sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

terra queimada

sempre me fascinou o teu cheiro a lenha queimada. olhando-te à primeira impressão dir-se-ia que a tua pele branca de princesa cheiraria a algo como maçãs acabadas de cortar ou loção de bebé. mas tu nunca gostaste de regras nem de preconceitos. sempre fizeste questão de os quebrar. até a tua pele tem essa atitude. cheiras a queimado, a escuro, quando muito a brasas e cinza. e o teu cheiro entregou-te. não me apercebi ao início, quando apenas me sentia confortado. quando o teu lado negro me seduzia em noites agrestes e violentas. quando o jocoso e o irónico, o amargo e o irreverente me envolviam em abraços tão apertados que sentia os espinhos cravados e saboreava o sangue das nossas gargalhadas. mas agora tenho medo. das tuas chicotadas e da minha reacção. já não me satisfazem as nossas noites em que és rainha e esperas que te sirva. e os nossos dias em que violentas os meus pensamentos como se eu não fizesse nada como deve ser. na cama como na vida. sufoca-me a tua política de terra queimada, com que devastas os nossos lençóis e as minhas vontades. com que me humilhas ao sol e esperas às escuras. agora a tua pele incomoda-me. de tão fria, corta. de tão branca, fere. tu feres. não sabes fazer mais nada senão ferir. ficarás aí, dona e senhora das tuas dores. porque as que me inflingiste não são tuas para viveres. deixo-te com os teus troncos secos. deixo-te nessa supremacia de árvore torta, morta, torpe. de pé. altiva, sem mel. hoje dar-me-ei uma prenda de natal. vou-me embora. vou procurar a calma dos silêncios. onde a tua voz não me alcance com as suas navalhadas musicais. vou procurar terra fértil e quente. vou procurar uma trepadeira que me enrole, que me envolva, que me precise. que me pontilhe de flores na primavera. que implore um abraço quente no inverno.
porque agora abraças-me e tenho frio.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

por detras dos montes



criação: Teatro Meridional
concepção | direcção cénica: Miguel Seabra
interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa
no Teatro Meridional até 23 de Dezembro
4ª a Sexta às 22:00, Sábado às 17:00 e 22:00
Rua do Açúcar | Poço do Bispo
reservas: 218 689 245


o ar é frio e corta. na zona de armazéns estranhos para os lados do Beato, o grupo do Teatro Meridional já tem a sua casinha pronta. um edifício industrial todo recuperado, em tijolo vermelho. lá dentro, um tecto alto de traves pintadas, decoração simples onde apetece estar. bonito, acolhedor, com bom gosto. velas e aquecedores a gás [bom investimento], café de saco à discrição em self-service. o sorriso do rapaz da bilheteira também aquece. o programa é de borla e oferecem um livrinho com turismo de habitação da região de Trás-os-Montes. dá para ir lendo e fumar um cigarro, encontrar casinhas bonitas com preços apetecíveis. já começou a viagem e nem nos demos conta.
depois, entra-se na sala pequena de palco raso, muito fria. mas não faz mal. estamos em Trás-os-Montes. e começa. com sons, numa penumbra onde se recorta apenas o que nos deixam ver, em azuis e laranjas. sons de instrumentos estranhos, tocados à nossa frente. depois as vozes. e depois o turbilhão de pessoas, de transmontanos.
sem "deixas", sem texto, sem "dramaturgia"... muito trabalho de corpo e uma concentração notável digna do momento fantástico que supostamente acontece apenas uma vez em que um improviso sai genial. aqui não há improvisos. há uma contradança milimetricamente marcada, o som conjugado com cada movimento. há coreografias de maneirismos, de expressões, de cacofonias, de cantares, de objectos que são músicas. há fantoches que são pessoas e pessoas que são fantoches. há o sotaque assobiado e as canções que arrepiam. há as velhinhas. há os pastores. há os passos que não fazem barulho e que assim é que fazem sentido. há ilusionismo feito com os corpos e com os rostos e com figurinos que, a par dos objectos e do som e daquelas pessoas, nos levam no espaço e no tempo. sentimos o toque dos xistos, das madeiras, dos artefactos, dos fios tecidos à nossa frente, o crepitar de uma lareira que nunca vimos nas bochechas. invade-nos. em silêncios e sons compassados. em respirações e traços desenhados com o pincel do instinto, com a tinta das entranhas.
são sessenta e cinco minutos sensoriais, em que vemos, ouvimos, sentimos nitidamente retalhos. poesias visuais. recortes de vidas que este grupo - na verdadeira acepção da palavra - por lá absorveu e para cá veio tecer.
assim sim, vale a pena ver uma companhia subsidiada.

estão nas últimas representações mas merecem, ou nós merecemos, uma alteração nas agendas e nas compras para nos embriagarmos com estes licores de raízes e gestos.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

os desejos do costume por estas alturas


[ms]

coisas doces, abraços quentes, as pessoas que realmente interessam, luzes indirectas e um pinheirinho enfeitado com gosto...
é preciso pouco para um natal simpático.
que o vosso seja bem aconchegado.
até já.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #3

o figurinista vai ao sapateiro. a produtora pede - como sempre - para ele trazer factura. ele telefona.

- o sapateiro não sabe escrever e o surdo-mudo que é vizinho dele e que lhe preenche as facturas não está em casa.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau #2

no calça descalça, numa peça de marinheiros, à última da hora decide-se que vão calçados. a Polegar trata de conseguir sapatos à borla. o chamado apoio, portanto. depois é a escolha dos ditos, não é?
conversa telefónica do Patrão-Encenador com o Figurinista, que estava na loja:


- tu agora vê lá que botas é que escolhes! não te ponhas com modas finas! eles têm de conseguir andar! isto não é teatro quieto, assim paradinho! isto não é teatro dos aloés! isto é teatro físico! teatro do corre lá para trás! é teatro de cenas de pancadaria! é teatro do amarinha pela rampa! pela tua saúde: é teatro do sobe ao mastro de 8 metros!

ah... já agora, e meses de orçamentações, negociações, estica-daqui-corta-dali-para-poder-pagar, contactos e trabalho manual do prop master depois, o grande Actor decide que já não quer a perna de pau. diz que é - e passo a citar - um "instrumento de tortura"... quem?, atrevo-me eu a perguntar...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

diarios da perna de pau

estamos em fase de ensaios, num armazém, com cenário já montado [sim, tiveram de se chegar à frente com as madeiras]. entretanto, figurinos e adereços estão a ser concebidos e provados.
o artigo do momento é a perna de pau. para um actor genial - diz o encenador - e hipocondríaco - digo eu.
cá vem, todas as semanas, o mestre de adereços [prop master, como eu lhe chamo], de boina francesa e saco dos chineses recheado de coisas estranhas. o actor experimenta a dita perninha, e queixa-se.
- está muito alta, não consigo apoiar o pé no chão.
o prop master abre o saco dos chineses e tira de lá um serrote. serra a coisa.
- não, afinal é do ângulo, percebes?
o prop master tira da chave inglesa e chave de fendas. desaparafusa-aparafusa.
- agora está-me a magoar o joelho
o prop master abre o saco dos chineses e tira um rolo de espuma.
- e eu vou usar uma bengala, não é? é que assim não temos bem a noção de como vai ser o andar...
inventa-se uma canadiana. enquanto isso, fala-se de como vai ser a bengala. sai-se o patrão-produtor:
- a minha avó tem uma colecção de bengalas antigas fantásticas, podemos ver disso.
- então liga-lhe.
- ela já morreu.
patrão-encenador parte-se a rir durante dez minutos, impossibilitando-me de conseguir falar ao telefone e ao actor de se queixar.
- isto até parece porreiro, mas tenho aqui esta dor na canela, no sítio onde apoia...
explora-se o armário, encontra-se uma joelheira que serve lindamente de almofada para o apoio da canela
- ah, muito melhor. muito melhor. como é que estou? hã? estou direito?
- ó Actor, os tipos que têm pernas de pau não andam direitos.
- pois é, pois é. mas isto está muito melhor. agora é só forrar estes ferros que me estão a cravar a carne...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

fazer farinha - redux

comigo não fazem farinha. mas oportunamente, mais uma vez, não é comigo que a querem fazer.
citando - com o devido consentimento - alguém próximo: temos pena...


- uuuh... amazing! did you come up with that all by yourself?

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

é depois


[ms . um ano depois]

contava os dias e nem dei que os dedos deram várias voltas ao teu corpo. estava entretida com os entretantos. com os rasgões que o cinzento, o frio e os desesperos abriam em mim. que tu selavas e cicatrizavas com sopros ferventes. enquanto ias e vinhas na minha pele, preparavas uma gota de suor à parte. então é que percebi, era a teia, uma teia de fios leves, espessos e húmidos, curandeiros como os lábios que se tocam com mais do que desejo e carne. e enquanto dormia, tu tecias. de repente - tão de repente que foi de rompante - arrancaste-me das cinzas que me rasgavam, do cinzeiro de vidro onde jazem as beatas já gastas. arrancaste-me e empurraste-me com força, sem me largar a mão. deixaste-nos cair. num puff vermelho com olhos azuis. e conforme caímos, o puff apanhou-nos, secou-nos à lareira, fez-nos dar três voltas no ar e desaparecemos.

e estávamos ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos.
nas vielas de traços que já vou apanhando no teu bloco de notas. assim em azuis escuros para cima e amarelos para baixo. quando não só a preto e branco com o nariz frio. sem medo de me enganar, porque lambemos a meias o selo e enviamo-las de volta para a caixa do correio da casa às cores. porque são nossas, já, segunda casa como a primeira, em que as linhas às cores não nos enganam mais que as que riscam as palmas das mãos.
e as bátegas do rio soam estranhamente a uma nova bateria movida a gargalhadas, ali para os lados do 17. a serões quentes de palavras cansadas incansáveis. café. para ti simples. para mim com um assalto ao açucareiro espantado.

outro salto. e à nossa frente as princesas com quem canto em coro. e como as conheço, puxo-te agora eu o braço. e tu abres os olhos de espanto e dizes "eu não vi isto!". eu rio-me e arde. arde de vitória.
antes do salto final, com absorção de impacto no tal puff dos olhos azuis, a fada dos aniversários no estrangeiro deixa-me gin tónico para ler debaixo da almofada.

a meias palavras a meias, feitas as contas, foi isto. consta-me que será sempre isto.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

chico et les croissants


[ph.t.s :: ms | design & supporting arm :: polegar]

mais uma vez, escondeu-se nas mochilas de dois jovens errantes. e, nos momentos mais inusitados, saltou cá para fora. sim, o nosso repórter especial está sempre em cima do acontecimento. e veio provar que a três também pode ser romântico...