sábado, 27 de outubro de 2007

goodbye my monochromatic friend



entraste-nos pela vida adentro assim de repente. um dia, de manhã, numa casa ainda meio inventada, meio improvisada, tecida aos poucos num terceiro andar, ouvia-se miar em plenos pulmões. abrimos a porta e nem pensaste duas vezes. entraste de rompante e encolheste-te a um canto.
ainda guardamos os cartazes que não afixámos a perguntar de quem eras.
evidentemente quiseste ser nossa.

pinguim. porque sim. porque eras uma monochromatic friend com um ar apatetado.

e pronto, seguiram-se os pêlos, os espirros, o acordar contigo em cima do ombro com um ar maquiavélico, as tuas marradas assassinas, o teu miado desesperado quando te cheirava a carne crua, o teu ar patusco quando nos olhavas, o teu constante ronronar de britadeira, os teus saltos cómicos quando nos mexíamos, a tua atracção fatal pelas minhas botas de trabalho ao fim do dia, os teus berreiros nas manhãs de fim de semana, a tua mania de quereres subir para o sofá, a tua paixão pela tenda azul três meses depois de ta comprarmos, os ataques ao poste de arranhar [sempre deitada, em diva] seis meses depois de to comprarmos e com o sofá já todo destruído, a tua fixação pelo colchão velho que não deitámos fora porque gostavas de te empinar nele a ver as vistas, a tua obsessão pelas almofadas de sentar os convidados, a tua actividade motora diária de dez minutos atrás de botões fantasma no chão, o papel de parede que arrancaste cinco minutos depois de estar perfeitamente colocado a esconder os azulejos, os sustos porque te escondias e pensávamos que tinhas fugido - o meu pai bem sofreu num dia de obras.
inventámos-te uma história: a velhinha pacífica que te tinha e que morreu, o abandono, a tua temporada na rua à procura de casa, o teu encontro connosco.

estiveste connosco quase dois anos.

hoje, numa operação de rotina adormeceste para nunca mais acordar, e descobrimos que estavas há muito doente. e que foi melhor assim porque em breve começarias a definhar, a sofrer. e tu não merecias.
assim seja. descansas agora, pinguças, no jardim onde dormem todos os meus bicharocos - que me orgulho de dizer que são muitos - na companhia do meu primeiro amigo, o bugui, da pachola nelly, do irrequieto joy, de todas as quatro ou cinco gerações de felídeos que resolveram adoptar o quintal dos meus pais.

ficam connosco as recordações, meia dúzia de objectos de que não nos desfaremos, o orgulho de saber que te demos dois anos extra de vida plena e cheia de mimo.

e o desejo de voltar a ser adoptados por alguém como tu.
purrrrrrr.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

animais - post com palavrões

um filho da puta com pretensões a artista de merda resolveu fazer a seguinte exposição / performance-instalação / peresfíncter como gosto de lhe chamar:
perseguiu e capturou um cão vadio doente [o que justifica tudo], prendeu-o num espaço, perante uma parede onde se lia a frase "és o que lês" escrita com comida de cão. o bicho [o cão] morreu de fome ali. como forma de arte.

o punheteiro intelectual chama-se Habacuc. os que permitiram a exposição não sei, mas gostava de saber, para fazer uma petição para lhes fechar a loja. assim como ir a casa de quem pagou bilhete para ver isto com um pau bem grosso e... bem. o cão está morto, não há nada a fazer sobre isso. resta apenas uma petição para que não o deixem participar na Bienal Centroamericana Honduras 2008.
é o mínimo, não?

soube disto pelo blog da Manel, e lá encontram links para imagens da coisa. eu recuso-me a divulgar mais esta merda, apenas apelo a que assinem a petição.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

a vedeta

simples. eu sou simples.
protagonista dos meus filmes, bem disposta e efusiva quando o vento me corre de feição. mas claro, conhece alguém que o não seja? se sim, mente. e que divertido é, arranhar as paredes dos dois lados a ver qual cede primeiro. mas claro que cede. acabam sempre por ceder. se souber fazer as coisas, obviamente.

surjo assim sem se dar por ela.
por mim.
uma comichão que se tenta ignorar mas que saltita de vez em quando. acabarão por ter de coçar. vai-se devagarinho em discreto. como as cicatrizes que se queixam do tempo. oh, lá estás tu dor, ainda não te foste embora? não, ia lá agora se aqui estou tão bem. sou assim qual doença urbana, rastejante, temperamental e fulminante.

com paciência e olhar cínico
perdão,
clínico.

se não espirra, há-de tossir.
eu tenho é de saltar cá para fora em tcharã.

andar assim modestinha e encolhidinha,
ai de mim
,
até deitar a unha bem arranjada de fora. com um inocente relampejar de pestanas que por acaso atordoa. já se sabe: sem darem por ela, já está feito. sem eu pedir.

mas havia alternativa?

no fundo,
reivindico. o que é meu por direito, está claro. mas sem aquele alarido inconveniente que fica sempre mal.

porque nunca se sabe como é que as pessoas vão interpretar a verdade dos factos. é preciso ter cuidado com isso. são capazes do pior, as pessoas. temos de as esclarecer como deve ser. nem que tenha de ser uma a uma. para perceberem como deve ser.

o segredo, eu conto, é hastear a bandeira da modesta, fraquejante e brilhante-ainda-assim entidade superior que sou.
mártir da minha própria excelência, compreende?

e depois dá-me a veneta. o chilique, percebe? repito: o que é meu por direito, está claro. mas sem a parte do alarido.

ora a palavra-chave é vulnerabilidade. de quem tem mais pena? da presa ou do predador? a vítima, aí está, poque isto é tudo um jogo de forças, não seja ingénuo. e as aparências iludem. surripiar uns tiques, torná-los meus, e depois dá-los nas vistas. eternos desconhecidos para além do meu tão fantástico cunho pessoal.

repare.

ali entre o assoberbada e o perturbada, a angústia, a náusea,
deixem estar, eu fico bem.
e venha a águinha importada, a toalhinha do turco da turquia, o açúcar mascavado do egipto para o chá de perpétuas roxas com gengibre e limão, a florinha da ásia que ajuda à sinusite e dá boas energias do feng shui, o tecido que não amarrota nem me faz alergia, a bainha da saia, a marca de pó compacto à minha espera no camarim. o camarim exclusivo.

ah, o exclusivo. meu, meu, só meu.

serve bem assim, a anca bamboleante em desnorte do seu magnetismo natural, o olhar desprotegido e inquieto no seu assombro. pode-se dizer quase tudo assim. como quem não quer a coisa.
e depois, já vê.
eu? mas se eu não fiz nada! vá, coreografe-se o encanto: ombrinho levantado, cabeça inclinada no pescoço elegante e ar delico-surpreendido quase quase indignado com a vaga alegação. e que não aleguem com muita força, porque como imagina tenho de esclarecer tudo imediatamente, mas o que é isto? agora faltas de respeito? não tolero.

não admito.


é uma frase muito minha. o não admito. sou assim, directa, franca, pão pão queijo queijo e pronto. se não me quiserem assim, que dispensem a minha presença, ora essa. agora não me obriguem é a aturar pobres de espírito. há ocasiões para tudo. mas claro, com classe tudo se resolve sem perder a pose. aquela pose que já lhe mencionei. não volto a repetir tudo porque eu sou de poucas palavras, tímida, está a ver? dizem que como todos os bons artistas. não sei de onde me vem esta aura. talvez das minhas raízes.
que não renego, as minhas raízes.
afinal, histórias que não importam à parte, fizeram-me assim, com esta aura de que lhe falava. simples, dócil, briosa, com uma enorme capacidade de sacrifício, uma discreta sofisticação e apenas uma pitada de mau génio, que no fundo dá sempre jeito para não nos fazerem as papas na cabeça. e, repare, apenas se me dispara o mau génio artisticamente, não é?
que eu considero-me uma pessoa bastante razoável, até.
o génio, bem vê, a par da minha notável melancolia, dá um toque de cor mas nunca me reflecte como inacessível. só distante, mas nunca inalcançável. fresca, por vezes até parecendo fria, mas nunca frígida.
nas palavras, quero dizer.
sou muitíssimo espirituosa. para quem me compreende, claro está. porque eu sou muito generosa. já viu o que seria de um grupo sem mim, sem a minha iniciativa para guiá-los?

não me interessa se é ambíguo. ambíguo é bom. eu nunca me desmancho. eu não me contradigo, refaço-me conforme a situação.
mas voltando ao assunto.

nunca esquecer, contudo, que há um único crédito próprio que se pode e deve assumir: eu sou apenas uma lutadora. contra todas as tempestades que me quiseram vergar. porque o mundo pode ser tremendo, inclemente e injusto. bonito, não acha? o resto foram vocês que me deram. vocês são uns amorosos, todos.

estúpidos, mas amorosos.

e ninguém tem acesso aos bastidores. vão lá saber que eu cá não é água do cano se me posso afiambrar. que se me apetece até me entretenho a fazer teatro só para mim.

sou de tal forma que às vezes até eu acredito em mim.

é do que mais gozo me dá. fazer assim os meus números em privado e deixar a porta entreaberta. a ver se espreitam, a ver se caem.

comentários sobre a passadeira da fama? está a ver mal a situação. a questão são os sapatos de salto alto... e a sua relação fugaz e descomprometida com a passadeira da fama. que tem mais é de estar quieta e comportar-se como simples tapetinho que é, que por acaso até é encarnado, vai bem com o vestido, é conveniente. não se esqueça: peça secundária, cenário contextualizante para passear o ego.

livre-se de perguntar o que seria do ego se não tivesse um tapetinho para pisar. não seja ridículo. não é essa a questão.

oh, mas para quê falar de mim? insiste? vejamos o que lhe posso dizer...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

é ali

que no momento antes de tudo está escuro e não sentes nada mais que pequenos arrepios dormentes. que tudo te passa pelos olhos
sem te recordares exactamente do quê.
então abres caminho
e as luzes.
e o frémito de queres mais e mais, de tomares conta daquilo, e de aquilo tomar conta de ti. choques eléctricos. passam a voar, arrancam-te a pele que sobra e levam-na para fazer casacos. estás ali em carne viva, o sangue a escorrer pela madeira gasta. e uns olhos vagos postos nos teus, no que dizes, no que mexes, na voz que dás.
cuidado para não pingar,
não te podem ver a esvair em sangue, enquanto tentas agarrá-lo o melhor que sabes. não podem ver que carregas também essa tua aflição do sangue na contagem decrescente para voltares ao escuro.
só te podem ver a ti, brilhante e fugaz, nessa figura triste de sorriso contente.

e tudo não passa agora de uma penumbra, de um fumo de cigarro pós-coital
que já foi consumido
antes de entrares nessa modorra cansada, alagada
satisfeita.

olham para ti com olhos de choro que lá no fundo é uma pitada de sofrimento afogado no orgulho - porque as melhores receitas têm sempre um ingrediente secreto, uma pitada de qualquer coisa que só tu sabes.
- é mesmo ali, não é?
é.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gentes : ligue os três pontos com linha azul

passo largo ritmado de passeio. shuffle no leitor
na lateral ainda bate o sol.

fatos novos, linhas sóbrias, tailleurs, lencinhos ao pescoço, stilettos, preto, azul escuro, cinza, malinhas de mão. apanhados práticos, escadeados, brincos pequenos. verniz rosa transparente, manicure francesa. laptops. PDAs. alianças. agendas. a amiga de rabo de secretária em dieta, a amiga magra com o pastel de nata. argolas, fivelas. pilates. já viste o meu telemóvel novo, já ouviste dizer da Isabelinha, não sei que faça àquele miúdo. ângulos rectos, narizes para o céu, movimentos angulosos, direitos, directos. cheira a laca, a loção de barbear, Chanel, bmw.

a primeira sapataria barata. atravessar para a sombra.

calças de pinças coçadas nas bainhas, saias largas e turbantes. chinelas e saltos compensados. calças demasiado justas, pneuzito de fora, sapatos de descanso. sacos de compras com rodas. xadrez com riscas, meias de losangos, casacos de malha largos, xailes. cabelos lambidos, rabos de cavalos, raízes pretas em caracóis amarelos, extensões, apliques. plásticos. flores, bolas. ó boa eu cá fazia-te, já passou o 58, já vistes o benfica. músicas. sotaques. correntes e bonés. movimentos ondulados. pesam as ancas, pesa a idade, pesa a preguiça, pesam os sacos. cheira a pele, a suor, a verduras, a graxa, e a protector solar borrado nos mapas vindo dos lados do Nicola.

virar à direita. subir a rua. não quero responder ao inquérito.

retro - urbano - chique - contemporâneo - alternativo. túnicas, gangas, vestidos, florinhas, padrões quase étnicos, quase abstractos, quase psicadélicos. ténis-sapatilhas, sabrinas. boca de sino. justas nos tornozelos. beatnic. rastafari. calções. sobreposições. riscos florescentes. com um toque de. estruturado-desalinhado, cristas, aparentemente descontraído, espetado, despenteado de propóstito. casual chic. trendy. indie hype. pseudo. freak. lenços largos, desencontro de padrões, havaianas, a parecer coçado acabado de comprar, malas de crochet ou militares, ou a imitar o antigo ou o anúncio de. cultura na etiqueta. correntes de pensamento nas solas. mangas cavas. óculos de sol. já leste o livro do, queres beber um chá no, és tão parva. movimentos soltos, mãos nos bolsos. livros nas mãos, desenhos nas mãos, piercings, acordes de Amália, mãos estendidas. cheira a chá verde, a cera para cabelo, a papel, a Nespresso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

grumpf bah argh grrau

quem tiver o meu "Despertar da Mente" que se acuse.

já não se pode ser querida e querer partilhar os filmes da vida... ó raça ingrata de amigos da onça... raisparta...

obrigada, menina-limão, pela ideia. sempre se poupa em telefonemas. a ver se resulta ;)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

petição - propriedade intelectual

porque neste momento são os artistas que estão na berlinda lá para os lados de São Bento. porque somos explorados por todas as formas e feitios, apesar de ninguém se parecer importar com o facto de não podermos ser oficialmente desempregados, mas eternos "entre projectos a recibo verde mas que têm de pagar segurança social na mesma" - e agora querem tirar-nos os nossos direitos de propriedade intelectual.
porque muita coisa está errada e ao menos uma assinaturazita online não deve custar muito a fazer.
deixo aqui o endereço de uma petição que pode ser do vosso interesse analisar e subscrever [ou não].

os artistas até são considerados intelectualóides e tudo. já que temos a fama, que continuemos a ter o proveito, não?

domingo, 14 de outubro de 2007

antes que se desvaneça

pode ser que não dure, mas as coisas boas são para se gravar. para tatuar e lembrar no que dão tantas dores e tristezas.
que fique aqui registado, antes que as garras transparentes voltem a atacar-me, antes que outra praga caia sobre esta casa, antes que chova, antes que venha uma tempestade de areia sabe-se lá de que buraco, antes que o tapete volte a sair-me de debaixo dos pés.
antes que
porque há sempre
mas antes de tudo, que se registe aqui um momento, um meu momento de sorriso rasgado, de felicidade extrema. um momento fútil, podem chamar-lhe. ou demasiado comum para tanta gente. mas é um momento como eu não tinha há mais de dois anos. como nós não tínhamos há mais de dois anos, em que contámos, pensámos, ponderámos, hesitámos e evitámos. hoje houve lágrimas e vontade de gritar que é para já. foi empilhar nos braços contentes. assim, sem olhar para o lado, sem pensar alto, sem perguntar
e se

hoje fomos à Fnac. e enquanto os Clã cantavam ao vivo, comprámos 3 livros, uma colecção de exercícios de teatro e 2 dvds.

toma lá e embrulha.
é para oferecermo-nos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

notícias do outro lado

o outro natal
o dia em que encontramos o cenário, os adereços, os figurinos pela primeira vez. nesse dia reinventa-se tudo o que se criou até agora, com o novo peso, a nova forma. solta-se a fúria nas tábuas velhas, desgastadas, com pouca alma para além daquela companhia que as habita seis meses por ano. aqui estou, a cantar em tons de blues sobre dentes podres...


fotos de carina_menina

violação em massa
M., entre tantas outras personagens de uso exclusivo em brincadeiras entre amigos criou A Violada. pode parecer ferir susceptibilidades mas não é mais do que um disparate bem-disposto, com direito a caretas e risos, que vai coleccionando fotos de auto-violações nos sítios mais estranhos, nas oportunidades mais raras [e toda a gente se pode juntar a este movimento, é só mandar as suas fotos por mail...].
assim, no momento em que nos apercebemos realmente da figurinha que íamos fazer ao cantar sobre a pobreza no mundo vestidos de legumes, resolvemos entrar em histeria colectiva. e, claro, nada melhor do que uma auto-violaçãozita. nada temeis, não haverão represálias: o senhor mais em baixo nesta imagem sem roupagem a preceito é o próprio encenador...


foto de xico_biscoito

terça-feira, 2 de outubro de 2007

dois minutos

faltam para sair daqui. vou voando nas teclas brancas, a olhar para o monitor da maçã. o último post desta torre de marfim no centro daquela a que chamam petulantemente a cinecittà portuguesa. a ver o tempo escorrer e sem saber bem se me faz falta.
o passeio dos cheiros, é o que me ocorre. primeiro das árvores frescas do jardim, do nevoeiro espesso que não apetece saborear, dos bolos da pastelaria, do cimento fresco da loja em obras, da serradura, dos ares condicionados, dos fritos logo de manhã.
as pessoas: a senhora que treme, o japonês que pinta sempre as mesmas imagens, o sr. Oliveira do quiosque e as suas piadas com chávenas, a senhora indiana dos jornais de sotaque cerrado, os empregados doces do Doce Real, o bêbado com o cão, a velhinha com o outro cão velhinho, a rapariga drogada e o namorado arrumador, o outro arrumador de óculos e discurso ainda fluente, o brasileiro do restaurante onde há o melhor bacalhau à lagareiro da cidade, o moço do banco.
e a minha janela.
os cigarros no cinzeiro, as palavras escritas, reescritas, baralhadas. as gargalhadas. as confusões, as discussões, as dores nos músculos de tantas horas nesta cadeira. o desgaste que me estava a matar.
por agora, silêncio. não está cá ninguém.

dentro em pouco fecho o caderno. levo isto tudo lá dentro.

vou para os lados da avenida. durante 6 meses tenho casa nova, com direito a cheiros de palco. sempre fico mais perto do senhor das castanhas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

malas aviadas

é inacreditável como dois anos e tal de trabalho se resumem a um saco de plástico com meia dúzia de bugigangas lá dentro: caneca para o café que nunca bebi (porque a máquina foi deixada ligada e estragou-se - e uma nova era demasiado cara), copo para as canetas, dois isqueiros bem feios e pesados para não mos roubarem, o respectivo gás, canetas compradas para escrever o mais depressa e perceptivelmente possível, lapiseira e minas, cadernos e agendas escrevinhados de uma ponta à outra, cds com coisas que fui acumulando no computador, uma pasta que usava para produção "no campo", postais que eu colava na parede, uma caixa de madeira que já teve chocolates, os eternos recibos verdes, pensos higiénicos e uma caixinha de lata com aspirinas. debaixo do braço, se aguentar com tudo, segue um rolo com os mupis das peças que produzi.
para amanhã fica apenas o último caderno.

dois anos e tal arrumam-se nos 5 minutos que a colega tirou para ir à casa de banho. não contei com o nó na garganta. uma amargura silenciosa por parecer que ninguém reparou - ou se importou - que dentro de 24 horas já desapareci. pelos vistos, tão de fininho como entrei. sem fazer mossa. sem fazer falta. tão descartável como o saco de plástico em que levo daqui as minhas traquitanas.