada a ver com a Casa do Castelo, vindo de pessoas a sério em cima de um palco...

.: os tios de fatinho, copinho na mão e a outra no bolso, que falavam da bolsa ao pé da entrada... deixaram cair o queixo ao chão quando entrou o primeiro "ente" estranho de cabeça rapada, túnica justa, lenço às bolinhas cor-de-rosa e bota alta... "aquilo é um gajo?"

.: o homem-tipo-bruno-nogueira-quasi-torre-eiffel que escolheu pespegar-se deliberadamente à frente de um grupo de gente com uma altura média de 1,62m [para o qual contribuo com o meu 1,58m]

.: a totó e o seu suíno que resolveram obstruir a visibilidade de toda a gente à frente de quem se resolveram meter... ele porque se achava macho dominador com direito a ver mais que os outros, com as suas mãos no "ponto de requebra" da menina; ela porque tinha um "cabeção" ralo mas comprido e crespo que atirava para cima de quem estivesse num raio de 50 metros nas suas tentativas de sedução do suíno. foram no engodo da festa "bem" mas não estavam habituados, coitados, a tanta gente e confusão e não percebiam porque é que as cabeças à frente deles não se baixavam. mas também não percebiam porque é que tiveram 4 pares de cotovelos espetados nas costas a noite toda... nem porque é que tanto o casaco foleiro do cavalheiro como a farta cabeleira da dama saíram meio chamuscados de cigarros... muahahahah... toda a saga aqui

entretanto divertiu-se quem foi lá pela música... portanto, eu diverti-me à brava... e sem adormecer... ;)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

folias

sou uma foliona. gosto de sair. e como sempre tive pouca liberdade, nunca me dei ao luxo de armar em esquisita, em intelectual nem em hype: danço o que estiver a tocar, canto, salto e passo a noite a água [sem aditivos, hem?].

mas às vezes olho para a minha triste figura: então não é que aos 26 anos, se tenho encontros marcados para a noite, adormeço antes de ir para lá e tenho de ser arrancada a ferros do sofá onde aterrei mal cheguei do trabalho? é muito triste...

hoje tenho um hot date com cindy kat. pois que posso não ser ninguém, mas tenho convites para o concerto de apresentação do disco, oferecidos por um dos próprios. sem intermediários... um luxo...

ora que me ponho a pensar... se calhar não vou a casa... vou ficar por Lisboa a fazer tempo... beber alguns cafés... porque parece-me que ando a perder a pedalada. eheheh

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

ora vamos la ver

o novo carregador arrasta os pés.
eram duzentos miúdos mais as respectivas professoras.
os actores acordaram de rabo para a lua e eu é que acordo todos os dias às 7 da manhã.
os actores recebem para ser actores e queixam-se da vida.
os actores não percebem o conceito de "monumento nacional" e largam beatas no chão da sala.
o "show case" de A Naifa transformou-se num "estou a fazer isto por ti".
enganei-me a fazer as contas com as cadeiras.
as professoras não percebem a noção de "cheque ao portador".
eu não gosto de contar 300 euros em notas de 5.
uma escola chegou atrasadíssima e ainda queria visita guiada.
o engatatão da bilheteira viu-me passar carregada e disse "ó menina, cuidado com as costas".
só na hora de encaixar as criancinhas me apercebi do erro de contas e tive de ajudar os carregadores a transportar mais 50 cadeiras pelos claustros.
o novo carregador não percebe a noção de "a ver se saímos cedinho" e demorou tanto tempo a arrumar o cenário como a olhar para o vazio com ferros na mão, pelo que demorei o dobro do tempo a fechar tudo e sair dali, pelo que almoço de jeito que é bom, nada.
dei umas 15 voltas ao Príncipe Real à procura de lugar para estacionar e só quando entrei por uma viela em desespero de causa se dignou a aparecer-me um nicho onde enfiar o carro. a custo e a "crostas" (vulgo arrumador), que ainda não me habituei ao ponto de embraiagem.
os "crostas" não percebem a noção de "o tabaco aumentou"
esqueci-me da pasta no carro, e não tenho forças para lá ir buscá-la.
na recepção tinham à minha espera um molho de fotocópias de tal tamanho que tive de pedir ajuda para abrir a porta do escritório.
o recado em cima da mesa era "liga ao não-sei-quantos e continua com as etiquetas"
a cada golo de iogurte ou a cada trinca numa bolacha torrada tocava o telefone com mais professoras empenhadas em proporcionar-me mais manhãs como a acima mencionada.
as professoras não percebem o conceito de "nesse dia está esgotado".
não me lembro ao que souberam as bolachas. nem o iogurte. mas dou um salto na cadeira a cada toque do telefone.
já não me lembro do que é beber uma cerveja ao entardecer ao pé do rio.
já não me lembro do que é estar. simplesmente estar.
não faço teatro há quase cinco meses e as hipóteses de lá voltar estão a diminuir na indirecta proporção do tempo que gasto nesta cadeira.

eu garanto - mas fica aqui escrito, hem? - que se me aparecerem mais uns dias destes pela frente num futuro próximo, largo o carro ao pé do rio, atiro a pasta à água, sento-me com um livro e despeço-me.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

recuerdos

passei a tarde de ontem, na indiferença à trasladação da Irmã Lúcia, a vaguear pelas ruas da minha infância.

a recordar o sol no meu tecto e as paredes forradas com bonecos.
a caixinha de música cor de rosa, que ainda guardo
o espanta-espíritos da Branca de Neve que, um pouco mais pálido, ainda existe
os óculos que ajeitava ao nariz, cada par mais "exótico" que o outro
os meus dentes da frente, muito grandes e com uma falha entre eles
os tempos do aparelho
os tempos do ballet
os tempos em que andava de costas direitas
os tempos das apresentações na primeira "escola em palco"
o meu primeiro poema para um público
a inauguração da Malaposta, em que participei, tendo que ser retirada em braços do coche onde estava, porque o microfone não chegava lá
a carrinha da Junta de Freguesia, a espalhar a "Lambada" pela vila
dançar "Onda Choc"
cantar o "Conquistador"
o dia em que fiz uma tele-receita de leitão com laranja, utilizando a minha irmã como o próprio leitão
a minha avó a sorrir
o meu pai quando parecia o Bin Laden
os canudos do cabelo da minha irmã
o meu cabelo pelos cotovelos
o meu corte de cabelo à pagem (que a minha mãe ainda hoje adora)
o meu muito mau gosto para chapéus, na pessoa de um boné com um pompom no topo
o meu sorriso indelével
a minha ausência do mundo quando pegava num livro
o facto me sentar sempre de pernas abertas
a minha incapacidade de falar baixo
a minha mão na anca quando as coisas corriam mal
a minha diversão em apresentar programas de tv caseiros
a minha dedicação em fazer teatros de fantoches
a minha mania de cantar em todo o lado
o dia em que andei a cavalo
os banhos de regador de relva
os banhos no tanque
o meu primeiro cão

tudo misturado, em vaivéns de imagens simples, pedaços de mim, alguns esquecidos, outros tão presentes como se fosse hoje.
vejo-me uma miscelânea, ainda hoje, dessas pequenas coisas. vejo-me a eterna menina à procura de um sorriso em volta. vejo-me ainda à procura de abraços seguros, que não me deixem suspensa no ar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

hold still

recuperou o fôlego da noite e despiu os lençóis do corpo nu. da janela de madeira espreitavam ramos de plátano e prédios antigos. neles prendeu os olhos enquanto o primeiro cigarro lhe aquecia o peito. a chávena de café fumegou-lhe o silêncio das paredes lisas. as imagens suspensas dos seus olhos eram estilhaços de vida. tatuados em papel e em memórias vagas como o lume do sol no céu brilhante da manhã, que sombreava a cama revolvida através dos estores de ripas. pousou a caneca dengosamente, sentindo a cerâmica macia escorregar-lhe nos dedos húmidos do vapor. enterrou as mãos no cabelo e espreguiçou-se. ouviu uma voz.
- pára. assim.

clic.


por causa disto. cliquem em "hold still" e fiquem parados um bocadinho. gostem ou não do cantor, um clip admirável com fotografias de Augusto Brázio.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

manias...

o desafio do Rantas foi aceite. ficam aqui as minhas 5 manias, avisando desde já que a lista seria extremamente exaustiva e que excluí o teatro por motivos óbvios: não é mania, é dependência :)

.: querer estar de bem com toda a gente, contra tudo e contra todos, apesar de ser bruta como as casas
.: prender e desprender o cabelo constantemente
.: cantar - infelizmente para os outros, a minha vida é um musical
.: dormir de punhos cerrados ou com as mãos escondidas debaixo do pescoço, de lado, sempre com uma perna dobrada, o que apesar de até me fazer uma figura toda jeitosa e ondulada dá umas dores do camandro nas costas ao acordar
.: e... esta é de facto estranha... desde miúda que quase adormeço quando limpo os ouvidos com cotonetes... don't ask

e posto isto, passo o testemunho a:

o duende feliz
colherzinha de chá
espanta-espíritos
estranho
pinky
e macaso que não está cá, mas pronto, pode ser que venha com tempo e paciência de reencontrar este post nos arquivos ;)

já passei do limite? eram só 5? pois olhem, quem não está nesta lista mas quiser trazer ao mundo os seus podres está por mim convidado a fazê-lo, desde que me avise que o fez, para eu ir lá cuscar eheheheh

convido também quem me conhece a falar-me-vos das minhas manias... vai ser divertido e se calhar vai haver tareia... hmmm...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

mas mas...

qual é a gravidade tão grave do dia dos namorados?
não vejo ninguém tão revoltado com o dia da mãe! e há os órfãos, tadinhos!

formiga atomica


cortesia de espanta-espíritos

é preto, piquenito, arredondado, tem bochechinhas [diz que sim], orelhas grandes [como em retrovisores], olhos amendoados, e cara [pois está claro que tem cara] de sorriso maroto e atrevido. lá dentro é só negrume misterioso e laranja bem disposto à minha volta, em bolinhas [sim, bolinhas] estilizadas com números de lettering catita. ah, dizem ainda [e eu concordo] que tem muita pinta, ali entre o desportivo e o cosmopolita, o chique e o descontraído, o elegante e o intelectual... trendy, portanto. diz que é charmoso, diz que sim, e diz que me assenta que nem uma luva... ora está bem...
rosna quando se mete a primeira mas depois é suave e desliza, ainda cheira a parafina queimada, não tem cinzeiro, o porta-bagagens é basicamente um envelope [isso não estranhei, que o Jippy era a mesma coisa... uma questão de tetris!], tem um acelerador ansioso por prego a fundo e é baixinho [eu, ex-dominatrix do todo-o-terreno e agora tenho de ter medo dos passeios! bah]...

foi a sensação estranha de que, agora sim, não voltaria a conduzir o Jippy. porque eu tenho a mania de acreditar numa grande reviravolta até levar em cima com as provas todas provadas e testadas em laboratório do ponto sem retorno. só me apercebi disso, realmente, no momento em que dava o meu autógrafo ao senhor do stand, em pilhas de papéis e seus duplicados que me endividarão para o resto da minha vida.

e foi isso que lhe expliquei, ao carrito: que sou um bocado doida da cabeça, que me apego às coisas e que ia demorar a habituar-me a esta nova relação, que tinha de me dar um tempinho para me ajustar, mas que já lhe achava muita piada e que queria mesmo dar-me bem com ele por muitos e longos anos, como foi com o Jippy. de preferência sem cortes abruptos nem prazo de validade. fui avisando o popó para não se espantar se desatasse a largar o mais profundo português suburbano que tenho dentro de mim no trânsito [que eu até sou um doce de pessoa], que muito provavelmente iria rir à maluca, chorar feita maria madalena e cantar em plenos pulmões com ele sem qualquer pudor... só para ele não levar de chofre com uma das minhas reacções um destes dias.

pois que já lhe estreei os ouvidos, entre o stand e as dobragens, apesar de os nervos ao princípio me tirarem a voz. ao fim de um bocado, dei comigo em coro com Joy Division e "love will tear us apart", logo a seguir dei-lhe com o "come into my heart" do David Fonseca. no regresso das dobragens, foi o "here comes your man" dos Pixies, que adaptei para "here comes you car". testei o leitor de cds com a prenda de aniversário de um amigo, Jack Johnson e "better together"... as nossas primeiras músicas, aqui registadas para a posteridade...

fui buscá-lo ontem, tinha apenas 6 Km... hoje já passa dos 100 porque deu-me para ir, depois das dobragens, lá para as 11 da noite, mostrá-lo aos papás...
o meu pai ria-se que nem um perdido e dizia lá do alto do seu Jipão "é tão pequenino, que engraçado". a minha mãe, que não liga a carros, dizia que é lindo e a minha irmã basicamente enfiou-se lá dentro... está estreado também numa das suas funções mais importantes que é encher de gente em boleias de manhã... ai que saudades que tinha disso...

por enquanto, e apesar da total paranóia em conduzir desde o acidente, só servirá para situações pontuais em que não possa mesmo usar transportes públicos. mas já me está a dar o nervoso miudinho de me fazer à estrada com os bancos rebatidos cheios de mochilas e pacotes de bolachas e garrafas de água em direcção a algum destino assinalado no mapa ou sem qualquer destino definido... afinal, a liberdade do asfalto cola-se à pele...

There is no combination of words I could put on the back of a postcard
And no song that I could sing but I can try for your heart
And our dreams and they are made out of real things
Like a shoebox of photographs with sepia-toned loving
Love is the answer at least for most of the questions in my heart
Like why are we here? And where do we go? And how come it’s so hard?
It’s not always easy and sometimes life can be deceiving
I’ll tell you one thing, it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together
We’ll look at the stars when we’re together
It’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

And all of these moments just might find their way into my dreams tonight
But I know that they’ll be gone when the morning light sings
Or brings new things for tomorrow night you see
That they’ll be gone too, too many things I have to do
But if all of these dreams might find their way into my day to day scene
I’d be under the impression I was somewhere in between
With only two, just me and you, not so many things we got to do
Or places we got to be we’ll sit beneath the mango tree now

It’s always better when we’re together
We’re somewhere in between together
Well it’s always better when we’re together
It’s always better when we’re together

I believe in memories they look so pretty when I sleep
And when I wake up you look so pretty sleeping next to me
But there is not enough time
And there is no song I could sing
And there is no combination of words I could say
But I will still tell you one thing
We’re better together

better together | Jack Johnson | in between dreams

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

rugas da parede



ouve-se no silêncio um pequeno percalço. um suspiro. não tem dono, apenas ao ar onde regressa pertence. o suspiro das paredes. são antigas e foram ali deixadas quietas, em abandono descrente. estranho santuário do pó dos dias, sem sombra que lhes alimentasse a alma para além da sombra que lhes contava da mudança das horas. ali ficaram, guardando as fotos velhas e as células mortas e os bichos do papel. velhas e desencontradas de sentido, a tristeza fizera-as perder a luz e a firmeza, despedaçando-se em pequenos pós brancos e beges e azuis no chão sem pés.
uma lágrima caiu pé-ante-pé, sem aviso, em grito sufocado. não compreenderam, as paredes, o que lhes quereria a lágrima. timidamente taparam as faces, deixando no entanto uma frincha entre os dedos para espreitar a lágrima, que lhes escorria e se enrolava com o pó em pigmento egípcio, cada vez mais espessa, misturada na humidade e nos rolos de cotão. deslizava silenciosa, furtiva, absorvendo em si o negrume dos anos, acariciando-lhes as rugas. arredondava-se a mancha que engrandecia. e as paredes coraram, pincelando naquela estranha sombra húmida um laivo de rubor em que de um prisma se encontraria todas as cores e cor nenhuma.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

funny little frog

vá lá, é entrar no fim de semana a saltar.
apesar dos lenços de papel, do cérebro a querer sair pelos olhos, da garganta arranhada e de falar à bom fanhoso ali dos becos atrás do Mercado da Ribeira.

um sapinho engraçado dos belle & sebastian. quentinho a sair do forno, cheio de mimo do bom, para quem, como eu precisa de mantas e descanso este fim de semana.

com um beijinho especial e euphons para a colherzinha que está, como eu, de molho.

estrada


[seguindo, a voar por teclas e papéis, deixando o leitor cantar-me o que lhe apetecer, um som antigo...porque viagens, essas, haverão sempre. no asfalto e na vida. así son las cosas...]


Estrada fora estrada dentro, de Bayonne a Milão,
coração ao relento, mundos e fundos na mão.
Corpo negro macadame, de Milão a Budapeste,
voar, "chercher la femme", norte, sul, oeste, leste.
Polaroid, pôr do sol, vénus na concha da Shell,
Sexo, sonho e rock'n'roll, noite branca no motel.

Anjo perdido na bruma, leva-me ao sétimo céu,
abre o teu manto de espuma, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu, deixa cair o teu véu,
deixa cair o teu véu...

Chuva, bréu e gasolina, bar aberto, companhia,
cheiro a erva na latrina, chá, café e fantasia.
Ultrapasso um camião, passo fronteira e portagem.
O écran do alcatrão devorou a tua imagem.
Estou tão longe, estou tão perto, sei que nunca
hei-de chegar
onde vou não sei ao certo, já não posso mais parar.

Refrão

Contigo leio o futuro nas gotas do pára brisas,
coração inseguro, mãos vazias, indecisas.
Néon pálido, luar, Via Láctea, solidão,
tenho ganas de beijar o espelho da escuridão.
A grande roda da sorte é uma curva sem fim,
do outro lado da morte há uma estrada só p'ra mim.

estrada | pedro abrunhosa . regina guimarães | viagens | 1994

salvados

- a senhora desculpe, mas já agora queria fazer uma pergunta... por uma questão pessoal, gostava de saber o que é que vão fazer com o carro... é que se for para abate eu queria ficar com a matrícula...
- olhe, tendo em conta a empresa que comprou os salvados, suponho que seja para o voltar a pôr em condições de ser comercializado.
- ai não me diga...
- sim, é o mais provável.
- boa, era só o que me faltava... daqui a uns tempos dar de caras com um fantasma na rua...
- desculpe?
- nada, nada. olhe, muito obrigada.

[entretanto, aqui nos arquivos do computador dou com o "é preciso ter calma" do Abrunhosa... ah pois...]

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

transparente sem possessivo


[ms]

deitada, enleada nos pensamentos que não tinham relevância para o quadro pintado em sangues vivos, ocres e ceras. apenas a simples nudez. uma entrega aos sentidos aos lençóis aos silêncios e à luz das velas. ao embalar emocional de uma qualquer música na aparelhagem. o total desprendimento da noção de despida. da noção de pudor. porque ali jazia, deitada, viajando para longe, sem se lembrar ou esquecendo a pele ao ar, as suas curvas e recantos despojados de qualquer pedaço de opacidade. transparente, na pele que estendia pelo lençol. nos cabelos espalhados sem ordem ou vaidade. na linha do pescoço delicada. no requebrar suave dos músculos entre cada respiração. nas cores quentes que entornavam o corpo diante dos olhos. e no agudo ondular do suor num pequeno friso da parede.

era só um carro



já está. não resta comigo qualquer vestígio físico de ti. entreguei hoje o teu coraçãozinho. e - estupidamente, eu sei - choro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

à porta da loja

todos os dias lá está. veste roupa escura e suja, indescrita. tem um corpo estreito e seco, alto, do qual parece estar sempre a cair. o olhar parece não passar além dos olhos. cansaço. puro cansaço e tristeza. e um brilho febril de um qualquer ente deformado e reptilíneo que lhe rasga a vontade de ser, comendo-lhe a vida pelas veias. às vezes traz uma fita cor de rosa alegre que lhe prende desajeitadamente os cabelos limpos mas despenteados. o rosto moreno e comprido já foi bonito, salpicado de sardas e de lábios bem delineados que entretanto perderam a forma do sorriso. jovem, terá se tanto a minha idade. a voz sai-lhe grave e arrastada.
senta-se na caixa da electricidade e dali pergunta a quem entra na loja se à saída não pode dar uma moedinha. passam por ela todos os dias muitas caras de sempre. no entanto parece nunca reconhecer nenhuma. fala a cada um com a mesma ladainha, o mesmo olhar vazio e desencontrado do simples reconhecimento. lê revistas e jornais que alguém lhe dá e partilha com o arrumador os cigarros que lhe vão arranjando em jeito de moedas que não aparecem. deseja saúde e um bom ano a quem lhe estende alguma ajuda, em Janeiro ou em Agosto.

mais uma. só mais uma. torna-se desagradável entrar na loja porque se sabe que invariavelmente se vai ouvir o "menina, se tiver uma moedinha que me possa dispensar à saída agradeço. obrigada, saúde e bom ano."

é fácil pensar em como seria. ela. onde beberia o café de manhã, onde pousaria os olhos ao atravessar a estrada, que cheiros a fariam sorrir, que tipo de mala gostaria de usar, se preferiria botas ou ténis. se gostaria de ler. se preferiria comédias ou filmes de terror. se gostaria de andar por Lisboa antiga a pé ou se preferiria os grandes espaços brancos e cimentados do Parque das Nações. se a chuva na cara a faria lamber os lábios ou baixar o rosto. se um homem alto de olhos verdes a faria perder de amores ou se preferiria o tímido franzino da mesa do fundo do restaurante. como seria ao conversar com os amigos sobre a sua banda preferida. que quadros ou imagens teria nas paredes do quarto. qual a disciplina preferida na escola. se teria complexos com a celulite, com as sardas ou com os dedos dos pés. se preferiria gatos ou cães. o campo ou a cidade. rosas ou margaridas. laranjas ou morangos.
se ao menos sentisse.

há umas noites atrás, estou à janela ao telefone. e vejo-a como todos os dias. mas nessa noite ela estava em pé, ao lado da caixa da electricidade, e todo o corpo estremecia desajeitadamente. ignorava quem passava, quem saía ou entrava na loja. apenas estremecia. virado para ela, à altura da sua coxa, um miúdo ria deliciado e desafiante, de espada do zorro em riste. e ela desengonçava-se fingindo uma morte arquejante sob o gume afiado do garboso cavaleiro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

esa mujer loca

dos 0 aos 100 numa palavra. na voz, decibeis acima do normal. capacidade para falar muito, discorrer ao pormenor sobre assuntos e abordar de uma forma quase autopsiante cada argumento, unindo-os numa elaborada e completa trama, difícil de acompanhar de tão longa, sempre apresentada num discurso fluido e alterado.
com isto poderia ter ido para direito. ou para a política [then again... no. ergh!]. por parte disto já me perguntaram porque não segui psicologia.
este é, basicamente, um dos meus milhares de defeitos.

por amor sou capaz de me exaltar desta maneira completamente absurda.
sou aguerrida nas coisas de que gosto, nas coisas em que acho que tenho razão, pelo bem dos objectivos que prossigo ou das pessoas que me são especiais.

por esta minha estranha mania de me lançar ao ar "em defesa da causa" [expressão de colher de chá] sou conhecida no sítio a que mais me dediquei e ao qual trouxe [tenho plena consciência] grandes frutos como "esa loca".
a minha forma demasiado apaixonada de defender as pessoas que amo [em todo o seu sentido] dos seus próprios erros [erros no meu ponto de vista, claro] pode inclusive levar as pessoas, depois de uma discussão acesa mas para mim sem danos colaterais, a perguntar-me se ainda gosto delas.
... gosto, se não gostasse simplesmente dizia "pois" e passava à frente...

no entanto, encontro-me mais serena do que alguma vez fui. o copo demora mais a encher. estou menos explosiva. vejo sempre os dois lado da moeda. peso-os, disseco-os [lá vem a autópsia]. normalmente acabo por deixar a minha observação "claro que compreendo. mas posso não concordar?". se não levo a minha avante fico aborrecida, mas lá está... passa-me pouco depois e não me chateio mais com isso. o que se diz numa altura não fica marcado daquela forma trágico-indelével que não me permita ultrapassar com um sorriso. estou sempre à espera das boas notícias, mesmo de gente que à partida não me pareça muito boa onda. não me apercebo imediatamente de que os outros podem ser diferentes e ruminem eternamente no mesmo. a minha boa disposição permite-me estar de bem com todos, deixar que me desiludam muitas vezes. e só perder a fé quando a desilusão atinge aquele único ponto, aquele contorno específico que não sei definir, apenas sentir.

por isso apenas num sítio sigo "la loca". e aí sou "la loca" pero no saben la pena que me da, chicos...