fogo de artifício
hoje é o dia das festas.
não estás cá para fotografar as luzes.
por isso, nem me arrasto até à janela para ver.
hoje é o dia das festas.
não estás cá para fotografar as luzes.
por isso, nem me arrasto até à janela para ver.
taquicardia de cada vez que toca o telefone, respirar é tarefa árdua no fio da navalha.
erradamente, pensei que já estava dispensada de aturar depressões e bipolaridades, pensei que já tinha tido a minha dose, mas afinal ainda terá de haver espaço na paciência para o malabarismo desses tristes fados entre ftps, relatórios de erros, revisões, marcações, remarcações e gravações.
a vida não tem tido banda sonora, de auscultadores nos ouvidos, olhos divididos entre imagem e letras, frases à letra e jargão especializado.
a contrapartida é das 5 à meia-noite, com a melhor equipa que podia pedir, aprender - sempre - vendo fazer, indicando e corrigindo, agudos graves e entoações, rindo sem dúvida às dúvidas e enganos, fechados numa cápsula alheia às confusões.
o bom trabalho faz-se com boas pessoas e pessoas boas.
não há praia, não há sol, há café na esquina se houver tempo, mãos dadas na cama e correr para o próximo ponto.
dentro em pouco o resultado estará à vista, escrutínio de público-alvo e engravatados que acham que sabem do que o público-alvo precisa. [contra mim falo, mas ainda sou a favor das legendas, de aprender a ler e a saber línguas estrangeiras. assim o trabalho será sempre sofrível no meu ver demasiado treinado para o erro].
descubro em mim de vez em quando uma gestora, de crises, de palavras, de jogos de anca e paciências, de exigências descabidas e de gente improvável.
o ridículo nisto tudo é o saber inabalável de que para tudo doer menos, era apenas preciso deixar-nos usar o bom senso.
estou entalada entre joguinhos políticos, bichos esquivos, roer a corda e lavar as mãos.
pergunto-me se respire, se faça o que me manda o mau feitio: deixá-los desorientar-se enquanto vou para a rua ler um livro ou acabar de pintar o meu quadro. que me telefonem quando se entenderem, que me digam que já não precisam de mim quando nunca cheguei a poder fazer o meu trabalho, ou que me digam que o faça então nas minhas condições.
... esta última é só para me rir um pouco.
não tenho paciência politizada, não gosto de jogos de anca, do jogo da corda. disse logo que os objectivos eram impraticáveis, perguntei - oh, inocente frontalidade - porque é que não deixam cair este projecto se não têm condições para entregar uma coisa de qualidade. porque sou competente para perceber o que é fazível ou não, raios me partam se não trabalho nisto há 7 anos e se as pessoas que se cruzaram comigo no plano prático não voltam sempre, com um "vai ser um prazer voltar a estúdio contigo". por isso não faço promessas que não consigo cumprir e prefiro dizer que não a dar falsas esperanças. defendo-me e àqueles que vão à luta comigo. é assim que trabalho.
pus as minhas limitações: ou me dão as condições mínimas de prazos e quantidade de material entregue ou não quero. disseram que sim, que diminuíam a "encomenda", para se poder entregar no prazo, que esse não se podia alterar. ponderei que começando impreterivelmente no dia x, seria fazível. aceitei. tratei do que me competia e fiquei à espera da chamada do "está tudo a postos, podem começar". já tenho os actores, os "meus" actores - os rápidos, que não falham, que têm talento. já tenho um plano de horários de estúdio, já vi toda a primeira temporada da série em vez de ir jantar fora, já pesquisei personagens e já queimei as pestanas com a distribuição de vozes - que são metade das que precisava. já me mentalizei que terei pelo menos 13 semanas a trabalhar um mínimo de 12 horas por dia, sem folgas ou fins de semana, que se calhar vou ter problemas se me convidarem para começar ensaios em Setembro. mas isso é problema meu. só preciso que me digam que têm as coisas para se começar a gravar. para eu começar a trabalhar.
eis que não chegam chamadas, ninguém tem previsões, não há prazos e até já me perguntaram "não dá para gravar com o vídeo do youtube"? aí percebi a insanidade do desespero.
chamem-me control freak, que sei que sou, mas quando não tenho controlo sobre o meu próprio trabalho, quando não me dão o material para trabalhar, quando o elo da cadeia se quebra mesmo antes de chegar às minhas mãos e me vejo rodeada de má gestão, eu entro em parafuso. fico para aqui feita barata tonta apesar de não poder fazer nada, a olhar para os dois telemóveis mudos, para os e-mails impávidos e a pensar que mais posso inventar para fazer a roda mexer.
paro e reparo no ridículo. e só me apetece dizer-lhes que enfiem o maldito dinheiro no cu.
da janela vem a brisa fria da madrugada.
pequeno silêncio entre cliques de rato.
- estás a ouvir os sapos?

se há dias que parecem por dizer, é do incompleto pretérito imperfeito onde vives.
onde te vou buscar para um pouco de festas no cabelo ou umas meias porque tenho os pés frios.
os meus pés lembram-se de ti e o coração ainda te ouve cantar. apesar de já não me lembrar da voz sei que era aguda e trinada como nos filmes antigos e não me lembro bem mas era assim. e confesso que se me atravessa um grão na garganta.
há papoilas lá fora. perderam-se da primavera mas fizeram-se à estrada porque as memórias não se esvaem do nosso mapa genético só porque o dia não trouxe sol.
é um consolo pequeno mas é consolo da família do abraço de vento que sinto de vez em quando. não me sais do sangue e da lista das saudades e do riso de miúda pequena e das coisas que dizias que eu digo e que ainda me chamo ao espelho e da obstinação e do revirar de olhos silencioso de quando em vez.
sento-me a conversar com os pés no teu colo.
eu estou bem, sossegada, sossega, em dias azuis como tanto gostavas que eu tivesse. tenho-os aqui, na palma da mão ou não fosse eu polegar das mãos cheias de tinta que sabes que não sou de assim-assim e se não tenho azul vou ali misturar e agarro no pincel com a tua vontade que me sopras no ombro. eu estou bem, já te disse, que os altos e baixos são caminho e os pés doem às vezes mas são os meus pés que o calcorreiam e o peito ainda me deixa recuperar o fôlego. de mãos dadas, contei-te?, sim, contei, que fui logo a correr contar-te desde o primeiro dia em que deixei que me dessem a mão. o que tu te riste, sei que te riste de certeza quando viste os meus olhos espantados a ver, a dizer que deixei que me dessem a mão. por isso o azul, aquele azul, percebes agora?
enrodilho-me meio dorida e olho para as meias nos pés. penso em ti.
feliz aniversário, avó.
devo ter sido das poucas pessoas que em vez de pegar no carro na sexta e só voltar no próximo domingo a casa [isto se não espatifaram o popó nas filas de sexta à tarde], peguei no popó para fazer os 15 km que me separam da junta de freguesia onde ainda estou recenseada, para votar. qual senhor bigodudo pega religiosamente no cachecol, nas bandeiras e na geleira que a Maria encheu de jolas e que vai, ao domingo à tarde - ou à quarta logo a seguir ao trabalho sem passar na casa da partida - para a catedral do seu querido clube, gastar o dinheiro dos livros da escola do mais novo.
devo ter sido das poucas pessoas neste pequeno bairro de subúrbio que ficou a roer as unhas até saírem os resultados da última freguesia, qual bêbado na tasca da esquina já no desempate por morte súbita, enquanto comentava de cigarro no canto da boca os discursos pedantes e desenquadrados daquilo para que foram efectivamente estas eleições, como quem comenta os comentários ao desempenho dos árbitros e os fora de jogo mal assinalados.
e fui com certeza a única pessoa neste pequeno bairro de subúrbio que, assim que viu finalmente as letras maiúsculas no oráculo da SIC Notícias, desatou aos saltos e aos berros como se tivesse ganho o campeonato. só não fui apitar para a janela porque não sou de apitos e a miúda do segundo esquerdo já estava a dormir.
eu sei, são todos uns aldrabões. eu sei, ganham muito e eu não ganho nada com isso. eu sei, não vêm para a porta do teatro com bandeirinhas só porque faço bem o meu trabalho. mas que querem? estava num dia sensível, sei lá.
para quem quiser saber como se portou a sua freguesia, a Comissão Nacional de Eleições está a falhar, mas no site da RTP dá para saber tudo certinho...
[agora aqui entre nós que ninguém me lê: deliciou-me encontrar no rosto de Manuela - apesar do seu impressionante discurso tão bem escrito - resquícios da ministra da educação que outrora conhecemos e amámos, à medida que a sua expressão ia passando de "pronto, vejam, também sou uma cota fixe, também canto PSD olé, desde que não cheire a couratos" para "vá lá agora a sério, essa franja serve para se lembrarem de quem são os vossos pais. e baixem os braços pelo amor de Deus" para "o António Variações - esse famoso ícone do PSD - deve estar às voltas na tumba", para "já me lembro porque é que não posso com menores de 40 anos", com as intervenções etilizadas da claque desembestada, perdão, dos jovens militantes que galhardamente lhe interrompiam o texto].
© mário sousa
21 de Maio a 6 de Junho . quinta a sábado | 22:00
Lux.Frágil
com | Graciano Dias . Maya Booth . Rita Brutt . Miguel Moreira . Francisco Tavares
encenação | António Pires
texto | Gertrude Stein . tradução | Luísa Costa Gomes
cenário | João Mendes Ribeiro . figurinos | Luís Mesquita
música | Paulo Abelho . João Eleutério . desenho de luz | Vasco Letria
informações no site oficial . espreitem o vídeo no facebook
há coisas que me ultrapassam. não sei porque gosto. sei que gosto. muito.
porque podia ser tudo o que detesto. podia ser frio, asséptico, plástico, estético e só plasticamente estético. podia ser só bonito. podia ser vazio para, como muitos que por aí andam, supostamente pôr-nos a reflectir sobre o vazio. o tal vazio bonito.
mas say it with flowers preenche-me.
não tem uma história para contar. tem algo de burlesco, algo de físico, de coreográfico e, acima de tudo, algo de químico. chamar-lhe-ia a boa e velha alquimia. a alquimia do sentimento sem descrição.
mostra-me, contra todas as minhas resistências, que todo o género de teatro pode ser bem feito. desarma-me olhando-me nos olhos. ri, chora, salta, corre e cai. joga à macaca. descruza-me os braços e depois levanta-me a cara e pede-me um abraço.
o texto de Gertrude Stein não tem histórias. tem música feita com os sons das palavras entrelaçadas. e pronto, é isto. podia ser só isto.
mas através de uma sincronia de estranhos exercícios ou danças de cores e portas de vidro e espelho à vez e a música vibrante entrecortada e a língua que se enrola à volta das letras, 5 actores criam o mundo imaginário de António Pires. e há nele lágrimas a sério, e risos a sério e imagens fictícias de momentos de todos os nossos dias. que arrebatam. mesmo que as palavras não as contem.
é um exercício drenante, o de viver este espectáculo. é sensorial, na total abrangência da palavra.
é estranho gostar disto. mas foi-me estranhamente fácil gostar.
de facto, o Pires é o Pires é o Pires...
aconselho a todos, mesmo aos cépticos à freakalhada como eu.
a temporada - como de muitos espectáculos sem panelinhas - é curta. mas pode-se ficar por lá já a postos para o pézinho de dança.
durante o dia, estou nas obras em casa de uma amiga. saio de lá para ir dobrar bonecos. volto para as obras. e ensaios a partir das 11 da noite...
a estreia é já na sexta. e as mãos que sentem o tempo que vai escoando devagar, para o momento em que já não poderei fazer nada por eles...

obrigada, Vasco Granja.
apesar de agora eu ser a única pessoa no país a admitir (sem medo de calúnias intelectualóides) que na altura achava os bonecos checos uma seca. são, ainda assim, silhuetas vivas que guardo na memória de dias compridos de algodão doce.
enfim, mesmo assim, sempre criança, a gostar de bonecos. a fazer bonecos.
graças a si.
*fim, em checo.
as histórias negras de Black Vox regressam.
desta feita à sala-estúdio do Teatro da Trindade.
não percam.
a sério ;)
...
muahahah
quando preencho a minha declaração de IRS, toda eu sou suores frios e tremores. há um ritual: duas pessoas lado a lado com máquinas calculadoras, somar todos os valores duas vezes para ter a certeza ao cêntimo, cinzeiro a abarrotar de beatas, não saber onde encaixar os rendimentos desta coisa estranha que é ser artista, ler em voz alta a "ajuda" e ficar com a sensação de que afinal somos analfabetos.
depois fica aquele aperto na barriga, um misto de fraqueza e descarga de adrenalina e de "será que foi este ano que cometi a argolada mestra e me vêm bater à porta para me empalar e penhorar os meus dedinhos em praça pública...?"
queria ser rica, só para não ter problemas com isto dos impostos...
há dias na vida de uma "dobradeira" em que aparecem personagens e situações fora do normal. não me refiro a cães ou monstros.
refiro-me a isto:

a profissional da voz pára, inspira e questiona-se profundamente.
ao que soa uma amêijoa em pânico?
como será a personalidade da a mosca paranasal 1, e ainda como será essa personalidade por contraponto à mosca paranasal 2?
o serviço nacional de saúde tem destas coisas e só agora, uns... errr... dois anos depois da primeira crise é que o homem ficou com os olhos amarelos o suficiente para chamar a atenção dos médicos.
agora já só operando, mas antes só esperando que a infecção estabilize. antes disso, a médica tinha de ir almoçar à uma e meia, por isso mandou-o para casa esperar por uma consulta no posto.
agora já está de scrubs azul cuequinha, dieta zero no soro, droga legal e as manhãs da Fátima. [ai as dores, dona Fátima]
já lhe levei o bloquinho e a caneta e convenci-o a ir-nos actualizado das suas aventuras com a vesícula numa cama nos Capuchos via sms...
fico eu meio desorientada, com uma direcção de actores que só estava a resultar a quatro mãos. é que eu só tenho o dom da estalada e ele o dom de repetir o que já se disse mil vezes de uma forma nova e convincente...
ai, que é dos Coen sem um? hã, mano Coen?!
há algo de reconfortante no cheiro daquele mofo, naquela subida claustrofóbica torre acima, nas dores das escadas que nunca acabam, no arrastar das palavras em cuecas, na dança das partículas com arabescos de fumo.
são os "já tinha saudades disto" na boca de todos, não só de um ou dois. depois de tão-só duas semanas de ausência. depois de seis meses todos juntos.
sem [a]pesares.
vá de nova série de animação, com estreia na RTP. vá.
agora vá de ter de cantar... vá.
chama-se terapia de choque ao bloqueio mental. de auscultadores nos ouvidos, a ouvir-me a mim e à voz guia, a ler uma métrica duvidosa e vai de suores frios. mas vai de fazer.
olaré se foi.
a ver se começa agora a minha carreira musical eheheheh