quarta-feira, 30 de julho de 2008

o homem, o gato, e o bicho mau

gato foge. dono pede ajuda. vizinho homossexual prontifica-se e resgata-o. dono vê vizinho com o gato. dono pensa que vizinho não salva gato. dono pensa que vizinho sodomizará o gato. dono pensa que pela sodomia vizinho homossexualizará gato. dono dá tiros no vizinho. dono não acerta no vizinho. dono acerta na vizinha.
stop*

*via ondas marklianas

sexta-feira, 25 de julho de 2008

sic mulher

entalado entre os anúncios a detergentes e desodorizantes, deparo-me com um "new look", à laia de extreme makeover dos pobrezinhos, em que um senhor cheio de não-me-toques que nunca esboça um sorriso porque enruga, aplicou uns reflexos acobreados foleiros tipo anos 80 e cortou 2 cm às pontas do cabelo da mocinha. isto depois de lhe aplicar um champôm intense repére.

outro, mais simpatiquito, aplicou à Carla [a mocinha] uma sombra nos olhos, enquanto dizia: "agora aplicas com a esponja assim, queres ver? fecha os olhos"

a consultora de moda - a.k.a dona de uma loja ali no Fonte Nova - sugere à funcionária pública [ou será estagiária, ou será reciba-verde?] do IPJ um versátil... vestido de cocktail beringela, um casaquinho de malha com apliques de pérolas e umas sandálias de salto agulha prateadas para a mocinha levar para o trabalho. como alternativa tem sempre umas alpercatas com sola de cortiça e vime de salto compensado.

e a Carla diz que se sente muito bonita. que é tudo lindíssimo. que não tem palavras.

cada um tem o que merece.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

sim

tenho dias.
e aí questiono-me.
se será sensato tanto instinto.
tão pouco estudo das coisas, tão pouca dissertação. tão pouco pretenso pretensiosismo.
se de tanto apreciar o que é simples não me tornarei simplória.
nunca fui disso dos estudos. não fui de debitar nem dissertar. tinha de perceber. simplesmente perceber. o sentido, único ou não, mas o meu, o que lhes dava, o que me davam. era disso que eu gostava.
saía-me assim. saía-me sempre.
e depois, claro, cansou-me.
e foi assim. foi por isso que voltei ao que gostava. dos bonecos e não dos rótulos.

para falar, saboreio. é que bastam-me as palavras.

em vez de pensar, cheiro.
em vez de medir, abraço.
em vez de olhar, mergulho.

não hei-de eu ser chanfrada...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

big band


Glenn Miller - imagem tirada daqui

ontem à noite estava uma big band no Rossio.
podia comentar aqui uma série de defeitos que encontrei, especialmente na falta de profissionalismo e humildade de algumas pessoas.

mas o poder daquele som, da harmonia de metais, contrabaixo, bateria e piano, o fumo do cigarro, o arrepio constante e a lua.
a viagem no tempo incomparável. a saia-suspiro ou bem travada. e o risco nos olhos. a boquilha, as luvas, os saltos altos.

cada vez mais estou convencida que nasci na época errada...
ou que vi demasiados filmes em miúda...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

acordaste, Lisboa?

tenho-me queixado frequentemente que a Baixa está moribunda. por falta da dedicação de... todos. falta-lhe uma pulsação própria fora do horário de expediente. falta-lhe gente que a viva. e também me queixo das pessoas, da apatia, do comodismo, da falta de vontade de sair dessa modorra que assola tudo e todos. da mania de se queixarem e de não se mexerem para fazerem o que querem. da incapacidade de se unirem no que realmente interessa. da incapacidade de se levarem menos a sério e de se entregarem mais uns aos outros.

ontem ouvi falar nisto. já conhecia algumas iniciativas dessa maravilhosa arte urbana do improviso com multidões, da espontaneidade deliberada em cheio na testa do quotidiano, a que se chama flash-mob. e quis fazer parte.

armada em agente infiltrada, com o rádio sintonizado na antena 2 e uma câmara na mão, fui ver como era.
e dei por mim submersa.
e soube bem.

soube bem porque à minha frente eram velhos e novos, deitados no chão a ouvir as trepidações dos passos. deitados no meio do chão. a sentir as reentrâncias das pedras que pisam a caminho de casa. estavam mornas, as pedras, mornas, com rugas, macias e polidas como pele humana.
andar de olhos fechados, sem medo de chocar, sem pensar no jantar mais logo. a rodopiar, sim, senhoras bem postas de salto alto a rodopiar, tão tontas como as donas de casa que rodopiavam mesmo ao lado.
estátuas, vivas, com o gesto que queremos que seja. faço eu, fazes tu, tira-me uma foto para não me esquecer que era isto que eu queria hoje.
colar-se aos vidros das montras, está fresco, e os reflexos, "olhe desculpe, o meu rádio deixou de funcionar, dá-me uma ajuda que eu estou-me a divertir tanto".
a cumprimentar-se sem se conhecerem, a tocar-se, as pessoas tocaram-se. e era isto tudo que eu lhes queria explicar, que é bom tocar, trocar, entregar, receber.
a correr rua Augusta abaixo, velhos e novos. os velhos tão entusiasmados como os novos, os novos tão compenetrados como os velhos, esquecem o vizinho que chateia com a música alta e esquecem a consola, esquecem as contas, o empréstimo, o sono, só um bocadinho. era isto, era isto.
dançar ao som de uma música que só nós ouvíamos. dançar, em bailarico, passos lentos, passos enraivecidos, está sol, estou vivo, e bater palmas - essa foi a verdadeira revolução, o motim às palavras da rádio, ninguém mandou bater palmas, mas isto de dançar sem bater palmas é maldade.

e os olhos, os olhos de quem não tinha rádio divertidos, confusos, deliciados. porque é estranho, é de loucos, é mesmo disparatado. mas estamos juntos, não nos conhecemos, tocamo-nos, rimo-nos, esquecemos, fazemos o que pensámos "um dia eu faço", vemos o céu deitados no chão porque parece uma boa sugestão.
e é.
brincar, simplesmente brincar. sem pensar no que estarão a pensar.

sim, era isto. era disto que eu falava. este é um outro sabor de liberdade.



video editado por mim, [quase toda a] imagem de espanta-espíritos
pedimos desculpa pela falta de qualidade, mas ainda somos amadores no rendering de videos...