terça-feira, 7 de março de 2006

brown eyed blues

subia as escadas do metro, olhos enterrados no livro. um cego cantava, o som embatia nas paredes frias e não encontrava lar. talvez como o cego. "olhos castanhos". a minha avó cantava essa música, nas tardes das papoilas, enquanto engomava ou lavava a loiça. quando o sol entrava a jorros pelas janelas da sala. quando se bebia chá simples, de camomila, bem açucarado. tinha uma voz doce, cristalina, com um vibrato tão característico dos tempos do papel de parede, das saias rodadas, dos serões com discos de vinil e das bolachas ao quilo. fosse essa voz uma cor, só poderia ser branca. como os anjos.

senti umas saudades tão fortes que quase não consegui respirar.



Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes luzentes
Caídas dos céus
Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São raios de luz
Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim
Olhos negros são duas sombras
Com uma tristeza sem fim
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais

| letra e música de Alves Coelho |

9 impressões digitais:

espanta_espiritos disse...

citando:

"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana"

Yourcenar , Marguerite

macaso disse...

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis..."
Fernando Pessoa

Seguindo a filosofia do espanta-espíritos...

Maluco Beleza disse...

Deste-me vontade de ouvir a música e não consigo encontrá-la. Ainda assim fico agradecido por teres-me relembrado o poema.

nuno albuquerque vaz disse...

as memórias sao para se saborear devagarinho...

colher de chá disse...

saudade dos olhos castanho-noz da avó deste lado de cá.
obrigada por ma fazeres recordar :)

elisa disse...

Adoro fotos antigas: Transportam tanto sonho, tanta vida!

pinky disse...

essa música é um clássico das avós, a minha ainda a canta!
bela viagem essa, ainda que com a dôr da saudade.

pipetobacco disse...

{ ...

deixo.te algo:

abraçar [de nunca o ser ou lograr alcançar]

observo[ei], eu, neste [naquele] cobrir-se de folhas em outono luminoso, vivo e brilhante, nesta [naquela] varanda [onde tomei assento], sentado, com o sol que me abrange, [abraçava] e acerca, quente e ardente em graça, alcanço[ei] de vista no horizonte, teu sorriso, triste, infeliz… e caminho[ei] ao longo dele, embriagado, determinado e marcado, tentando vagarosamente percebe-lo. tentei eu, o que se deseja ou empreende, sondar, sentir o seu limite, e alcance. e decidido, resoluto, tentei a sua extinção. enquanto me acomodei nesse [no] sonho desenrolado e expedito, a noite, sem se chamar ou reclamar, chegou, em tempo de gestos a transformar o dia em noite rolando em escuro, parecendo, o teu sorriso, melancólico, sombrio e infeliz que não consegui[a] transformar em dia [alegria]. e noite se fez, e a noite abraçou-me. sem perder tempo, cingiu com os braços, e colheu-me em escuro completo. na noite. observo sempre o céu. não sei porque o faço, triste talvez, por o desconhecer, contente, por o desejar. é aquele silêncio que me faz despertar. e foi nele, guardar silêncio, silêncio marcado, naquela tranquilidade desejada que [te] revi, teu rosto, em lua reflectido ainda sorrindo [apaixonado rosto], e percebi logo tudo o que perdi [e que nunca entendi]. como se tudo fosse ganhando magia, em breve e rápido lance, observo[ei], eu, neste [naquele] veloz, e quase instantâneo abraçar [de nunca o ser ou lograr alcançar] de face nua. inquieto e estranhamente agitado concluído num gesto irreflectido de verdade, alcancei, eu, em grito feroz da varanda para a rua: “eu sou o sol tu és a lua”.

© temporal

... }

polegar disse...

espanta: também acredito nisso... fica sempre em nós algo do que nos fez ser o que somos. e é bom recordar... agridoce, com cheiro a chá de camomila.

macaso: obrigada. na verdade é mesmo isso, a intensidade com que são tatuadas em nós as pessoas. esta foi a tatuagem da minha infância.

maluco beleza: de nada, sempre às ordens ;)

nuno: devagarinho, sem pressa de subir aquelas escadas para ir para o trabalho. e ficar a chorar ao pé do cego cantor. foi o que me apeteceu... e às vezes faz bem.

colher: é tão bom ter sido neta...

elisa: também é um dos meus objectos preferidos. tem alma.

pinky: és uma mulher de sorte, como eu fui. aproveita :)

pipetobacco: sem palavras. obrigada.