sexta-feira, 10 de março de 2006

music for a found harmonium




music for a found harmonium | penguin cafe orchestra

descobri-te quando tropeçaste o meu caminho em papel de jornal.
quis-te assim, inteiro. verdadeiro. e não sabia como te chegar. apaixonei-me como criança num campo de girassóis. fui lentamente aproximando-me do teu rosto de luzes [e]ternas, madeiras cansadas. emoldurado pelas vidas em cartaz. programa extenso com letras de teias enredadas por mãos de velha sábia.
envolvi-me toda em ti e deixei-te possuír-me. pequenina, enrolada em posição fetal, a luz abraçou-me, aqueceu-me, deu-me a vontade. os braços mexeram-se sem pedir-lhes nada. és assim, generoso, entregas as almas que tragamos sem pensar. e atinge-se na respiração abdominal a posiçao de estrela, que ensinas que nos enfia cá dentro em golfadas as energias deste mundo e do outro. absorvo-te. de repente uma mulher saltou no teu colo. e outra e outra e outra ainda. e seres animados sem linhas dançavam como estrelas à nossa volta. o súbito estertor de ser porque estava no teu colo, em que dançava como a bailarina da caixa de música. rasgava a gargalhada selvagem, despia-me e mostrava-te-me, largava em debandada violenta pontapeada, cuspia sangue e por dentro sorria. porque entravas por mim adentro quando achava que não penetrarias mais fundo. lançaste-me as raízes do desejo. de mãos dadas no escuro porque amar é de olhos fechados. e na pele nascem roupagens de cores fortes, puxando o corpo em arrepios. o cabelo cresce e cai ao chão. os olhos escurecem e envelhecem conforme os que os teus reflectem. o fôlego não interessa. porque somos nós. no teu colo me planto, pincel e paleta sou a tua mão firme e certa. eu não sei mas tu sabes. e a árvore imensa espessa as ramagens alimentando-se do suor e do sangue que vorazmente lhe consagramos. alma de vidro estilhaçada em gotas de anis. em cada estalada. em cada estalo. em cada sopro.
sopro-te agora ao ouvido. estás aí? acorda. acorda-me.

5 impressões digitais:

espanta_espiritos disse...

de uma violência perspicaz.
são assim a certezas de vida.
são assim os trajectos que se descobrem sem ter conta de onde vão dar.
são assim as vocações.
arrebatadas.
enérgicas.
compensadoras.
ou não.
mas um dia tudo se clarifica.
e o percurso é certo.
mas sempre violento.
porque as paixões são assim.

colher de chá disse...

sim, as paixões são assim. porque não poderiam ser de outra forma. assim são elas.
e um dia, vencida peo cansaço da espera, do desejo e da ausência, vais saltar de repente e beber de um só trago aquilo que te bate à porta. a voracidade do que sentimos faz dessas coisas. e agora até chorava um bocadinho ao teu lado. deixavas?

miak disse...

Adoro ler-te de olhos semi-cerrados, como se me obrigasse a perceber pouco as palavras, para que perceba a sua essência...

Rantanplan disse...

- É lua cheia?
- amanhã é.

pinky disse...

lindo e ternurento!