terça-feira, 31 de maio de 2005

óculos escuros

hoje vou "misturar lágrimas".
até amanhã.

bem...

está na hora. tenho um buraco no peito. não há-de ser nada. merece.

shakespeare

se os seus olhos estivessem no céu
lançariam pelas regiões etéreas raios
de tal forma que os pássaros,
esquecendo que era noite,
cantariam

R+J

perdoem-me, mas ando a levar com isto todos os dias e nunca deixa de me emocionar...

na passadeira

à espera que me deixem atravessar. passa um carro (ailerons, rebaixado, cd a balançar do retrovisor, e os etceteras todos), não me deixa atravessar. mas abranda em cima da passadeira e abre-se o vidro.
- ganda naaaaco!
- e se deixasses o naco passar ó esfomeado!
did I just say that...?

segunda-feira, 30 de maio de 2005

sei que soa uma tempestade algures. caem relâmpagos frios, soam trovões e o vento uiva daquela forma que sempre me arrepiou.
a força das águas verga as árvores. a água ensurdece.
fico. não procuro abrigo. à espera que caia de uma vez. que desabe no meu corpo pequeno. sou pequena. sou. ínfima. já nem estou.

estranhas formas de comum.

dever

quando a força é encontrar forças para se permanecer invisível.

domingo, 29 de maio de 2005

pequeno

sopra o fumo do cigarro.
não está aí ninguém?
não.
a madeira estala.
as sombras.
são nuvens alaranjadas.
não, são bichos.
quem?
estão a dormir. deixa-os sossegados. vai para a cama.
e se me apanham no caminho?
tens medo?
tenho.
está a uivar, é um lobo.
não, é o vento.
agora tocou-me. sentiste?
cala-te.
dói muito?
sim. mas cala-te. vai dormir.

choro

há dias em que as palavras não.

sexta-feira, 27 de maio de 2005

moinho

hoje está chuviscante. fresco, acinzentado.
mas o ar da manhã trazia o aroma da terra agradecida, das giestas e de flores selvagens, mesmo ali ao pé do eixo norte-sul.
trouxe-me as férias de infância num moinho no topo de um monte. dias de joelhos esfolados e escorregas de areia.

quarta-feira, 25 de maio de 2005

fragmentos


[ms]

"à minha frente vai um homem de duas cabeças. por uma delas, atravessam árvores, edificios, luzes"
ou algo assim, de Para averiguar do seu grau de pureza de Jacinto Lucas Pires

sugerido por um novo amigo

si...

no quiero estar
si
me quema el aire
no quiero andar así
si
la gente se hace nadie
si
no se
que diablos hago
si
que dios no va a entender
porque
no quiero andar asi
si
me sobra el aire

segunda-feira, 23 de maio de 2005

coisas simples

gosto...

[ms]
de escrever cartas, em papel, num bloco, numa folha, num guardanapo de mesa. deixar no papel os meus traços, a minha respiração, os cheiros. e receber em casa um envelope manuscrito, com selo, com carimbos [de lugares distantes que se calhar não vou visitar] que traz o vento do caminho nas fibras. abri-lo e receber o aroma do quarto, do jardim, da mesa de plástico onde foi escrita. e ver as letras, imaginar uma mão, uma expressão em cada palavra, em cada curva de caneta. a cor, a textura. tudo é um elo físico.

e gosto...

[ms]
de lençóis brancos. que convidam ao descanso num qualquer quarto anónimo em que o sol entra por frestas dos cortinados corridos. gosto de hotéis pelo facto de os lençóis, muitas vezes, estarem gastos, amaciados pelo uso. não dispenso o meu edredon de cores vivas, mas o lençóis brancos têm em mim um efeito mole, lânguido, solarengo...

passa a outro e não ao mesmo

Este foi um desafio que veio daqui, de um texto que começou aqui... e espero que continue por toda a blogoesfera... não lanço o desafio a ninguém em específico. é de quem o apanhar. o primeiro blogger que nos comments manifestar interesse, que pegue no texto. eu vou continuar a segui-lo por aí...

Maribel era uma rapariga de 30 anos, casada, mas infeliz. O seu sonho era fugir a cavalo da Bobadela, transportada pelo seu príncipe encantado. Mas eles não apareciam; nem o cavalo, nem o príncipe.O seu marido Adalberto era uma pessoa fria, de mãos rudes, que não a compreendia. Afinal, toda ela era uma pessoa muito complexa, que exigia um grau mínimo de atenção e carinho. Mas longas eram as noites em que Maribel ia de robe, à janela, olhar a lua e amaldiçoar o homem com quem tinha casado.Certo dia, no hipermercado, foi de encontro a um belo jovem...

..., de ombros largos e porte helénico, que Maribel já tinha visto na construção da nova torre em frente à sua janela. Era o António José, que já ousara comentários que a coravam. Maribel, que amava a vida, sentia a solidão como uma faca espetada na alma. Era uma mulher que aquecia até à febre da paixão, e o termómetro eram os seus vizinhos, que exasperavam com os suspiros nocturnos de Maribel.Mas a vida é uma só, e ela queria agarrá-la com as duas mãos, com toda a força que nem sabia existir dentro de si. António José, que estava agora à sua frente, pagava cervejas para dividir com os colegas de trabalho. Havia alturas em que Maribel se queria atirar da janela para um amor viril, mas, ali, na fila do hipermercado, bastava-lhe esticar a mão. E foi assim que viu o anel que lhe apertava o dedo, a aliança de uma vida, e se lembrou do dia em que deu o sim...

... de véu transparente, recebia a aliança com as estrelas nos olhos de quem encara o futuro cheia de esperança. num amor fresco e sem cálculos a não ser os da profissão de Adalberto, contabilista. que atraente lhe era Adalberto. magro, alto, de mãos masculinas, porte circunspecto, responsável. um homem às direitas, o Adalberto. tudo o que uma “mulherzinha” devia desejar. e ela desejara. mas depois da desilusão da noite de núpcias, vieram outras noites de núpcias desiludidas. mãos caladas, que não a sentiam. não sentiam a mulher, não a faziam sentir mulher. beijos envergonhados, sempre envergonhados. quarto fechado às escuras, sons abafados, palavras encolhidas. olhos ausentes. conversas sem interior. sorrisos escassos. diminuíam com o passar dos anos, porque a vida “está difícil lá na empresa”. porque os seus impulsos e risos de menina já não eram deslumbrantes, aliás, “ó rapariga, não podes ser sempre tão infantil, acalma-te”. é mesmo assim. tem de se crescer.
- Ó menina, quer-me bater? Ou por no bolso e levar para casa? Estou em promoção!
Aquele sorriso...

metamorfoses

voltei à morenice...
os longos cabelos de sereia estão em casa, num saquinho, à espera de novos dias de transformação.
acabei por me aperceber de uma forma mais intensa de como o meu corpo é um precioso instrumento de trabalho. foi a primeira transformação radical da minha "carreira". as outras sempre se conseguiram com menos esforço. cada vez sinto mais necessidade de estar num ginásio, de criar em mim estrutura para poder receber as personagens. o corpo tem de estar tão ginasticado como a alma.
saber dançar, cantar, sapatear, ler muito, ter aulas de história outra vez (agora que me interesso), de caracterização, de produção... tantas tantas coisas que me faltam... vou aprendendo às pinguinhas com a prática e a necessidade. mas precisava de me preparar melhor. quem sabe, se as coisas melhorarem, me possa meter num Holmes Place ou contratar um personal trainer... eheheheh

sexta-feira, 20 de maio de 2005

page not found

estou há 3 dias com o nariz encostado ao ecrã do computador. pesquiso cada cidade por onde vai passar a digressão de uma das minhas peças preferidas, de um dos meus encenadores de eleição. sei de cor cada teatro onde vão, a lotação da sala, as linhas arquitectónicas, os bairros, a população residente, a demanda cultural. estou a elaborar um complicado dossier, um projecto para atrair patrocinadores que paguem a viagem.
depois, provavelmente, vão passar 2 meses e tal de puro paraíso, a saltitar de cidade em cidade, a visitar as praias, e, ao fim do dia, palco com eles...
eu, a produtora, fico-me em terras lusas. já estará de chuva por aqui. e é preciso alguém que atenda os telefones enquanto eles vão lá... trabalhar... em princípio vão precisar de uma actriz para o papel principal. estudam-se as formas mais comerciais de substituição.
o meu crédito é pouco. sou só mesmo a miúda das teclas. às vezes é complicado estar do lado de cá e ter o sangue do lado de lá... ver passar as vidas de outros, os brilhos de outros, as oportunidades de outros, e, porque não dizê-lo, os cheques de outros.
as costas estão a latejar, os olhos só vêem uma mistura estranha de nuvens e um código indecifrável de cores, o cérebro pede descanso. hoje não dou mais.
bom fim de semana.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

manifestação

as manifestações de carinho que surgem dos mais inusitados peitos, são das mais preciosas.
manifesto, por isso, o meu agrado, o meu sorriso, porque no meio da tempestade beijaram-me com sol.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

injusto

é injusto, estou revoltada, de cabeça a ferver. há pessoas muito más e estúpidas, mesquinhas e ignorantes. que têm poder de decisão onde não deviam ter.
há talento, muito talento, muita capacidade de trabalho, muita entrega total. tudo desperdiçado.
mas, como me disseram, what goes around comes around e vão ver. não é desta. mas será de outra. e que venham as travessias todas que tiverem de vir, os moinhos de vento que tiverem de aparecer, não quero saber. muitos acham que sou muito forte. poucos me viram as fragilidades ou tristezas. ou quiseram saber que as tivesse. e é para estas coisas que serve essa carapaça. vou chorar, vou gritar de dor. mas vou-me levantar. e levantar os pés de vento todos que tiverem de ser levantados. porque assim não.

e se realmente me rogaram pragas, cuidado... elas retornam...

e, em honra disso, vou comer uma pastilha gorila.

terça-feira, 17 de maio de 2005

informação aos leigos e pobrezinhos

o prazo de entrega via internet do modelo 3 de IRS para o ano de 2004 foi prolongado para 25 de Maio.
aproveitem para tratar da burocracia [esse nosso dever patriótico de "encher os cofres do estado com os nossos parcos rendimentos para evitar que incomodem os ricos por fuga ao fisco, ou então vamos todos presos por meia dúzia de tostões"].
atenção que para quem não está já inscrito na net, devem pedir a vossa senha até amanhã, dia 18! [não, não é senha de vez, graças ao Senhor!!, é "password" em português, como eles chamam, que é para o Zé Tuga perceber alguma coisa, já que não se percebe patavina das alíneas e quadros para preencher... é que eles preocupam-se!]

estou a recibos verdes [e reparei que fiz de tudo, desde colaborar com uma revista, ser produtora e guia-intérprete, e auferi menos de 2000€!], devo uma batelada à segurança social porque ganhei menos do que o que me pedem para pagar-lhes, e as minhas despesas de saúde são quase maiores que o rendimento anual [ainda me vêm bater à porta e logo quero ver como explico que sou asmática, tenho ataques de ansiedade e sofri de acne grave até meados do ano passado], além de que por muito que se tente explicar, morar longe e trabalhar em Lisboa NÃO é motivo para deduzir a gasolina nem o passe social, e a maquilhagem profissional [para a cara não ficar aos buracos e cair, porque dá jeito tê-la para a próxima peça] JÁ NÃO é uma despesa justificada de actor...

estou convosco neste momento de dor.

momentos

na estrada, onde sinto que pertenço, onde não há censura e cada bifurcação é nada mais que um sorriso pleno de possibilidades, deixo-me ir de alma aberta. olhos brilhantes, fixos no caminho, perdidos na paisagem. não penso, não me deixo ficar presa. absorvo o que cada pedra no caminho me vai dando.

dou um grito, travo, encosto, saio a correr do carro. é aqui.


[ms]

ouvem-se gargalhadas a ecoar nos montes... fui eu? corro a abraçar a doçura das asas esvoaçantes de borboletas delicadas, que salpicam de vermelho aquele campo suave. ainda há sítios assim, onde o ar é mais leve, as cores mais brilhantes, e o dia corre devagar só porque apeteceu parar o carro.


[ms]

e deixo-me ficar, entre pétalas ondulantes, a preencher-me de vida e luz, de simplicidade. não sei quanto tempo fiquei. fiquei até sentir a alma plena de vermelho. depois, suspirando de contente, entrei no carro e arranquei, de sorriso aberto, mirando as paisagens em movimento, os autênticos quadros que Monet pintou para mim e não sabe...


[ms]

inspira

não temas. não esperes o pior. sempre te prontificaste a receber a vida que aí vem de braços abertos, e dispuseste-te a tentar mudar quando as coisas estavam mal.
não tremas.
não gosto de te ver esse olhar triste, inseguro. não vai acontecer nada. neste momento, acredito, com fé, que as notícias serão boas. a travessia no deserto foi longa e sofrida. mereces agora um perídodo longo de dias verdejantes, cheios de brilhos e cores fortes. mereces descansar. e por isso, cabeça erguida, e, se tiver mesmo de ser, que saias de ombros levantados. que a tua fragilidade conheça apenas quem gosta de ti e te aceita como és.
se mais não te posso dar, fica com isto...

segunda-feira, 16 de maio de 2005

raíz


[ms]
deitada, bebi água da chuva, a única verdadeira testemunha, que no seu ciclo eterno tudo percebe, em tudo entranha.
chorada, cai na terra onde semeia vida, para depois voltar mais leve que o ar ao céu, e correr com o vento por uma qualquer nuvem até uma fonte de pedra onde fica retida apenas o tempo que o sol demora a beijá-la e chamá-la de novo até si.
ali estão as raízes de inês.

passagens

por um palco onde entro espavorida, vestida a preceito, mas sem maquilhagem, de rabo de cavalo e as unhas ainda pintadas de vermelho, para o ensaio geral.

revêem-se as marcações, no espaço novo, que por duas noites é nosso. brinca-se, de alma leve e cansada, sem deixar passar as horas impunes de sorrisos.
depois, é o espírito de Inês que chega.

estamos na terra dela, no local onde mais amou, onde a sua vida foi mais intensa. e sente-se. e depois passa-nos na pele o arrepio da entrega total. e as vozes lançam-se ao céu, rebatidas numa muito má acústica, os gestos fervem como nunca, em defesa de quem nos deu a alma e a história para contar.

tremo. acabou. não quero largar a mão do rei, imploro por mais um pouco. porque não? é o último dia? não me posso salvar, só hoje? e o principezinho, o Guinho, que se perde comigo ao colo, inerte, impotente, entre soluços desconsolados porque perdeu a sua Inês. e não renascerá no dia seguinte.

no final, ficam as vozes falhadas, a dicção traída pela emoção, que sai descontrolada, entre soluços de real sentimento. e da ficção faz-se realidade, porque não é possível distinguir os dois. porque a saudade já é muita, e apesar de se sofrer sempre, de se acabar cansado e abatido, a paixão é maior, e as palavras são pequenas para o peito tão cheio que transborda pelos olhos.

a noite corre devagar, de mãos dadas com a saudade, com copos de vinho tinto, gargalhadas sonolentas, corpos jogados pelo chão do quarto, demasiado pequeno para todos os que se acumulam lá, sem vontade de separação.
combina-se uma última visita a Inês.
percorrem-se os seus antigos recantos secretos, cheira-se o ar e a estranha paz que ali penetra no corpo. e toca-se nas suas lágrimas, no meio do silêncio de um jardim que a viu amar.

e descansa-se nas raízes centenárias de uma figueira que seria pequenina no dia que a viu morrer...


até sempre, posso dizer, minha nova amiga... e muito obrigada.
[fotos de ms]

question of love

há coisas destas...
a minha colega não faz ideia da minha vida. faço questão que assim seja, para, se tiverem de me despedir, não ter de chorar muito. não sabe se estou alegre, triste, cansada ou com uma depressão. sorrio sempre e falamos de coisas simples, trabalho e "fait-divers".
no entanto, há bocado apeteceu-lhe ouvir música e pôs um cd que tinha para ali...
não podia saber que me sabe tão bem ouvir Gift logo pela manhã...
it's because I met you...

alterações climáticas

hoje tinha resolvido acordar bem disposta.
mas o tempo deu-me a volta e estou de chuva.

quarta-feira, 11 de maio de 2005

take me away

uma música triste de Silence 4, uma balada doce de Lifehouse...
o estado de espírito desta quarta feira.
vou-me embora. por alguns dias, vou-me alhear do mundo. desta vez a redoma é minha.
pegar no carro e ir. fazer-me à estrada. com destino marcado a vermelho no mapa, para uma despedida em grande.
depois, logo se vê.
vou poder descansar. a cabeça [das ansiedades], a máquina [que anda outra vez aos saltos], o corpo [fraco e dorido].
mas acima de tudo, vou poder ser.
sorrir quando realmente me apetecer. chorar se e quando me apetecer.
vai ser um fim de semana prolongado de apetecimentos.

teste de personalidade

eya...!

The Performer
You are a natural performer and happiest when you're entertaining others. A great friend, you are generous, fun-loving and optimistic. You love to laugh - and you like almost all people equally. You accept life as it is, and you do your best to make each day fantastic.
You would make a good actor, designer, or counselor.

tirado daqui...

feira popular


o grito, E. Munch

altos e baixos, catadupa de viveres sem ordem, descidas violentas de vento cortante, tontura de espelhos e luzes repetidas, choque abrupto, faíscas e guinchos. cabeça para baixo, comboio escuro. cheiros fortes, barulho, muito barulho. música alta, apitos. bolas. doces. pinga água fétida no asfalto gasto de passos fantasias e gargalhadas soltas como balões de hélio, mais leves que o ar.
meter a moeda e o bonequinho ri, brinca, preenche o ar cinzento com o verniz vermelho, as cores vivas de desenhos redondos estalados.
desengonçada, sem eixos. boneca quebrada de sorriso radiante. traços de absurdo em pragmatismo clínico. madeira e metal.
aponta que acertas, leva prémio.
quero algodão doce. do branco.
instável. desequilibrada. desabo. doem os músculos. carrega no botão. ombro esquerdo. choro.
há que fechar para balanço.

terça-feira, 10 de maio de 2005

logo de manhã...

... abro o mail e fazem-me chorar.
de alegria, de saudades, de sensação que há alguém que reparou.
é que às vezes a necessidade de um "estou aqui, gosto de ti" é tremenda...
e as consequências dele bastante... húmidas...

segunda-feira, 9 de maio de 2005

closing time...

entre mil e uma fantasias, vive-se intensamente até ao dia de fecho.
passa-se a porta, cumprimenta-se os amigos, colegas.
percorre-se o hall onde estão afixadas as fotos, percorre-se o corredor e lá está, eterno. quatro arcos de pedra gigantes, a plateia de veludo vermelho, o palco negro de cenários montados. mas desta vez dói um bocadinho. dói sempre que termina uma peça. o último dia é um misto de adrenalina, alívio e saudade. penteiam-me com um carinho diferente, ao fazerem-me os canudos. juntam-se todos no espaço ínfimo do corredor, a aproveitar os momentos de folia que naturalmente vão acontecendo. a contagem decrescente, enquanto caracterizo os colegas, me maquilho e visto, parece mais curta, mas saboreada a passo de tartaruga.
depois a corrente, em que distribuímos a nossa energia pelos outros e recebemos a deles. uns mais concentrados que outros, não interessa.
ouve-se o anúncio para desligar os telemóveis, corremos às posições. depois, decorre a peça. à espera para entrar, alguém me vem abraçar. "obrigado por tudo". vêm-me as lágrimas aos olhos. "só te dei uns berros por causa da dicção, Matt". ele, o eterno folião, continua sério, de voz baixinha "obrigado, a sério, pequenina. foi muito bom." ora bolas. controla a respiração rapariga, vais fazer de morta...
pregam-se partidas a uns colegas, respeitando sempre o público e, portanto, sem prejudicar as cenas. a mim deixaram-me um pano preso no chapéu de tal forma que quando o pus à pressa, não via nada... ri-me.
o tempo passa a correr. há sempre o momento do cigarrinho quando "el rey" está a fazer o seu monólogo lá à frente. os olhares estão mais ternos. lá vou eu, para a minha cena. hoje não foi difícil chorar. até tropecei no texto com a emoção mal controlada, misturada. dizem que estava muito realista... de repente os aplausos e os sorrisos para o público. obrigada.
chegar lá atrás e desabar. custa sempre, sempre custará, mas por isso é que não largamos mão. num abraço bem forte, despejamos lágrimas e agradecimentos. há sempre o idiota que não alcança o quanto aquilo dói a uns. o quanto foi um parto complicado, a luta desgarrada, apesar de... tudo.
depois ir dar um beijinho à amiga que lá apareceu, de máquina ao ombro.
ficamos nós, de novo, idos os amigos e desconhecidos. é altura de empacotar tudo, a ida para Coimbra é já daqui a pouco. mas ali... ali já acabou.
e olham-se as mensagens no espelho, uma última vez, os cabides vão-se esvaziando. agora o camarim áté faz eco. e a maquilhagem espalhada, os ganchos, os pincéis, caixinhas e frascos. tudo volta à mala, limpo, organizado. mas com as cicatrizes de mais uma vida pintada com pós mágicos.
alguém diz "já tenho saudades tuas"... oh, lindinha, estou aqui...
vou ao escritório mas ainda não tenho coragem de arrumar as agendas, a velinha e demais pertences. volto durante a semana. vou ter com o resto do grupo ao palco, agora vazio. estão lá todos, todos aqueles que normalmente têm pressa de sair porque trabalham no dia seguinte. hoje ficamos na conversa, a rir e prolongar as horas, para a saudade não doer tanto, pelo menos por agora...

sexta-feira, 6 de maio de 2005

morangos

delícias escondidas em espesso creme branco. sem vergonha aveludam a língua que os envolve, deixam o seu suco escorrer pela garganta. desce o aroma fresco pelo corpo, olhos fechados. penetra pelos poros a vontade da volúpia. a doçura quente de vermelha aquece a pele sequiosa, o ácido frutado arrepia, inebria. sabores que se misturam com a respiração vagamente alterada.

azedas

especialmente para ti e para ti... uma azeda!

agora é arrancar a florinha (que eu acho linda), meter o caule na boca, e ir mastigando... o desporto preferido de muito puto... quer dizer, no meu tempo era...

o botânico cantor

vagueia pelas pedras seculares do bairro. entre ombreiras de portas e escadarias de museus. surge de nadas, todos os dias no passeio, no caminho de quem tem para onde ir. ele está ali, simplesmente.
magro, já nos 40 ou 50... talvez mais, talvez menos, quem é das ruas não tem idade certa. orelhas saídas do rosto emagrecido, olhos grandes aumentados pelas lentes grossas dos óculos de massa de estilo anos 70, já reparados com fita-cola, o olhar vago das pedras que lhe servem de cadeira.
um dia, ao sol, com uma garrafa de cerveja pousada ao lado, mirava fixamente um minúsculo vaso de plástico verde que tinha uma florinha. cantarolava baixinho.
outro dia, à sombra de um prédio amarelo, sentado com a companheira garrafa, cantava em plenos pulmões uma das suas cantilenas, agarrando fervorosamente uma rosa de pé que lhe servia de microfone.
hoje andava pela rua com um molho enorme de malmequeres amarelos de caule comprido às costas, que se destacavam pela alegria no meio da roupa suja e escura.
agora todos os dias percorro a calçada de nariz no ar, curiosa por saber onde o irei ver, e que música terá para me cantar, que flor para oferecer ao vento.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

pedaço de serra


é neste raminho fresco e bem-disposto que enterro o nariz. vem-me à boca o sabor das azedas.

euphonia


[ms]
noite dentro, o cansaço acumulado quebra a elasticidade da voz, única e preciosa ferramenta de trabalho, já debilitada com uma súbita constipação. tem de se gravar 3 programas... e não vale a pena estrebuchar, que é para entregar de manhã. então cá vamos, no mundo das cores, tentado dar ao bonequito a alegria que sai sabe-se lá de que confim adormecido do corpo. dói a garganta. pausas cada vez maiores para beber água e descansar. uns golos de xarope (que tem etanol, vamos lá ver se isto não sai demasiado entaramelado), umas pastilhas que já me salvaram da afonia mais vezes.
é um trabalho a dois. o técnico é o melhor amigo, e se lhe facilitar a vida, ele facilita-a a mim. portanto, tratamos de brincar bastante. só assim se suportam as horas abafadas do estúdio.
fazem-se considerações acerca da sexualidade de um mocho. da estranha tara de uma das personagens de lacinho na cabeça por homens feitos.
fazem-se trocadilhos com expressões inocentes, que tomam outros contornos no meio da palhaçada e, às vezes, acabam alteradas na gravação por via das dúvidas.
soltam-se imprecações à incapacidade das tradutoras de escreverem de forma coloquial, o que acrescenta mais trabalho à nossa cabeça esgotada.
tenta-se ter a certeza de que não escapou um suspiro, um gemido, um ah de espanto... e rogamos pragas às miúdas, que gemem tanto, parece uma porno-chachada...
agora a Teresa, depois a avó, depois a princesa, ontem foi a formiga...
para o fim fica o episódio em que se fala de Portugal... a série é espanhola... só podia haver molho... então no reino de Camões a princesa Amália, que nunca sorriu, vai ser conquistada pelo José Pessoa e a sua gaita... [de foles mágica!] extremamente didático...
bem, venha o próximo. mas hoje não, que já são quase 2 da manhã e a garganta não dá mais.

espiga

em miúda era eu que fazia os raminhos de espiga. subia à serra, e, pequenina como era/sou, desaparecia no meio das ervas altas à procura das flores silvestres e das espigas que cresciam livremente por ali. adorava compôr as florinhas em ramos farfalhudos, dispondo-as por cores, tamanhos. depois atava bem com um cordel... tinha era pena das flores. nunca gostei de as ver murchar, faz-me impressão.
em chegando a casa, esperava impacientemente que os meus pais chegassem para o beijo e a correcção dos trabalhos de casa. para depois lhes dar os raminhos feitos com tanto carinho.
hoje em dia, maldita a hora em que virei adulta, já não tenho tempo para ir para a serra. mas quando passar no metro, vou comprar um raminho da espiga. que se lixe o capitalismo, eu quero mesmo é um bocadinho de serra...

quarta-feira, 4 de maio de 2005

preto e branco

abafe-se parte da culpa em dois dedos de boa prosa. que a outros, assim, nascem as espinhas bífidas, as escamas e as línguas bicudas. deixam um lastro de gosma e soltam veneno num hálito que existe somente para sufocar os pobres inocentes a cada gargalhada solta com sadismo. preto e branco. e mais nada. porque assim é mais confortável. porque a exclusividade de dores e sentires existe e, sem darmos por isso, agora é preciso autorização da SPA.

ontem vi


o dia a ir-se em nuvens roxas pintadas de um violento carmim. entre pequenas gotas de água que entornavam e tornavam a imagem semelhante a um quadro impressionista visto de demasiado perto.
lembrei-me de outros quadros impressionistas que conheço.

terça-feira, 3 de maio de 2005

fominha

prepara-se a digressão.
a produtora fica encarregue de organizar os transportes, refeições e alojamento com a Câmara.
até aqui tudo bem, se não fossem as particularidades desta companhia...

supostamente ia-se na véspera, os técnicos de manhãzinha para montarem tudo, o elenco à tarde só para ensaiar. o dia seguinte é para arrumações, arranjos na roupa, descontrair e peça à noite. decidiram que é melhor irem 2 dias antes, porque a montagem de luzes é complicada... tá bem, irem passear é o que é. fazerem 3 horas de almoço e outras tantas de jantar e ficarem escandalizados porque os técnicos de lá têm horas de sair e o teatro horas de fechar. se chegarmos como em Alcobaça e ainda tivermos de ensaiar no próprio dia da apresentação porque eles não fizeram nada nos dias que lá estiveram, vai haver molho...

depois, o teatro não pode cobrir as despesas de transporte, organizem-se para irem todos nos carros da Câmara. sim senhor, é justo. mas eles vão em dois carros... próprios... ah!!! quem tem de ir no transporte da Câmara é o elenco... que por acaso metade pode ir de manhã [o que dá jeito para engomar roupa e arrumar camarins] mas a outra trabalha e tem de sair de Lisboa ao fim do dia. para fazer um itinerário mais rápido que marcar um ponto de encontro, tem de se ir parando à porta das pessoas para as apanhar mal saiam... afinal a única despesa que o teatro não pode suportar é a do meu carro...

já agora... de repente, caem de pára-quedas uma data de "amigos para ajudar"... e lá vão para a digressão. e, já que estamos nisto, porque não? trazem os namorados que não têm nada a ver com aquilo e, claro, marcam-se quartos duplos para os casalinhos... é que uma queca à pala da Câmara sabe sempre bem...

neste teatro sempre se trabalhou à percentagem de bilheteira. que, feitas as contas, é uma miséria, porque temos pouco público e os elencos são grandes. mas desta vez, com espectáculo comprado, pia mais fino.
é que está lá uma produtora com uma folha excel, relatórios de despesas e cópias de facturas que se vai certificar que o refugo receba o que merece... já que tenho a fama tenho o proveito.

coimbra tem mais encanto...

... na hora das festas académicas...
que é exactamente a altura para que está marcada a nossa digressão lá...
vai ser bonito, vai. estou mesmo a ver a minha colega lavada em lágrimas, de olhos semi-cerrados, mão na testa, aos berros ininteligíveis como é seu costume, frente a uma plateia de comas alcoólicos... isto se houver gente na plateia...
ou uma cena intimista de D. Pedro, a lamuriar-se da perda da sua Inês, a falar baixinho porque a dor lhe tolda a voz, e, ao fundo... uma banda sonora grátis de uma qualquer banda rock-punk lá fora... eheheheh

segunda-feira, 2 de maio de 2005

caixotes

de vez em quando lembro-me da promessa que te fiz. já tu não a ouviste, ou talvez sim. fi-la por mim, também.
veio-me do fundo da alma. veio-me com a vontade de te ter de volta. veio com a vontade de te guardar para mim.
veio com o cheiro a começar a ficar abafado, naquele corredor. não queria que ficasse abafado nunca. queria que cheirasse sempre a comida caseira, a alfazema e a amaciador de roupa.
veio há uns anos. veio à medida que empacotava tudo. tive de ser eu. sobrei eu. sobro eu. de certa forma foi melhor. preferi passar aquelas horas entre panelas e lençóis tristes sozinha, que como no primeiro dia em que a minha mãe ainda tentou fazer qualquer coisa e derretia os caixotes com as lágrimas. foi o dia em que se tornou ateia, acho eu...
de qualquer das formas, lá teve de ser. e sobrava eu. tive de atravessar a estrada onde especialistas ainda encontrariam vestígios de giz, das solas das minhas sandálias coloridas, de pele dos meus joelhos e de mercuriocromo. tive de subir as escadas frescas onde me abrigava do Verão com as amigas e as Barbies. onde dei o meu primeiro beijo ao Carlos dos olhos verdes, que depois foi para França. tive de dar a volta à chave, pensando em quando o fazia às 5 da manhã, depois de tu dizeres à minha mãe - piscando-me o olho enquanto me vias calçar as botas de salto alto - que eu tinha ido dormir às 10 da noite.
o corredor estava escuro, mas quase vislumbrei a tua figurinha pequenina de avental a movimentar-se pela cozinha, ao fundo. era engano, de certeza.
e lá estive de volta da tua cozinha, de onde se vê a "serra" onde íamos apanhar papoilas no dia da espiga... e noutros tantos... sabia que querias que ficasse com o escorredor, do aspira-migalhas e outras geringonças amarelas. olhei para as colheres de pau. trouxe-as comigo em honra das vezes que me ameaçavas com elas se eu não acabasse de comer a sopa. só ameaças... estou-me a rir. "olha que esta é especial, veio de Espanha! esta é mais dura e tudo", gritavas, agintando-a no ar. e eu lá ficava uma, duas horas em frente ao prato da sopa, porque não conseguia mesmo. chegávamos invariavelmente ao consenso do desgaste. eu engolia umas colheradas em sufoco e tu levantavas o prato. o que eu gostava era do bife com esparguete e muito ketchup. ou "kitchaipe", como tu dizias...
depois vieram os senhores da carrinha e levaram os sofás da sala onde eu acordava de madrugada sem saber como, [a fase sonâmbula], a Mafalda ficou com eles. e fiquei sentada no chão a olhar para as marcas de anos do seu peso na alcatifa escura. tantas horas ali a ver os "bonecos". ficou lá a mesa de jantar onde eu fazia as casas de bonecas. essa ficou. onde eu espalhava todas as almofadas da casa para fazer uma "cama de luxo". eram os jantares de quinta-feira, o cozido à portuguesa em que eu fazia bollycaos com o chouriço de sangue e pão. os meus pais ficavam até mais tarde e comíamos todos juntos. depois íamos à janela despedirmo-nos deles, que desciam a praceta a apitar.
era, era.
ainda vi [vi, pois] a tua sombra no quartinho da alegria, onde estava o nintendo. onde eu brincava com a Vanessa [coitada, casou com um taxista e já tem três filhos com nomes lindos como Ana Micaela e Rebeca Sofia...] horas a fio, às modas e aos escritórios. e onde eu dormia a sesta apesar do chato do galo da vizinha de baixo que mais parecia um cuco. onde adormecíamos as duas a ver televisão à noite, depois do chá com torradas. onde devorava as argolas de chocolate que me trazias às escondidas, para a minha mãe não vir com o discurso da "coitadinha da tua irmã não pode comer porque é alérgica, portanto ninguém deve comer para ela não ficar triste". a alergia dela passou. a minha descompensação de doces mantém-se até hoje. só tu me adoçavas a boca.
ali naquele armário do quarto guardavas-me a caixa de bolachas de chocolate. onde eu tinha os cadernos da escola, os meus livros preferidos, as "pinturas", as aguarelas e o giz para desenhar na rua. lembro-me dos lençóis de flanela, apesar de estarem num saco há uns 4 anos. tenho saudades dos lençóis de flanela. de te ver passar no corredor, de te ver espreitar pela frincha da porta a ver se eu estava a dormir. depois entravas pé ante pé e davas-me o beijinho-de-boa-noite-dos-sonhos. porque o outro davas quando me deitavas. deixei escrita uma frase do Mia Couto na minha gaveta. só para ti, que és a única que ainda lá anda e pode lê-la.
deixei ficar em cima da prateleira da casa de banho um dos teus batons em miniatura que eu às escondidas esfregava sofregamente nos lábios, com a minha mania de ser mulherzinha. e tranquei o teu quarto à chave com a bailarina e a caixa de música lá dentro. para eu poder lá voltar de vez em quando e dançar como em menina. fui fechando a porta, deixando aquilo assim. o ar pousar. como agora és mais leve que o ar, os teus passos não perturbarão o pó.
ouço-te a cantar os teus fados. só acontecia quando estávamos sozinhas. e isso é um tesouro. o outro é a memória da tua pele que está na minha.
um dia hei-de cumprir a promessa. e vou comprar a casa onde moraste. e nunca mais vou ter de encaixotar recordações.

meteorologia

hoje de manhã estava sol na minha terrinha. vesti uma camisola cor de rosa com um decote enorme em V.
agora tenho frio nos ombros...