segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

blog em suspensão temporária


[musiqueta de natal em bom[b] pelo meu Donaldim preferido, Achmed, the dead terrorist]

porque:
é Natal e as prendas são todas feitas à mão [grande agradecimento à Air pela dica da cola quente: elevou a velocidade do nosso trabalho a um patamar nunca antes conseguido]
como as prendas são feitas à mão, a roupa está por lavar, a loiça por arrumar, o lixo por levar para a rua, o chão por aspirar.
só parei de trabalhar ontem [dia 23], depois de várias maratonas durante semanas a fio, e tive jantar de natal da peça. hoje tenho prendas para terminar e só vou começar a dormir mais de 5 horas por noite amanhã.
estou a aproveitar os últimos momentos de liberdade de fumar neste país para poluir o mais possível, enquanto não vedam aos fumadores o acesso aos cafés e esplanadas.
os meus tios chegam de Espanha e quero aproveitar ao máximo esta visita-relâmpago.

por isso, ficam os desejos costumeiros da época: aconchego, mimo, as pessoas que realmente interessam, e paz... pás pás. ;)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

por uma fatia de pão-de-ló

eu e a Câmara Lenta conhecemo-nos há muitos anos. desde um projecto de leitura dramatizada na escola que ganhou tais dimensões que teve de subir para um palco. com lata para reposição e tudo. tempos de reuniões de 20 pessoas, em que todos fazíamos tudo, planeando minuciosamente os desastres à volta de uma mesa com pão-de-ló da avó desta mesma "pequenita". já na altura, se revelava moça com um humor desmedido e uma maturidade acima da média. desde sempre a chateei. escreve. escreve. insiste. nós fazemos, nem que seja num vão de escada. quando acredito no talento das pessoas tenho este problema. e ela muito hesitante, a dar passinhos de bebé. e eu a chateá-la sempre que a apanhava a jeito. mas a acreditar que um dia ia acontecer.

e chegou o dia. um telefonema: um piloto. sem garantias, logo se vê no que dá.
a minha resposta?
"sim, sim, e há pão-de-ló da tua avó?"
havia...

este fim de semana acordei às 9 da manhã, contentinha como uma criança com um caderno novo. [eu, pelo menos, delirava com cadernos novos. mas pronto, vamos ao básico: como uma criança em noite de natal, vá.]

ia gravar um texto da minha amiga, com um elenco sem vedetas, cheio daquela energia a que sempre estive habituada e de que já tinha saudades: a garra do querer fazer, do gostar de fazer, da equipa pequena que desenrasca tudo, da criatividade desembestada, incensurada, das gargalhadas incontidas do puro prazer de estar ali, a fazer acontecer.

melhor: o meu namorido também foi convidado para participar da demência, com a personagem mais sui géneris do naipe de gente esgroviada que são aquelas personagens... sim, além de um genial fotógrafo, de um talentoso webdesigner, de um acrobático assistente de produção d'O Cinema Português, este senhor esconde na manga também uma deliciosa faceta de actor...

e a cereja no topo do bolo: íamos ter dois convidados especiais daqueles... basicamente quando surgiu um dos nomes caí literalmente da cadeira onde estava sentada. e a minha amiga fuzilou-me com um dos seus olhares compadecidos.
e de repente lá estávamos. a fluir sem entraves maiores do que ataques de riso. a cair de quatro perante uma Noémia Costa que fez a sua cena brilhantemente em cinco minutos. a partir daquele momento, criámos um novo conceito que, acreditamos, constará nos manuais de cinema - fazer uma cena brilhantemente à primeira é "fazer uma Noémia".
e quando eu pensava que o patamar não podia subir mais, dei por mim a não conseguir gravar uma cena em condições porque o senhor Nuno Markl e uma campainha conseguem deitar por terra 8 anos de experiência de interpretação. ai a risa, senhores.


[para os mais distraídos, o cocuruto de cabelo castanho do lado esquerdo é meu]

aqui fica o meu mais terno agradecimento à minha querida Perche Romero/ Virtuosa Autora/ Doce Amiga, por se ter lembrado de mim. por me dar esta prendinha de anos atrasada deliciosa.
àquela equipa de produção, por ter catering, águas, cobras quando faltou a iguana, tanto gosto, tanto talento, e tanta paciência.
à equipa de actores que criou logo ali o clima que esperamos que se prolongue por muitas temporadas, qual Friends e Seinfeld e Dr. House e quejandos.
aos dois convidados especiais. por virem ali - também eles - por uma fatia de bolo. participar sem dramas nem manias no "lugar às novas".
e ao senhor Markl em particular, por me ter oferecido um robe há muitos anos, que virou inestimável figurino desta mesma série. e por já estar desavergonhadamente a fazer publicidade a este trabalho e a tecer elogios à malta.
de facto, e citando o supracitado humorista, que por sua vez cita um autor de cujo nome não se recorda, esta é "a maior diversão que uma pessoa consegue ter sem tirar as calças". ou a saia. ou o robe.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

polegar no cinema português

hoje foi o dia da "rodagem da cena com deixas". o nervoso miudinho ainda não tinha acordado, já eu tinha gravado. é que o despertar foi às 6 da manhã, entenda-se. chegar, comer uma sandocha, maquilhagem, cabelos, troca de mimos com o ex-patrão no cigarro da espera ["você nem imagina as saudades que eu tenho de si, minha cara", disse-me ele, e eu de lágrima de crocodila - oh - que - peninha - que - saudades - tenho - eu - do - escritório - e de - sua - azia - matinal quase quase a rolar-me pelo rosto se não fosse a pintura poder esborratar]. em bela diva meio acabada vou ao guarda-roupa e lá está o meu fardamento de criadinha insular do século passado antes do século que já é passado mas que eu não me habituo. vestidinha a preceito, já temos a perfeita mulher do campo, delicada mas vigorosa, com rosetas fornecidas pela secção das pinturas, e só me lastimei de não ter deixado crescer a sobrancelha-monocelha para ficar mais autêntico. e de não me deixarem fazer a coisa como deve ser, com sotaque madeirense...

a actriz principal terá uma cena comigo. mano a mano, só as duas. não, não me enganei. explico: é uma questão de me mentalizar que ainda sei fazer isto. portanto: a cena é minha. ela só participa. quero lá saber que o filme seja praticamente só com ela.
a moça, ainda mais franzina que eu, com o seu ar delicadíssimo, o pacote todo, pele transparente, mão trémula e olhar de eterno tédio, fastio, oh inclemência, recordou-me alguém, mas rapidamente afastei esse pensamento quando ela me abriu um sorriso e calorosamente me pegou na mão num cumprimento mais que de ocasião.

sei ao que vou: é cinema português. leeeento. planos looongos do género "mas - porque - é - que - esta - pessoa - não - se - dedica - à - fotografia?". um realizador muito querido, mas bipolar. ora está todo doçuras a dirigir as actrizes, ora está aos berros com a luz. boa luz vai ter, de certeza... só em ensaio muda-me a marcação umas 5 vezes. lá ando eu de trás para a frente, de roupa de época e um blusão de penas para não morrer de frio. lá se decide e pôem-me a fitinha no chão [sim, sim, é tudo batota, somos meros fantoches e, quando muito, Marretas]. imediatamente a seguir resolvem mudar o tapete de sítio. que era onde estava colada a fitinha. e quando volta a fixar a marcação, muda a outra moça de sítio. quando vai para gravar, afinal já não posso estar ali porque fico sem luz [sim, houve gritos de "porque é que a polegar não tem luz, carago" e tudo]. lá se orientam e eu em minha bonacheirice troco olhares divertidos com a minha parceira de cena. ela vai à maquilhagem a correr tirar uns rolos da cabeça e de caminho pega-me na mão e diz-me meio segredando que eu que não tenha receio, que o realizador grita muito mas não é nada. eu respondo a rir que já o conheço e que não me incomoda nada. e de facto não incomoda mesmo. siga para o plateau, já sem rolos e sem casacos. conseguem finalmente tirar do plano o assistente de decoração que anda há horas de rabo para o ar a limpar abnegadamente o chão com Pronto. vamos filmar.

"som!" berra o realizador
"som pedido!" berra o assistente
"'tá a andar!" responde o técnico
passa um camião
ouve-se um "'dasssssse" sumido
o perchista levanta a respectiva... perche
o assistente diz lá aquelas coisas com a claquete em frente à câmara "cena 30 primeira" e assim.
esperamos
esperamos
passa outro camião
"dasse"
esperamos
"acção!" berra o realizador
e lá fazemos. e refazemos, porque passam muitos camiões. e porque a moça levanta demasiado o cotovelo e me tapa a luz ["a luz da polegar, carago, filha, tem paciência, tens de baixar o braço"]. e porque eu falho a marca duas vezes [give me a break, eu estou com uma enorme saia rodada, vou a medir a coisa só com visão periférica e tenho de adivinhar se estou com o pé em cima da marca, à frente da marca, atrás da marca. isto, senhores, é uma ciência milimétrica]

corre bem, parece que estou dispensada. mas não. afinal querem que eu entre em mais uma cena, depois do almoço. porque, e cito, "isto criadagem de qualidade não se arranja assim do pé para a mão e portanto é melhor continuarmos com esta". ena pá. assim almoço à borla.
e fico na mesa dos actores e tudo, com o realizador à minha frente a roubar-me bacalhau com natas. que isto é assim.

e descubro que a cena que tenho à tarde é com um velho habituée dos décores portugueses, e meu velho habituée - dor - de - cabeça dos tempos de produtora - actriz no Mosteiro dos Jerónimos. isto vai ser interessante. pedem-me que lhe faça um ar de comiseração. e pronto, é a galhofa. porque, enquanto esperamos para ensaio, eu digo-lhe o meu subtexto em madeirense. e faço-lhe um olhar de comiseração de que não se há-de esquecer tão cedo. e depois gravamos. passam poucos camiões depois da hora do almoço.

tenho uma pequena surpresa: no fim da cena, sai de lá um berro do realizador:
"a polegar terminou hoje, obrigado minha querida, salva de palmas para a polegar!"
e bateram-me palmas e tudo, como se faz aos actores que não vão só fazer figurações especiais. fui cine-baptizada.

e pronto, antes de despir a personagem [sim, até fui vestida de sopeira-antiga para o restaurante], faço à socapa mais um recuerdo para a M. e acabo por ter uma participação especial do meu colega de olhares.
aqui têm, o meu mais recente contributo, a obra "criada em auto-violação triste e solitária até que patrão se apercebe e resolve dar uma mãozinha em trágicos":



foto de espanta-espíritos, montagem à pressa por polegar

domingo, 9 de dezembro de 2007

cabo verde



teatro Meridional
até 15 de Dezembro
4ª a 6ª às 22h; Sábado às 17h e 22h
rua do Açúcar 64 - beco da mitra, Poço do Bispo, Lisboa
bilhetes - 10 euros, vários descontos.

eu não dava para crítica de teatro. ia ser acusada de ser amiga deste e do outro. de ser uma vendida a certas companhias.

chega-nos uma compilação de textos de autores caboverdianos. prosa, verso, música.
uma actriz, um músico. isolados numa ilha de caixas de madeira, uma enorme lua de papel e um espanta-espíritos para deixar aproximar apenas as almas boas.
ele faz mar com arroz. ela faz um povo com o corpo.
começa com "deus abençoa este espectáculo". e parece que sim, que há uma qualquer força que deixa que cada som, cada palavra e gesto saiam abençoados e contagiem todas as pessoas ali sentadas.
são histórias. são coisas pequeninas, gestos de um quotidiano, de um imaginário - bem real - que ali se nos apresenta. são símbolos reconhecíveis por todos, são pequenos contos que lemos como num livro em que as letras são o rosto de Carla Galvão, as páginas onde se deitam são os sons de Fernando Mota.
nada ali há mais do que uma interpretação pura, intensa, verdadeira, um fabuloso trabalho de equipa em que os pormenores são tão pequeninos mas contam tudo. nada parece marcado, nada tem só forma. é num rosto iluminado, afogueado, que de repente quebra em mil rugas, num corpo que passa de uma dança frenética à fragilidade digna da velhice que nos sentimos apresentados à essência de todo um país.
são histórias de pessoas, que se nos transmitem com essa mesma franqueza, e não é Dezembro em Lisboa,não está frio, não há trânsito, há peles escuras, há um tempo lento, há passadas dengosas, há "sodade", há mornas, há cachimbos e todo o mundo dos adereços num lenço.
é um estudo de pessoas, feito com alma. em cada poro há vida e sinceridade. em cada som há um ambiente, uma emoção. uma hora assim, colada à cadeira, em total assombração, em completa devoção.
sabem aqueles momentos que são tão bonitos que nos dão vontade de chorar?
saí de lá abazurdida. o corpo dorido como se tivesse apanhado uma tareia. e a voz incapaz de verbalizar o que me ia na alma. ainda agora, não consigo fazer qualquer comentário inteligente, digno de nota.
só posso agradecer.
e dizer: vão ver.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

gestão de recursos ou a piada do dia

um membro da produção, antes de beber o primeiro café da manhã, para um elenco de 13 pessoas
- vocês têm de parar de se assoar aos kleenexes. para a maquilhagem tudo bem, mas para se assoarem façam lá como quiserem, tragam lenços de casa.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

no dia dos meus anos

desta vez ficámos por cá. e pela primeira vez em 28 anos, trabalhei no dia do meu aniversário. antes de parecer mal, digo que é feriado.

levantar cedo, depois da tradicional meia-noite com os meus infalíveis e de doses inacreditáveis de amor até às 3 da manhã, que incluíram uma surpresa muito kinky-pinky e tentar afinar uma guitarra de ouvido.



apaguei as olheiras com base e pó e cores e riscos. era dia de dose dupla. dos corredores de correntes de ar disparavam abraços, apertadelas, beijos repenicados e puxões de tranças. porque as pessoas do teatro são assim, expressivas. e eu gosto. o namorido levou-me à porta de artistas e entregou-me na mão do meu mr. bojangles. "seguro a minha mão na tua", já dizia o outro. e na mão de um e na lente de outro dancei a menina. e depois, ainda no palco, cantaram-me os parabéns. o público também, desconhecidos e quatro vozes que cantavam mais alto que as outras porque, já se sabe, a família. "não chora", dizia-me bojangles, sempre de mão apertada. e chorava ele e chorava eu. que isto dos artistas somos uns sentimentalõezinhos... foi receber as mãozinhas rechonchudas estendidas dos pequenitos que querem sempre abraçar muito a "Ana". e voltar para bolo na sala de fumo.



vestir e sair para o frio, correr para a casa às cores. depois foi abrir os braços e deixar-me cair. no vinho, na conversa, nos risos, no calor do meu clã. e - nunca esquecer - fazer a foto da praxe de "violados em aniversário de polegar", para enviar à M., que ainda não pôde subir 3 andares sem elevador.



no dia seguinte, acordei tarde e refastelada como uma grande gata preguiçosa. o único senão é que acordei também com a voz de Achmed, the dead terrorist, na parte do "I kill you". mas isso é outra história...

todas as imagens são da autoria de espanta-espíritos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

auto-dedicação


foto de espanta-espíritos

para mim, aos meus fantasmas de bolso, com banda sonora ou silêncios, sem dúvida em fôlegos apertados. caminhadas na minha cidade de vento frio a baralhar-me o cabelo. as imagens escorrem apesar de não serem chamadas. simplesmente estão lá. vivas, de bocas riscadas para baixo e palavras amealhadas em meias ilusões que almofadam a queda. é tempo. é tempo de as agarrar com os dedos e ignorar punhos cerrados. para que as sinta sem me magoar. para que não me esqueça. mas para que repouse. servir a gosto.

mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.

jorge gomes miranda

agradeço à lebre e à menina limão, que me ajudaram a arrumar as ideias.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

the extra

pediram-me que escrevesse, e escrevi. afeiçoei-me ao senhor e foi com um gostinho adocicado na boca que soube que ele tinha conseguido levar a sua avante e que os meus dedos tinham dado um pequeno contributo para isso. depois fugi, como se sabe, dos dias cinzentos, à procura de luz e de pinturas que me devolvessem a cor à cara. não sei por quanto tempo, mas isso agora não interessa à conversa.
há pouco tempo inscrevi-me numa nova agência, onde trabalha uma colega minha.
"procuramos actriz entre 20 e 30 anos, sem madeixas" - não se vê logo que sou eu?
conhecendo a minha história, não hesitou em ligar-me: há aqui a hipótese de uma participação pequena no filme do teu amigo. o cachet é uma merda. queres?

por acaso até quero. se andei com o bebé ao colo, agora, se posso, quero ajudá-lo a andar.

fui, assim, conhecer o glamoroso mundo do cinema. num ambiente bastante aconchegado, ou não conhecesse eu mais de metade da equipa. incluindo os senhores do topo. todos acharam imensa graça a eu ter caído lá de pára-quedas. a nos reencontrarmos assim. tão gira que estás, minha querida. eu pacientemente à espera durante horas, de cabelo apanhado em complicadas tranças, vestida de criada madeirense de finais do século dezanove, rendinhas na cabeça e tudo, a tentar aquecer-me num alpendre em Sintra, com o meu livrinho nas mãos. quando o sol se começou a finar é que se lembraram que tinham uma cena de exteriores para gravar. e pronto, lá fui eu receber os meus patrõezinhos. a bater os pés entre "cortas" porque deixei de os sentir com o frio.
foi dia de burros, cavalos brancos e ratazanas domésticas que também eram meus colegas figurantes.

dentro de alguns dias, volto lá, para gravar uma cena pequena, com falas.

e a modos que é isto.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

flippers

dá aqui, leva do outro lado, o que importa é não parar, não pares, senão perdemos o jogo e por isso agora toma lá mais porrada, tens de ir para cima, para a esquerda, não, não é essa esquerda é a outra, oh mas será que não percebes nada do que te digo, foda-se? e sim agora quero que deslizes devagar, mais devagar, porque tenho de te dar a traulitada na altura certa, és uma bolinha tão fixe, tás mesmo a jeito vá lá vá lá vá vá tá quase e... toma! agora vai lá, desvia-te da luz e entra lá ao fundo, naquele túnel. não, não percebes o bónus é se fores para ali, merda. mas que coisa, é preciso dar-te mais porrada para fazeres o que eu quero? plim plim plim, sim senhora, agora sim, desvia-te... mais... para... ali! toma, vá caraças, que merda, anda lá com isso, tenho mais que fazer que ficar à espera que acumules os pontos... parece que nunca sabes qual é o teu lugar. vá, mais uma, para ali, tás quase, pimba! eheheh rebola aí que eu gosto. espera, não! calma, se te der um safanão agora... oh. perdi o jogo. a culpa é tua.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

transições

daqui



para aqui


imagens de espanta-espíritos

terça-feira, 6 de novembro de 2007

3

parabéns, namorido :)

sábado, 27 de outubro de 2007

goodbye my monochromatic friend



entraste-nos pela vida adentro assim de repente. um dia, de manhã, numa casa ainda meio inventada, meio improvisada, tecida aos poucos num terceiro andar, ouvia-se miar em plenos pulmões. abrimos a porta e nem pensaste duas vezes. entraste de rompante e encolheste-te a um canto.
ainda guardamos os cartazes que não afixámos a perguntar de quem eras.
evidentemente quiseste ser nossa.

pinguim. porque sim. porque eras uma monochromatic friend com um ar apatetado.

e pronto, seguiram-se os pêlos, os espirros, o acordar contigo em cima do ombro com um ar maquiavélico, as tuas marradas assassinas, o teu miado desesperado quando te cheirava a carne crua, o teu ar patusco quando nos olhavas, o teu constante ronronar de britadeira, os teus saltos cómicos quando nos mexíamos, a tua atracção fatal pelas minhas botas de trabalho ao fim do dia, os teus berreiros nas manhãs de fim de semana, a tua mania de quereres subir para o sofá, a tua paixão pela tenda azul três meses depois de ta comprarmos, os ataques ao poste de arranhar [sempre deitada, em diva] seis meses depois de to comprarmos e com o sofá já todo destruído, a tua fixação pelo colchão velho que não deitámos fora porque gostavas de te empinar nele a ver as vistas, a tua obsessão pelas almofadas de sentar os convidados, a tua actividade motora diária de dez minutos atrás de botões fantasma no chão, o papel de parede que arrancaste cinco minutos depois de estar perfeitamente colocado a esconder os azulejos, os sustos porque te escondias e pensávamos que tinhas fugido - o meu pai bem sofreu num dia de obras.
inventámos-te uma história: a velhinha pacífica que te tinha e que morreu, o abandono, a tua temporada na rua à procura de casa, o teu encontro connosco.

estiveste connosco quase dois anos.

hoje, numa operação de rotina adormeceste para nunca mais acordar, e descobrimos que estavas há muito doente. e que foi melhor assim porque em breve começarias a definhar, a sofrer. e tu não merecias.
assim seja. descansas agora, pinguças, no jardim onde dormem todos os meus bicharocos - que me orgulho de dizer que são muitos - na companhia do meu primeiro amigo, o bugui, da pachola nelly, do irrequieto joy, de todas as quatro ou cinco gerações de felídeos que resolveram adoptar o quintal dos meus pais.

ficam connosco as recordações, meia dúzia de objectos de que não nos desfaremos, o orgulho de saber que te demos dois anos extra de vida plena e cheia de mimo.

e o desejo de voltar a ser adoptados por alguém como tu.
purrrrrrr.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

animais - post com palavrões

um filho da puta com pretensões a artista de merda resolveu fazer a seguinte exposição / performance-instalação / peresfíncter como gosto de lhe chamar:
perseguiu e capturou um cão vadio doente [o que justifica tudo], prendeu-o num espaço, perante uma parede onde se lia a frase "és o que lês" escrita com comida de cão. o bicho [o cão] morreu de fome ali. como forma de arte.

o punheteiro intelectual chama-se Habacuc. os que permitiram a exposição não sei, mas gostava de saber, para fazer uma petição para lhes fechar a loja. assim como ir a casa de quem pagou bilhete para ver isto com um pau bem grosso e... bem. o cão está morto, não há nada a fazer sobre isso. resta apenas uma petição para que não o deixem participar na Bienal Centroamericana Honduras 2008.
é o mínimo, não?

soube disto pelo blog da Manel, e lá encontram links para imagens da coisa. eu recuso-me a divulgar mais esta merda, apenas apelo a que assinem a petição.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

a vedeta

simples. eu sou simples.
protagonista dos meus filmes, bem disposta e efusiva quando o vento me corre de feição. mas claro, conhece alguém que o não seja? se sim, mente. e que divertido é, arranhar as paredes dos dois lados a ver qual cede primeiro. mas claro que cede. acabam sempre por ceder. se souber fazer as coisas, obviamente.

surjo assim sem se dar por ela.
por mim.
uma comichão que se tenta ignorar mas que saltita de vez em quando. acabarão por ter de coçar. vai-se devagarinho em discreto. como as cicatrizes que se queixam do tempo. oh, lá estás tu dor, ainda não te foste embora? não, ia lá agora se aqui estou tão bem. sou assim qual doença urbana, rastejante, temperamental e fulminante.

com paciência e olhar cínico
perdão,
clínico.

se não espirra, há-de tossir.
eu tenho é de saltar cá para fora em tcharã.

andar assim modestinha e encolhidinha,
ai de mim
,
até deitar a unha bem arranjada de fora. com um inocente relampejar de pestanas que por acaso atordoa. já se sabe: sem darem por ela, já está feito. sem eu pedir.

mas havia alternativa?

no fundo,
reivindico. o que é meu por direito, está claro. mas sem aquele alarido inconveniente que fica sempre mal.

porque nunca se sabe como é que as pessoas vão interpretar a verdade dos factos. é preciso ter cuidado com isso. são capazes do pior, as pessoas. temos de as esclarecer como deve ser. nem que tenha de ser uma a uma. para perceberem como deve ser.

o segredo, eu conto, é hastear a bandeira da modesta, fraquejante e brilhante-ainda-assim entidade superior que sou.
mártir da minha própria excelência, compreende?

e depois dá-me a veneta. o chilique, percebe? repito: o que é meu por direito, está claro. mas sem a parte do alarido.

ora a palavra-chave é vulnerabilidade. de quem tem mais pena? da presa ou do predador? a vítima, aí está, poque isto é tudo um jogo de forças, não seja ingénuo. e as aparências iludem. surripiar uns tiques, torná-los meus, e depois dá-los nas vistas. eternos desconhecidos para além do meu tão fantástico cunho pessoal.

repare.

ali entre o assoberbada e o perturbada, a angústia, a náusea,
deixem estar, eu fico bem.
e venha a águinha importada, a toalhinha do turco da turquia, o açúcar mascavado do egipto para o chá de perpétuas roxas com gengibre e limão, a florinha da ásia que ajuda à sinusite e dá boas energias do feng shui, o tecido que não amarrota nem me faz alergia, a bainha da saia, a marca de pó compacto à minha espera no camarim. o camarim exclusivo.

ah, o exclusivo. meu, meu, só meu.

serve bem assim, a anca bamboleante em desnorte do seu magnetismo natural, o olhar desprotegido e inquieto no seu assombro. pode-se dizer quase tudo assim. como quem não quer a coisa.
e depois, já vê.
eu? mas se eu não fiz nada! vá, coreografe-se o encanto: ombrinho levantado, cabeça inclinada no pescoço elegante e ar delico-surpreendido quase quase indignado com a vaga alegação. e que não aleguem com muita força, porque como imagina tenho de esclarecer tudo imediatamente, mas o que é isto? agora faltas de respeito? não tolero.

não admito.


é uma frase muito minha. o não admito. sou assim, directa, franca, pão pão queijo queijo e pronto. se não me quiserem assim, que dispensem a minha presença, ora essa. agora não me obriguem é a aturar pobres de espírito. há ocasiões para tudo. mas claro, com classe tudo se resolve sem perder a pose. aquela pose que já lhe mencionei. não volto a repetir tudo porque eu sou de poucas palavras, tímida, está a ver? dizem que como todos os bons artistas. não sei de onde me vem esta aura. talvez das minhas raízes.
que não renego, as minhas raízes.
afinal, histórias que não importam à parte, fizeram-me assim, com esta aura de que lhe falava. simples, dócil, briosa, com uma enorme capacidade de sacrifício, uma discreta sofisticação e apenas uma pitada de mau génio, que no fundo dá sempre jeito para não nos fazerem as papas na cabeça. e, repare, apenas se me dispara o mau génio artisticamente, não é?
que eu considero-me uma pessoa bastante razoável, até.
o génio, bem vê, a par da minha notável melancolia, dá um toque de cor mas nunca me reflecte como inacessível. só distante, mas nunca inalcançável. fresca, por vezes até parecendo fria, mas nunca frígida.
nas palavras, quero dizer.
sou muitíssimo espirituosa. para quem me compreende, claro está. porque eu sou muito generosa. já viu o que seria de um grupo sem mim, sem a minha iniciativa para guiá-los?

não me interessa se é ambíguo. ambíguo é bom. eu nunca me desmancho. eu não me contradigo, refaço-me conforme a situação.
mas voltando ao assunto.

nunca esquecer, contudo, que há um único crédito próprio que se pode e deve assumir: eu sou apenas uma lutadora. contra todas as tempestades que me quiseram vergar. porque o mundo pode ser tremendo, inclemente e injusto. bonito, não acha? o resto foram vocês que me deram. vocês são uns amorosos, todos.

estúpidos, mas amorosos.

e ninguém tem acesso aos bastidores. vão lá saber que eu cá não é água do cano se me posso afiambrar. que se me apetece até me entretenho a fazer teatro só para mim.

sou de tal forma que às vezes até eu acredito em mim.

é do que mais gozo me dá. fazer assim os meus números em privado e deixar a porta entreaberta. a ver se espreitam, a ver se caem.

comentários sobre a passadeira da fama? está a ver mal a situação. a questão são os sapatos de salto alto... e a sua relação fugaz e descomprometida com a passadeira da fama. que tem mais é de estar quieta e comportar-se como simples tapetinho que é, que por acaso até é encarnado, vai bem com o vestido, é conveniente. não se esqueça: peça secundária, cenário contextualizante para passear o ego.

livre-se de perguntar o que seria do ego se não tivesse um tapetinho para pisar. não seja ridículo. não é essa a questão.

oh, mas para quê falar de mim? insiste? vejamos o que lhe posso dizer...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

é ali

que no momento antes de tudo está escuro e não sentes nada mais que pequenos arrepios dormentes. que tudo te passa pelos olhos
sem te recordares exactamente do quê.
então abres caminho
e as luzes.
e o frémito de queres mais e mais, de tomares conta daquilo, e de aquilo tomar conta de ti. choques eléctricos. passam a voar, arrancam-te a pele que sobra e levam-na para fazer casacos. estás ali em carne viva, o sangue a escorrer pela madeira gasta. e uns olhos vagos postos nos teus, no que dizes, no que mexes, na voz que dás.
cuidado para não pingar,
não te podem ver a esvair em sangue, enquanto tentas agarrá-lo o melhor que sabes. não podem ver que carregas também essa tua aflição do sangue na contagem decrescente para voltares ao escuro.
só te podem ver a ti, brilhante e fugaz, nessa figura triste de sorriso contente.

e tudo não passa agora de uma penumbra, de um fumo de cigarro pós-coital
que já foi consumido
antes de entrares nessa modorra cansada, alagada
satisfeita.

olham para ti com olhos de choro que lá no fundo é uma pitada de sofrimento afogado no orgulho - porque as melhores receitas têm sempre um ingrediente secreto, uma pitada de qualquer coisa que só tu sabes.
- é mesmo ali, não é?
é.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

gentes : ligue os três pontos com linha azul

passo largo ritmado de passeio. shuffle no leitor
na lateral ainda bate o sol.

fatos novos, linhas sóbrias, tailleurs, lencinhos ao pescoço, stilettos, preto, azul escuro, cinza, malinhas de mão. apanhados práticos, escadeados, brincos pequenos. verniz rosa transparente, manicure francesa. laptops. PDAs. alianças. agendas. a amiga de rabo de secretária em dieta, a amiga magra com o pastel de nata. argolas, fivelas. pilates. já viste o meu telemóvel novo, já ouviste dizer da Isabelinha, não sei que faça àquele miúdo. ângulos rectos, narizes para o céu, movimentos angulosos, direitos, directos. cheira a laca, a loção de barbear, Chanel, bmw.

a primeira sapataria barata. atravessar para a sombra.

calças de pinças coçadas nas bainhas, saias largas e turbantes. chinelas e saltos compensados. calças demasiado justas, pneuzito de fora, sapatos de descanso. sacos de compras com rodas. xadrez com riscas, meias de losangos, casacos de malha largos, xailes. cabelos lambidos, rabos de cavalos, raízes pretas em caracóis amarelos, extensões, apliques. plásticos. flores, bolas. ó boa eu cá fazia-te, já passou o 58, já vistes o benfica. músicas. sotaques. correntes e bonés. movimentos ondulados. pesam as ancas, pesa a idade, pesa a preguiça, pesam os sacos. cheira a pele, a suor, a verduras, a graxa, e a protector solar borrado nos mapas vindo dos lados do Nicola.

virar à direita. subir a rua. não quero responder ao inquérito.

retro - urbano - chique - contemporâneo - alternativo. túnicas, gangas, vestidos, florinhas, padrões quase étnicos, quase abstractos, quase psicadélicos. ténis-sapatilhas, sabrinas. boca de sino. justas nos tornozelos. beatnic. rastafari. calções. sobreposições. riscos florescentes. com um toque de. estruturado-desalinhado, cristas, aparentemente descontraído, espetado, despenteado de propóstito. casual chic. trendy. indie hype. pseudo. freak. lenços largos, desencontro de padrões, havaianas, a parecer coçado acabado de comprar, malas de crochet ou militares, ou a imitar o antigo ou o anúncio de. cultura na etiqueta. correntes de pensamento nas solas. mangas cavas. óculos de sol. já leste o livro do, queres beber um chá no, és tão parva. movimentos soltos, mãos nos bolsos. livros nas mãos, desenhos nas mãos, piercings, acordes de Amália, mãos estendidas. cheira a chá verde, a cera para cabelo, a papel, a Nespresso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

grumpf bah argh grrau

quem tiver o meu "Despertar da Mente" que se acuse.

já não se pode ser querida e querer partilhar os filmes da vida... ó raça ingrata de amigos da onça... raisparta...

obrigada, menina-limão, pela ideia. sempre se poupa em telefonemas. a ver se resulta ;)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

petição - propriedade intelectual

porque neste momento são os artistas que estão na berlinda lá para os lados de São Bento. porque somos explorados por todas as formas e feitios, apesar de ninguém se parecer importar com o facto de não podermos ser oficialmente desempregados, mas eternos "entre projectos a recibo verde mas que têm de pagar segurança social na mesma" - e agora querem tirar-nos os nossos direitos de propriedade intelectual.
porque muita coisa está errada e ao menos uma assinaturazita online não deve custar muito a fazer.
deixo aqui o endereço de uma petição que pode ser do vosso interesse analisar e subscrever [ou não].

os artistas até são considerados intelectualóides e tudo. já que temos a fama, que continuemos a ter o proveito, não?

domingo, 14 de outubro de 2007

antes que se desvaneça

pode ser que não dure, mas as coisas boas são para se gravar. para tatuar e lembrar no que dão tantas dores e tristezas.
que fique aqui registado, antes que as garras transparentes voltem a atacar-me, antes que outra praga caia sobre esta casa, antes que chova, antes que venha uma tempestade de areia sabe-se lá de que buraco, antes que o tapete volte a sair-me de debaixo dos pés.
antes que
porque há sempre
mas antes de tudo, que se registe aqui um momento, um meu momento de sorriso rasgado, de felicidade extrema. um momento fútil, podem chamar-lhe. ou demasiado comum para tanta gente. mas é um momento como eu não tinha há mais de dois anos. como nós não tínhamos há mais de dois anos, em que contámos, pensámos, ponderámos, hesitámos e evitámos. hoje houve lágrimas e vontade de gritar que é para já. foi empilhar nos braços contentes. assim, sem olhar para o lado, sem pensar alto, sem perguntar
e se

hoje fomos à Fnac. e enquanto os Clã cantavam ao vivo, comprámos 3 livros, uma colecção de exercícios de teatro e 2 dvds.

toma lá e embrulha.
é para oferecermo-nos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

notícias do outro lado

o outro natal
o dia em que encontramos o cenário, os adereços, os figurinos pela primeira vez. nesse dia reinventa-se tudo o que se criou até agora, com o novo peso, a nova forma. solta-se a fúria nas tábuas velhas, desgastadas, com pouca alma para além daquela companhia que as habita seis meses por ano. aqui estou, a cantar em tons de blues sobre dentes podres...


fotos de carina_menina

violação em massa
M., entre tantas outras personagens de uso exclusivo em brincadeiras entre amigos criou A Violada. pode parecer ferir susceptibilidades mas não é mais do que um disparate bem-disposto, com direito a caretas e risos, que vai coleccionando fotos de auto-violações nos sítios mais estranhos, nas oportunidades mais raras [e toda a gente se pode juntar a este movimento, é só mandar as suas fotos por mail...].
assim, no momento em que nos apercebemos realmente da figurinha que íamos fazer ao cantar sobre a pobreza no mundo vestidos de legumes, resolvemos entrar em histeria colectiva. e, claro, nada melhor do que uma auto-violaçãozita. nada temeis, não haverão represálias: o senhor mais em baixo nesta imagem sem roupagem a preceito é o próprio encenador...


foto de xico_biscoito

terça-feira, 2 de outubro de 2007

dois minutos

faltam para sair daqui. vou voando nas teclas brancas, a olhar para o monitor da maçã. o último post desta torre de marfim no centro daquela a que chamam petulantemente a cinecittà portuguesa. a ver o tempo escorrer e sem saber bem se me faz falta.
o passeio dos cheiros, é o que me ocorre. primeiro das árvores frescas do jardim, do nevoeiro espesso que não apetece saborear, dos bolos da pastelaria, do cimento fresco da loja em obras, da serradura, dos ares condicionados, dos fritos logo de manhã.
as pessoas: a senhora que treme, o japonês que pinta sempre as mesmas imagens, o sr. Oliveira do quiosque e as suas piadas com chávenas, a senhora indiana dos jornais de sotaque cerrado, os empregados doces do Doce Real, o bêbado com o cão, a velhinha com o outro cão velhinho, a rapariga drogada e o namorado arrumador, o outro arrumador de óculos e discurso ainda fluente, o brasileiro do restaurante onde há o melhor bacalhau à lagareiro da cidade, o moço do banco.
e a minha janela.
os cigarros no cinzeiro, as palavras escritas, reescritas, baralhadas. as gargalhadas. as confusões, as discussões, as dores nos músculos de tantas horas nesta cadeira. o desgaste que me estava a matar.
por agora, silêncio. não está cá ninguém.

dentro em pouco fecho o caderno. levo isto tudo lá dentro.

vou para os lados da avenida. durante 6 meses tenho casa nova, com direito a cheiros de palco. sempre fico mais perto do senhor das castanhas...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

malas aviadas

é inacreditável como dois anos e tal de trabalho se resumem a um saco de plástico com meia dúzia de bugigangas lá dentro: caneca para o café que nunca bebi (porque a máquina foi deixada ligada e estragou-se - e uma nova era demasiado cara), copo para as canetas, dois isqueiros bem feios e pesados para não mos roubarem, o respectivo gás, canetas compradas para escrever o mais depressa e perceptivelmente possível, lapiseira e minas, cadernos e agendas escrevinhados de uma ponta à outra, cds com coisas que fui acumulando no computador, uma pasta que usava para produção "no campo", postais que eu colava na parede, uma caixa de madeira que já teve chocolates, os eternos recibos verdes, pensos higiénicos e uma caixinha de lata com aspirinas. debaixo do braço, se aguentar com tudo, segue um rolo com os mupis das peças que produzi.
para amanhã fica apenas o último caderno.

dois anos e tal arrumam-se nos 5 minutos que a colega tirou para ir à casa de banho. não contei com o nó na garganta. uma amargura silenciosa por parecer que ninguém reparou - ou se importou - que dentro de 24 horas já desapareci. pelos vistos, tão de fininho como entrei. sem fazer mossa. sem fazer falta. tão descartável como o saco de plástico em que levo daqui as minhas traquitanas.

domingo, 16 de setembro de 2007

alcatrão

disse para mim mesmo: não. isto não. e o pragmatismo caiu-me aos pés, ficou a mirar-me lá de baixo, do chão raspado, enrolado nas pernas da maca para não cair nos solavancos. era o cabelo. espalhado na miséria de almofada, soltava o teu cheiro e o que eu adivinhava ser a tua textura. emanavas dali, daquele corpo inerte, apesar de não seres tu. e eu só podia olhar para os monitores e ver aquilo a esvair-se. via-te a ti a esvaíres-te. puxava o cérebro para o comando das operações, tinha de estar alerta e no entanto duvidava agora de quem precisaria mais de medicação. delírio, confusão. vi os teus olhos raiados de verde naquele rosto pálido de olhos baços castanhos, revirados. vi-te. a surgir na rua que o meu sonho recorrente desenhava numa geometria apurada. uma rua que nunca vi na vida, mas ali era a minha rua. a única rua que interessava. porque estavas lá todas as manhãs, perto da hora de acordar. caminhavas para mim em passo lento e encostavas-te a mim. do que mais gostava era da minha completa incapacidade de agir. empurravas-me contra a parede e ficava ali a absorver esse teu cheiro, e a tua pele e de repente estávamos nus na rua onde passavam pessoas que não nos viam. encostavas-te a mim e depois nua desmanchavas-te em milhares de vidros que me perfuravam. era assim, todas as manhãs a minha mão a subir pela tua saia e a tua pele a arranhar-me e eu a gritar de qualquer coisa. sempre acordei encharcado em suor e certezas. tinha de perceber como parar aquilo. és daquelas coisas que para um gajo como eu só existe ao longe, à hora da cerveja antes de ir para casa. agora eras tu ali, eu a delirar com uma vida nas mãos, que não era a tua mas eu via-te e não conseguia fazer nada com medo que morresses. o Vicente já conhecia demasiado bem o som da máquina. os pings e os bips que dizem sim, não, talvez. não precisou do meu aviso para abrandar a ambulância. abranda-se para a alma não se descolar com a velocidade. assim um bocado como os panfletos das discotecas que nos prendem no vidro do carro, que se soltam mal aceleramos. e eu, foda-se, em vez de pensar, em vez de fazer o que faço demasiadas vezes ao dia, entrei em parafuso e só te via a ti na maca e não sabia onde me meter. depois percebi que só podia fazer uma coisa. dar-te o beijo que nunca tive coragem, porque não temos coragem para estas coisas, quando é a sério. baixei-me e encostei a minha boca à tua. hoje era eu que tinha iniciativa, a chupar-te a saliva para ver se voltavas cá para fora, para a realidade. fiquei pegado a ti à espera dos vidros. só acordei quando o Vicente me espetou um banano na tromba. atirou-me para fora da ambulância com um puxão e eu, que sou duas vezes o tamanho dele, deixei-me voar e aterrar com as mãos no asfalto. fiquei a olhar para as palmas raspadas não sei quanto tempo. voltei lá para dentro e tinhas desaparecido. restava aquela tipa de cabelo parecido com o teu e o monitor com uma linha a direito. foda-se, disse-me o Vicente, que é que te deu pá? não sei, meu, bloqueei. epá, no meu turno não, no meu turno não. depois calou-se e ficou a olhar para a rapariga. disse qualquer coisa como antes isto que ficar vegetal. acho que era para me consolar.
saiu e fechou a porta. arrancou e não falou mais. assobiava as músicas da rádio, como costuma fazer para desopilar. eu deixei-me abanar pelos solavancos. apoiei os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. fiquei a cheirar o alcatrão da pele. a olhar para a morta. hoje à hora da cerveja a ver se falo contigo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

simplex, pastilha!

o simplex supostamente simplifica. há um ano atrás, quando me roubaram a carteira, passei um dia no parque de diversões do estado que é a Loja do Cidadão mas consegui fazer quase tudo [continuo sem cartão de contribuinte porque de cada vez que lá vou as Finanças têm o sistema em baixo]. agora, um ano depois, a história repete-se, desta vez com o namorido, que desastrosamente perdeu a carteira no nosso subúrbio encantado. que se revelou não tão encantado porque a carteira [apesar de também vazia de tudo excepto de documentos] não apareceu.

se há um ano atrás, entre filas e momentos de humilhação a implorar por um rasgo de inteligência e compreensão aos funcionários, as coisas se faziam num único prédio - escada acima escada abaixo, com muito dinheiro, originais e fotocópias -, em praticamente 365 dias o simplex complicou.

senão vejamos:
para pedir o B.I., agora a coisa não vai lá com a certidão de nascimento. além deste maldito papelinho [que tem de ser tirado na Fontes Pereira de Melo ou então fica mais caro e demora mais] carimbado entre horas de chá, baixas por unhas encravadas e greves , é preciso apresentar o Bilhete de Identidade de uma pessoa de família. ah pois claro. olhe senhor, tem aqui o papel a dizer que fui roubado, mais outro a dizer que existo e que nasci em sítio tal, sendo filho desta e do outro. tem as fotografias e o dinheirinho. alto lá! mas me está a dar prova de que você existe, baseada na existência de uma esta e um outro que não estão presentes?! preciso do B.I. da esta ou do outro, porque isso da certidão de nascimento diz que nasceu desta e do outro mas não é beeeem a prova provada. é só um papel! só porque está carimbado por um Alto Funcionário das Certidões, como é que eu, Alto Funcionário dos Bilhetes de Identidade, sei que esta e o outro existem, de facto? hum? pesquisa no computador?! base de dados?! rede de informação, cruzamento de dados?! tenha tento na língua, ouviu?! eu não tenho culpa dos seus problemas! fale com jeitinho, agora palavrões... cruzamento de dados e internetes... cá não há dessas coisas, ouviu? e mais! eu não tenho nenhuma obrigação de saber mexer nisso dos ratos. eu sou uma pessoa decente! cruzamento de dados é para os das Finanças! quanto a identidades é outra conversa, são precisas provas! inculto! vê-se logo que você nunca ouviu falar de geração espontânea! vá, vou-lhe fazer um favor: se não pode apresentar o B.I. da pessoa da família, então vá ao Areeiro tratar do B.I. sim, ao Areeiro, onde já não vai chegar à hora de menor fluxo de clientes, onde vai ter 126 pessoas à frente, mas onde lhe tratam disso sem o B.I. do familiar! eu tenho soluções para os seus problemas! tudo se resolve! e olhe, esta é de graça: para tratar da carta de condução talvez ainda lhe aceitem a certidão de nascimento, mas para tudo o resto não vale a pena tentar sem o B.I. portanto vá já ajeitando a agenda para voltar cá um par de vezes. ah... quem é amigo, quem é? eu, o Alto Funcionário Formatado dos Bilhetes de Identidade, que até dá umas dicas simpáticas depois de duas horas numa fila que, afinal, não dá em nada mas a vida é assim e se você trabalha e não tem vida para isto, então viva ilegal! não fosse roubado! malandro!

na Loja do Cidadão pode tratar de vários dos seus assuntos burrocráticos num só espaço... mais rápido, mais eficiente, sem tanta papelada, simplex!

e a carta de condução, onde se trata? na DGV, não é? e há uma DGV na Loja do Cidadão Incauto, não há? sim, sim sim! não. quer dizer, há uma DGV nesse espaço maravilhoso, mas para tirar a carta precisa de... ir à sede da DGV, porque na DGV da Loja do Cidadão nós já não tratamos das cartas de condução. tratamos de outros assuntos. mas de cartas não. que outros assuntos? assim de repente não estou a ver, mas de cartas de certeza que não tratamos. e para tirar segunda via da carta, já se sabe, não serve de nada o papel a dizer que foi roubado, a certidão de nascimento e o certificado de pedido do B.I. não senhores. precisamos do seu B.I.

vão lá oferecer computadores e listas de espera via sms para o raio que os parta a todos. só proponho aos senhores ministros que resolvem simplificar a nossa vida que experimentem ser roubados e resolvam tratar - sem assessores nem representantes - da sua documentação. que percam horas de vida e de trabalho a serem empurrados que nem bolas de ténis, de uma repartição para outra, escada acima, metro abaixo. e que no fim lhes apresentem a conta e eles tenham de pensar em como, recebendo os flexiseguros 500 euros por mês a recibo verde, entre descontos para a segurança social, retenções de IRS, a renda, as contas e as compras do supermercado, não se vão sentir roubados pelo Estado [de sítio e pouco de direito] em que estão metidos.

sabemos que um roubo de documentos é uma chatice, que já implica despender tempo e paciência nas filas. aturar gente estúpida e pouco solícita porque sem formação [são, eles também, mais baratos assim]. mas pronto, suporta-se. no entanto, pensamos que, bolas, num roubo, num pedido de segunda via de documentos por uma situação a que somos alheios, as coisas sejam realmente simplificadas. caramba, hoje em dia podemos entregar IRS pela internet e pagar por multibanco. o mesmo para o selo do carro, para as contribuições da segurança social. não temos de por os cotos nas filas. podemos pagar as multas com transferências online, for crying out loud! mas curiosamente, o sistema simplex SÓ não está preparado para resolver os problemas dos únicos que não tiveram culpa nenhuma da situação em que estão.

para todas as informações [que são nenhumas - por exemplo apresentar o B.I. do familiar consta apenas como uma hipótese e não como uma obrigação], há sempre o Portal do Cidadão. não obstante, seremos sempre obrigados a ter um longo e prazenteiro téte-à-téte com os senhores dos balcões das várias instituições burrocráticas...

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

schmooze



v. intr.
to converse casually, especially in order to gain an advantage or make a social connection.
"to chat intimately," 1897, from Yiddish shmuesn "to chat," from shmues "idle talk, chat," from Heb. shemu'oth "news, rumors." Schmooozer is from 1909.

ganhei um prémio, o prémio do Schmooze [santinho]. diz esta senhora que eu schmoozo muito. que tenho o chamado poder de schmoozar.
lendo a definição de schmooze do dicionário, concluo que terá a ver com, vá, conversas da treta, mas daquelas que sabem bem.
depois diz ela que devem nomear-se outros, mais ou menos num obrigadinhos por vir cá meter conversa com a pobre blogger abandonada.

aqui a pobre blogger abandonada anda a portar-se mal. escreve pouco, poucos nadas inundam esta paginita virtual. daí o abandono da caixa de comentários. sabendo que no mundo do teatro não há justificações, mas que no mundo da vida elas existem, cá vai a minha desculpinha: agora tenho dois trabalhos. se num deles ainda aturo o chamado patrão do beicinho em dia de pagamento, se ainda faço projectos e queimo pestanas para converter grunhidos em palavras; no outro danço 6 horas por dia, aturo outro género de desorganizações, tenho de aprender a cantar sozinha, e decorar texto por 5 pessoas. não almoço, porque estou a fazer os 45 minutos de autocarro que separam as minhas duas mecas laborais. não janto porque saio demasiado tarde e acabo o dia com os pés de molho em água quente, creme e sal grosso. e é isto.

posto isto, remeto então a lista dos premiados - a.k.a. alguns dos que ainda não me abandonaram:
espanta-espíritos (se bem que também anda ausentezito)
m.p.r.
joão (este não me abandona porque agora andamos colados no mesmo cabaz)
colher de chá
intruso
nuno
o estranho (estes dois últimos, desde o primeiro ano. impressionante)

e um muito obrigadinhos a todos os outros que ainda fazem com que a minha barrinha do stat counter não esteja tão plana como a minha conta bancária.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

mimi...

ainda sobre o canto, e descobrindo no blog do meu Mr. Bojangles a perfeita ilustração da situação - por alguma razão somos irmãos gémeos -, roubo-lhe o marreta e mostro ao mundo como [também eu] me sinto quando tenho de, vá, chamemos-lhe "cantar"...

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

hoje à noite

cine-lençol.
filme projectado à antiga, num [para quem não tinha percebido] lençol. no meu jardim preferido.

eu acho que vou regressar aqui ao Príncipe Real esta noite, trazer umas almofadinhas e uns agasalhinhos e ver o que me espera. às 21h.

toda a informação aqui...obrigada Público [o jornal]

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

da voz

para mim, há algo de tenebroso num estúdio de gravação. apesar de ser a minha casa quando faço os bonecos [e aí ninguém me pára], quando se trata de fazer música com a minha voz, parece que o meu mundo está a sofrer um tremor de terra. e os meus sons saem aos saltinhos.
e não me salvam mezinhas, propolis, euphons, chás de perpétuas roxas, copos e copos de água ou exercícios de respiração. não me salva vizualizar-me sozinha no carro com o velho cd do Chicago aos berros e eu a fazer coro com a Zeta-Jones.
é que ali ouço-me... e a fantasia vai ganhando forma, porque estou a cantar uma coisa meio Broadway, e já estou num palco escuro com uma cartola e com o follow spot em cima e o público está ao rubro e a minha voz sai densa e intensa e... pimba, a nota sai ao lado, não consigo fazer a ponte para o maldito - agudo - tipo - dedo - no - chamado - orifício.
e então vejo as caras do outro lado do vidro duplo, vejo-os mas não os ouço e por isso penso logo que não têm mais nada para fazer que não seja estar a falar mal de mim, eu sei que estão a perguntar-se de onde é que saiu esta pobre alma desafinada.
aí maldigo a pobreza, a falta de aulas de voz que sempre quis ter e a minha imuno-deficiência ao canto.
deve ser o único trauma que não sei de onde raio é que me saiu.
ficam sempre espantados quando digo que não sei cantar. como não? porquê? és afinada, tens ouvido, sentido de ritmo, tens uma voz linda...
oh, senhores: a minha voz é linda para falar. falar, eu falo bem... e falo muito e tudo...

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

vela

isqueiro ou fósforo. cera. bruxinhas. vento e ventania por dentro.
conversa de olhos nos olhos. assertividade. franqueza. fraquezas sem vergonha.
depois o vinho, o brinde, a alegria, a verdade de um salto sem rede mas com vontade.
revelações. revoluções.
o meu corpo terá de reaprender a dançar.
a minha voz terá de reaprender a musicar.
a minha caixa de sentimentos terá de ser reaberta.
hoje foi o meu último dia inteiro na janela com vista para o Príncipe Real.

vou fugir. o vento não me levou com ele mas soprou-me um pouco de ar. enfunou-me as velas. vai-se devagarinho, de cabelos nos olhos. e braço dado com os amigos.

obrigada a todos. não me deixaram cair. não vos irei desiludir.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

ventania II


montagem a partir de fotos de espanta-espíritos

depois da queda, os braços, doridos, que me agarram. sempre eles. pisca para a direita e agora não vamos para casa. hoje a terapia não será papel de parede. e o tempo arrefece e as árvores que também abraçam. a terra dos feitiços. segue-se o labirinto e deixo que quem conhece aquelas artérias nos navegue pelo sangue verde de asfalto e silêncio. aos poucos o encanto vai descendo, à medida que subimos. subir até ver as nuvens a cair. não pairam, rodopiam, entram pelos ramos e chamam. e ali não há sol nem calor neste pleno verão tão tremido. no reduto, no local secreto que me dás. está ali, como da outra vez, todo o meu estado de espírito. se antes havia luz, azul e vista limpa, hoje não se vê nada. o vento vergasta, uiva, puxa e empurra, faz de nós joguetes de vontade, que sim, chegarão lá acima só porque querem ou seriam derrubados num sopro. equilíbrio precário. frio e adrenalina que não dão espaço ao fraquejar da carne. rajadas que nos calam o medo dos dias úteis, dos dias sempre iguais sem luz de saída, da música amargurada que nos canta e sorri. e as nuvens que envolvem tudo, tomam o território da terra e dos pés e humedecem o espírito. naquela tormenta gritámos, ouvimos, ficámos até a alma estar um pouco mais sossegada. embatida, batida do esforço que foi mantermo-nos de pé.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

sorriso-tupperware


imagem montada por mim a partir daqui, com foto deste senhor

alô? estou, estou aqui. não. não sei. vais ou voltas, adias e afinal tu não és bem tal e qual. mas eu aviso, prometo que aviso. apitou? sabes, é que há outras coisas em jogo e a tua saúde mental não entra na equação. cartão "saia da cadeia". pois, deve ser. espera. desespera. preocupaste-te? sentes-te ridícula, tanta pena tiveste, tanto medo de fazer mal, de tudo ser em cima da hora. medo de estar nas tuas mãos. deixa-me rir. esta história só pode ser tua. espera. mais logo. espera, agora só amanhã. garanto-te. nada garante é que valha a pena. até foste melhor mas não vale a pena. sentes-te ridícula? queria ser daquelas que não deixa margem para dúvidas. mas devo ter uma margem. dessas das dúvidas que todos têm, que tudo é diferente no que toca a ti. não és suficiente. nunca foste. isto é estranho, nem sei o que pensar. como me devo sentir? não sei. ah não? pois, temos pena. ao menos isso, temos pena, podiam dizer. não.
espera.
já passou da hora. que fazes à espera?

nada.

ponho o sorriso tupperware: flexível sem perder a forma, útil e nunca inconveniente. é de marca, é fiável. tem muita arrumação, fica bem com tudo e nunca desilude. abre e fecha e deixa tudo bem escondido selado hermético sem odores lá dentro. por fora estão as cores, o que sempre alegra o ego do potencial cliente. o que interessa é ser assim, uma puta de plástico profissional.

olá, sou a Polegar e sou um tupperware. sou uma república das bananas. vem gozar comigo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

ventania



saio em reboliço e lá fora o tempo azul brilhante parece de acordo comigo. rebelam-se folhas em círculos, pairam sacos de plástico, o meu cabelo já acompanha a dança. o vento levantou vôo. está a estender-me a mão. são noites brancas, a preparar as asas. tenho medo que estejam enferrujadas, tenho noção do agora ou nunca, entre o desespero de querer fugir e o terror de já não saber como se faz, espero ser forte e conseguir apanhar a próxima rajada. não quero magoar os teus braços com uma nova queda, nem desiludir o vento que me espera. acima de tudo, quero saber que ainda consigo voar.

imagem de Maria Flores e Fernando Figueiredo, resgatada daqui

terça-feira, 14 de agosto de 2007

granada sem cavilha

o telefonema chegou. e pôs-me entre a espada e a parede.

interrompo neste momento a emissão para um escarcéu vergonhoso de auto-comiseração

porque é que comigo tudo é assim? porque é que as coisas me saem das mãos e me chegam feitas ultimato, e me obrigam sempre, sempre, sempre, a fazer o que não quero? não se pode fazer isto às pessoas, eu não sou assim, eu não funciono assim. não quero maus ambientes, não quero que me olhem assim. outra vez não, não tenho forças. porque não têm razão. eu não quero que seja assim. mas nunca vão saber isso porque o que é, é o que aparece. pensa em ti, pensa em ti, lixa-te nos outros. não. pois. sim. terá de ser. não posso rebentar mais comigo. e agora tenho na mão a granada sem cavilha e só tenho de escolher para onde a atiro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

agulhas de crochet

são pequenas rendas de imagens, que me surgem à velocidade dos dedos da minha avó a fazer crochet, com aquela agulha retorcida na ponta e gestos hábeis de quem se esquece da idade no passeio pelas linhas brancas. era assim que me aparecia aquela dança e eu muito atenta aconchegava os óculos de massa cor de rosa - éramos tão pirosos nos idos 80 - na cana do nariz e absorvia o "vês, é assim, passas por aqui e dás a volta" e eu de língua de fora passo por aqui e dou a volta. depois é a minha mãe, agora aprendo a fazer malha, e o barulhinho suave das agulhas que já não são retorcidas a roçarem uma na outra e a lã a queimar-me o pescoço porque me entusiasmo e vou por ali fora até quase estar enforcada na minha obra de arte que nunca chegará a ser mais que um semi-cachecol preso a um pau de metal.

assim se desenroscam os novelos da minha ideia, maldita a hora em que o homem e a mulher são animais racionais, só pensam quando não devem, no que não devem, eu, animal racional com fantasmas de bolso de estimação que não me estimam. saem-me em catadupa dos dedos e dos olhos todas as pequenas coisas que não consigo organizar, deixo-as cair como fios de algodão-doce colados em teias de aranha desordenadas mas que, se formos a ver bem, tudo liga com tudo. só não se consegue explicar tudo ao mesmo tempo. por exemplo, como explicar pequenas vitórias como conseguir dormir uma noite inteira sem o teu corpo às pintas por perto? a noite é comprida mas eu quero conseguir dormi-la toda, porque é menos um peso nesses olhos redondos de menino quando falamos nisso à medida que te aparo a barba e componho os caracóis. assim sabe-te melhor saber que te acompanho mesmo que à distância nessas caminhadas que te levam para longe e até vou deixar-te ao comboio. sempre gostei de comboios, andam no chão e embalam. fica a promessa de passearmos os dois em breve, sem chatices de gasolinas e portagens, só embalados pelo pouca-terra eléctrico a caminho de um qualquer sítio. e, sabes, aquele nosso amigo já voltou ao qualquer sítio.

assim se avalancha tudo, entre malhas bem apertadinhas como os nossos abraços do fim de noite ou a meio do dia porque é assim sempre que apetece e apetece tantas vezes. o teu lábio a tremer e eu a tentar secar-me num sorriso naquele cais, plataforma 4 carruagem 21, porque tens de saber que não me importo nada, que estou orgulhosa, que sei que vais em trabalho e voltas cansado mas feliz. tal como sei qual é a sensação, a vida que nos preenche e que poucos percebem como é que isso importa assim tanto. mas eu sei como é, o cansaço de um corpo preenchido porque tem a alma completa. somos diferentes dos outros e já me habituei aos olhares de lado, mesmo daqueles que fingem que olham de frente. desgastamo-nos mais depressa porque sabemos ao que sabe um balão cheio de ar, uma boca cheia de chocolate da vida de profissional liberal, vida de artista gente esquisita que basicamente são uns mimados que não sabem o que custa. tontos, sabemos o que custa, mais que todos, mas sabemos ao que sabe quando é bom, e que somos bons. assim te dou espaço às tuas vitórias, porque sei.

não me importo de esperar por ti, gostava de fazer a espera mais produtiva como no ano passado que te desenhei um Corto Maltese para pores na parede. gosto esperar por ti. mais me irritam as esperas por telefonemas que não sei se chegam enquanto definho devagar a cada passa de cigarros baratos neste sítio onde não se faz nada além de ouvir falar mal dos outros.

o ser humano é um animal de hábitos, dizia o outro - lembras-te? - e eu sempre concordei, mas acho que, pelo menos este animal, além de se habituar a quase tudo também tem dificuldade em pensar em habituar-se ou pelo menos a preparar-se para a mudança enquanto ela não vem. e se não vier? troca-se o relógio pelo anel polegar - faz companhia olhar para ti enquanto vejo as horas.

curiosa, esta coisa dos relógios, há uns tempos eram nossos inimigos, mas agora são as noites inteiras que dão gozo. apesar das rasteiras do prazer que o tempo nos prega. dantes, no tempo dos escorregas de areia de São Martinho e das tardes na praceta, então nem os dias nem as férias nem a vida nunca acabavam. agora abranda, a voracidade dos ponteiros, eu sei que é psicológico, mas podia jurar que fazem de propósito, os malandros, agora que não estás, que será mais uma noite de monólogos dialogados interiormente debaixo do mosquiteiro a olhar para a nossa pin-hole iluminada pelo televisor sem som "ó estúpida, dorme antes que o teu corpo dispare em todas as direcções, tu até tens sono, porque é que não dormes. ó estúpida que mania a tua de não gostares de estar sozinha". confesso que me maltrato porque não gosto de mim. mas isso são outros quinhentos e tenho quem me queira e me goste assim muito, tu de longe de voz cansada a bater na vontade de dormir só para enganar a distância metálica do telemóvel, para eu ficar melhor. eu estou bem, eu sei que estou.

a S. hoje vai lá jantar. vai fazer vegetariano para mim, vai-me mimar porque lhe pediste que não me deixe sozinha e ela mima-me e eu adoro-a e adoro-te por teres ultrapassado a minha mania de que tenho de tomar conta dos outros e não tenho de pedir para tomarem conta de mim. vamos comprar courgettes, quem sabe beber vinho tinto, vamos entretecer conversas e fumar cigarros dos baratos com a música a tocar baixinho, de luzes vagas na sala cor de laranja porque nós temos as duas medo do escuro mas assim de palavras dadas sabe bem. ela vem tomar conta de mim, que tento tomar conta dela. ela vem com a sua roupa às cores e a franjinha brilhante, a cara às pintas - como as tuas costas - e o sorriso em riste, apostada em jogarmos ao mimo. hoje não vou esperar sozinha e vou deixar, prometo, que ela me embale e que o vinho me deixe mole para ir pesada para a cama e que seja o que o João - o Pestana - quiser.

e vai ser assim de quentinho, de aconchegado o meu sono porque, sim, tenho amigos que aparecem para acender uma luzinha nas noites em que eu tenho medo do escuro e não contei a ninguém. são dedos seguros a que me vou habituando, a não ter medo de pedir ajuda, como as tuas, como as da S., como aquelas mãos macias que já não estão cá e que tão suavemente - como só elas souberam e as vossas vão aprendendo [agora, que eu deixo] - me faziam festinhas e se deixavam estar presentes só assim, a ver-me cair no sono sem medo - que eu sempre gostei de dormir - vigiando o passeio pelo rio dos sonhos e que só saíam da beira da minha cama muito depois de eu deixar de conseguir dar conta do que quer que fosse porque entretanto já tinha chegado ao cais do outro lado, onde os bichos falavam e eram de cores fortes, como os marretas, os vestidos de princesa e o mercuriocromo nos meus joelhos esfolados.

acabei agora as últimas palavras. acredites ou não começou neste preciso momento uma senhora a cantar fado lá em baixo. aqui. aqui por baixo das janelas com persianas de bambu no prédio amarelo mais feio da Dom Pedro Quinto. as janelas da minha torre - de - marfim - até - telefonema - em - contrário. é fado, sim. daquele sem sílabas, só sons gemidos. é uma senhora que [me] canta de voz trinada e me lembra com uma pontadinha pequenina no coração - que anda meio amachucado - aquela voz que cantava só para mim enquanto lavava a louça e eu, de língua de fora, tentava fazer crochet.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

na alegria e na tristeza

esta manhã, a caminho do trabalho

- uff, ter ataques de choro logo de manhã é chato. fica-se sem forças e ainda nem começou o dia.
- mas limpa-te a alma. ficas mais leve. hoje pelo menos estás mais animada que ontem.
- achas?
- sim. ontem estavas com cara de gases.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

connect the dots


imagem de Quino, obviamente.

acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum.

um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão.

eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.

I'm Jack's inflamed sense of rejection

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

bajji



não tenho por costume fazer posts ambientalistas, excepto quando me chateio com o trânsito.
mas hoje ouvi na rádio que o golfinho branco desapareceu. assim. não há mais. morreu o último, no prato de algum chinês que não gosta de chop suey de galinha. ou de crepes de vegetais. ou de arroz.
e aquilo fez-me impressão. doeu cá dentro. não sei se, por achar muita graça a esta espécie, a coisa não me terá afectado ainda mais, confesso.

o que importa reter é que os golfinhos brancos andavam por cá há 20 milhões de anos. e um senhor predador, mais jovem do que todos os outros predadores dos golfinhos brancos, conseguiu acabar com eles sozinho. e por puro e simples capricho - não foi de certeza por não ter mais nada para comer... por acaso o senhor predador até é omnívoro.

apesar de pensar que tento dar o meu pequeno contributo para aguentar este nosso mundinho por mais uns tempos [carro "verde" e utilizado só em casos de real necessidade, reciclagem, sistemas de poupança de água, banhos curtos, lâmpadas economizadoras, não largar beatas na praia e por aí fora], não posso deixar de me perguntar... o que é que andamos a fazer?

oi, pessoal!... quando não houver mais nada para matar, se não antes, NÓS VAMOS MORRER.
percebem ao menos isso, ou não?

foto retirada daqui

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

sweet fifteen

segundo este teste, tenho um corpinho de 15 anos e vou viver até aos 86.

isso explica muita coisa, inclusive a medida do soutien... eheheh

através do caríssimo frutos de sombra

segunda-feira, 30 de julho de 2007

família feliz

sentam-se falando alto, de comida. a mãe é enorme e tem a voz aguda. parece "uma bola de berlim com um berlinde em cima". a filha é um ser sobrenutrido de sobrancelha farta e testa curta, com "corpo de trintona com 2 filhos" mas que gosta do Noddy e do Ruca. o senhor, que não parece ser o marido|pai, é grisalho e usa pólos brancos com uma risca e bolsinho no peito, à antiga. dá cotoveladas brutas na rapariga, mostrando que é um velhadas-à-maneira, percebe de tudo e da vida de todos e nada o impressiona.

atacam uns bitoques oleosos enquanto discutem não sei quem, que está gordo e devia ter cuidado. diz que não era assim, que foi depois de largar o futebol. mas tem de ter cuidado com o que come, caraças, já não é novo. entrementes o senhor comenta que não gosta do Macdonas, que não é pessoa de ambrugas nem de sande. só assim para ir para a praia é que o convencem à sande. a moça atalha que até gosta do Macdonas, mas não vai muito. a mãe torce o nariz. nada bate a comidinha caseira.

terminado o bife vai-se palitando os dentes com a esquina do guardanapo. pedem-se sobremesas. mal chegam à mesa, a senhora enumera os defeitos. porque ela já fez doces para fora. que esta receita não é tão boa. que está mole, demasiado doce e pouco frio. a sobrenutrida diz à mãe que "é por isso que se chama semi-frio" e ela e o senhor riem-se muito. está muito esperta, esta miúda. repare-se que o seu bolo de bolacha, o último a chegar, já desapareceu do pratinho, enquanto que a mãe e o senhor ainda se degladiam com o semi-frio que está pouco frio. a mãe aplica-se como uma valente, uma mártir como já não se fazem, com esgares e caretas, mastigando de boca aberta deformada em desagrado, para que se saiba num raio de 300 metros o sacrifício que foi comer o semi-frio até ao fim. que isto não é gente de deixar comida num prato, que é pecado, só por isso.

a discussão subiu de tom, um tema grave que implica um forte brainstorming: o gato, aquele que é o Garfield, às riscas pretas e brancas, ah, sim, o Tómi do Jérri, pois, preto e branco, não que o Jérri era um rato castanho e o Tómi era cinzento, então sou eu que sou daltónica, não, é o outro do pintainho, o do Mimi, ah, não é esse o nome, esse é o do coiote. Pipi, é isso, Pipi, o pintainho que havia uma velhinha e tinha um gato preto e branco.

grave dilema desvendado. venham os cafés.
com adoçante.

salvar a pátria

a colega - que é a que trata dos dinheiros e pagamentos - andava atrás dele com o livro de cheques desde a semana passada. a resposta já podia gravar um disco:
"hoje não me apetece assinar nada".
a colega ia de férias durante 15 dias. na sexta-feira a cena repetiu-se: não lhe apetecia - ao outro - assinar nada. nem mesmo os nossos cheques - cócegas no meio de ivas e i-érre-cês.

lá foi ela de férias, deixando-me o nib dela para lhe fazer o depósito do ordenado e, claro, a lista dos pagamentos a fazer quando se soltassem os apetecimentos do outro.
o meu habitual "mas eu sou de letras" sacou uma gargalhada na despedida, um encolher de ombros cúmplice e dorido de uma batalha mensal sempre igual, mas de pouco mais adiantou.

hoje ele chega-me a suar muito, conta histórias de como o chão da casa dele ferve. rimos todos. ele diz que quer comprar uns sapatos. os meus alarmes disparam, isto é um sinal de pairanço [s.m., forma de estar do patronato num escritório quando há pouco que fazer, está demasiado calor para pensar e já se viu todos os vídeos do youtube; direito patronal de ir laurear a pevide durante o horário laboral só porque sim - in 'dicionário sindical polegarês das artes do espectáculo pobre mas wannabe'].

uma estranha força toma conta de mim. talvez por não me lembrar da última vez que fui cortar o cabelo, jantar fora com amigos, ir dançar com o namorido, comprei um livro, um dvd, um cd ou um creme para a cara, dei uma passa num Davidoff. ou por me lembrar que tenho a despensa vazia, que devo 4 anos de segurança social [viva os recibos verdes e a valorização do trabalho qualificado], que a mota deu inexplicavelmente o berro e por isso ando a assar dentro de um carro sem ar condicionado que devia ter feito a revisão há quase 4 mil quilómetros.

levanto-me da secretária, dou os três passos que nos separam, estendo-lhe o livro de cheques.
"hoje não me apetece assinar nada"
isto pede um golpe ninja. a explosão de raiva saiu-me docemente, numa gargalhada cúmplice e uma piscadela de olho. assim:
- estou solidária com a tua dor. mas, sabes, aqui para estes lados já começa a ser uma questão de fome.
ele abre o livro e assina.

vou ao banco, volto já.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

a história verdadeira

era uma vez uma formiga e uma cigarra que eram muito amigas, apesar de terem feitios muito diferentes.

no Outono, a formiguinha trabalhou incansavelmente, a armazenar comida para o Inverno. não parou para descansar, não aproveitou os fins de tarde nem o pôr-do-sol, não esteve com amigos, não se foi divertir... já a cigarra passou o Outono na rambóia: ele era festas, estar com os amigos... andava sempre de guitarra debaixo do braço e toca de cantar em todo o lado e divertir-se comme il faut.

chega o inverno e a formiguinha lá vai para a sua toca quentinha e confortável, recheada de provisões. está ela a ver se descansa um bocadinho as pernas quando batem à porta. é a cigarra, que lhe aparece num lindo casaco de vinil todo pimpão, guitarra debaixo do braço, óculos escuros e lenço na cabeça.

- então! tá-se? - pergunta a cigarra
- tá, tá. - diz a formiga espantada - e tu, como estás?
- fofa, vou-me pisgar por uns tempos e precisava que me tomasses conta da toca. regar os bonsais, ver o correio, essas cenas... pode ser?
- pode... mas onde é que vais?
- nem m'imaginas esta cena. tava eu muito bem uma daquelas parties q'as revistas arranjam à gente com bubas à pala, a mandar uns sons pró ar, 'tás a ver, numa d'improviso só pr'á curtição c'as minhas amigas lá da linha, quando vem ter comigo um gajo que diz qu'é produtor e que gostou de mim, qu'eu tinha uma imagem espectacular e a voz e assim. dois dias depois tava a assinar contrato! vou gravar um cd e dar concertos numa tour de 6 meses. na França! provavelmente também pode ser que venha aí um convite p'uma novela musical. não sei falar francês mas também... faço d'emigra pobrezinha. é mais cenas de nus e tal, é só gemer e cantar umas músicas. mas é um começo de estala!
- ah... boa! fico tão feliz por ti, minha amiguinha!
- iá. pode ser que entretanto escreva uns livros sobre a cena da tour e isso. era curtido, não achas? depois mandava-tos textos pa fazeres revisão, fazias-misso?
- pois, pode ser, claro...
- olha, e já agora fofa, qués'alguma cena da França?
- até queria. se não te importasses, fazias-me um favor enorme: se encontrares um tal de La Fontaine manda-o sodomizar-se por um elefante sifilítico.

um disparate baseado neste, com uma expressão - a do elefante - "roubada" a este senhor. retomaremos a emissão dentro de momentos.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

etiqueta 1.0.1.

não pedir a uma pessoa a quem pagas por mês um quarto do que recebes por semana - de outro sítio - para fazer o teu trabalho... desse outro sítio.

confuso? pois, deve ser...

terça-feira, 24 de julho de 2007

na soleira da porta



perdi os olhos no rio, à minha direita. perdi-me. em cogitações sobre os efeitos da luz do entardecer na água. como parecia uma amálgama de recortes de papel de alumínio colados com cola de batom UHU, no chão, para reflectir o céu. perdi-me nisto tudo. só no fim do percurso me apercebi que o meu corpo se recusara terminantemente a virar-se para a esquerda, a encarar as luzinhas bonitas da cidade do outro lado. a encarar o regresso.
acordei e vi uma nódoa. por mais que a esfregasse não saía e uma aflição tomou conta de mim de tal forma que chorei. chorei por uma nódoa e cheguei atrasada.

recuperei e esvaí-me a um só fôlego, parece-me. ou não me consigo reservar espírito para os dias úteis-inúteis. a ordem das coisas está ao contrário, isso é certo, mas o inconformismo desgasta-me e, mais uma vez a um só tempo, não consigo ser de outro modo.

fazes-me falta. há demasiado tempo que não te tenho, que não me tens. faz-me falta o teu cheiro e as nossas noites longas. o esforço, o suor, e os meus dedos a tocar toda a tua amplitude. tu devagar, começavas a dedilhar-me e a minha voz soltava-se. primeiro tímida, depois explosiva. porque contigo eu sei que era perfeita. ias aumentando de intensidade e eu encontrava-me coisas que não conhecia e ria alto. percorríamo-nos algures entre o lento saborear e a pressa de chegar. um dia fazíamos uma música inteira. e eu dançava com passos marcados pelo instinto. pelo teu chão, pelo chão que era meu, o meu palco. gostava tanto de quem eu era quando vivia plena no nosso abraço. o que me dói não ter esse abraço.

releio o que escrevi e sorrio. há várias cambiantes para um desgosto de amor. se o que digo fosse dirigido a uma pessoa, vendia-se que nem pãezinhos quentes.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

humming

promessa cumprida, para uma amiga.
pinta de artolas à parte [inimitável], agora já sabes o que andámos a cantar naqueles loucos 4 dias ;)

I’m gonna sing this song with all of my friends
and we’re I’m from Barcelona
Love is a feeling that we don’t understand
but we’re gonna give it to ya

We’ll aim for the stars
We’ll aim for your heart when the night comes
And we’ll bring you love
You’ll be one of us when the night comes

I´m from barcelona | we're from barcelona


segunda-feira, 16 de julho de 2007

volver


três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
o asfalto comprido, os ventos, os cheiros, os mosquitos, os ataques dementes dos condutores espanhóis, a curiosidade por uma casa caber em dois pares de alforges e em sorrisos felizes apesar da distância.
uma pequena cidadela com uma praça curiosa, rodeada de história e um teatro secular, o mais antigo da zona ibérica. igual ao que era, tratado como devia ser. o primeiro café-bombom e catalana do itinerário.
os caminhos de Dom Quixote. e um só moinho.
a aldeia perdida na montanha, a casa no campo, a praia, o descanso, a família, as guloseimas, as agua-cebadas, os percalços, a aflição e a determinação em seguir caminho. os picos, a areia. rincón de santi. a entorse. o mar da minha infância, ainda quente, ainda turquesa. vambú. noche hache, caiga quien caiga. breathe. crisis-is de celulitis-is. gilipollas!
a primeira metrópole do caminho. um sorriso às sardas no meio das árvores, o duche frio, as dores nas pernas, nos pés, o pensinho com bonecos, Gaudi, antiguidades, o apelo consumista, recordações, noites de gargalhadas em segredo, à luz da lanterna numa Sintra inventada. tão perto. daquelas vielas com música em cada esquina. tango no meio da rua. já mencionei Gaudi? a minha saia nova. assobios.
última paragem. no centro do centro do centro. o design e as bagagens. o sono vigiado por Lorca. de mãos dadas pelas ruas, a cinco minutos de tudo. descer o Prado, subir Van Gogh, descobrir Estes. as praças, as arcadas, o mundo parado ás quatro da tarde. o calor, as cañas e barrigadas de Fatigas del Querer. contas saldadas com um certo bar de jazz onde finalmente entro, tantos anos depois. às vezes é preciso passar o tempo certo para tudo fazer sentido. finalmente estou.

três mil e sessenta e nove quilómetros, quarenta e cinco horas e quinze minutos de estrada.
cinco etapas, ao longo de quinze dias.
tanto sorriso, tanto, meu amor.

venho pela presente solicitar a beatificação dos meus quartos traseiros.
com os melhores cumprimentos

sexta-feira, 29 de junho de 2007

estranhas bandas sonoras

há estradas com músicas próprias. este ano, percorro caminhos de menina. em que as horas eram demasiado compridas e as curvas demasiado apertadas para um estômago sensível. a alternativa era sempre a música. cantar sempre me fez bem aos enjôos e quejandas indisposições da alma. quando acabavam as pilhas no walkman, sobravam-me ainda horas infindas de músicas de gosto duvidoso que ecoavam nas 4 paredes viajantes do carro. Roberto Carlos, Paulo Bragança, Demis Roussos, Beach Boys, Righteous Brothers, The Shadows e sei lá que mais sons do passado. e um dia, surge-nos do outro lado da estrada El Consorcio. e lado A, lado B, quilómetros atrás de horas, rodava no auto-rádio-com-leitor-de-cassetes. a minha memória selectiva não se lembra do que almoçou ontem. mas lembra-se das letras e das melodias. a minha avó cabeceava, com as pernas da minha irmã no colo [que a miúda ainda cabia deitada no banco da frente]. a minha mãe punha os pés no tablier [vício que escorre no código genético], e o meu pai assobiava. reencontrei-os há pouco tempo e não pude deixar de rir. para mim, serão sempre um disparate deliciosamente kitsch. é mais forte que eu. rasga-se-me um sorriso. desta vez, de oeste a leste :)



até daqui a 15 dias...

terça-feira, 26 de junho de 2007

na véspera de não partir nunca



para breve a vida compactada num par de alforges, os cheiros do vento e os riscos do mapa feitos rugas nas palmas das mãos. eu nas tuas e tu nas minhas. gosto disso.
a tenda vai sair do esconderijo e o pó do caminho vai fazer-nos a cama. é o chamar do asfalto.
para breve o tinir da colher na chávena de alumínio, a cozinha em pacotes, os pássaros, as ondas mornas, a relva, a areia, o cimento e a terra batida, as agua cebadas, os sotaques açucarados, as multidões e os silêncios de três mil quilómetros. o calor e o cansaço, o arrepio do suor, o aperto dos músculos, o estado alerta onde me reinvento de tantos meses de dormência.
levo creme para as dores no corpo e anseio por elas. é sinal que estou, finalmente, viva. e longe, tão longe...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

ficção para quê?

um homem vai levar a mulher ao trabalho. faz uma inversão de marcha, manobra de sempre, em consciência de que não infringe as regras de trânsito.

logo a seguir é interceptado por dois polícias que o acusam de manobra proibida. olhe que não, senhor guarda. mas eles insistem de tal forma, e o homem, que não é de ferro e acha que tem razão e que estamos em democracia - somos inocentes até prova em contrário -, acaba por pedir para os guardas se identificarem, para ele poder apontar nomes e números de distintivos. os polícias, em gestos vagos, para não dizerem que não se identificaram, passeiam os distintivos de maneira que não se leia nada.

mas aquilo não cai bem e resolvem que o homem está a desautorizar a autoridade. chamam reforços, imobilizam o homem à bruta, algemam-no e ainda dão um encontrão à mulher. que por acaso está grávida. de 7 meses.

ela começa a pedir aos transeuntes que, já que estão a molhar o pão no sangue, deponham como testemunhas do abuso. todos baixam as cabeças e tiram as mãos do molho. seguem para as suas vidas com mais uma história para contar à hora do telejornal, - "nem imaginas o que vi, maria".

enquanto isso, os polícias atiram com o homem para uma carrinha fechada e vão de sirenes ligadas e a alta velocidade para uma esquadra que não é a mais próxima. quando ele diz que as algemas o magoam ou que está a ficar mal disposto com a condução "de emergência", chamam-no menina.

largam-no numa cela, diante do cartaz que enumera os direitos do recluso. ele pede um, poder ligar ao advogado. não deixam, agora esperas, ó menina. já estás de bitola baixa, é? agora já não te safas, ó menina. ficam ali perto, em azafamada reunião, de volta de papéis. o homem apercebe-se que os senhores realizaram [só] agora que afinal o homem não infringiu mesmo regra de trânsito nenhuma. não vão pedir desculpa, têm é de desculpar o facto de ele estar agora ali, encarcerado. portanto, estão a tentar dar a volta aos depoimentos que têm de redigir.

só depois de assinar o papel é que o deixam telefonar. não lê, assina, ó menina. o homem ainda se consegue aperceber que suprimiram a parte da suposta infracção, e que ele pediu a identificação dos guardas. mas assina, para poder telefonar, para ouvir um "não assines nada". demasiado tarde.

depois ainda é transportado para um sítio que não lhe dizem bem o que é. só sabe que vai falar com um juiz. no dia seguinte. passa, portanto, a noite numa cela, à espera. a ouvir uivar um drogado em ressaca. no dia seguinte, consegue saber, por um guarda de outro turno, que a "marcha de emergência", as sirenes, as algemas, não é costumeiro. depois de ser "ouvido" - o papel está assinado, não é -, é libertado com termo de identidade e residência. aguarda julgamento, acusado de desrespeito à autoridade e resistência à ordem de prisão. tem os pulsos marcados e os olhos enevoam-se, algures entre a fúria, a vergonha e a impotência, quando conta tudo isto.

o homem é meu irmão.