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dia mundial do teatro


[fotos de T.]

era um dia de chuva intensa.
estávamos sozinhos. ele tinha ido para o México e tinha pedido que não deixássemos o teatro inactivo. quando voltou, tínhamos conseguido um pequeno apoio da semana da juventude e duas peças preparadas. uma terminava hoje a outra começava hoje, sessão dupla. eu estreava hoje.

cheguei cedo ao teatro, com uma colega. tinha a chave, abri as portas e fechei-me lá dentro. ainda o silêncio das pedras. íamos começar a preparar tudo para a mega-produção da noite. faltava arranjar a entrada, com fotos, cartazes. verificar se a loiça estava lavada para a enchente de bicas e imperiais, se a bilheteira estava organizada. faltava dar a vista de olhos aos e-mails. preparar os bastidores e a cabine técnica, para depois a máquina funcionar como deve ser, as trocas de funções serem rápidas e o público não esperar muito durante o intervalo para mudança de cenário.
as luzes já estavam alinhadas para servir os dois espectáculos. tínhamos ficado a ensaiar o nosso até às 8 da manhã. alguns tinham aparecido com bolos para nos dar força e a E. dormira na plateia enrolada nos nossos casacos, para não nos deixar sozinhos. o T. lá em cima, incansável, desenvencilhara-se sozinho na "cozinha", batendo bolos e fritando bifes, tudo ao mesmo tempo, com a luz e o som só para ele.

chego aos bastidores e quando levo os dedos ao interruptor ouço um estranho chapinhar. tento acender a luz sem resultados. os olhos habituam-se depressa à escuridão e apercebo-me de que há água até ao segundo degrau dos camarins. dava-me, portanto, quase pelos joelhos. adereços a boiar. no meio do pânico, a duas horas de estrear, as borboletas dobraram o trabalho de enviar a sms: "houve um inundação. os camarins estão cheios de água. todos ao teatro, rápido". desligámos o quadro, alçámos as calças e tirámos os sapatos. com uma lanterna fomos retirando lá de trás o que era preciso e fomos espalhando as coisas atrás do cenário. as pessoas iam chegando e cada um ia ajudando no que podia. uma "recém aquisição" ainda se fez de esquisito, dizendo que, já que estávamos encharcadas, podíamos trazer as coisas dele. mandei-o passear no mais proverbial léxico suburbano que tenho dentro de mim. e ele descalçou-se e foi à água como todos.
alguns prepararam a entrada. alguém fez a bilheteira. não tínhamos onde nos maquilhar. a roupa estava a ser seca com o único secador disponível. o público chegava. deixámos que nos vissem, já sentados, a maquilhar na mesa de adereços que compunha um dos elementos do cenário. tinha a ver com o espectáculo. licença poética.

depois fomos lá para trás. abraçámo-nos todos. e saíram os que tinham de ficar lá fora. o director explicou ao público o motivo da meia hora de atraso, honrando surpreendentemente o nosso esforço para mesmo assim podermos dar-lhes o que tínhamos prometido.

começou a música e nós entrámos a dançar. e depois foi um daqueles momentos mágicos. que sabem melhor quando se luta muito e se está bem acompanhado. risos. generosos e francos. num momento em que se fala do cinema português, fazemos um black-out. silêncio do outro lado. e, de repente, a gargalhada e a explosão de aplausos. quando abrandaram, pudemos falar, e seguiu-se outro turbilhão de risos. e mais risos. no fim, o abraço lá atrás e o choro convulsivo, interrompido pelas várias chamadas ao palco. apontar incessantemente aos rostos que adivinhamos no escuro, que sabemos que estão lá.

despir, com as pernas a tremer. receber os abraços dos outros, que entram agora para a sua vez. arrumar tudo da melhor forma para dar espaço. ajudar a E. no penteado elaborado. abraço e muita merda. divirtam-se. subir à cabine técnica. mudar o cd. vai começar o outro espectáculo.

foi um dos momentos mais bonitos que vivi. foi há dois anos.

Comentários

Anónimo disse…
: )

vais ter mais dias assim... para melhor.
eu acredito.
Anónimo disse…
Magia. Pura magia e amor. Muito amor pelo palco.
Já vi esse brilhozinho nos olhos, algures em alguém.
;-)
Anónimo disse…
espanta: espero que sim... mas sem inundações, pode ser ;)

rantas: pois... então já me conheces de cor :)
Anónimo disse…
Levaste a alma. Lavaste a alma. Foi tão bonito de se ler. Entrelaçamos o quotidiano banal com puros momentos de magia. Sim, vais ter outros. Muitos e muitos mais.
Anónimo disse…
eu sou aquele dos bolos das pizzas da comida rápida da luz e som tudo ao mesmo tempo.
Anónimo disse…
=)
vi tudo na minha cabeça... a entrada, a plateia, as escadas para a cabine, o palco, as pedras... e a peça... revi-a toda nos minutos que te estive a ler. Acho que a melhor coisa que se podia fazer por esse teatro era oferecer viagens a um certo senhor. Era caro, é certo, mas um seguro investimento ;)

E agora lembrei-me de quando andávamos a colar cartazes pela rua... e de quando passou a polícia e eu (para disfarçar) pus o rolo de cola atrás das costas e fiquei a admirar o céu, como se nada fosse (acho que tu deixaste cair os cartazes e ficaste a olhar para a parede... ou isso foi o JP?)

=)
beijinhos... muitos...
Anónimo disse…
Querida Polegar
Há "banhos" e "banhos"... e esses foram de aplausos e reconhecimento, vocês merecem!
Um beijo
Daniel
Anónimo disse…
macaso: sim, lavam a alma estes pedaços de magia. um brinde a novos que a alma está sedenta...

nucamarim: és o da magia que ninguém vê e só tu te desenvencilhavas tão bem. só tu podias ser mais um actor mesmo sem estar no palco. serás sempre o meu principezinho :)

alien: LOLOLOL do que tu me lembraste! foi o JP que deixou cair os cartazes. eu, à semelhança de outra vez (com a B e o Jota) continuei a passar cola na parede pq só me apercebi muito depois! ;)

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