segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

serenidade

é tão estranha, esta sensação de uma corrente eléctrica e permanente funcionamento debaixo da pele, este formigueiro e ao mesmo tempo um medo que paralisa, que encolhe. o coração desnorteado e a vida em câmara lenta, demasiado rápida para absorver. os dias assim passam sem que lhes toque, agarrada a mim com medo de me perder.
agora sei de onde vem isto, sei ao que vem. é um aviso, para ter medo porque posso esquecer-me.
ainda não aprendi o faço para que se vá embora, para que sossegue porque não me esqueci. ainda não me sei confortar. respiro pela serenidade que - sei - virá. entretanto tenho de aguentar, deixar fluir. porque sei que não vai acontecer nada de mau. é só a menina pequenina a lembrar-me de tomar conta de mim.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

o novo caminho

há o meu jardim da árvore gigante, debaixo da qual leio a peça.
há uma boutique pequenina com os meus sapatos.
há uma loja com lápis de cera daqueles que comíamos em miúdos.
há um prédio que é só uma fachada.
há um cão preto e branco que dorme toda a tarde dentro do talho.
há um homem vestido de fraque, com laço preto, no meio da rua a meio da tarde no meio de turistas de calções e bonés e túnicas floridas.
há um  tipo que grita com o mundo enquanto mija na calçada.
há um cheiro a fruta quente, apesar disso.
há uma velha de peruca da cor da bengala de madeira avermelhada.
há um sol de frente que se apaga quando viro a esquina.
há a Mitó nos ouvidos a emprestar-me sentidos.
há uma corrente de ar sempre presente. agora é quente.

quarta-feira, 9 de março de 2011

porquê? por causa das venetas

eu estou a recibos verdes. dos verdadeiros, em 70% das situações.

o que é que estar a recibos verdes implica?

implica tão somente estar à mercê de venetas.

a veneta consiste de várias sub-venetas, uma delas é o "nós pagamos este serviço com este valor e pronto, se não quer, há-de haver quem queira".
pode ser um "afinal não me apetece trabalhar mais com esta pessoa". e eu não sei de nada, nem sou informada, quanto mais consultada na decisão para tentar negociar, simplesmente de repente não tenho dinheiro para comer.
pode ser também o "nós pagamos a 90 dias a partir de uma data que não lhe vamos transmitir. logo mandamos um e-mail e depois logo vê quanto tem a receber". e ai de quem telefone a perguntar para quando está previsto... pode ser que deixe de trabalhar ali...
até pode implicar "entrega o seu recibo verde semanas antes de nós procedermos à transferência sob pena de, se não o fizer, não recebe e deixa de trabalhar connosco".
depois há o "agora os valores mudaram e não temos nada que avisar ninguém".
ou até mesmo "resolvemos 'castigá-lo' por dá cá aquela palha e o valor acordado - verbalmente, claro - foi à vida".
e a clássica, a veneta da insistência de não pagar o verdadeiro recibo verde pelo que é, a intermitência. de um serviço especializado.

estas venetas, "house rules", fazem com que, na prática, se mantenha uma actividade aberta em meses em que afinal não temos nada a receber, ou, surpresa, uns 20 euros. mas andamos nesses meses a trabalhar para meses futuros, sem vida para estar nas filas da loja do cidadão das 9 às 5 a corrigir burocracia.
também fazem com que as empresas, quando resolvem fazer acertos no fim do ano para fugirem aos impostos do que aí vem, resolvam pagar tudo de uma vez. sim, faz falta para o Natal, mas é capaz de lixar o IVA de um momento para o outro.
fazem com que o brio profissional seja visto como uma mania.
fazem com que passemos meses a trabalhar antes de vermos sequer o primeiro pagamento.
fazem com que de repente nos vejamos sem nada.
fazem com que não possamos contar com nada.
fazem, sim, com que adiemos filhos. e casas melhores. e - para os mais precavidos como eu - consumos mais altos sem ter o dinheiro-todo-líquido na mão. fazem com que se evite todo o tipo de prestação. e com que se evite todo o tipo de pequeno prazer porque esse dinheiro pode fazer falta para qualquer coisa daqui a bocado. quanto mais o futuro.

e depois há o pequeno problema de metade do que ganhamos ser completa e imediatamente tragado pelo "Sistema", apesar de em troca não termos direito a nada.
nem sequer contamos para um qualquer censo de desemprego quando estamos "entre projectos".

e sim, temos de fazer sacrifícios, mas então e todas as despesas não contabilizadas não são já sacrifícios? porque o que o IRS pressupõe que usamos para despesas não está lá muito perto da verdade... a prestação e manutenção do carro, a gasolina, estacionamento e as portagens diárias (porque o meu país chutou-me para o subúrbio em prol de uma cidade de fachadas ocas e morta às 7 da tarde, e não me dá transportes que me permitam andar a correr de estaminé em estaminé em tempo útil - que muitas vezes se estende noite dentro), as refeições fora num algures indeterminado, as chamadas telefónicas para marcar remarcar e desmarcar, a internet para gerir todas as burocracias, as pesquisas, as organizações da vida, e, pois, as águas, vitaminas e quejandos suplementos que me mantêm funcional porque tenho de trabalhar doente, até mesmo certos tratamentos que são considerados luxo e não medicina mas de que necessito para manter a minha actividade, sem falar na formação que não conta para descontos, ou nos cafés para me manter acordada nos dias de 14 horas, os livros para estudar o próximo trabalho... não são 30% do meu rendimento.

não, são investimentos da minha parte na produtividade nacional, a cada moeda de 50 cêntimos.

no fundo, é outra veneta, a tabelação dos impostos: fomos todos tabelados pelos "outros" recibos verdes: os médicos e advogados. mas não fazemos 150 euros por uma consulta de meia hora.

é por isso. não me vou queixar. vou estar presente, solenemente, sem partir nada nem mandar ninguém para lado nenhum. na minha dignidade, no meu brio, com respeito por mim acima de tudo, vou lá estar. para por uma vez contar para uma qualquer percentagem que diga "ah, afinal eles são mais do que fingimos que não eram. nas mais variadas situações, com um elemento comum. a precariedade."

não quero fazer cair um governo para vir outro que já sabemos como é, que vai dar ao mesmo. não me iludo com sindicatos, que nunca soube o que era um 13º mês. não escolho outro trabalho, porque é isto que sou, que sei, em que me especializei.
não fecho, no entanto, os olhos a todos à minha volta, que são o sustento do meu país e tratados como corja preguiçosa porque não encontram um contrato merecido ou condições mínimas para trabalhar numa intermitência que, sim existe e é necessária, mas tem de ser repensada.
quero deixar de ser abstracta.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

parte um

isto de ter brio no que se faz é simples.
isto de se tentar fazer o melhor que se sabe e pode, mesmo quando o corpo não colabora, quando a voz se gastou, quando tudo dói e nem conseguimos destrinçar as sílabas, é uma segunda natureza.
isto de se tentar resolver na hora para evitar problemas, mesmo quando não é do nosso departamento, de se esticar horários para lá do suportável, de se ir a correr entre capelinhas, de se galgar os quatro cantos da cidade - e mais além - só para conseguir corresponder ao que se pede, de se engolir sapos para não criar fricções. é tudo normal.
está aqui para se fazer? faz-se. há um problema? dá-se a volta.
é assim que tem de ser.

é tudo o que se tem, quando se depende dos olhos dos outros para conseguir mais trabalho.
é tudo o que se tem, quando antes de deitar levantamos a cabeça perante o espelho.

e quando tudo o que temos é a noção de que não tememos porque não devemos, é inadmissível descobrir que afinal alguém minou por qualquer mesquinhez todo o mundo e conceito que tanto suor custa diariamente para construir, manter, acarinhar, andar de queixo erguido.
quando alguém, por capricho, ímpeto ou medo de qualquer coisa não se apercebeu que comprometeu mais que um nome numa tabela, comprometeu uma pessoa, uma integridade, um sustento, uma família.

e descobrir que apesar de todas as provas provadas, quem devia saber melhor não levantou a sobrancelha para desconfiar de uma precipitação qualquer, nem sequer questionou se seria bem assim, não quis saber o suficiente para apenas perguntar se não era só um engano. um julgamento de carácter tem consequências um bocadinho para lá do despeito. o respeito demora demasiado a construir-se para ser arrasado assim por uns terceiros quaisquer, por um dá cá aquela palha, sem ouvir, considerar, ponderar.

assim se arrasta no chão um corpo de trabalho.
um corpo de vida que tanto dói a criar diariamente.

há quem desista porque não vale a pena.
se de cada vez que não vale a pena eu desistisse, neste momento não estaria aqui.

nada me vem de mão beijada, e o Murphy é a minha sombra. mas ainda acredito que nem tudo tem de correr mal sempre aos mesmos. por isso sei que esta é só a primeira parte.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um, Ninguém e Cem Mil ou carta a Virgílio Castelo

caro Virgílio:

venho apenas, deste cantinho obscuro cá muito em baixo, ter o desplante de lhe dar um conselho:
pegue no maravilhoso monólogo de Pirandello, na sua total entrega apaixonada a um personagem que tornou coeso, divertido, triste e fascinante do princípio ao fim, e fuja.

fuja da encenação tristemente pretensiosa [a "arte" forçada, o medo do simples], do ciclorama de projecções mal amanhadas e que são apenas barulho de fundo, da música incongruente que abafa a sua voz e inutiliza qualquer presença de um violoncelo em palco - pancadinhas esporádicas não contam -, do desenho de luz notoriamente improvisado e que o põe a correr desnecessariamente entre pontos tão díspares, que lhe apaga qualquer expressão com sombras e lhe corta a dinâmica com luzes que não acendem a tempo. fuja de roupas e adereços que pouca ou nenhuma falta fazem na história que nos conta. e fuja da incompetência de um teatro impessoal abandonado há demasiado tempo pelas pessoas que faziam dele um teatro.

fuja para uma sala pequena, intimista, traduza o texto para português de Portugal, e faça este monólogo para pequenas plateias que lhe leiam o rosto como merece, durante muitos e longos meses.

mas isto sou eu...

atenciosamente
Polegar

terça-feira, 16 de novembro de 2010

os dedos de uma mão

feitas as contas, o que são. quantos são, afinal. os rostos, os suspiros, os sorrisos a que recorres quando olhos se encolhem de medo. aqueles que constam do álbum das tuas fotografias, do arquivo que não morreu. os que sabem o caminho. os que o fazem.
conta-os. ou não.

quando arrefece fazes as contas.
sim, sempre. é do frio.
mas conta, sempre agitas os dedos.

e os que vêm quando pedes. ou quando o peito aperta. sabem-te? alguma vez te souberam?
faz um exercício de não respiração. suspende, por um momento, o que vai e o que vem.

fica-te com o que está.
estás triste?
fica-o. és tu, faz as contas.
mas nunca foste grande coisa a matemática.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sorriso leste a oeste

tenho o peito cheio de coisas. coisas tantas e inomináveis. conto os dias e tenho medo e estou ansiosa por que chegue, por que vá, por que esteja, porque sim. não era eu se não fosse aos pedaços.

desdramatizo respirando como me pediram para ensinar. sim, já ensinei a respirar quem me ensina aos poucos a lembrar-me de o fazer.
reaprendo o meu peito, que desassossega de vez em quando, desabituado de ansiar assim. sem aditivos. e orgulhoso disso e com medo disso.
mas é em frente sempre em frente, nunca fez tanto sentido. sorriso de leste a oeste. o sentido do sorriso.
vincado, fincado, de pés no ar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

das modas

- boa tarde, queria um par de calças de ganga assim giras...
- pois, olhe, temos aqui umas que já estão a tornar-se um clássico. skinny jeans. justinhas de alto a baixo, é garantido que se tem menos de um metro e oitenta e mais de quarenta quilos vai descobrir pneus que não conhecia e, portanto, ficar sempre com o super fashion ar de bola num espeto, sendo a bola o seu tronco e rabo, e o espeto as suas pernas.
- ah... não tem assim mais nada?
- temos também a nova moda dos bolsos de trás descaídos, disponível em todos os modelos justos. a par com a cintura super-descaída. o que acontece é que o bolso abaixo da zona da nádega vai fazer parecer que o seu rabo está mais em baixo, ao nível da coxa, o que portanto lhe vai dar um ar de anã desproporcional e flácida. o seu tronco vai ficar compridíssimo, as suas pernas vão parecer minúsculas. a cintura descaída consegue destacar cada abanão gelatinoso da zona abdominal, os seus pneus vão saltar! e não há cueca que se consiga vestir, ficam sempre de fora. como imagina, o fio dental e o rego à mostra são sempre sinónimo de piropos. e vai estimulá-la a fazer a depilação todos os dias, porque isto é mesmo muito descaído também à frente.
- hmmm... e uma coisa menos justa, não?
- temos mais ou menos disso. temos uma espécie de boot cut que finge que alarga a partir do joelho, mas se for a ver é justo na mesma, com bolsos em relevo à frente para lhe dar destaque às ancas. e não esqueça os fabulosos brilhantes no traseiro. vai parecer saída da feira ou, num tom mais retro que está tão em voga, dos Porfírios.
- mas isso continua a ser justo.
- ah, não gosta de celulite?! que estranho... mas já sei o que procura! tenho o ideal para si, saído directamente dos desfiles de Paris. as calças largas e descaídas na zona do rabo. são fabulosas. parece sempre que tem uma fralda posta ou que as peles lhe foram parar à altura dos joelhos. ah, e afunilam, ficando hiper-justas na mesma a partir do joelho. continua a ter o efeito chupa-chupa. disponível em todos os tons de azul claro, com rasgões, obviamente. não se esqueça de escolher sempre um modelo dois números abaixo do seu. vai convencer-se que está mais magra sem dieta, e garante-lhe o tão trendy efeito-queque.
- mas olhe... eu precisava era de um corte que me favorecesse...
- ah... pois. disso não temos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

terra molhada

não há cheiro que me dispa como o da terra molhada numa noite quente. despe-me e dança, devasso e lasso, brinca-me na pele em arabescos do sal que lá se esconde. fora saliva, mas fresca, lamber-me-ia sem vergonha.
e o suor abranda-se. são estes pequenos momentos de paz, enrolada na brisa. são estes silêncios e músicas e.ternas. é a meia luz quente cá dentro e a lua azul pela janela.
é assim que fecho as mãos antes que a sensação se apague.
e perdura, agora.

domingo, 23 de maio de 2010

check-out

uma sexta-feira, às sete da tarde, tiraram um género de dentro de um chapéu. não gostaram e tiraram outro. Mistério.
levaram uma frase, uma personagem e um objecto obrigatórios.
mandaram um e-mail para o outro lado do Atlântico e do lado de cá começou a espera.
3 horas depois chegou um texto, ligaram-se skypes e chats, distribuíram-se personagens, definiu-se o plano de trabalho, adereços, roupa e marcou-se uma hora para encontro no dia seguinte.
a essa hora estavam lá todos, textos na mão. uns montaram equipamento, outros vestiram-se, maquilharam-se e ensaiaram. depois foi-se gravando, rindo, gravando, enervando, rindo. a avó Fernanda fez o almoço.
às onze da noite foi declarado "that's a wrap" e deu-se o último aplauso no décor.
depois foram para casa, uns dormir, outros editar, tratar som e imagem.
às sete da tarde de Domingo, entregaram uma história com 8 minutos.

na sexta seguinte, chegaram para ver o seu trabalho num cinema. ficaram contentes por o trabalho estar porreiro.
algumas horas depois, estavam em cima de um palco, distraídos. porque tinham ganho prémios por boa fotografia, edição e - a cereja no topo do bolo - a escolha do público, e por isso achavam que já não ganhavam mais nada.
estavam distraídos a olhar para a assustadora cara do projeccionista lá longe numa janelinha por cima da plateia.
estavam tão distraídos que não perceberam logo quando disseram o nome da equipa.

ficaram abazurdidos para o resto da noite, com um cheque gigante tipo os da Bota Botilde encostado à parede, a fazer uma festa que se espraiou pelas escadarias do cinema. a rir meio a chorar para um telemóvel que os ligava ao outro lado do Atlântico.
agora aqueles 8 minutos vão passar lá longe, num festival internacional.

sem cunhas. sem compadrios. puro mérito.

saboreiem bem. não sabem quando uma destas se volta a atravessar no vosso caminho :)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

retiro espiritual



48 Hour Filmmaker: Lisbon 2010
wish me luck...

vai tudo a eito

Olá.

aqui somos uns fixes, de brandos costumes, afáveis, garridos, pitorescos e temos uma comida do camandro. para não falar do cinema português, que é o supra-sumo da batata, a excelência do umbigo.

aqui endividas-te para ter um LCD, um telemóvel topo de gama, ou o carro despesista que aparenta a opulência que nem sabes o que é. aqui não compras o jornal, compras o pasquim. aqui não lês livros, lês palavras já meio deglutidas para não dar trabalho a digerir - os medicamentos estão caros.

aqui, os adolescentes passam de ano por saberem quanto é 5+2, e passam mesmo que respondam "cete", deus os livre de terem que saber o que seja para irem para a faculdade, porque o que interessa é mostrar à Europa que temos muitos licenciados. que os licenciados não têm trabalho é outra conversa.

aqui, 30% das pessoas queixaram-se num inquérito, desgraçadinhas, que não tinham dinheiro para aquecer a casa num dos invernos mais frios de que me lembro. antes de puxares do lenço, fica a saber que só 9% dos mesmos inquiridos abdicaria de ter carro.

aqui é assim. aqui vives de futebol, de, como alguém dizia, milhares de pobres e endividados pagarem quotas e bilhetes, cachecóis e camisolas para assistir a 22 milionários aos pontapés numa bola. ou pelo menos a pagam a prestação do LCD demasiado grande para a sala, para os olhos, para ver a Sport TV - canal de cabo pago à parte, que só passa desporto, sim, mesmo o nacional já não se vê nos canais livres de encargos. mas aqui, fervorosamente, futebol e fátima.

aqui o estado tem de ser Pai, fica quase tudo à espera do subsídio, do aumento. e como se sabe que quase tudo vive do subsídio, não te pagam bilhete, não te querem pagar o serviço, não te querem pagar o trabalho.

aqui o trabalho teoricamente de altas qualificações, como por exemplo o jornalismo,  é feito por estagiários analfabetos, sem experiência, que correm como sete cães a um osso, geridos por um gestor que, quando chega a altura, os deita fora e substitui por outros, deus o livre de dar emprego, de contratar, que isso desequilibra os lucros e os dividendos pelos sócios, pelos accionistas, pelos iates e as casas de férias.
ainda há trabalho. há o trabalho que ninguém quer, vê-se nos pedidos nas montras das lojas.
há o que tantos invejam, que são os que podem fazer férias quando o Padre vem: vê-se nas repartições públicas, são as senhoras incomodadas por lhes interrompermos a leitura da Maria, em cima da hora que o sindicato disse que era do chá, vinte minutos depois da hora de almoço e outros vinte antes da hora de esticar as pernas. essas senhoras que não sabem falar, nem tirar dúvidas de quem as tem, não sabem mexer num computador, mas sabem crochet e a arma desarmante do fastio do martírio de te fazer o favor de te atenderem. têm sindicatos que as defendem, que acham que elas não devem ser substituídas, despedidas ou formadas. quem o posto é um posto, que invente o estado pai mais postos destes que é o que se quer, com direito a pontes, greves, décimo terceiro mês, subsídio de desemprego, tudo descontado pelo patrão nos impostos, seja bem ou mal feito o serviço que se chama público.
depois, entre meia dúzia de contratados que conseguiram a luz ao fundo do túnel, há o outro trabalho, o independente. chamam-lhe independente porque é conveniente. faz de conta que não tens patrão, que ninguém manda em ti e que trabalhas em casa, quando queres, como queres. e que prestas os teus serviços. agora presta os serviços no horário desse alguém que te compra o serviço, nas instalações desse alguém, segundo as condições desse alguém. afinal tens horários mais complicados e completos que os das senhoras acima referidas mas como és independente ninguém te quer sindicalizar. para receber qualquer coisa (em bruto) passas recibos verdes, um comprovativo de pagamento que entregas à empresa na data em que não te pagam, isto se quiseres eventualmente receber. e depois ficas 90 dias à espera. 90 dias a contar de um dia qualquer que se esqueceram de te informar. à espera, de actividade aberta, a segurança social a chicotear-te a conta a descoberto porque tens de manter a actividade aberta, não vá a empresa ligar a dizer que é agora que vão pagar. se pagarem, não interessa quando, porque todos os meses, como se recebesses todos os meses, tens de descontar do teu bolso. não te pagaram mas tens a actividade aberta? - perguntar-te-á uma das senhoras acima mencionadas - problema teu. paga ao Estado, que ele faz de conta que não existes nas estatísticas, mas precisa que lhe pagues na hora da mama. por falar em hora da mama, se estás a recibos verdes, não tens férias, nem décimo terceiro mês, nem subsídio de desemprego. és pago pelo teu serviço, se não serves não recebes. mas é a única maneira de arranjares trabalho. a não ser que sejas estagiário. ah, e normalmente o patrão é mais estúpido que a tua chinchila.

depois há os que plantam comida que é deitada fora porque é importante importar. deita-se fora a comida porque há muita gente a pedir na rua. é importante que se optares por esta forma de vida, te conformes que a cada geada é um subsídio, a cada chuva é um subsídio, a cada sol é um subsídio.

fora isto, tudo bem. esperas anos para ter uma consulta médica - aquela a que tens direito por pagares os teus impostos. aviso-te, aqui os velhos são abandonados nos hospitais e às vezes, quando já te tinham marcado a operação, tens de voltar para casa porque o velho abandonado está a ocupar uma cama.
mas é bom, tens uma educação facilitista e estupidificante, e até podes bater nas professoras, ao que elas te retribuem com aulas extra quase não remuneradas. também te podes embebedar a partir dos doze anos, e faz parte desmaiares ali no bairro alto, cheio de pressa pelo coma alcoólico que te faz tão adulto como andar aos tiros na playstation e foder num canto com cheiro a mijo só porque viste como é fixe foder como os morangos com açúcar fodem. também é fixe querer ser actor de telenovela sem saber falar, cantor sem saber o que é uma nota musical, ou futebolista só porque sabes jogar PES.

fora isto a cidade fecha às sete da noite. fora isto, no campo tens de fazer 80 km para ir ao médico, mas não tens transportes. fora isto, para viveres na cidade tens de ser rico ou tão velho que já nem se lembravam que aquele prédio existia. fora isto, se queres ir à cidade estás à mercê de filas enormes compostas de gente que se recusa a ir de transportes públicos apesar dos horários fixos, gostam de mostrar o mercedes que os impede de aquecer a casa e dar de comer aos filhos. também te podes pôr à mercê dos transportes públicos, um monopólio interessante e desorganizado, que ou está a abarrotar ou não vale a pena pôr a circular [portanto a partir das 9 da noite não podes ir nem vir da cidade].
fora isto, continuam a construir sem organização do território nem orientações estéticas prédios atrás de prédios, quando já há 2 casas per capita neste país que tem tanto sem-abrigo. atenção, constroem-se prédios, mas não hospitais, nem linhas de metro, e o comboio é uma relíquia ferrugenta no que toca à real eficiência. excepto o TGV, que esse é bonito e dá jeito. também é provável que demorem uma vida inteira a acabar um troço de 100 metros e que te pouparia 40 minutos a caminho do trabalho onde não chegam os transportes públicos, ou a alcatroar aquele buraco que rebenta com os tampões dos carros todos os dias.
não há jardins para se estar, como se faz na civilização, em que vais comer o almoço para o ar livre que há em cada esquina. temos meia dúzia de "pulmões", que é onde à noite os prostitutos/as se vendem ao espancador de mulheres/político conservador mais endinheirado. depois há dois ou três jardins, mas estão em obras, ou tens de pagar bilhete para entrar.
fora isto, conduzir a falar ao telemóvel é bonito, conduzir bêbado e drogado é do mais à frente que há, ter a mania que se tem prioridade porque tu é que tens uma vida importante é normal, ultrapassar pela direita é corriqueiro e fazer razias também. especialmente se tiveres um carro de alta cilindrada.
fora isto, tens de fazer um encolher de ombros conformado, enquanto bebes uma cerveja à chuva porque fumas e por isso não és pessoa.
fora isto, se há manifestações, os outros que se mexam, porque é sábado, está sol, está trânsito, está.
fora isto, preocupa-te é com a orientação sexual do teu vizinho, que nos vai levar a todos à fogueira do inferno.
fora isto, em dia de votar vais à praia.
fora isto, quando votas, votas pensando que és igual ao gestor que recebe por fora e por dentro e por todo o lado, percentagens do que ganharam quando despediram mais mil.
entretanto, reza aí uma por mim e manda aí cumprimentos aos pedófilos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

há algo que me rasga

agito os farrapos.
esbofeteio o ar.
estremeço.
quão frenética me conheces?
agora vibra. agora galopa.
é suor? é sal.
danço.


Portishead - Chase The Tear from Mintonfilm on Vimeo.

terça-feira, 23 de março de 2010

because people have a way of blinking and missing the moment

it was awfully nice sharing these most unpleasant milestones with you...

. californication .

terça-feira, 16 de março de 2010

algo

algo denso, escuro, escorre nas paredes. acumula-se de baixo para cima, espessando as paredes que incham na direcção uma da outra. algo crepita, vago, ao longe, uma cacofonia desencontrada, desconcertada. vai-se calando devagarinho, desaparece como aquela baforada de fumo no peso de uma manhã fria. é a sensação que fica. um eco, talvez. bata-se na parede e regressará talvez um sopro. pingado. não vale, assim não vale, é preciso barulho e já não há voz. desde quando é preciso nadar para se ficar seco? e quem gostava de, uma vez, ficar quieto?
uma medida. de quantos passos se faz a claustrofobia. já se medem a dedos, não passos. seriam polegadas, eventualmente, no sorriso irónico de quem cá passa.
e de quantos passos se faria o abraço. esses são largos, com botas de sete léguas. afastam-se. pois. afastam-se e o algo escuro e denso escorre goteja agarra-se e fica. já esse, fica.

outro sorriso irónico.
afinal, o abraço é a cura para a claustrofobia.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

pequeno almoço

comme il faut.