sexta-feira, 31 de março de 2006

mulher das obras



levo a mão ao bolso à procura de trocos, encontro no meio das moedas duas anilhas. páro e olho para mim. reparo em mim inteira e nos novos objectos que passaram a fazer parte dos meus dias. as calças de trabalho, como lhes chamo. de ganga, largas e de bolsos de lado. as botas de montanha que me dão jeito para empurrar os contrapesos que não consigo levantar do chão. mais à mão que as chaves, o passe ou a carteira está sempre o canivete. com que descarno fios eléctricos, aparafuso iodines e reabilito cabos. e já dei por mim no Aki a admirar uma aparafusadora eléctrica daquelas pequeninas, a pensar "que jeito me dava lá nas montagens, em vez do bajolo"... apesar dos comentários engraçados que ouço dos colegas quando dizem "que sexy é uma mulher com um berbequim", acabo por pensar: ok, yin e yang e tal... todos temos lado feminino e masculino... essas coisas todas... sim, tá bem, mas é testosterona a mais por dia, caramba!

ai... e os meus sapatinhos laranja largados abandonados à chuva e à fome de calçadas... no quarto... sniff...

quinta-feira, 30 de março de 2006

avessos

gosto de avessos. de interiores. de toques com sentidos subliminares. de contextos e pretextos. de intenções. entrelinhas. gosto como gosto de um doce que se espreme entre a língua e o céu da boca devagar, que se deixa escorrer pelo palato como se fosse uma palavra complexa, cheia de ditongos e arabescos. que se degusta. gosto de suspeitar apenas de um olhar e de poder penetrar nele lentamente, pedindo que me seja dada essa permissão, sem palavras. gosto do interior dos suspiros, onde se alojam os segredos. escondem-se vidas inteiras sussurradas no eco de um gesto. as memórias que o voo de um cabelo transporta. o receio que o brilho da pele encobre. pode ser um silêncio que grita. pode ser um grito que murmura. é nesse avesso das pessoas que se encontra a sua alma. nos pequenos ses. na água. dos olhos e da boca. das mãos. nas dúvidas e fragilidades em que se revela cada intimidade. cada íntimo. onde se desnuda o ser. quando simplesmente se é.

terça-feira, 28 de março de 2006

coisas boas

acordar tarde e não sentir que perdi metade do dia.
beber a bica da manhã na esplanada.
fazer a marginal de vidro escancarado, música bem disposta e dançar nos estofos do carro enquanto o rio brinca com os seus reflexos no meu rosto.
deixar o casaco nas costas da cadeira quando vou almoçar.
sair do escritório e ainda ver as ruas antigas da minha Lisboa coloridas de luz.
o regresso da sensação de criança de que posso ficar a brincar até às tantas.

lembrem-me lá: por que raio é que existe o horário de inverno?

segunda-feira, 27 de março de 2006

dia mundial do teatro


[fotos de T.]

era um dia de chuva intensa.
estávamos sozinhos. ele tinha ido para o México e tinha pedido que não deixássemos o teatro inactivo. quando voltou, tínhamos conseguido um pequeno apoio da semana da juventude e duas peças preparadas. uma terminava hoje a outra começava hoje, sessão dupla. eu estreava hoje.

cheguei cedo ao teatro, com uma colega. tinha a chave, abri as portas e fechei-me lá dentro. ainda o silêncio das pedras. íamos começar a preparar tudo para a mega-produção da noite. faltava arranjar a entrada, com fotos, cartazes. verificar se a loiça estava lavada para a enchente de bicas e imperiais, se a bilheteira estava organizada. faltava dar a vista de olhos aos e-mails. preparar os bastidores e a cabine técnica, para depois a máquina funcionar como deve ser, as trocas de funções serem rápidas e o público não esperar muito durante o intervalo para mudança de cenário.
as luzes já estavam alinhadas para servir os dois espectáculos. tínhamos ficado a ensaiar o nosso até às 8 da manhã. alguns tinham aparecido com bolos para nos dar força e a E. dormira na plateia enrolada nos nossos casacos, para não nos deixar sozinhos. o T. lá em cima, incansável, desenvencilhara-se sozinho na "cozinha", batendo bolos e fritando bifes, tudo ao mesmo tempo, com a luz e o som só para ele.

chego aos bastidores e quando levo os dedos ao interruptor ouço um estranho chapinhar. tento acender a luz sem resultados. os olhos habituam-se depressa à escuridão e apercebo-me de que há água até ao segundo degrau dos camarins. dava-me, portanto, quase pelos joelhos. adereços a boiar. no meio do pânico, a duas horas de estrear, as borboletas dobraram o trabalho de enviar a sms: "houve um inundação. os camarins estão cheios de água. todos ao teatro, rápido". desligámos o quadro, alçámos as calças e tirámos os sapatos. com uma lanterna fomos retirando lá de trás o que era preciso e fomos espalhando as coisas atrás do cenário. as pessoas iam chegando e cada um ia ajudando no que podia. uma "recém aquisição" ainda se fez de esquisito, dizendo que, já que estávamos encharcadas, podíamos trazer as coisas dele. mandei-o passear no mais proverbial léxico suburbano que tenho dentro de mim. e ele descalçou-se e foi à água como todos.
alguns prepararam a entrada. alguém fez a bilheteira. não tínhamos onde nos maquilhar. a roupa estava a ser seca com o único secador disponível. o público chegava. deixámos que nos vissem, já sentados, a maquilhar na mesa de adereços que compunha um dos elementos do cenário. tinha a ver com o espectáculo. licença poética.

depois fomos lá para trás. abraçámo-nos todos. e saíram os que tinham de ficar lá fora. o director explicou ao público o motivo da meia hora de atraso, honrando surpreendentemente o nosso esforço para mesmo assim podermos dar-lhes o que tínhamos prometido.

começou a música e nós entrámos a dançar. e depois foi um daqueles momentos mágicos. que sabem melhor quando se luta muito e se está bem acompanhado. risos. generosos e francos. num momento em que se fala do cinema português, fazemos um black-out. silêncio do outro lado. e, de repente, a gargalhada e a explosão de aplausos. quando abrandaram, pudemos falar, e seguiu-se outro turbilhão de risos. e mais risos. no fim, o abraço lá atrás e o choro convulsivo, interrompido pelas várias chamadas ao palco. apontar incessantemente aos rostos que adivinhamos no escuro, que sabemos que estão lá.

despir, com as pernas a tremer. receber os abraços dos outros, que entram agora para a sua vez. arrumar tudo da melhor forma para dar espaço. ajudar a E. no penteado elaborado. abraço e muita merda. divirtam-se. subir à cabine técnica. mudar o cd. vai começar o outro espectáculo.

foi um dos momentos mais bonitos que vivi. foi há dois anos.

quarta-feira, 22 de março de 2006

oh life

eles dominam a àrea e nós só nos sentamos e acreditamos... é um bocado como os mecânicos... e ele conseguiu finalmente o que queria.
Carrasco sentou-me na cadeira, e, apesar de vir para simplesmente tratar um dente, voltou ao ataque com a coisa de:
- mas porque é que não quer extrair os sisos...?
- mas eles estão a prejudicar-me a boca em alguma coisa?
e ele baixou os olhos, contrariado e murmurou
- não...

deu a anestesia e, com dois dedos de conversa [ou seja, enfiados na minha boca] lá começou a perfurar. até que estranhamente [porque ele pode ser muita coisa mas não costuma magoar... salvo seja] a broca do senhor me toca num ponto que me faz soltar um trémulo "ehá a huer"... ele escavaca mais um pouco, meio apreensivo e lá me diz a boa-má-nova-depende-do-partido-que-se-toma:
- Polegar, você tem uma cárie pequenina no siso, mas é profunda e está a chegar ao nervo... sendo um siso, não vejo necessidade de o mantermos. penso que o melhor será extrairmos... o que é que acha?
[na minha cabeça corria: "mantermos? extrairmos? sente-se lá o senhor, então que eu fico com a parte do alicate estranho...!" e logo a seguir "dasse, mas eu não vim preparada para arrancar um dente... se calhar, se passar um cheque traçado, dá-me tempo de depois cobrir antes de ele o conseguir levantar. quanto levará este gajo para arrancar um dente, ele é tão careiro, isto hoje já me ia prejudicar tanto o mês e ainda tenho a revisão do carro..."]
- Polegar? está mentalmente preparada?
- não.
- então, como é que fazemos?
- tire.
["não, deixe ficar, eu saio assim mesmo, com um buraco no dente!... ou melhor, tape tape que eu quando estiver mentalmente preparada volto cá, sim? aliás, nem se demora três meses para se conseguir consulta! duuh!"]

pois que me deu mais uma anestesia e enquanto esperava que fizesse efeito, vasculhou-me os outros dentes, chamando a assistente, nos seguintes remarks:
- já me viu esta dentição? é perfeita... é que está mesmo impecável... Polegar, vai-me deixar tirar-lhe umas chapas, não vai?
- mash há mhe hirou unsh moldhesh...
- sim, sim, mas além dos moldes também precisava das chapas. é que são óptimos para fazer modelos de prótese...
[garganeiro! agora as velhas vão andar com os meus dentes... não vale!]
- há bem...

depois pronto, puxa, repuxa - delicadamente, não é como o outro que foi à bruta -, e salta cá para fora um siso que eu não sei como me cabia no meu pequeno maxilar. deu-me uns aulins para o caso de ter dores e disse
- cuidados a ter: pouco esforço físico e comer coisas moles e frias. tome um aulin antes de ir trabalhar na tal montagem de teatro amanhã. vem cá para a semana tirar os pontos e daqui a uns três meses tiramos o de cima, que agora não está aí a fazer mesmo nada.

pago [com cheque traçado, mas surpreendida por me custar o mesmo que uma limpeza] e saio para a rua com a boca de lado.

- hey, Joey, gimme a pint.
- are you sure?
- hoo ya... Cookies and Cream, the full pack!

segunda-feira, 20 de março de 2006

do patrao

[às voltas com um documento word]

- ó Polegar, onde raio estão os headers and shoulders?

sexta-feira, 17 de março de 2006

separar das aguas

largo o ar que é menos puro que o meu cigarro. num pequeno compasso, fujo para onde ninguém me vê. para um momento que conheci de cor. sei que será agora ou nunca que o reviverei. aquele em que descalça passeava nas tábuas frias, sozinha. não me descalcei nem subi os três degraus mas senti aqueles segundos perfeitos. ouço lá fora o burburinho das vozes dos outros. e lá ao fundo as gargalhadas daqueles que fui. deixo-me ficar ali, no silêncio do entretanto. olho em volta, os assentos expectantes de corpos. a parede alta, que parece não terminar. chegam-me os cheiros das madeiras atrás de mim e parece-me ver uma figura esguia de rolo na mão. a marca no rebordo do degrau por onde descia para me sentar. acaricio o veludo vermelho a medo, quase a pedir-lhe permissão por uma intimidade que agora sinto estranha. mas inevitável. como um velho amante que conhece de cor a pele e os cheiros mas que já não pode possuir. outro vulto me passa, apenas nos olhos, passeando devagar no escuro, em cima do palco. esse senta-se de pernas cruzadas, abraçando os joelhos e deita-se. mira a teia onde repousa as preces. cheira-me a cabelo quente, a laca e a baton. outro estranho ser que reconheço mas não conheço está sentado ao fundo, num sofá, à espera da mão. apenas duas luzes estão acesas para que não se caia, mas poderia subir, descer, contornar e enrolar-me no espaço sem vê-lo. mas não o faço. permaneço até sentir o ligeiro tremor. e vejo nitidamente a rapariga saltitante de chapéu branco e saias volumosas, seguida de perto pela mulher fatal de camisa de dormir demasiado curta. ao fundo, atrás de uma cortina vislumbro a senhora triste de cabelo preto e xaile. a mulher rebelde que dançava ao som do musical. a outra, de longos cabelos loiros, abre o peito às espadas e chora baixinho. dançam à minha frente em movimentos cada vez mais leves até se esfumarem no silêncio. um arrepio. o meu querido abraço quente. são as pedras. aliviam-me a culpa de já não me terem. agradecem-me os dias em que nelas me enrosquei, em que me deitei e rocei. bebem os restos da minha entrega, os despojos da minha paixão. beijam-me o rosto num fôlego morno, terno, doce que me escorre nos lábios até bem fundo dentro de mim. lambem-me o sal e o pó que usava para lhes contar histórias de encantar. cada reencontro dói mais. amo-te.

segunda-feira, 13 de março de 2006

franjinhas


[ms]

porque acordei e cheirava a verão. porque queria abrir a janela e dizer bom dia ao céu azul. porque é quase lua cheia. porque mulher é mulher e muitas vezes mulher é mesmo vaidosa. porque mulher é mulher e quer mimo e sentir-se bonita. porque em menina usava franja. porque queria um reflexo mais descomposto e bem disposto. porque o meu nariz também precisa de fazer a fotossíntese. porque queria manter as raízes fortes e brilhantes e dar um corte nas angústias gastas. porque sim.

sexta-feira, 10 de março de 2006

music for a found harmonium




music for a found harmonium | penguin cafe orchestra

descobri-te quando tropeçaste o meu caminho em papel de jornal.
quis-te assim, inteiro. verdadeiro. e não sabia como te chegar. apaixonei-me como criança num campo de girassóis. fui lentamente aproximando-me do teu rosto de luzes [e]ternas, madeiras cansadas. emoldurado pelas vidas em cartaz. programa extenso com letras de teias enredadas por mãos de velha sábia.
envolvi-me toda em ti e deixei-te possuír-me. pequenina, enrolada em posição fetal, a luz abraçou-me, aqueceu-me, deu-me a vontade. os braços mexeram-se sem pedir-lhes nada. és assim, generoso, entregas as almas que tragamos sem pensar. e atinge-se na respiração abdominal a posiçao de estrela, que ensinas que nos enfia cá dentro em golfadas as energias deste mundo e do outro. absorvo-te. de repente uma mulher saltou no teu colo. e outra e outra e outra ainda. e seres animados sem linhas dançavam como estrelas à nossa volta. o súbito estertor de ser porque estava no teu colo, em que dançava como a bailarina da caixa de música. rasgava a gargalhada selvagem, despia-me e mostrava-te-me, largava em debandada violenta pontapeada, cuspia sangue e por dentro sorria. porque entravas por mim adentro quando achava que não penetrarias mais fundo. lançaste-me as raízes do desejo. de mãos dadas no escuro porque amar é de olhos fechados. e na pele nascem roupagens de cores fortes, puxando o corpo em arrepios. o cabelo cresce e cai ao chão. os olhos escurecem e envelhecem conforme os que os teus reflectem. o fôlego não interessa. porque somos nós. no teu colo me planto, pincel e paleta sou a tua mão firme e certa. eu não sei mas tu sabes. e a árvore imensa espessa as ramagens alimentando-se do suor e do sangue que vorazmente lhe consagramos. alma de vidro estilhaçada em gotas de anis. em cada estalada. em cada estalo. em cada sopro.
sopro-te agora ao ouvido. estás aí? acorda. acorda-me.

quinta-feira, 9 de março de 2006

no balanço da melancolia

olho para a agenda preta porque a colega está de novo de férias – prometendo-me beber uma caipirinha por mim numa noite de lua cheia - o que me leva a aperceber-me: um ano, passou-se pouco mais de um ano desde que comecei a trabalhar aqui. podem fazer-se balanços todos os dias, mudamos todos os dias. mas…

o Romeu continua aqui - mais pálido, é certo - a fazer-me companhia nas tardes suadas e nas geladas. os patrões continuam ausentes e dispersos, com picos insanos de actividade. continuo sem esperar nada daqui. a janela mostra-me ainda a esquina da casa azul, o extra, a padaria e a rapariga sentada na caixa da electricidade, ainda se adivinha o Tejo, apesar da sua ausência aos olhos, e as gaivotas ainda me garantem que não será uma miragem... e ainda saio demasiado tarde para ir aconchegar os lençóis ao sol no rio.

no entanto, e apesar da memória fraca que me deixa guardar pouco, regresso ao “há um ano atrás”... e surge um sabor a sal.
pelas mãos vazias de sentido. o corpo solitário sem novas almas. o pó permanece debaixo da pele, em ferida aberta. partilha-se as angústias com quem nos sente de forma igual. sinto os seres sentados lá em cima, na teia do universo. silenciados. amordaçados. presos na mesma cela da minha vontade de contar uma história.

regresso sem dar por isso ao ponto de encontro dos risos embriagados de há um ano. em que os alicerces estavam seguros, e o medo era não ter tempo suficiente nem mãos a medir para lançar o pó ao ar das cadeiras vermelhas. acompanham-me os melhores amigos. um que nasceu comigo no momento em que respirámos juntos o primeiro pó do palco, ensinando-me a alegria da entrega, a verdade dos olhos. outro que cruzou os passos nos meus e me pediu a mão para sentir também ele o voo das borboletas, e em mim ficou, ensinando-me a nobreza da humildade, a beleza das pequenas coisas.

a cerveja é a mesma. a voz também. o bolo ainda é de chocolate com chantilly.

que foi feito de mim?

terça-feira, 7 de março de 2006

brown eyed blues

subia as escadas do metro, olhos enterrados no livro. um cego cantava, o som embatia nas paredes frias e não encontrava lar. talvez como o cego. "olhos castanhos". a minha avó cantava essa música, nas tardes das papoilas, enquanto engomava ou lavava a loiça. quando o sol entrava a jorros pelas janelas da sala. quando se bebia chá simples, de camomila, bem açucarado. tinha uma voz doce, cristalina, com um vibrato tão característico dos tempos do papel de parede, das saias rodadas, dos serões com discos de vinil e das bolachas ao quilo. fosse essa voz uma cor, só poderia ser branca. como os anjos.

senti umas saudades tão fortes que quase não consegui respirar.



Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São raios de luz
Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim
Olhos negros são duas sombras
Com uma tristeza sem fim
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais

| letra e música de Alves Coelho |

segunda-feira, 6 de março de 2006

aqui



estendo os braços
está aqui em frente a mim
mesmo em frente
sei-o
nos cigarros acesos
nas luzes de halogéneo
e no barulho dos carros que passam
nas pedras da calçada e nas outras
no cheiro do vagabundo
e nos saltos da senhora
quero. sei todos os dias.
percebes?
que sei, que estendo e estico os braços
até ficarem dormentes
que os dedos são pequenos
que me deixo ficar
a escorrer
os pedaços que me definem
até que me caia toda ao chão
e não tenha mais
está aqui, mesmo aqui
diz-me para esticar as mãos
e depois vira-me as costas.

sábado, 4 de março de 2006

o voo das borboletas



de repente o "outra vez". o turbilhão. as cores e as palavras. o tremer. o suor. na garganta as rédeas soltas. os dedos agarram com o desespero do sentir do etéreo. o corpo oferece-se sem pedir. podia ser sexo. podia ser um orgasmo.

[fotos e montagem de MS]

quarta-feira, 1 de março de 2006

vozes



repete. já estou cansada. um cigarro, pode ser? não devias fumar enquanto cantas. lixa-te a voz e a respiração. eu sei, que queres. estou nervosa, deixa-me. vá, do início. troco tudo, e se eu falhar? a cantar ainda é pior, nota-se logo... não penses nisso agora. faz. mhmmm, espera, espera. não me lembro do início. disparate, lembras sim. estou com a garganta arranhada. mas que trauma é esse? caramba, acho que ou se tem o dom ou se está calado... és mesmo estúpida, sabias? desde que coloques a voz e entres no tempo ninguém quer saber se ganhaste a eurovisão. bem, ganhar a eurovisão não é sinónimo de cantar bem e... queres começar? oh mas que coisa, estou desconcentrada. isto assim não dá. eu sei que assim não dá, concentra-te. quero fazer isto bem. pois. é que sem fazer parte do nascimento das coisas, levar isto assim tão cru, sem poder experimentar e errar... é difícil. pois é, pois é, é tramado. eu sei que são só dois dias, porque é que estou assim? porque levas isso a sério. eu sei, mas mais ninguém leva... e que queres? se no fim levares umas palmadas nas costas já é vitória. então para que é que estou a fazer isto? porque sim. porque não conseguias não fazer. voltas sempre ao local do crime. dói-me a barriga. isso são as borboletas.

hey sugar... take a walk on the wild side


[ms]

desertou rua abaixo absorvendo o turbilhão de gentes. a calçada deslizava-lhe nos ténis impactando-lhe o fim de dia nas raízes que ainda a ligavam ao chão. os perfumes e suores de fim de dia misturavam-se-lhe na língua e nos olhos. penetrou nas luzes e nas pessoas, abstendo-se de pensar. Chiado. pessoas, sacos, conversas. fumos, carros de faróis acesos, arrumadores e estrangeiros. as montras desfilavam-lhe nos olhos desatentos de pormenores. de súbito, para lá do seu reflexo envidraçado, da boneca rígida em pose e cores da moda, um pequeno ponto laranja forte de formas redondas. parou. tentou-se. pensou em Carrie de "O sexo e a cidade", pensou em correr rua abaixo para não fazer asneira. 36, ali mesmo, na prateleira, pronto a experimentar. mas nem sequer costuma usar sapatos de salto. o hálito quente da loja e o corropio abriram um labirinto até ao sofá onde se deixou ser vaidosa. demasiado perfeitos. e ficam tão giros com as meias às bolas...