sexta-feira, 30 de setembro de 2005

se nao souberem de mim...


[ms]

... estou por aí, no meio dos fantasmas, a varrer as madeiras de amor e desejo.
a saltar por entre as bolinhas de luzes e pinturas.
a lamber as últimas gotas de alegria, a inspirar o pó que me alimenta.
a roçar-me nos lençóis de fingir, movida a elásticos invisíveis.
a beber das caras e risos e choros e palmas quentes.
a troçar nas luzes fortes que ainda me aquecem.
a suar no ar que me sustém.
a bater as palmas para as fadas não fugirem já.

se não souberem de mim, estou no palco, a desejar-me-nos-vos.

se não souberem de mim, estou no palco, a despir-me.

se não souberem de mim, estou no palco, a despedir-me...

colisao

ontem à noite fui perseguida por um pseudo-motard num aspirador com pretensão a mota. quando me apercebi, enquanto procurava estacionamento, que ele estava á minha espera, fui-me embora. dei uma volta ao quarteirão e dou com o dito tipo às voltas á minha procura. quando encostei, veio parar ao meu lado. voltei a arrancar, com a nítida noção que o meu tamanho não me permitia um conflito corpo-a-corpo e provavelmente se não saísse dali, teria vontade de lhe passar com o carro por cima. voltei a dar outra volta mais rebuscada e vejo-o a passar outra vez à minha procura. parei o carro, trancada lá dentro. quando começou a falar, percebi que estava bêbado. menos mal, era fácil empurrá-lo. saí. como também havia comigo um objecto pesado (à semelhança do capacete que ele mantinha em posição de arremesso) pronto a ser atirado à cabeça dele, resolveu-se tudo com três dedos de conversa, paciência para o ouvir repetitivo a contar que tinha uma mota melhor que aquela. avisei-o que perseguir pessoas não era bonito e se tinha arriscado a levar com o carro em cima.

hoje de manhã, estou na faixa certa para entrar no parque de estacionamento, e um tipo que quer mudar de faixa, atrás de mim, e apita-me como se eu tivesse feito alguma coisa. meto as mãos de fora a explicar que cada faixa tem uma direcção e que eu não tenho culpa de ele ser parvo. agora traduzo assim, na altura o léxico era do mais fino suburbano provençal...
o senhor também entrou no parque mas não me veio confrontar.

o meu parco metro e meio e uns trocos não me permite estrebuchar muito alto, mas na altura não me lembro. se tenho razão passo-me e depois começo a conjecturar as melhores formas me defender sem me aleijar.

parece o filme. sim. anda tudo com a mostarda no nariz. especialmente dentro da caixinha de metal.
como se a única forma de contacto que as pessoas institivamente conhecessem fosse o conflito.

amem-se, porra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

contas feitas

esta é a minha última semana de palco.

sabe-me a sal, apesar do bolo antes do espectáculo.
apesar dos risos cúmplices que provoco.
apesar do calor das caras e mãos contra mãos, tão maior que o dos projectores.

Sábado bebo uma cerveja... ou duas... a ver se passa...

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

ondular


[ms]

com os olhos, com as mãos, com o vento do respirar.
sensorial, sou. porque indelével na memória dos dedos ficam as curvas, os entretantos, a carícia do descer e do subir.
no suor e na suavidade, na ternura e na loucura, pele.
e deslizando entre pontos, pintas e colinas, parte-se do norte ao sul ou ao invés da bússola, do querer e da vontade.
e brisas mornas de desejo dançam novas curvas inventadas, como a dos lábios pedindo um beijo ou de umas pestanas nuns olhos fechados que escondem o tanto. ou até de uma pele arrepiada de uma humidade soprada ao ouvido.
se o arquejo tivesse cor, talvez soltasse pinceladas brilhantes, quentes, do grito contido.

terça-feira, 27 de setembro de 2005

isperto

a cada dia no trânsito, olhando em volta, reparo num sinal que nos diz a todos que essa coisa da crise é mito urbano. é uma cabala para subirem os assaltos e as seguradoras ganharem dinheiro.
todos os dias, milhares de carros brilhantes, saidinhos dos stands (ou standers, conforme a burgessisse de cada um), entopem as artérias da nossa capital, qual colestrol (ou castrol) que faz com que o trânsito não flua, não haja produção, e o coração pare de bombear rendimentos e lucros para as empresas, as pessoas sejam despedidas, façam greves, assaltem e esfaqueiem, etc.
nesses carros, vemos, em cada um, uma e só uma pessoa. o condutor. estamos numa sociedade de tristes, de solitários e estúpidos, que preferem entalar-se no trânsito a "conviver" com a plebe no metro ou nos autocarros.
onde está o dinheiro? das prestações, dos seguros, do combustível, das revisões, dos selos? tem de haver e não é pouco. é uma cabala, volto a dizer, isso de andarem a espalhar que estamos em crise! pois se há cada vez mais carrões!
engraçado é que se vêem mais motas com duas pessoas montadas que carros com dois passageiros. de realmente engraçado tem pouco, tem mais de foleiro, bimbo e idiota. mas não quero ofender ninguém.
e ainda mais curioso é o facto de esses carros serem todos enormes. os ditos carros familiares. os topos de gama pretos e cinza metalizado. como se fizesse muita falta aos condutores tanto ar dentro do cubículo de metal, só para um.
sou pelas portagens. passei a ser. eu venho de longe (de muito longe... lá lá lá). deixo o meu carro à porta de Lisboa num parque. e venho de carro porque na minha terra os autocarros para Lisboa são poucos, e acabam cedo, em nada combinam com os meus horários. sigo de metro e...oh! ah!... a pé.
sou pelos parques de dimensões espectaculares (mesmo que atentados à arquitectura paisagística) ao pé dos metros e comboios periféricos. que deviam ser de borla e ainda dar desconto no passe.
sou pelos smarts, que é o que essa gente toda devia ser permitida conduzir dentro de Lisboa. e com autorização expressa, depois de ter sido toda investigada a vida e necessidades efectivas de cada um. poupava. tínhamos o dobro do estacionamento, metade do trânsito, só com os ditos popós pequenitos.
irrita-me quem mora no príncipe real e faz 100m de carro para o escritório (y que los hay, los hay, trust me).
enerva-me os senhores exploradores de fossas nasais nos bê-émes, de ar altivo, que ali ficam parados, a parar o país. as tias que não sei como não morrem sufocadas com a laca e os químicos dos peelings a exalar dentro dos desportivos, e as betas e os betos com os carochas, um dossier no banco de trás e o telemóvel em cima do banco a pedir para ser roubado, para os papás comprarem outro mais caro.
eu queria morar em Lisboa. muito. para poder esquecer-me que tenho carro. que pago revisões a cada 3 meses por desgaste, que pago portagens, gasto horrores em gasóleo e ainda poluo o ambiente.
pergunto-me: serei a única?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

desperate theatrewives

sexta e domingo foram dias de trabalho físico, forçado, intenso.
preparar uma estreia de uma peça num monumento, com todas as limitações de tempo, burocracias estatais, cuidados com as paredes e azulejos, e uma enorme estrutura por montar, que abafaria o eco das paredes de pedra.
visto de fora: quatro mulheres todas com menos de 1,65m, de t-shirts tank top, calças práticas cheias de bolsos, de onde pendem x-actos, berbequins, blocos de notas, chaves de parafusos, telemóveis com auricular.
circulam no espaço de cabelos apanhados, suadas, carregando cadeiras, ferros, transportando roupas em pilhas, sacos cheios de estranhos artefactos como pedras e espadas, espalhando circuitos eléctricos e instalações de som, subindo e descendo escadas, percorrendo com um porta-paletes os claustros gigantescos de um conhecido monumento secular em Lisboa.
num dos dias, 2 carregadores ajudaram com parte do trabalho pesado, no outro foi um amigo providencial.
no entanto, foi curioso ver essas raparigas subirem as enormes escadas em caracol, carregadas com pesadas caixas de madeira, até à zona onde estavam instalados os camarins, para dar de caras com 5 actores machos, todos bem esculpidinhos dos ginásios, sentados à volta de uma mesa a fumar cigarros...

é hilário...
mas hoje não consigo rir, porque me dói até a respirar...

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

entre parentesis

na procura eterna de ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma mulher melhor, tenho andado angustiada. não sei de mim. e sei que tenho sido, se calhar, demasiado angustiante também para quem me acompanha.
um dia disse a alguém: eu não sou só o que escrevo aqui. não sou só metáforas e futilidades. também não sou só tristezas.
às vezes não sei de mim, quando perco as lutas, os alicerces.
quando volto à tábua rasa e não sei se encontro forças ou sequer oportunidades para reconstruir, reescrever tudo. tudo aquilo de que dependo para ser feliz, para ser eu. e para levar comigo, no bolsinho, nos dedos, todos os polegares que não deixo para trás nunca. e que, sei-o, também precisam da minha alegria estúpida e do mau-feitio-beligerante-coração-de-manteiga ("cabeça em pé de guerra mansa...?") para saberem que as cores andam aí, que as fadas andam aí.
tenho saudades do colo da minha avó. e do tempo das papoilas. tenho saudades de quem me conte as histórias. de quem me leve pela mão nesse acto hoje em dia tão condenável de dar milho e correr atrás dos pombos com um sorriso na cara.
esta é uma daquelas fases ingratas para quem me acompanha, porque as dores cá dentro estão fora do meu controlo, do controlo de quem quer que seja. não tenho forma de mudar nada. e quando não controlo as minhas dores, quando faço de tudo o que é possível e mesmo assim não chega, fico... pronto, é verdade... de rastos.
por enquanto, peço desculpa. e peço tempo.
para me habituar ao regresso da actriz "sem-abrigo". sem projectos e de momento demasiado perdida na encruzilhada, demasiado fraca para sequer procurar uma estrela-guia.
mas não sou constantemente triste. sou de tudo. e aqui fica uma prendinha.
um "prometido é devido"...
ora, na senda das melhores roupas e marcas (cof cof) para vestir as nossas personagens, fomos a todas essas fantásticas lojas de Griffe da Baixa... e não resistimos (e já vi que o meu vício se pega) a experimentar e fotografar estes fabulosos exemplares... de propósito para depois partilhar convosco...

atenção: participação especial da perna da B.!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

do pensamento...

sou agulha e sou palheiro

terça-feira, 20 de setembro de 2005

puxei com mão firme o travão de mão

foi o último gesto decidido da noite, agora já não era preciso fingir.
começou devagar, apenas a dor a sair em água e sal, a manchar a pele e a roupa.
depois cresceu para o desconsolo convulsivo. até ficar apenas o gemido baixinho de dor, quando as lágrimas por ora já secaram. como quando perdemos alguém irremediavelmente.
porque é a mesma sensação. perdi-me a mim. perdi os sonhos. deixei-os cair nos estofos, um a um. enquanto revia as cadeiras de verga ocupadas, os ares comprometidos, os meus livros atirados para dentro de uma gaveta porque já não pertenciam ali. o acender a luz. o cantinho onde sempre pousei a minha mala. de repente, o espaço cheio de vida, de gente a entrar e a sair. até as lágrimas me obrigarem a apagar a luz. o subir e ver as cadeiras, que já foram velhas, e agora são veludo rubi. os rostos que de lá me miraram. saí.
puxei com mão firme o travão de mão.
no banco de trás os cds, os livros, a velinha.

depois a estrada levou-me. ao sítio onde as raízes se elevam do mundo e os seres celestes andam à solta. deixei as minhas mãos enterrarem as dores.

a caixa de fósforos da menina caiu no chão de neve húmida e fria. a pequena polegar está fechada na toca e não há sinais da andorinha. a fada está no chão, pequenina, sem força ou brilho nas asas, porque os meninos já não acreditam em fadas.

somos eternos até ao dia em que a luz do palco se apagar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

em catadupa

estou à espera dos carregadores para ir para Alenquer.
portanto, oficialmente, a produtora executiva vai para fora em trabalho.
vê-los descarregar a camioneta para um armazém, ver se não partem nada.
o patrocínio teima em não pingar.
está tudo a praticar o brasileiro porque todos menos eu vão de "férias em trabalho" dois meses.
na altura em que andaram à procura de uma Julieta, não me deixaram tentar porque sou muito preciosa na produção. a ver vamos quanto tempo cá fico à espera de um casting em que me deixem participar. pode ser que me canse de esperar, ainda bem que tenho uma cadeirinha para passar os dias.
os meus "subalternos" teimam em ficar na cama na altura de trabalhar, mas vão passear em Outubro.
a minha colega, muito mais experiente que eu, está em part time para poder vender casas.
todos os dias me passam atestados de incompetência, porque afinal não era bem assim que queriam.
começo a duvidar da minha memória e sanidade mental.
é capaz de ainda se perder dinheiro com a tournée. ou seja, qual aumento?
ainda por cima talvez haja uma colaboração entre a minha empresa e o teatro que me deu um chuto no rabo. basicamente vou trabalhar para eles como produtora, de borla, e nem sequer precisam de me meter nas peças em troca.
tudo para ganhar uma mensal miséria. e desta vez só me pagaram metade do ordenado porque passei 15 dias de férias (forçadas). estamos a meio do mês e já vejo o fundo à carteira. tudo aos meios... copo meio vazio...
os meus pais parecem os velhos dos marretas e só passei meia dúzia de horas com eles. o suficiente para estar com a cabeça em água. a redoma estalou, mas ainda não partiu. e eu à espera.
a minha peça está a meio da temporada. depois desta, não sei o que é de mim. vou ter de inventar.
e estou cansada de inventar. queria por uma vez ter uma oportunidade de mão beijada.
tudo sabe melhor com luta, mas isto é ridículo.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

acreditas em fadas...?

... bate palmas, depressa...

fragil

como uma flor encolhida depois de o sol se apagar.
procurando na terra forças para aguentar-se viva até ele voltar.
as pétalas enroladas em volta do pescoço... caule... para amainar o vento frio.

a pele, sempre a pele.

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

casa de bonecas


foto de C.Santana

viajo assim, entre recordações e cheiros. feito espírito e fantasma daquele silêncio que é meu porque não o deixo.
foi a minha primeira casa, passaram anos. e ainda lá estou.
conhece-me cada uma daquelas bambolinas. onde me escondia agarrada ao peito que fugia das mãos, antes de sair para o sorriso.
os projectores que me lamberam a pele.
aquela moldura de luzes onde prendo o rosto com pó de encantar.
o cabide onde dispo o meu corpo visto os outros, o chão onde largo os meus passos e calço os outros.
as cadeiras quentes onde vi acontecer a magia dos outros, de que fui parte.
o chão de madeira preta onde pintei as cores e as formas de textos.

não sei se é mais minha ou eu dela. se lá nas varas estará um elástico mágico que me puxa.

tenho medo, agora. mas vou deixar-me voar, até que as asas não nos suportem mais os sonhos.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

aos saltinhos...



estou na tv7dias!
estou na tv7dias!
estou na tv7dias!

página inteira!
página inteira!
página inteira!

ímpar!
ímpar!
ímpar!

eheheheheheheheh

elevador

abro o casaco porque já começa o calor.
ajusto a mochila e saio da barafunda degradada e pseudo-civilizada dos restauradores para a estreita calçada da Glória. uma pequena fila espera que o elevador abra as portas. chineses, japoneses, alemães e demais nacionalidades olham de boca aberta para o peculiar rectângulo amarelo forrado a madeira que acabou de chegar à paragem, passeando-se nos carris. tiram fotos e nos seus olhos a pergunta (em línguas desconhecidas) "para que é que aquilo serve?" ou "onde é que se irá naquilo amarelo" ou até "que pitoresco, não?".
entro a seguir a um par de pessoas. aguarda-me o banco corrido de madeira às tiras e uma espera de alguns minutos. observo, de mochila no colo, quem passa por mim. à minha frente senta-se uma senhora reformada que olha para toda a gente como se medisse quem tem mais que ela. basicamente toda a gente tem algo mais que ela. há, portanto, muito para observar. um casal de velhotes entra e o velho pousa no chão os sacos do Continente. ela senta-se entre a outra reformada e a parede. o velhote anda às voltas com os trocos e depois de barafustar com a mulher, que é demasiado lenta para ele, lá paga do seu porta-moedas os 2,40€ que devem doer a desembolsar. ele tem bom aspecto, um colete verde cheio de bolsos, calças muito engomadas, camisa às riscas impecável. barafusta de novo com ela porque ela se sentou de forma a que terão de ficar separados. "és chato como a merda, tu", é a resposta. mas naquele azul dos olhos dela, uma dor calada e conformada fica por sair. ela estende-lhe o dinheiro que ele lhe tinha pedido e ele recusa, diz que agora não quer. mas depois volta a estender a mão. sovina... ela tem um ar gasto, cansado. as pernas enormes muito brancas têm riscos roxos, gordos, cada um de um esforço ou uma dor. cabelo por lavar, por pintar.
entra um grupo de turistas cor de rosa, gordos da comida típica portuguesa, os Mac Donalds de Lisboa, câmaras caras, telemóveis caros, para os quais gesticulam em risos altos em alemão.
mais duas ou três donas de casa de ar gasto e cansado. de carteiras velhas debaixo do braço e saco das compras. o banco corrido já não é banco, é uma amálgama de gente, rabos, calças e saias. duas telefonistas ou secretárias entram. falam pelos cotovelos, como convém. calças justas ao rabo demasiado grande, a barriga branca a sair de fora das blusas justas, muito ouro, bandolete, mala da moda e saquinho de plástico da boutique matilde. cheiram enjoativamente a perfume acabado de pulverizar. falam da filha de uma que não está, obviamente, presente.
mais turistas, também nórdicas, muito magras, com as caras achatadas e ar frágil. compram mas não picam o bilhete. a condutora do elevador não levanta os olhos da revista onde namora o Virgílio Castelo para as avisar. os apitos do Lisboa Viva e do Sete Colinas. na placa diz "4 lugares de pé", mas já estão umas 10 pessoas no corredor. os turistas incomodam toda a gente para tirar a foto da praxe. já vejo a moldura dourada em cima da tv e os sorrisos porcinos, as mochilas e as t-shirts com os galos de Barcelos.
entra um casal jovem, ele de calças de fato de treino, ela de calças de ganga justas, com um pequenito pela mão, que conseguem espremer no assento entre duas das reformadas. não se falam, só se dirigem ao miúdo, de boné e olhos doces. uma pequenita com um enorme totó repuxado, pele de chocolate e bibe de quadrados amarelos entra com o pai pela mão. é ela que diz ao senhor onde se devem acomodar para não incomodarem tanto a entrada, e é ela que passa o seu Lisboa Viva pendurado ao pescoço no leitor, e pica o bilhete ao pai. pacientemente, fura entre os enormes rabos e os cheiros de perfume acabado de pulverizar, puxando o pai.
finalmente a senhora condutora dá uma pausa ao namoro com o Virgílio e pede a quem está pendurado na entrada que feche a grade. mas chegou mais um metro e entra mais meia dúzia de reformadas. três ou quatro pessoas ficam de fora e olham o elevador e a calçada íngreme, indecisas, respirando fundo antes de desafiar a subida a pé.
tlim tlim. sobe devagarinho e amarelo a calçada, no seu puxar lento, duvidosamente eléctrico. pára quase lá em cima, talvez por falta de força. está cansado, também, o elevador. volta a arrancar e pára à beira das escadas. deixo sair quase toda a gente porque sei que os turistas ainda vão ficar parados lá ao fundo a fotografar mais um pouco.
saio para o ar do Bairro Alto e sou recebida pelas cores dos prédios e pelas janelas antigas. para trás ficaram o casal de velhotes, o sovina e a gasta, ele saiu antes dela e não olhou para trás para ver se ela vinha ali. certezas e conformações de tantos anos a dois, talvez. a menina do totó e do bibe amarelo atravessa o pai, e guia-o para dentro do Bairro Alto. viro á direita e reparo que à minha frente segue o casal que não se fala. ela vai em passo rápido, a esbracejar para o homem. o pequenito, arrastado por ela, tenta acompanhar a passada demasiado comprida até para mim e tropeça duas vezes. perco-os de vista depois do quiosque-bar, para deparar com mais bibes. vermelhos e amarelos, e panamás, muitos, de cores variadas. em fila indiana, dois a dois, de mão dada, olhos perdidos na luz do sol que ali não é filtrada pelas árvores do miradouro. riem, falam muito e as monitoras lá tentam organizá-los e assoá-los.
entro no "meu" café para ser recebida com o "Bom Dia" cantado de uma das raparigas. "é uma italiana, sim".

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

... e agora?...

há coisas das quais provamos os sabores, sabendo-lhes o fim.
como um prato favorito, guloso.
no entretanto, o não saber quando se voltará a cozinhar assim. a saborear assim. a viver assim.
retornarei?
e o açucarado da minha saliva revolve a língua entre travos amargos de fumo de cigarro.
e agora...?

incongruencias

ontem, como não podia fazer há muito, pude ouvir música no meu quarto.
perdi-me nos cds antigos que andam lá pelas estantes, coisas que eu hoje em dia não seria capaz de ouvir. outras que me rasgam um sorriso na cara.
em mini-disc, tinha estranhas compilações gravadas, de há 10 anos atrás.
e lá saltei pelo quarto ao som de "Jump" de Van Halen, coladinho ao quase-gospel de Joshua Kadison.
e entre Metallica e Brian Adams, estava a musiquinha da "Bela e o Monstro"...

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

ficou-me...

... o que será mais importante?
a percepção do acontecimento ou o acontecimento em si?

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

foi bommm

as borboletas na barriga fizeram-se sentir muito cedo, mas baixinho.
foram-me acompanhando, durante o dia, lembrando-me que depois dos berreiros e das chatices, ia ter um dos meus momentos maravilhosos.
chegar ao auditório e beber o café, tentar engolir um bolinho porque o açúcar faz falta e sorrir à cara angustiada da B. aí as borboletas começaram a esvoaçar mais rápido.
as mensagens de merda e beijos de todos os lados. os telefonemas inesperados.
entrar, ajustar os últimos pormenores. rever os adereços, o relógio, o coração. os óculos...

a pausa: um duche quente para lavar o dia do corpo. a combinação fresca desliza pela pele. creme amansa-me, o pente a deslizar nos cabelos molhados. no burburinho das conversas sobre os preparativos, chegavam os outros amigos, os outros pedaços da peça. creme no rosto, esponja da base, toques suaves de pó com o pincel gordo. atenção mais cerrada nos olhos, a linha de eyeliner e o lápis escuro. rímel preto para as pestanas ficarem enormes. passar o baton como se hoje não estreasse, apenas uma carícia de cor nos lábios, pressionando-os um no outro em beijos sós. deixar o cabelo voar no calor e passar-lhe a escova. já está. o cigarro deitada no palco a observar o sossego fresco dos projectores apagados, sempre acompanhada das vozes e da ansiedade dos outros.

a "rádio táxi", um clássico do intercomunicador que liga a bilheteira aos camarins e a cabine técnica. cantou-se José Cid...
os abraços emocionados "é agora, muita merda". as borboletas em voos picados de montanha russa. pareciam querer fazer saltar o lençol que me cobria, onde tinha de ficar imóvel a ouvir tanta gente entrar. as vozes. pensar na gente que me faltava na plateia e agradecer pela (outra) pequena família que estava ali, entre bastidores e cadeiras vermelhas, que não me deixaram sentir-me sozinha. a primeira lágrima caiu no lençol, antes de começar o espectáculo.

depois a música. explodiu a luz e o meu coração. e os doze que eram quatro começaram a mostrar-se.
os risos, os risos. e de repente...
- um homem só é um homem que não sabe... não sei, pá...
pronto, tudo estragado. o tipo leva as mãos à careca, que escorre. e continua a dizer que não sabe.
as minhas mãos lutavam contra os nervos, porque tinha de estar em freeze. a B. engolia em seco fora de cena, à espera de entrar. segundos... e aí vem o M, todo-poderoso, driblando o texto (que o driblava no ano passado) e as brancas sucessivas do colega. o pessoal das luzes folheava desesperadamente o texto, sem saber onde estavam... e foi parar... à deixa do corte! não sabemos como... foi um mistério (o tal). o público não deu por nada. siga para bingo...
criámos um monstro! e há muito orgulho naquele que agora é um sucesso de gargalhadas e surpresas.
saiu de cena a tremer, a despir-se para voltar lá para dentro. e toda a gente a tremer mudava de roupa para voltar.

e entra o sushi, e come-se sushi. e risos, os risos.
os polegares da boneca-directora de cena espetados entre cada cena, um enorme sorriso no escuro entre as cortinas pretas, a profusão de roupas e sapatos, o mexe-mexe silencioso, invisível.
e os murros no estômago de cada par de olhos que nos fixava, quando a menina-mulher chorou. saio a tremer, limpando as lágrimas, tenho de despir-me para a Ela voltar a fazê-los rir.
primeiros acordes de Coldplay. fim.

aplausos, flores. abraço a 4, depois a 5, depois a 7 ou 8. depois sair. para o mar de gente que nos sorria, à espera de um beijo. até assinámos autógrafos...

obrigada a vocês, que estão lá todos os dias. e aos que foram, e irão lá. aos que querem que contemos a história.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

no bolso

vais naquele bolsinho aconchegado entre a pele e o motor do amor.
e vais sentir aquele cheiro. vais ser o espírito que passa pelos outros, encontrando-lhes as almas cor de pó nas linhas vagas das luzes. vais sentir nos teus pés a madeira fresca e no pescoço o suor quente. nos olhos as luzes dos projectores. e vais ver o quadro de caras expectantes, ora sorridentes ora graves, emolduradas pelo forro das cadeiras vermelhas e as luzes de presença (sempre elas) das escadas. vais pintar cada alma com a sua cor, vais pincelar de ser cada um dos que só vivem ali.
e murmurar as músicas e palavras que sabes de cor.

trocar a perna com a Ana, saltitar na cama como o Ele, ouvir rádio com a Francisca, dissertar com o Mário, apertar o anti-stress com o Marques, sorrir com a Rita, esbracejar com o João, deitar a língua de fora com a Ela, ler o jornal com o António, ser pescada com o Chico, discutir com a Helena, cortar legumes com a Marília e chorar com o Sempre-Noivo. vais porque és parte de cada um deles.
e quando as palmas trovejarem, a ovação é também para ti.

este é só mais um dia e mais um projecto. no próximo estarei eu de cabide na mão à tua espera, e viajarei pelos teus olhos no bolsinho do teu peito para "ver-te-nos" na casa de bonecas.

um beijinho, boneca-directora-de-cena-colher-de-chá...

. Sempre-Noivo . algures na Baixa de madrugada .

Não voltarás. Eu sei que nunca voltarás. E isso dói.

Eu tenho saudades de ti... De tudo o que tu foste para mim e eu guardei bem fechado na memória, como o cheiro das velas e da madeira de cedro envernizada onde tu estavas.
Como o altar mórbido da igreja onde acharam por bem deitar-te.
A igreja onde nesse dia estaríamos a casar.

Sei que nunca voltarás...
E dói muito... porque estás perfeita aqui dentro.
Dói como se te tivesse tirado uma fotografia a tudo o que havia de melhor em ti, e de repente ficasse só com essa fotografia.

Da última vez que te vi, tinhas provado o vestido... lembras-te?
Vestiste-o sozinha e puseste-te a olhar ao espelho, lá no teu sótão, onde em segredo fazias as tuas brincadeiras secretas...

Eu subi à tua procura... vi-te pela porta entre-aberta... Sorrias.
Sorrias tanto!
E a magia daquele sorriso iluminava todo o quarto.

Estavas feliz, estavas tão feliz....
E eu teria entrado no quarto e teria feito amor contigo, uma e outra e outra vez!.... E teriamos suado os dois o vestido, e teríamos sujo os dois o vestido...
E depois arranjaríamos uma desculpa para a asneira, pois afinal o casamento era no dia seguinte.

Mas tive a certeza.
Tive a certeza que daí a dois dias estaria lá à tua espera e tu aparecerias.

E depois tu não vieste.

Aquela tua certeza de que ias ser tão feliz estampada no teu rosto... essa certeza que me encheu de orgulho por saber que te deixava assim. Ficou gravada aqui...
Tu estás aqui... E eu agora não te posso abraçar ou beijar ou sentir o teu perfume, ou ouvir a tua respiração mais e mais e mais forte.... Não posso!

E dói... Dói muito. Muito mais do que eu posso aguentar.

(in Sax)

hoje estreio.
hoje vamos lá estar: 4 actores, 12 personagens, o sempre-noivo, o técnico de luz e o de som, a directora de cena, o encenador/autor-vivo, e os espíritos...
e uma sala cheia de gente que vai ouvir-nos falar de amor.

www.sax.pt.to

terça-feira, 6 de setembro de 2005

pontas soltas de vesperas de estreia

Sábado:
mobília já no auditório. fase de montar projectores, afinar. fase de começar a pensar nas merdinhas que faltam.
sair de casa, dar dois dedos de conversa para cravar uns salgados e doces de borla para a estreia à pastelaria do amigo. tomar o pequeno almoço. ir à drogaria cravar o lavatório de cozinha (que a casa de bonecas tem cozinha). conferir o conteúdo da mala de maquilhagem, acomodar os tarecos no carro, voar para Lisboa.
ir fazer as unhas porque já passou um mês sem manutenção e as mãos estão uma lástima. voar para o Colombo. boxers do outro, cabo de aço, tinta para o cabelo, calças vermelhas a 5 euros (o mac não me deixa meter o símbolo, bolas), cola de tecido para as bainhas, linha, toalha e correr as lojas à procura de umas outras calças que ainda não é desta que se encontram.
na azáfama de sacos e telefonemas, o lavatório que nos emprestaram este ano é mais pequeno que o do ano passado. vamos ter de fazer obras
voar para o Auditório. tirar as medidas e estudar a melhor forma de re-transformar o móvel-cozinha. vestir a Ana e o Chico, maquilhar a Ana, recordar o texto. chega a Alien. vamos gravar.
ir a Telheiras buscar o carro emprestado para a gravação. procurar uma rua com luz e pouco barulho.
- queres um cigarro?
vrrrrrrruuuuum
corta
- dás as tuas consultas em casa?
bonc bonc bonc bonc (três putos a saltar em cima de uma chapa de metal)
corta
- feliz dia dos...
ratatatatatata (camião do lixo)
corta
- queres su vvvvvvvv ir vvvv pou vvvv? (ventoinha de carro estacionado)
corta
- como?
beeep beeep (alarme de carro)
corta
11 da noite. levar a Alien a casa. voar para o Aki. não há tempo para mudar de roupa.
imagem dos vídeos de vigilância: um casal entra vestido de preto. ela de vestido justo de seda com grande parte da perna direita à mostra, saltos altos e óculos da moda. desfilam pelos corredores dos parafusos. ela tenta não escorregar no chão polido. saem com uma placa de madeira.
regressar ao Auditório. desmaquilhar. as luzes estão quase montadas. três piadas com quem lá está há horas de volta de filtros, racs e lâmpadas. vestir umas calças e começar a tirar as medidas. cortar a placa de madeira com um canivete suíço. no chão estava uma pastilha que se colou à placa. tentar com uma serra velha. pregar a placa no móvel. encastrar o lavatório. canção de vitória:
"já sei martelar, já sei bater no prego sem no meu dedo acertar"
pegar no rolo e acabar de pintar os elementos de cenário, fechados num armazém há um ano.
parar. olhar em volta. a desarrumação. os cheiros de tinta, palco e serradura. os olhares de cansaço orgulhoso. são 2 da manhã. não se parou para comer.

Domingo voltamos. para coser lençóis, fazer as bainhas, acertar outros tantos pormenores, acrescentar os novos vídeos ao multimedia e ensaiar. que também dá jeito.

ontem chorei. é complicado querer ajudar quem não quer ser ajudado. quem nos olha com indiferença como se o que dizemos não passasse de um chorrilho de disparates. quem não percebe que devia ouvir porque se há alguém que conhece aquela peça e as personagens são aqueles olhos que o miram com incredulidade. engolir os sapos e permanecer ali a insistir, à espera que se faça luz, porque se vê a colega a desesperar porque a cena está má devido a tanta falta de vontade. de sensibilidade. a essa aversão à direcção. as mesmas discussões que já tinham sido esclarecidas. as mesmas marcações que agora voltam a ser esquecidas deliberadamente. e a angústia de querer ver o espectáculo bom, muito bom. bem interpretado por todos, sem destaque para nenhum. podíamos já estar nos pormenores. as cenas de uns foram pouco ensaiadas para se insistir no outro. a sensação de que nada o demove, a dois dias da estreia. teimoso, insensível, com um grave problema em ser dirigido por mulheres, e estranhos curtos-circuitos.
a sorte é que o autor vivo tem tido tempo de lá passar e parece que aquela coisa "entre machos" resulta um pouco melhor.
a insegurança de não saber o que vai sair daquela cabeça lisa nos dias de espectáculo, em que não se vai poder parar as cenas e dizer que não é assim que está combinado. a sensação que algumas coisas foram passadas para segundo plano e a noção de que muito do trabalho podia estar fantástico se tivesse tido um bocadinho de atenção.
a sensação de falhanço. de exaustão. o abraço a duas, depois a três, depois a quatro, depois a cinco. a bonequinha-directora-de-cena acerta os últimos pormenores, enche os copos, prepara a roupa. esperar-nos-á entre cada cena de cabide e peruca em riste, para ajudar nas mudanças de personagem.
começar ensaio de luzes às 11 da noite.

"- it will all turn out well.
- how?
- I don't know, it's a mistery..."

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

toma la mais 5... sem pensar

(isto vem do Run Away Man - não posso pôr o link, procurem "Os Porquês" aí ao lado)

Idiossincracias - as 5 menos
- egocentrismos e umbilicalismos
- maldade deliberada e gratuita
- mania de que um sorriso custa dinheiro ou provoca cancro
- incapacidade de se pôr nos sapatos dos outros, querer ouvir ou compreender, ou aceitar que toda a gente erra. a estupidez e as verdades absolutas dão-me engulhos
- desperdício de dinheiro e outras energias não renováveis e consequente subaproveitamento dos valores renováveis que há por aí em bruto

Idiossincracias - as 5 mais
- a minha família
- os meus "polegares"
- o palco
- música
- viagens e livros (outra forma de viajar)

5 Álbuns (bolas... olha, ganham os que vierem primeiro à cabeça)
- Canções Subterrâneas - A Naifa
- Swing when you're winning - Robbie Williams (ouçam antes de gozar, fashavor. é o álbum das oldies...)
- Mezzannine - Massive Attack
- AM-FM - The Gift
- Welcome to the Cruel World - Ben Harper

5 Canções (ou o que é que acordei a cantar hoje - se me perguntarem amanhã já mudou)
- I could write a book - Ella Fitzgerald
- numb - U2
- os milagres acontecem - A Naifa
- unfinished sympathy - Massive Attack
- 11:33 - The Gift
- sexual healing - Ben Harper
- crabbucket - K-os
(já passei? escolham um e eliminem :P)

5 Álbuns no IPod ou outro
- oh, e tenho lá dinheiro para essas coisas! uma pen foleira de meia dúzia de Euros com umas quantas músicas, mas não um álbum toooodo, quanto mais muitos. no carro circula uma mala cheia de cds... é o meu Ipod. mas não me obriguem a pensar no que lá tenho... gravo muitos cds de selecções minhas. olha, gosto de bandas sonoras de filmes. e sim, adoro musicais. não me falem no Chicago e no Moulin Rouge que correm o risco de me ouvir cantar durante horas... e é mau, muito mau...

5 MP3 na playlist
(pois eu, há uma semana, tinha rádio online... ouvia antena 3, e no carro a Radar. agora tenho mesmo de ter as músicas gravadas aqui. grrrr para o Mac e as incompatibilidades autistas.)
- letter to S. e The 80's - David Fonseca
- let's call the whole thing off - Louis Armstrong e Ella Fitzgerald
- unwell - matchbox 20
- take me away - lifehouse
- forever more - moloko

e a listinha vai paaaara:
Espanta-Espíritos (a ver se assim mete um raio de um post e actualiza o blog dele)
Colher de Chá (ou a boneca de sardas dos Cariocas de Limão que vê as vedetas abanarem-se)
Miak (o Duende Feliz que também tem Medo do Escuro)
Nuno Catarino (do Alquimia Submersa, e Chá de Magnólia e Forma do Jazz)
Cassiopeia (tenho saudades tuas!)
O Estranho (bienregressé)

já passei o limite, mas estou-me a marimbar. passava ao Nuno mas ele acabou com o blog (parvo).

num lar...

he tells her
"I wanna paint you naked on a big brass bed,
with bright orange poppies all around your head"
and she says
"you crazy old man, I'm not young any more"
"well that's allright", he whispers,"I've never painted before"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane?

"oh, and I wanna read you tea leaves by candle light
on a fat red velvet sofa I wanna be with you all night
I wanna tickle your feet with a peacock plume"
and she says
"can you talk a little softer?
there are people in the room"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

and she says
"my children brought me here and promised me they'd call
but you know kids forget that's just the way of it all"

and he says
"well that makes us both footloose and fancy-free
so Jane do you wanna come see the painted desert with me?"

do you love me lady Jane, lady Jane?
do you love me lady Jane, lady Jane?
you've got me talking to the moon
you've got me walking in the rain
do you love me, do you love me
lady Jane

do you love me like I love you, lady Jane...?

. Painted Desert Serenade - Joshua Kadison, 1993 .

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

orgulho

não quero questionar.
não quero pensar no que vai custar. o tempo vai passar e aquelas pedras seculares serão então uma recordação. a seu tempo.
não volto atrás. agora não. a última corda partiu-se. foi cortada à revelia.

agora resta-me ir à que, cinicamente me diziam, ainda era a "minha casa". pegar nos livros que levei para lá para aprender a ajudar-nos melhor, nos cds de músicas que usava para ter companhia mais presente que os fantasmas. cheirar aquele ar pela última vez e recuperar na boca o sabor da amargura. ouvir os ecos dos risos daqueles corredores cheios dos espíritos que lá andaram. que estrearam sozinhos num teatro inundado, que fizeram de madeiras podres algo digno, que se cansaram em dedicação, que pentearam e montaram, desenharam, pintaram, viveram, deram e receberam.
porque, apesar de tudo, de saber de tudo, eu queria continuar a lutar, saber que faria parte daquele grupo de pessoas cujos braços tinham ajudado a fazer algo de bom, de melhor. e por tantos momentos presenciei e saboreei essa possibilidade materializada. vi um grupo de gente unida à volta de um objectivo maior. era palpável, esteve ali. quando já muito poucos acreditavam, e quando ninguém apoiava, havia quem lá estivesse e fizesse acontecer.
perderam. perderam o que de melhor tinham. a juventude, a alegria, o empenho e a paixão foram eliminados da lista, um por um. eu fui mais uma. mas as opções não eram minhas.
as circunstâncias são de rir. gostava de ser mosca para ver um certo elenco agora reduzido a um fetiche, um janado, uma fumadora manienta, um miserabilista indeciso e duas bichas espampanantes. quem vai carregar com o cenário?

já tinha caído uma vez no erro de voltar a acreditar.
aprendo, agora, a baixar os braços.
eu podia apenas provar que sabia e conseguia. e provei. ao menos fico com isto.
adeus, Teatro Ibérico.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

vertigo

os sofás são uma mancha de cores gulosas no corredor.
hoje vamos para a nossa casa. montá-la.
o computador já tem os tesouros guardados, retalhos das vidas que oportunamente se reproduzirão (também) numa tela branca. a teia de pessoas, de vidas e estórias de cada um daquelas 13 pessoas tecida, em sintonia, entre o preto e branco e as cores.
as músicas voltaram a tocar na nossa cabeça e os sentidos misturam-se com as recordações.
corpos cansados de dias completos, sem paragens, sem descansos. nunca mais é dia... e no entanto falta tão pouco...
agora começam os retoques, os pormenores, aquela lista infindável de pormenores.
cabos, cordas, tintas, pregos, tecidos, agulhas, papéis, projectores, telas, copos, pratos, coraçõezinhos, almas, pôr um visto em cada palavra.
à hora de contar a história para o veludo frio e ver se as personagens já chegaram, o corpo já não está para nada nem ninguém. a cabeça explode. o medo...
as caras conhecidas que aparecem para completar aquele pequeno núcleo duro, trazendo as suas artes e os seus amores, unindo-os aos nossos sem pedir nada em troca. porque, no fim, se só sobrar para um café, tomá-lo-emos juntos com um sorriso de missão cumprida. a história estará contada. todas e cada noite.
o resto, fica nas mãos de quem comprar bilhete.