terça-feira, 22 de dezembro de 2009

crise no peito

hoje recebi um postal que me doeu no peito.
a crise em Espanha é tão real que já não se bebe café. e os meus tios, donos de um café, não podem, por isso, vir passar cá o natal este ano. pela primeira vez em... sempre...
a casa vai estar mais vazia. só nós. nós, sós. só.
se calhar não se justifica o bolo-rei. nem talvez a lareira. e a conversa solta perderá as vogais abertas e adocicadas.
não vai haver o momento da corrida para o quintal para ajudar a descarregar as malas, e embrenharmo-nos no perfume forte e na gargalhada da minha tia, nas bochechas frescas e olhos enormes da minha prima, na pacatez sossegada e brincalhona do meu tio. não se afogará a distância de quase um ano num prato de presunto com 1000 quilómetros, cortado por mim com a língua de fora.

inspiro forte e atiro-me à costura. as prendas não se poupam só pela distância. em breve, no correio, um embrulho grande com um bocadinho de amor alinhavado na nova máquina de costura.

um feliz natal para quem está desse lado. espero que estejam com todos aqueles que vos fazem falta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

balançar

não gostei de dar por mim a fazer balanços quando pisei a terceira década.
de que serve encostar-me à ombreira da porta e olhar para a sala a ver o que lá está e o que sempre pensámos que por esta altura já devia lá estar? sabemos bem que o que está foi o que se conseguiu, que luta não falta por estes lados.

ponho de lado esses balanços e enveredo por outros, que o que me faz falta é rir. nesta vida que se me apresenta, há sempre factos curiosos...

ainda posso fazer compras na secção juvenil, mas quando acho que algo está mal, ainda armo arraial como se tivesse 2 metros de altura
ainda não tenho celulite
apesar de já estar na idade de usar creme anti-rugas, ainda estou a lutar contra o acne eventual
ainda sei de cor grande parte da primeira peça que fiz há... uns bons 10 anos. mas não sei o que é que comi ontem ao almoço. (bem, se calhar foi porque não almocei)
com meia dúzia de anos de vida nas dobragens, já dirigi uma boa dose de dinossauros com resultados extremamente positivos
ainda não me levo demasiado a sério, mas encho-me de medos a cada novo trabalho
ainda morro de medo de cada vez que tenho de cantar em público mas a minha vida não deixou de ser um musical
ainda gosto de cerelac
quando danço ainda faço coup de pied
ainda choro quando vejo um bom espectáculo de teatro
sou adepta ferrenha da utópica meritocracia
ainda prefiro papel e caneta, apesar de ter aderido aos computadores
apesar do facebook, ainda escrevo no blog
da empresa de onde me despedi há três anos - a bem da minha saúde mental e profissional - ainda me telefonam de tempos a tempos para pedir um código de internet que, já avisei mil vezes, não faço ideia de onde ande.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

elo

o regresso a casa faz-se de passos inseguros de quem não toma as coisas por garantidas.
são séculos debaixo dos pés. são vidas na roupa. são palavras que se atropelam à saída.
há um sorriso familiar da parte da tarde, há gargalhadas a que já tínhamos esquecido o gosto.
o corpo frio, falta de treino, estende-se para voltar ao elástico destes dias de pedras amareladas.
tem-se como prenda um encenador que fica e ri.
as articulações doem, estremecem. e a vaga lembrança sorri, cansada: amanhã há mais...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

5º aniversário

este meu bloco de notas nasceu a 11 de Outubro de 2004.

não te arranquei páginas, não te-me escondi, rasuras e tudo, como eu cicatrizes e tudo, o que foi foi para ser o que se é. mudas comigo sem mudar de sítio porque assim sou eu, não fujo, fico, bato o pé e quem vier que venha por bem ou leva porrada. 

polegada há-de ser sempre polegada porque vire por onde virar serei sempre polegar e o meu mundo é uma amálgama de impressões digitais.

para quem cá vem parar por engano, já vai sendo tempo: 1 polegada = 2,54 cm. boa viagem.

para ti, que ficas, que estás, quero que saibas, e apesar da era do facebook ter chegado... gosto-te, blog. parabéns.

sábado, 31 de outubro de 2009

halloween

como tradição, o halloween tem muito mais graça.
mas - e não sendo católica - nossa nossa ainda vai sendo a do pão por deus...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

beautiful revolution


tirado daqui

terça-feira, 27 de outubro de 2009

assistência técnica ZON em alvoroço

dizer que se usa um mac e que não há pcs em casa para fazer os testes de internet.

sábado, 10 de outubro de 2009

primeiro amor e um punhado de neologimos

apaixonei-me por ti de caixão à cova quando tinha 9 anos. antes disso já me andavas a rondar. aprendi a ler e a escrever e a falar e isso libertou-me. devagar, em pequenos sabores no recreio, ao fim da tarde nos têpêcês em letra ensaiada porque nunca sabemos como há-de vir a ser a letra da nossa vida. sem medo do apagador, direita na cadeira, amarrecava-me para fazer a perninha do 'a'. e as regras todas de como se faz acompanhar o quê de nove, atrás de um bê ou de um pê vem sempre um mê. e eu praticava a letra, uns dias mais espraiada, outras mais arredondada: esfolei demasiado os joelhos para ser feminina, mas sempre gostei de batom, era assim, simples, podia ser-se tudo ao mesmo tempo porque há misturas que não fazem mal ao fígado.
achei graça, dizia eu, a isto das letras, assim o caderno falava comigo e era eu que o punha a falar e sabia como dizer o que me ia na gana.
ria-me muito. sempre me ri muito

- é um problema que tenho, há-de dizer o cinzentista e o intelectual pseudo-atormentado -,

mas também dava caneladas. agora só digo palavrões entredentes e atropelo os outros com assertividade a eito, estou muito mais comedida.

mas dizia que me apaixonei. sabias? eu também não, que isso de paixões era só trocar bilhetes por baixo da carteira e roubar beijos ao Carlos dos olhos verdes. por isso não dei por nada. e quando não se dá por nada, a coisa entranha-se muito mais devagar, e bem mais fundo.

como o outro amor da minha vida que apareceu em simples silêncios no escuro frio e uma pessoa sem dar por nada.

o problema de não se dar por nada é que é como fumar cigarros. sabe bem um de vez em quando, e quando sabe bem uma pessoa volta lá.

às tantas fumo-te um atrás do outro.

mas tu não fazes mal à saúde. quer dizer, até fazes, se formos práticos e isso do dinheiro e dos que controlam. mas hoje não me apetece isso. hoje apeteces-me tu e contar-te como foi.
estiveste lá sempre, simplesmente, a olhar para mim. e eu a olhar para ti e a namorar-te sem saber. começaste, portanto, com o olhar. dizer coisas. começa-se por dizer com os olhos e com o choro e assim. e depois dizem-se coisas e deixamos de chorar tanto. viciou-me sempre aprender a dizer.

então aprendi a falar e a ler e a escrever não necessariamente por esta ordem. e pronto.

e depois vieram dizer-me que havia quem ensinasse a falar melhor e que podia dançar e cantar e descobrir o que é que os poemas querem dizer. nada como um poema para engatar uma miúda de nove anos, já sabes. junta isso com a música. a verdadeira, a que nos pega pelos cornos, dá-nos arrepios sempre, apanha-nos sempre de surpresa, mesmo que a ouçamos ininterruptamente. numa palavra, vá... Piazzolla. percebeste agora?

pronto, na sala 8 às terças e quintas podiam ensinar-me isso tudo e como eu não tinha aulas de Religião e Moral, fui. de caderno novo, em branco, que sempre gostei desse cheiro e do branco e do ritual sagrado de pousar pela primeira vez a caneta no caderno. tem é de ser a caneta perfeita.

adoro descobrir as canetas perfeitas.

muito direita na cadeira olhos esbugalhados e caneta em riste, vinquei a capa do caderno para não me bater na caneta e atrapalhar a letra perfeita da primeira aula da primeira página. bem aberto, o caderno, como a alma. sempre aprendiz.

abriste-te a mim em fotocópias na pontas ovais de unhas nacaradas em dedos enrugados, recortes de livros montados numa só página com um vago cheiro a toner e a laca da professora. e o batom vermelho e eu a gostar de como o batom vermelho se arabescava nas sílabas dela que eram poemas e queriam dizer coisas. mas acho que foram os olhos dela, também. brilham, os olhos destas pessoas apaixonadas que não sabem. brilham de forma diferente porque só têm de falar para fazer amor e isso é especial. eu acho.

porque é tudo falar e explicar os poemas com o corpo. és tão simples que não me dei conta que isso era o que se chama de amor. pensei que era coisa tortuosa, que arranca noites de sono à vida. arrancas, mas isso é quando queremos viver contigo para sempre e não podemos. fora isso, tudo bem.

fora isso, tu por ti como tu és por seres quem és, és simples.

pode-se aprender a dar as mãos e contar histórias e cantar e dançar e é tudo para dar, nada fica só aqui, nada pode ficar fechado, é a lei. sem medo de tocar. eu nunca tive medo de tocar mas depois tinha medo que tivessem medo que lhes tocasse. e contigo dependemos disso, de tocar e de que nos toquem. com os olhos ou com as palavras. no arame, sem rede, no ar ou debaixo de água, só dependemos das palavras e do toque e com essas armas que podem ser de arremesso precisamos de tocar lá, do outro lado do espelho, ou rebentar com a quarta parede, se quiseres ser técnico.
por isso dei por mim contigo todos os dias para te saber de cor.

cor, s.m. coração afecto desejo coragem inclinação. de cor e salteado: muito bem, muito a fundo.

saber muito bem, muito a fundo. sabe muito bem, muito a fundo, é isso mesmo, o dicionário às vezes explica.

tinha nove anos quando me deixaste entrar. e ontem percebi, quando lá voltei, que foi há vinte.

sábado, 3 de outubro de 2009

os carros das eleições

quando era miúda, os únicos carros com música que passavam na rua eram, de facto, os carros dos partidos em época das eleições... e os do PCP e associações sindicais em qualquer época aleatória. por isso, vínhamos à janela, ver o carro enfeitado com bandeiras e "dizeres".
não havia a chamada pegada ecológica e ainda se gostava do festival da canção e, portanto, das canções dos partidos - que, na época, ainda tinham partidos.
eu entretinha-me a decorar as músicas e depois decidia que os meus pais tinham de votar no senhor que tinha a cançoneta mais mexida - coisa que fez corar de fúria a minha mãe um par de vezes e, se eu tivesse na altura um alter ego adulto, far-me-ia dar-me uma eficaz belinha na minha pessoa in [ingénua, inocente e infantil].

hoje em dia é outra fruta. a coisa de um carro passar com música não faz virar [muitas] cabeças, simplesmente calculamos que o dealer está a fazer o giro na nossa rua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

torre de marfim

a mulher cresce entre as insensatezes da vida. há chão que queria pisar. há forças que fogem da mão. o hesitante equilíbrio entre correr e ficar parado. o simples parece-lhe demasiado complicado, nada corre como nos filmes. ri-se e o amargo outra vez.
retoma-se no espelho, de gestos certos mesmo que falhados e tira o dia do rosto. investiga-se para lá da moldura dos olhos e não sabe o que encontra. há vestidos pendurados na memória do querer, num quarto paralelo, entre os frascos de creme para a solidão. vêem-se nitidamente naquele lago de açúcar queimado. não são gavetas nem imagens confinadas, são espaços imensos de luz, janelas abertas e portas escancaradas, de vento contente rodopiado pelos passos de quem nunca está só. e quase ouve o tilintar de copos na sala. já vago e gasto, o som, de tanto o pensar. recua. está demasiado longe.
já não se esforça tanto, sabe. já não pede ajuda, ironiza. convive consigo e basta-lhe que não lhe baste sem chorar. está crescida, seca, a menina.
de vez em quando dá duas passas num cigarro e fica a ver os seus desenhos crescerem nas paredes. fecham-se mais, as paredes, mais preenchidas, outra vez o estranho equilíbrio. ocupa-se nesse preenchimento como se de gente se tratasse, os amigos mudos, as suas presenças no escuro morno, afinal é para isso que ocupa o espaço, para haver espaço para quem não vem. organizadinho a boa caligrafia num caderno deixado a meio pelo desalento, onde se torna com vontade a cada nova conversa.
senta-se no vazio de madeira corrida, o outro eixo partido, o elo perdido. rasga-se-lhe um pequeno sorriso de dor, na cicatriz do costume. contempla as histórias que já não são suas, pergunta-lhes se voltam. depois lembra-se que não gosta de não ter resposta e vai-se embora com um ardor no peito. já gastou as palavras.
parada dentro de si abre a mão e agarra-se. é pequena, a mão, mas é o que se arranja. há noites de quebra, há quebrantos na noite.
passa um carro e sai porta fora dos olhos a passo acelerado.

uma respiração lá ao fundo recorda-lhe que nem tudo estagna, que há algum consolo na distância.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

da pausa

depois de meses de vozes, alheada do mundo, impôs-se uma pausa.
enquanto esperava, fugi.
sete dias na paz do Alentejo. amor, azul e fotossíntese.
já vi pessoas, assim muito de quando em vez, mas já fui vendo as minhas caras.
e continuo à espera que o trabalho resolva arrancar.
pode ser que quando lhes der a vontade, eu já não esteja disponível.
pode acontecer. porque hoje recebi uma mensagem: ensaios já quinta-feira.
enquanto sim e enquanto não, fica aqui a promessa: tenho de voltar a escrever aqui.
tem de ser. sinto-lhe a falta, apesar de não ter muito para contar...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

a formiga avariada

sonho em australiano dobrado em português, com camisas havaianas e tudo. à medida que falam comigo no sonho, além de responder e viver o drama, dei por mim a corrigir batimentos.

é o meu verão possível: ficar a ver praias e ondas e biquinis e bronzeados pelo ecrã, num estúdio escuro. pôr as palavras nas bocas dos veraneantes e mandá-los para quem está de férias poder comparar notas. o mar a sério, esse, vejo-o ao longe entre o glamoroso skyline dos prédios do Dafundo, quando venho à rua fumar um cigarro.

qual formiga avariada, estou a trabalhar para lá do humanamente aconselhável no verão.
e tive de recusar trabalho - comida - que me iria sustentar no inverno.

amigos? nem vê-los. posso sempre aconselhar uma excursão ali para os lados do Dafundo, essa bela localidade.
o que me vale? o namorido ter horários tão avariados como os meus, e os técnicos serem, de facto, os meus melhores amigos, e os actores serem tão extraordinários a gravar como são como pessoas.

sábado, 11 de julho de 2009

fogo de artifício

hoje é o dia das festas.
não estás cá para fotografar as luzes.
por isso, nem me arrasto até à janela para ver.

terça-feira, 30 de junho de 2009

crisis management

taquicardia de cada vez que toca o telefone, respirar é tarefa árdua no fio da navalha.
erradamente, pensei que já estava dispensada de aturar depressões e bipolaridades, pensei que já tinha tido a minha dose, mas afinal ainda terá de haver espaço na paciência para o malabarismo desses tristes fados entre ftps, relatórios de erros, revisões, marcações, remarcações e gravações.
a vida não tem tido banda sonora, de auscultadores nos ouvidos, olhos divididos entre imagem e letras, frases à letra e jargão especializado.
a contrapartida é das 5 à meia-noite, com a melhor equipa que podia pedir, aprender - sempre - vendo fazer, indicando e corrigindo, agudos graves e entoações, rindo sem dúvida às dúvidas e enganos, fechados numa cápsula alheia às confusões.
o bom trabalho faz-se com boas pessoas e pessoas boas.
não há praia, não há sol, há café na esquina se houver tempo, mãos dadas na cama e correr para o próximo ponto.
dentro em pouco o resultado estará à vista, escrutínio de público-alvo e engravatados que acham que sabem do que o público-alvo precisa. [contra mim falo, mas ainda sou a favor das legendas, de aprender a ler e a saber línguas estrangeiras. assim o trabalho será sempre sofrível no meu ver demasiado treinado para o erro].
descubro em mim de vez em quando uma gestora, de crises, de palavras, de jogos de anca e paciências, de exigências descabidas e de gente improvável.
o ridículo nisto tudo é o saber inabalável de que para tudo doer menos, era apenas preciso deixar-nos usar o bom senso.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

entalada

estou entalada entre joguinhos políticos, bichos esquivos, roer a corda e lavar as mãos.
pergunto-me se respire, se faça o que me manda o mau feitio: deixá-los desorientar-se enquanto vou para a rua ler um livro ou acabar de pintar o meu quadro. que me telefonem quando se entenderem, que me digam que já não precisam de mim quando nunca cheguei a poder fazer o meu trabalho, ou que me digam que o faça então nas minhas condições.
... esta última é só para me rir um pouco.

não tenho paciência politizada, não gosto de jogos de anca, do jogo da corda. disse logo que os objectivos eram impraticáveis, perguntei - oh, inocente frontalidade - porque é que não deixam cair este projecto se não têm condições para entregar uma coisa de qualidade. porque sou competente para perceber o que é fazível ou não, raios me partam se não trabalho nisto há 7 anos e se as pessoas que se cruzaram comigo no plano prático não voltam sempre, com um "vai ser um prazer voltar a estúdio contigo". por isso não faço promessas que não consigo cumprir e prefiro dizer que não a dar falsas esperanças. defendo-me e àqueles que vão à luta comigo. é assim que trabalho.

pus as minhas limitações: ou me dão as condições mínimas de prazos e quantidade de material entregue ou não quero. disseram que sim, que diminuíam a "encomenda", para se poder entregar no prazo, que esse não se podia alterar. ponderei que começando impreterivelmente no dia x, seria fazível. aceitei. tratei do que me competia e fiquei à espera da chamada do "está tudo a postos, podem começar". já tenho os actores, os "meus" actores - os rápidos, que não falham, que têm talento. já tenho um plano de horários de estúdio, já vi toda a primeira temporada da série em vez de ir jantar fora, já pesquisei personagens e já queimei as pestanas com a distribuição de vozes - que são metade das que precisava. já me mentalizei que terei pelo menos 13 semanas a trabalhar um mínimo de 12 horas por dia, sem folgas ou fins de semana, que se calhar vou ter problemas se me convidarem para começar ensaios em Setembro. mas isso é problema meu. só preciso que me digam que têm as coisas para se começar a gravar. para eu começar a trabalhar.

eis que não chegam chamadas, ninguém tem previsões, não há prazos e até já me perguntaram "não dá para gravar com o vídeo do youtube"? aí percebi a insanidade do desespero.

chamem-me control freak, que sei que sou, mas quando não tenho controlo sobre o meu próprio trabalho, quando não me dão o material para trabalhar, quando o elo da cadeia se quebra mesmo antes de chegar às minhas mãos e me vejo rodeada de má gestão, eu entro em parafuso. fico para aqui feita barata tonta apesar de não poder fazer nada, a olhar para os dois telemóveis mudos, para os e-mails impávidos e a pensar que mais posso inventar para fazer a roda mexer.

paro e reparo no ridículo. e só me apetece dizer-lhes que enfiem o maldito dinheiro no cu.

rotfl

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eheheheh

terça-feira, 16 de junho de 2009

disco riscado



chega uma pessoa para gravar e está o outro pós-estampado com o braço do rato ao peito.
tu queres ver que os bonecos vão ter ruído?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

subúrbio - 03:06 a.m.

da janela vem a brisa fria da madrugada.
pequeno silêncio entre cliques de rato.

- estás a ouvir os sapos?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

meias nos pés ou pretérito imperfeito



se há dias que parecem por dizer, é do incompleto pretérito imperfeito onde vives.
onde te vou buscar para um pouco de festas no cabelo ou umas meias porque tenho os pés frios.
os meus pés lembram-se de ti e o coração ainda te ouve cantar. apesar de já não me lembrar da voz sei que era aguda e trinada como nos filmes antigos e não me lembro bem mas era assim. e confesso que se me atravessa um grão na garganta.
há papoilas lá fora. perderam-se da primavera mas fizeram-se à estrada porque as memórias não se esvaem do nosso mapa genético só porque o dia não trouxe sol.
é um consolo pequeno mas é consolo da família do abraço de vento que sinto de vez em quando. não me sais do sangue e da lista das saudades e do riso de miúda pequena e das coisas que dizias que eu digo e que ainda me chamo ao espelho e da obstinação e do revirar de olhos silencioso de quando em vez.
sento-me a conversar com os pés no teu colo.
eu estou bem, sossegada, sossega, em dias azuis como tanto gostavas que eu tivesse. tenho-os aqui, na palma da mão ou não fosse eu polegar das mãos cheias de tinta que sabes que não sou de assim-assim e se não tenho azul vou ali misturar e agarro no pincel com a tua vontade que me sopras no ombro. eu estou bem, já te disse, que os altos e baixos são caminho e os pés doem às vezes mas são os meus pés que o calcorreiam e o peito ainda me deixa recuperar o fôlego. de mãos dadas, contei-te?, sim, contei, que fui logo a correr contar-te desde o primeiro dia em que deixei que me dessem a mão. o que tu te riste, sei que te riste de certeza quando viste os meus olhos espantados a ver, a dizer que deixei que me dessem a mão. por isso o azul, aquele azul, percebes agora?
enrodilho-me meio dorida e olho para as meias nos pés. penso em ti.
feliz aniversário, avó.

domingo, 7 de junho de 2009

paralelismos politicamente incorrectos

devo ter sido das poucas pessoas que em vez de pegar no carro na sexta e só voltar no próximo domingo a casa [isto se não espatifaram o popó nas filas de sexta à tarde], peguei no popó para fazer os 15 km que me separam da junta de freguesia onde ainda estou recenseada, para votar. qual senhor bigodudo pega religiosamente no cachecol, nas bandeiras e na geleira que a Maria encheu de jolas e que vai, ao domingo à tarde - ou à quarta logo a seguir ao trabalho sem passar na casa da partida - para a catedral do seu querido clube, gastar o dinheiro dos livros da escola do mais novo.

devo ter sido das poucas pessoas neste pequeno bairro de subúrbio que ficou a roer as unhas até saírem os resultados da última freguesia, qual bêbado na tasca da esquina já no desempate por morte súbita, enquanto comentava de cigarro no canto da boca os discursos pedantes e desenquadrados daquilo para que foram efectivamente estas eleições, como quem comenta os comentários ao desempenho dos árbitros e os fora de jogo mal assinalados.

e fui com certeza a única pessoa neste pequeno bairro de subúrbio que, assim que viu finalmente as letras maiúsculas no oráculo da SIC Notícias, desatou aos saltos e aos berros como se tivesse ganho o campeonato. só não fui apitar para a janela porque não sou de apitos e a miúda do segundo esquerdo já estava a dormir.

eu sei, são todos uns aldrabões. eu sei, ganham muito e eu não ganho nada com isso. eu sei, não vêm para a porta do teatro com bandeirinhas só porque faço bem o meu trabalho. mas que querem? estava num dia sensível, sei lá.

para quem quiser saber como se portou a sua freguesia, a Comissão Nacional de Eleições está a falhar, mas no site da RTP dá para saber tudo certinho...

[agora aqui entre nós que ninguém me lê: deliciou-me encontrar no rosto de Manuela - apesar do seu impressionante discurso tão bem escrito - resquícios da ministra da educação que outrora conhecemos e amámos, à medida que a sua expressão ia passando de "pronto, vejam, também sou uma cota fixe, também canto PSD olé, desde que não cheire a couratos" para "vá lá agora a sério, essa franja serve para se lembrarem de quem são os vossos pais. e baixem os braços pelo amor de Deus" para "o António Variações - esse famoso ícone do PSD - deve estar às voltas na tumba", para "já me lembro porque é que não posso com menores de 40 anos", com as intervenções etilizadas da claque desembestada, perdão, dos jovens militantes que galhardamente lhe interrompiam o texto].

segunda-feira, 25 de maio de 2009

say it with flowers


© mário sousa

21 de Maio a 6 de Junho . quinta a sábado | 22:00
Lux.Frágil
com | Graciano Dias . Maya Booth . Rita Brutt . Miguel Moreira . Francisco Tavares
encenação | António Pires
texto | Gertrude Stein . tradução | Luísa Costa Gomes
cenário | João Mendes Ribeiro . figurinos | Luís Mesquita
música | Paulo Abelho . João Eleutério . desenho de luz | Vasco Letria
informações no site oficial . espreitem o vídeo no facebook


há coisas que me ultrapassam. não sei porque gosto. sei que gosto. muito.
porque podia ser tudo o que detesto. podia ser frio, asséptico, plástico, estético e só plasticamente estético. podia ser só bonito. podia ser vazio para, como muitos que por aí andam, supostamente pôr-nos a reflectir sobre o vazio. o tal vazio bonito.

mas say it with flowers preenche-me.
não tem uma história para contar. tem algo de burlesco, algo de físico, de coreográfico e, acima de tudo, algo de químico. chamar-lhe-ia a boa e velha alquimia. a alquimia do sentimento sem descrição.
mostra-me, contra todas as minhas resistências, que todo o género de teatro pode ser bem feito. desarma-me olhando-me nos olhos. ri, chora, salta, corre e cai. joga à macaca. descruza-me os braços e depois levanta-me a cara e pede-me um abraço.
o texto de Gertrude Stein não tem histórias. tem música feita com os sons das palavras entrelaçadas. e pronto, é isto. podia ser só isto.
mas através de uma sincronia de estranhos exercícios ou danças de cores e portas de vidro e espelho à vez e a música vibrante entrecortada e a língua que se enrola à volta das letras, 5 actores criam o mundo imaginário de António Pires. e há nele lágrimas a sério, e risos a sério e imagens fictícias de momentos de todos os nossos dias. que arrebatam. mesmo que as palavras não as contem.
é um exercício drenante, o de viver este espectáculo. é sensorial, na total abrangência da palavra.
é estranho gostar disto. mas foi-me estranhamente fácil gostar.
de facto, o Pires é o Pires é o Pires...

aconselho a todos, mesmo aos cépticos à freakalhada como eu.
a temporada - como de muitos espectáculos sem panelinhas - é curta. mas pode-se ficar por lá já a postos para o pézinho de dança.

terça-feira, 19 de maio de 2009

cansaço extremo

durante o dia, estou nas obras em casa de uma amiga. saio de lá para ir dobrar bonecos. volto para as obras. e ensaios a partir das 11 da noite...
a estreia é já na sexta. e as mãos que sentem o tempo que vai escoando devagar, para o momento em que já não poderei fazer nada por eles...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

koniec*



obrigada, Vasco Granja.

apesar de agora eu ser a única pessoa no país a admitir (sem medo de calúnias intelectualóides) que na altura achava os bonecos checos uma seca. são, ainda assim, silhuetas vivas que guardo na memória de dias compridos de algodão doce.

enfim, mesmo assim, sempre criança, a gostar de bonecos. a fazer bonecos.

graças a si.

*fim, em checo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

não é demais relembrar

as histórias negras de Black Vox regressam.
desta feita à sala-estúdio do Teatro da Trindade.
não percam.
a sério ;)


...

muahahah

vida de artista

quando preencho a minha declaração de IRS, toda eu sou suores frios e tremores. há um ritual: duas pessoas lado a lado com máquinas calculadoras, somar todos os valores duas vezes para ter a certeza ao cêntimo, cinzeiro a abarrotar de beatas, não saber onde encaixar os rendimentos desta coisa estranha que é ser artista, ler em voz alta a "ajuda" e ficar com a sensação de que afinal somos analfabetos.
depois fica aquele aperto na barriga, um misto de fraqueza e descarga de adrenalina e de "será que foi este ano que cometi a argolada mestra e me vêm bater à porta para me empalar e penhorar os meus dedinhos em praça pública...?"

queria ser rica, só para não ter problemas com isto dos impostos...

terça-feira, 21 de abril de 2009

da construção de uma personagem

há dias na vida de uma "dobradeira" em que aparecem personagens e situações fora do normal. não me refiro a cães ou monstros.
refiro-me a isto:





a profissional da voz pára, inspira e questiona-se profundamente.

ao que soa uma amêijoa em pânico?

como será a personalidade da a mosca paranasal 1, e ainda como será essa personalidade por contraponto à mosca paranasal 2?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

um mano de cama

o serviço nacional de saúde tem destas coisas e só agora, uns... errr... dois anos depois da primeira crise é que o homem ficou com os olhos amarelos o suficiente para chamar a atenção dos médicos.
agora já só operando, mas antes só esperando que a infecção estabilize. antes disso, a médica tinha de ir almoçar à uma e meia, por isso mandou-o para casa esperar por uma consulta no posto.
agora já está de scrubs azul cuequinha, dieta zero no soro, droga legal e as manhãs da Fátima. [ai as dores, dona Fátima]

já lhe levei o bloquinho e a caneta e convenci-o a ir-nos actualizado das suas aventuras com a vesícula numa cama nos Capuchos via sms...

fico eu meio desorientada, com uma direcção de actores que só estava a resultar a quatro mãos. é que eu só tenho o dom da estalada e ele o dom de repetir o que já se disse mil vezes de uma forma nova e convincente...

ai, que é dos Coen sem um? hã, mano Coen?!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

valor

há algo de reconfortante no cheiro daquele mofo, naquela subida claustrofóbica torre acima, nas dores das escadas que nunca acabam, no arrastar das palavras em cuecas, na dança das partículas com arabescos de fumo.

são os "já tinha saudades disto" na boca de todos, não só de um ou dois. depois de tão-só duas semanas de ausência. depois de seis meses todos juntos.

sem [a]pesares.

terça-feira, 14 de abril de 2009

a cadela fala e a dona canta

vá de nova série de animação, com estreia na RTP. vá.
agora vá de ter de cantar... vá.
chama-se terapia de choque ao bloqueio mental. de auscultadores nos ouvidos, a ouvir-me a mim e à voz guia, a ler uma métrica duvidosa e vai de suores frios. mas vai de fazer.
olaré se foi.
a ver se começa agora a minha carreira musical eheheheh

sexta-feira, 10 de abril de 2009

como seria de esperar

com as pressas e as atrapalhações e os gritos com o blogger, acabei por apagar as minhas listas de links.
peço a todos os que estavam linkados e que tenham interesse em manter-se aqui na lista do lado mas que a minha memória abandonou, que me dêem uma grande reprimenda aí na caixa dos comentários...

bah...

[isto é... se é que alguém ainda lê esta coisa...]

quinta-feira, 9 de abril de 2009

limpeza facial

quis fazer uma limpeza facial ao polegadas.
claro que, como não nasci para sopeira, isto não me está a correr de feição...
portanto, apesar de o template ser do mais básico que há e já ter feito isto noutro blog, desta vez não estou a conseguir pôr a barra de imagem no topo do blog, nem o texto justificado como pré-definição, enfim...

andarei de volta de html, tanto quanto o tempo me permite.
entretanto vai ficando como está, liso, azul-céu e antracite.

a ver é se recomeço a escrever mais frequentemente, caramba. se calhar é por isso que não me deixa inserir a imagem, está chateado comigo pela falta de atenção...

terça-feira, 7 de abril de 2009

o sangue novo

ontem viajámos no tempo. devagarinho, primeiro de passos envergonhados. os olhos são os mesmos, terão apenas outras histórias para contar. os gestos e os abraços pareciam não ter conhecido mais um segundo. parecia que tínhamos parado no tempo, ou recuado mas no bom sentido. a ida e a volta e as pedras que nos reúnem sem podermos pisá-las outra vez. foi estranha, a sensação. mas familiar, quente e desenvolta. de pantufas, pode dizer-se. no chão empedrado mas de pantufas. com os fantasmas colados às costas. estávamos assim, como sempre e há tanto tempo que não. isso não devia ser possível nestas dinâmicas de grupo.

pergunto-me como teria sido se tivesses deixado este sangue novo correr-te nas veias, nos corredores, sem medo de nós, percebendo que caminhávamos todos no mesmo sentido e com o mesmo respeito. com diferenças mas o amor intacto. onde te queríamos incluído.
pergunto-me se pensarás nisso, lá longe disto tudo mas com essa aura pegajosa que deixaste que nos afastasse. que te mentisse sobre nós. se tens consciência que essa aura é pegajosa e que te mentiu. que te afastou de um novo fôlego. em que seria novo mas contigo. como daquela primeira vez em que nos pediste para não deixarmos o teatro morrer.

ontem senti esse sangue acordar. doeu, que as cicatrizes avisam sempre o tempo.
acordou logo, o sacana. entre frango, alho francês à brás e duas de tinto...
tu, aí, lá do outro lado do oceano, sentiste? é que, num erro de logística, até se pôs a mesa a contar contigo.

terça-feira, 24 de março de 2009

lndn . shortstop

Santa Apolónia . 13:45
com o befe bem assentado já estamos no pouca-terra. parte dentro de 15 minutos, está só a repôr o carvão. vamos no vagão da frente, a levar com o fumo...

Oriente . 14:12
os iogurtes em promoção do Pingo Doce de Santa Apolónia são para consumir até Agosto de 2004 ou Abril de 2008...

Porto . 18:00
sem congestão pelos iogurtes, paragem digestiva pelos preços da bica no magestic

Porto . 18:30
em toda a parte encontramos gente. muita merda, M@nel :)

Porto . 20:30
matraquilhos na sala de embarque, matraquilhos na sala de embarque, matraquilhos na sala de embarque!

Ar . 21:40
bless you diazepam!

Stansted . 00:20
não fuma, corre para o comboio. comboio vomitado. não fuma, mas também não respira.

Lndn . Liverpool St . 01:50
autocarro de madrugada, de 15 em 15 minutos. cheio, utilizado. ah, isto é civilização.

Lndn . Camden Town . 02:20
um homem já aviado pára em trip onírica a olhar para as bolas do meu casaco. outro está em movimento interno a olhar para um copo pousado num beiral.

Lndn . Fdnd place . 02:30
best. flat. ever.

Lndn . Camden Lock . 12:00
invoco os deuses do paracetamol de 35p. este mundo é pain free. e com bancas cheias de roupa e antiguidades para levar. pequeno almoço no Lock.

Lndn . La Strada . 14:00
almoço de grupo. massa em vez de pizza. e a galeria da Getty aqui ao lado.

Lndn . Leicester Sq . 18:00
3 pashminas por 5 quids. um par de óculos por 5 quids. e o quid está igual ao euro.

Lndn . Covent Garden . 18:30
flapjacks e concerto de música no meio da rua. Boots para pague um shampoo e leve 2, anti-histamínicos a 2 euros e mei0.

Lndn . hmv . 19:00
raismeparta os preços: novo cd dos Franz Ferdinand a 7 euros, packs de séries completas a 50, filmes acabados de sair a 13. iPods a metade do preço. eles ganham 4 vezes mais... e à semana...

Lndn . Leicester Sq . 19:30
expresso Delta no west end!

Lndn . West End . 20:00
aqui fazem fila à porta do teatro antes de abrir, meia hora antes do espectáculo, comem na sala sem fazer barulho e a porta fecha à hora.

Lndn . Avenue Q 20:30
best . comedy musical . ever. Generation X meets Sesame St.

Lndn . Avenue Q . 23:00
I wanna be the Bad Idea Bear!

Lndn . Soho . 23:30
wandering. os bares já estão a fechar e mundo já etilizou. a tempo de curar a ressaca para amanhã de manhã.

Lndn . Camden . 00:00
Londres é dançar a 9ª de Beethoven na Proud.

Lndn . Fdnd Place . 03:00
doem-me os pés. a alma ri à gargalhada. waffles aquecidas com manteiga e doce.

Lndn . Camden . 12:00
um vestido fifties para mim, t-shirt do super mário para ti. um mundo de chapéus dos anos 20 a pedir para vir em excesso de carga. e almoço de grupo no Strada. pizza em vez de massa.

Lndn . Oxford St . 15:00
Muji rules. um iPod a metade do preço na mala.

Lndn . Fdnd Place . 21:00
fazer o jantar para os meus meninos. Franz Ferdinand no iPod. último cigarro no terraço.

Lndn . Fdnd Place . 08:00
beijos, queijos. see you soon.

Portugal . Ramada . 20:00
café com papás, e o mundo no buxo.

domingo, 15 de março de 2009

um fósforo

cheguei para o colo do meu encenador: "O senhor presidente entrou por aqui adentro e disse logo, antes de pôr os olhos na exposição da Agustina: vim ver a Puligari". risos.
cumprimentar os amigos de sempre, que por acaso ou não, partilhariam a tela comigo.
fugir dos flashes e baixar a cabeça nos discursos.
e alea jacta est.
a cadeira já doía no rabo, ainda nem íamos a meio. o senhor presidente velava-nos lá do camarote. aguardava-me, com certeza, ri-me.
o fado de Simone de As Vedetas cumpriu-se em grande escala: ou puta ou criada, a criada já está.
reconheço o ensemble da cena. enfio-me pela cadeira abaixo, sapatos adentro.
os meus 20 segundos.
o resto é o resto é o resto. cinema português é cinema português é cinema português.
sair porta fora a rir à gargalhada, de coisas pequeninas se torce o pepino.
puxam-me pelo braço. estavas tão bonita. como assim? ias tão bem! mas mal se vê.
diz quem sabe - ou acredita - que a magia se fez nas pequenas coisas. não sei, mal vi, enfiada lá em baixo, dentro dos sapatos apertados.
ficar em cigarros com os de sempre, assinar dois autógrafos para amigos "desta tua estrela sem créditos", sorrir ao realizador querido, não querendo incomodar em noite de tantos abraços mais importantes. um destes dias cruzamo-nos por aí num café ou uma cerveja e logo lhe agradeço não me ter cortado a cena.

aparecer no grande écran - check.
mais um para a história da menina dos fósforos.

domingo, 8 de março de 2009

Black Vox - histórias negras em teatro de terror



textos e encenação . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves

com . Ana Lázaro, Patrícia Andrade, Ricardo Neves-Neves, Sílvia Figueiredo, Vítor Oliveira
vídeo . Dora Carvalhas
curta de animação . Solange Santos e Mário Sousa [polegarfilmes] a partir do texto de Ana Lázaro


Casa Conveniente
| 6 a 15 de Março | todos os dias às 21:30

Teatro da Trindade | 29 de Abril a 17 de Maio | 4ªa a Sáb às 22h . Dom às 17h

bilhetes . 7,5€ . normal | 5€ . para jovens até 30 anos, maiores de 65 anos, profissionais do espectáculo, grupos de mais de 10 pessoas, coveiros, talhantes e médicos legistas

info e contactos: 964096484 | 913938899 |
www.teatrodoelectrico.com


chegada de Braga, passei a última semana e meia a recuperar um trabalho de 3 semanas que se tinha evaporado no éter digital de um velho programa de computador. quinta-feira à noite, depois de várias madrugadas e uma directa a trabalhar ininterruptamente [saindo apenas de frente dos fumegantes computadores para ir fazer espectáculos], finalmente entregámos o material.

valeu a pena.
não fazia ideia de como iria resultar no enquadramento final do espectáculo. sabia apenas o contexto, muito por alto. deram-nos o texto e fechámo-nos em copas com ele e maços de cigarros e café e dores nas articulações. nem a autora opinou grande coisa depois do storyboard.

assim, nesta sexta-feira, lá fomos para a Casa Conveniente ver se as peças encaixavam.
e encaixaram.
Black Vox é um espectáculo de pequenas peças curtas de terror, escritas e encenadas por alguns elementos do grupo que lhes dá corpo. com muito humor negro, daquele de que gosto. despretensioso, bem dito, bem interpretado, com variações entre a poesia, o corpo, o vídeo, a animação e a comédia. todos os textos são bons, e nem os nervos da estreia atabalhoaram o andamento. a Casa Conveniente, com o seu ar baffon [podia dizer urbano-decadente-chic, mas não me apetece a freakalhada], é o cenário perfeito e Hugo Franco fez magia com a simplicidade de algumas lâmpadas espalhadas pelos recantos do espaço.
são todos bonecos pálidos, estranhos, figuras conhecidas do nosso imaginário. e brincam bem com isso, sente-se que gostam de nos provocar e de lamber sangue das paredes como quem diz um poema bucólico. não há que ter medo de que nos façam rir: o mórbido saboreia sempre dois lados e um é o ridículo dos nossos medos. consequências de uma geração Tim Burton...
há sempre os preferidos mas nem entro por aí. não é preciso destaques, essencialmente esta peça é um corpo só. com cabeça, apesar do tema.

recomendo a todos que a apanhem ainda na Casa Conveniente. o ambiente é qualquer coisa. para quem não sabe, o espaço leva pouco mais de 20 pessoas de cada vez, portanto apressem-se.
o mais provável é cruzarmo-nos por lá, que eu vou voltar.

ah, e depois contem coisas acerca de uma curta de animação que por lá aparece... muahahah ;)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

raffe... gi raffe

há qualquer coisa de libertador em correr pelo corredor de um hotel de 4 estrelas de pistolas de dedo em punho a fazer de agente secreto...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

trezentos e quinze quilómetros

vinte e um dias.
já as malas vão de viagem, ainda me fico por aqui a deambular nos fios que me cosem ao meu chão. pouco me falta, nada me falta, já falta pouco.
passo o dia na cama, deixo o corpo dormir quando quer, comer qualquer coisa nos intervalos. olhas-me sonolento e nessa lassidão recupero-me devagar. para o que me há-de desgastar.
são demasiadas horas longe do meu porto, lá no Porto. vou-me desenterrando dos lençóis e pensando no que falta levar, as pontas soltas que não me apetece atar. recordo quem fica com um peso no coração, entre bolsas e bolsinhas livros e cartões de memória. se por cada bolsa mil beijos e um olhar cúmplice.
depois de amanhã lá me solto, sem muita vontade, à estrada dos meus vinte e um dias.
conto, sim, com as mãos de sempre que me farão companhia, este ano o Porto é nosso e o Artes em Partes e a Miguel Bombarda e Serralves e a Ribeira e pôres do sol na piscina. este ano, Bojangles, tomas conta de mim e eu tomo conta de ti, mostras-me o teu Porto que ainda não vi e estancamo-nos as feridas em chás e cigarros e cervejas tardias enquanto os nossos amores não vêm. que eu até levo um fervedor eléctrico e o cinzeiro portátil em honra do frio.

mas não quero melancolia, o vento já é cinzento que chegue e isto é para crianças. por isso vou-me devagarinho, descolando do abraço só mais um bocadinho nos lençóis levanta o queixo e beija-me de caminho. com uma melodia que me apaixonou à primeira porque é tão minha que assim até podia gostar de mim.



Oren Lavie . her morning elegance

Sun been down for days | A pretty flower in a vase | A slipper by the fireplace | A cello lying in its case

Soon she's down the stairs | Her morning elegance she wears | The sound of water makes her dream | Awoken by a cloud of steam | She pours a daydream in a cup | A spoon of sugar sweetens up

And She fights for her life | As she puts on her coat | And she fights for her life on the train | She looks at the rain | As it pours | And she fights for her life | As she goes in a store | With a thought she has caught | By a thread | She pays for the bread | And She goes... Nobody knows

Sun been down for days | A winter melody she plays | The thunder makes her contemplate | She hears a noise behind the gate | Perhaps a letter with a dove | Perhaps a stranger she could love

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

depois da apneia

já com a órbita mais estabilizada, depois de tudo o que podia correr mal correr bem, depois de ver o meu pai de volta ainda meio grogue mas de sorriso em riste e cheio de fome, posso preocupar-me com pormenores.
e depois de passar um dia inteiro num hospital, a fazer de conta que não estava nervosa, que até conseguia ler e essas coisas, posso declarar que devia haver uma nova lei:

os senhores que fornecem ares condicionados para os hospitais deviam financiar a distribuição gratuita de anti-histamínicos a todos os utentes e acompanhantes.

raistaparta, filhos da mãe que me puseram outra vez com o cérebro a sair pelo nariz, um peso de toneladas nos olhos e a voz toda lixada. assépticos, assépticos ma non troppo...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

breathe

há dias que custam a passar. este vai ser um desses.
respirar, devagarinho, e ocupar a cabeça.
é como andar de avião... :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

génios

quem foi o néscio que inventou a campanha dos Açores que consiste em deixar três vacas a apanhar frio e gases de tubos de escape [e um camadão de nervos*] em plena Praça de Espanha?!

[*os senhores dizem que preveniram situações de stress, e as vacas não são Açorianas. já se sabe que as de cá já estão a Xanax há duas décadas]

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

o subúrbio é que é fixe!*

há neve na calçada de carriche!


[*ora aqui está uma coisa que nunca pensei vir a dizer...]

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

agenda

ando desencaixada das horas que me rodeiam. demasiado, demasiado. preparar uma ausência e estar já ausente de onde não devia. mas estar presente onde posso, quando posso, que são as horas que me sobram do dia, as desoras da madrugada. para levar avante promessas antigas que calharam em prazos apertados, para recriar uma passagem de ano que não houve.
entre compromissos, há o subentendido de presenciar descoordenações emocionais que me desgastam por osmose, tentar desligar-me para me manter onde tenho de estar. e tudo tão relativo. quase que dá para uma gargalhada amarga, ali, entre as três e as quatro.
a cabeça estala. o cansaço deita-se cá dentro e aninha-se. e penso se aguentarei o mês da ausência, sem o porto seguro, e sem aguentar o forte que devia aguentar.
e penso, sempre, que não estou agora onde devia estar. que tudo tem uma razão, mas que não concordo comigo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

a garrafa partida

cabeça quente, mãos geladas, terceira ou trigésima reclamação no banco, o vapor sai-me da boca, passos largos, não sinto os dedos dos pés.

dois homens discutem. penso que talvez a típica disputa territorial dos arrumadores, sigo em frente. mas os meus olhos agarram uma mão que aperta uma garrafa partida.
páro e alerto. ele tem uma garrafa partida. as palavras chegam-me vagas, um sotaque, um torvelinho entre os berros de um e os sussurros lunáticos do outro. queres-me matar? este é redondo e escuro, de casaco verde que deve ser pouco consolo neste frio. tem uma faca. o outro tem uma ponta-e-mola, aninhada no punho. o outro, de fato, gravata e cachecol mas cabelo desalinhado e óculos demasiado grossos, um olhar demasiado perdido, mais perdido, tem uma ponta e mola.
percebo a garrafa partida. para arrumador de espírito enevoado de vícios ou só demasiado azar na vida, até teve presença de espírito.
procuro um polícia. desespero, o frio a cortar-me os olhos e o medo que se corte algo mais, à procura no meio de tanto sobretudo, tanto fato e gravata, tanto salto agulha, procuro uma merda de uma farda azul escura. não. está demasiado frio para se estar na rua. e os centros comerciais até têm segurança privada.

por isso aproximamo-nos. continuam a esbracejar, mas vêem-nos chegar. o homem redondo parece aliviado por não ser transparente. castanho transparente como os cacos da garrafa que leva na mão. o outro fica desnorteado, contrariado. diz meia dúzia de ininteligências e contrafeito lá se vai afastando. fica do lado de lá da fila de carros, finge que se vai embora. mas ainda lhe vemos a cabeça desalinhada a aproximar-se de novo. vai. vem. finge que olha para os carros. estranho homenzinho pequeno de olhos perdidos e cabelo embaraçado, estranho homem que veste um fato mas que veste aqueles olhos e a mão em volta da ponta-e-mola.

ficamos de guarda. de pé, no meio do estacionamento, o homem pequeno a desistir, a sumir-se no meio dos outros fatos e gravatas, e nós a ouvir aquele sotaque do homem redondo aliviado, repetitivo, em ladainha exaltada.

uma hora aqui. olha as coisas, os carros. tem uma faca. meu peito queria matar. é maluco.

a minha cara não tem nada a dizer. pouco interessa. mesmo que bem articulado, nunca me conseguiriam explicar o que aconteceu ali.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ano novo, peça... velha

dez da noite é sempre uma boa hora para receber uma chamada do antigo trabalho a pedir para ir lá amanhã fazer uma substituição. no dia em que tinha combinado com os novos colegas ir assistir ao namorido. assim, um quatro-em-um: sei que há sítios onde ainda faço falta e onde faz sempre sentido regressar, volto por um dia ao mosteiro e aos bons dias de camarim demente na torre, tenho público "amigável" e vou fazer uma personagem que nunca fiz.

assim, do pé para a mão.

há coisas que nunca mudam. aqui entre nós, que ninguém nos lê, ainda bem ;)

vou para dentro. tenho de acabar de roer os cotos...