sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

paginas ou o proximo acto

os dias entretecem-se uns nos outros e as pessoas umas nas outras. momentos que passam a correr e momentos que demoram a passar. querer apanhar o tempo bom e querer despachar o mau. querer ter tempo para saborear.
há muitos anos atrás não me conhecia como sou. não me conheço amanhã.
falar de ano novo e de dia novo e de segundo seguinte novo. de vida por estrear por construir com os cimentos dos passados.
de laços improváveis de laços estranhos de laços simples de laços quebrados e laços desatados. de partilhas corrompidas. de calmarias e tormentas.
os balanços são sempre feitos com pólos negativos e positivos, balanças mais ou menos umbilicais. medos, riscos e petiscos.
levantar a cabeça e seguir em frente. a minha avó na minha cabeça, a cada passo.

ganhei desejos de boas festas, bom natal, bom ano. digo ganhei porque do outro lado de cada um estava uma quente mão estendida. generosa. porque confiante, porque confia em mim. sensação de um abraço, de uma entrega. uma partilha inacreditável de coisas tão diferentes. muitas destas mãos são novas no meu mundo e todas são valiosas. a todas e cada uma tenho a dizer apenas pequenas coisas que me deram outras mãos e que guardo como tesouros:

sê feliz . um dia de cada vez, mas começa já . agarra-te ao que gostas, não esperes . faças o que fizeres, gosto de ti na mesma . levanta a cabeça e segue em frente . todos os dias dói menos um bocadinho . azul com uma lua . laranja . a vida é tua doa a quem doer . é bom falar contigo . há, no entanto, no meio de tanto caos, constantes . sorri .

não faço resoluções de ano novo [esta passagem de ano até vai ser... sui géneris] , vou tentando fazê-las a cada dia. a ver se a vida e eu melhoramos mais depressa mas com objectivos adaptados a cada situação e prazos mais elásticos...

por isso até segunda! ;)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

aha

The Movie Of Your Life Is A Black Comedy

In your life, things are so twisted that you just have to laugh.
You may end up insane, but you'll have fun on the way to the asylum.

Your best movie matches: Being John Malkovich, The Royal Tenenbaums, American Psycho

tacto

procurou o conforto do assento atapetado meio curvo da carruagem, onde as suas costas não encaixavam bem. deixou-se embalar pelos roncos ecoantes da velocidade e pelos espasmos de cada paragem. os cheiros e vozes à sua volta contavam-lhe as histórias de cada um e de ninguém ao certo. também não interessava. a cada zumbido de portas deslizantes a azáfama dos pés apressados e rabugentos. os encontrões surdos e as malas das senhoras a baterem nas cadeiras. "com licença" "desculpe" "quer-se sentar?". os sacos de plástico numa restolhada. os anéis a tinir nos ferros.
de súbito, um perfume. não se mexeu, mas os seus músculos retesaram-se sem clemência para os sentidos assustados. nos solavancos ritmados subiu a música há muito adormecida, desperta pelo aroma que agora lhe trazia à lingua o sabor amargo e revitalizante do perfume acabado de pôr. ao seu lado o calor de uma perna. mesmo ao lado da sua. uma simples perna, um membro do corpo humano. que transportava em si o perfume mas não o cheiro. e um calor, uma queimadura.
as imagens assolavam-na em rasgos de luz que esquecera. que arrumara numa prateleira juntamente com o olhar. o calor do corpo dele em doses de loucura e maciez. um pescoço moreno e aquele ponto no centro do peito. zonas onde se acumulavam. as mãos dela, o perfume e o cheiro dele. e o odor do amor acabado de fazer, de partilhar, de lamber, de gritar e de segredar.
as imagens desvaneceram-se quando quis lembrar-se. lembrar-se do brilho dos olhos dele, aquele brilho que a levara sempre. e que levara sempre com ela. mas que não conseguia visualizar. era demasiada luz, talvez.
abranda o comboio. o movimento da perna masculina ao seu lado confessando-lhe que tinha de se ir embora. um toque de mão grande e perfumada inusitado no seu ombro por um solavanco encurvado que provocou um desequilíbrio. continuou sem se mexer. ao pedido de desculpas respondeu um sorriso aterrorizado.
porque agora o comboio não a embalava. eram de novo as vergastadas no carro no dia em que o perdera. em que o vira pela última vez. deitado ao seu lado num qualquer monte de entulho e ervas daninhas.
desorientada, afastou os pensamentos, inclinou-se para a presença à sua frente e perguntou em que paragem estavam. a sua era a próxima. uma qualquer mão caridosa de pele fina de menina nova ajudou-a a levantar-se e a aliviar a sua pressa. de um gesto mecânico, abriu a mão e na bengala o chão ganhou contornos de pés e sacos de plástico. o vazio entre a carruagem e o cais. tacteou os óculos escuros e compôs o cabelo. e concentrou os sentidos no ritmo da bengala, cantando-lhe para os dedos o caminho na triste melodia de cada dia que passa igual.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

frases para o dia

"eu olho para ti [no escritório a trabalhar sem gosto] e definho"
"agarra-te ao que gostas, não esperes"
[JB . actor . in charcutaria francesa]

"you can feel my lips undress your eyes"
[franz ferdinand . in darts of pleasure]

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

faz-me "espece"...

à saída do escritório, para ir almoçar, encontro na entrada um rapaz e uma rapariga a olharem para a lista de empresas que co-habitam neste multicentro como se estivessem a consultar um menu...
- desculpe, queria uma informação...
sempre disponível, preparei-me para ajudar... nunca me pensei que me fosse cortar a digestão...
- aquela empresa, a XPTO Filmes, aceitam actores aprendizes?
mas mas mas... como actores aprendizes...? contive-me e respondi o mais polidamente:
- por acaso faço parte dessa empresa, o que lhe posso dizer é que normalmente trabalhamos com uma carteira de actores profissionais e, se estiver interessada, pode mandar currículo para o nosso e-mail. se andarmos á procura entramos em contacto...
- sim, mas e assim pessoas que queiram aprender...?
então... pera lá... tzzzt... tou em curto-circuito...
- é que nós queríamos começar a fazer umas coisas, aprender, e queríamos informações sobre se aceitam aprendizes.
mas o que é que ela quer que eu responda...? mas mas mas...?
- olhe, mas tem formação? o que lhe posso dizer é que se calhar o mais indicado era talvez começar por fazer cursos na área, há imensa coisa na agenda cult...
- pois, mas eu queria já ir fazendo coisas
suspiro, desespero... muito...
- bem, então pode inscrever-se na agência XXXX, também têm escritórios aqui, deve conhecer porque são muito solicitados no meio...
sai-se o outro, que tinha estado calado:
- sim, eu já fiz imensos castings para eles...
- p... pois... inscreve-se e pode ser que a chamem e que tenha sorte...
ficaram com cara de parvos a olhar para a ementa.
- e aquela XXXX ali, também faz espectáculos? tem um nome que parece que sim. se calhar aceitam aprendizes...
claro que sim, minha querida... é só facilidades!
- olhe, isso não sei, são tudo empresas diferentes, se calhar é melhor falar directamente com eles, mas parece-me que é uma produtora de televisão, não tem muito a ver co...
- e a XXXX, ali - de dedo espetado - se calhar aceitam. eu tenho um curso de jornalismo...
poizolhequenãoparece....
- errrr... acho que não há nenhuma empresa aqui que trabalhe com jornalistas...
- pois, se calhar... então obrigada...
continuaram com cara de otários a olhar para o quadro como se lhes fosse cair dali uma letrinha que se transformasse em grande produtor dos morangos com açúcar a oferecer-lhes o contrato milionário, fama e casacos de pele.
saíram dali ao mesmo tempo que eu, sem ter entrado nem falado com ninguém, de nariz no ar com a mesma cara taralhoca, talvez à procura de alguma porta com um telão a dizer: "procuram-se aprendizes para grande novela da TVI. pagamos à hora, refeições e transportes por conta. venha aprender e fazer umas coisas."
eu considerei voltar a subir e pedir no gabinete de psicólogos aqui do lado um Xanax...

aviso à navegação:
ando a tentar vingar neste meio há uma porrada de anos. tenho formação em várias áreas. faço teatro. faço dobragens. tive de aprender a fazer produção para pôr os espectáculos de pé. vou a castings. rebento-me toda para ganhar a vida e poder fazer mais qualquer coisa, nem que seja uma peça de vão de escada.
já fiz peças, dessas de vão de escada, em que acreditava para 5 macacos. já cancelei espectáculos. já chorei de frustração por ter de cancelar espectáculos. já arrumei muita casa que tive de deixar. já fui preterida pelo número do soutien.
já apresentei um programa de tv. numa das vezes estava afónica. sujeitei-me à coisa do "vota-na-apresentadora-de-quem-mais-gostas-tipo-miss". apesar do metro e meio e uns trocos, da barriguinha, das borbulhas e da afonia, era a preferida do público. mas não da produção. já fiz uma peça em que tinha de cantar, dançar, ter o maldito sex-appeal, usar peruca loira, mostrar quase tudo [ou nada eheheh] e ainda assim ser levada a sério, com ensaios feitos em casa em frente à televisão porque a equipa dos "profissionais" não estava com paciência para ensaios de substituição. já tive de fazer um espectáculo uma semana depois de a minha avó morrer. já fiz castings onde fui elogiada para descobrir que afinal já tinham escolhido a trinca-espinhas e era só manobra de marketing.
andamos todos os dias lado a lado com manequins de sorrisos assépticos e medidas impecáveis. veneramos aqueles que às vezes ninguém conhece, vêmo-los bater no fundo e perguntamo-nos se valerá a pena continuar. imploramos por uma oportunidade para mostrarmos que sabemos o que estamos a fazer, que não somos só mais um iludido. tentamos levar avante projectos nossos sem um cêntimo para um cartaz. vemos o lixo que passa na tv e perguntamo-nos porquê. vemos a facilidade com que surgem as oportunidades para tanta gente que no fundo só quer "experimentar" e acaba a abrir um bar ou uma loja de decoração ou a casar com um futebolista.
isto custa, senhores. dói. na alma. todos os dias em que não temos trabalho, em que todos os ossos do corpo dizem que somos capazes mas o espelho, a auto-estima, o "mercado" não nos deixam acreditar.
o mínimo [e o máximo] que podemos fazer é lutar, à séria, por isso.
isto é um vício. é muito bom. mas requer trabalho. entrega. devoção. chorar muito. não dormir. suar. e ter respeito, caramba.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

consoada

|maria do céu|
abre a porta com o ar curioso que traduz a única vivacidade que lhe resta dos 30 anos. o resto nos olhos é tristeza. ainda veste a roupa de trabalho na quinta do pai, onde ordenha e trata as vacas. já não passa a ferro porque a preguiça entorpece-lhe a vontade. é grande, alta, cabelo crespo curto e olheiras que são já parte da pele. deixa entrar de sorriso dorido na pequena casa, recebe as prendinhas com beijos húmidos, amargos, de olhar esquivo. a bebé está a dormir. o marido agora não tem trabalho nas obras e foi passar o Natal com a outra mulher e os outros filhos na Roménia.
não há presépio, apenas um pequeno projecto de árvore de natal cortado de um ramo de pinheiro, com algumas bolas velhas. também não há embrulhos na base da árvore.
são nove da noite e estava a preparar-se para se deitar. à despedida, de alma cheia de lágrimas, mesmo antes de fechar a porta, olha para o fundo da rua. o casarão do irmão, todo iluminado a preceito para a quadra, envenena-lhe o ar com o cheiro a calor e rabanadas.

|dona fernanda|
com nome de avó, puxa o portão de corpo grande, maternal em cada poro, aberto ao abraço. a vivenda está silenciosa. as bicicletas e o cesto de basket esperam quem lhes dê um propósito. bola de futebol adormecida e cds de bandas com nomes estranhos que não cantam povoam a grande sala. o marido dormita em frente à televisão, a renda descansa ao lado do comando. a um canto roupa de rapaz jovem dobrada com cuidado e cheirosa do ferro de engomar que lhe tira o sentido das horas perdidas. ao vapor vai juntando palavras e mais lágrimas em lamento solitário, saudoso, em que não há barragem que lhe retenha a liquidez da dor. ajeita de mãos trémulas os embrulhos em frente à enorme árvore decorada, desligada, com os outros que reservou para quando, depois do natal, voltarem de viagem. os netos. que os filhos vivem em África e não voltam.

|os teixeira|
na pequena casa secular de chão de madeira ouvem-se os passos. Helena vem à porta, pequenina, graciosa, de cabelo grisalho sempre arranjado de uma visita por semana ao cabeleireiro. veste uma camisola de lã confortável e um lenço ao pescoço. apesar das pantufas, está sempre de um bem vestir elegante, antigo. o marido aparece por trás, também curioso, um pouco mais cambaleante por causa do enfarte de há uns tempos. exclamações calorosas de alegria abrem os braços. de sorriso bem disposto atravessam o corredor de mão dada. acomodam-se na sala de estar para dois, com as chávenas de chá. comentam um para o outro para os outros a consoada ligeira que já fizeram. de olhos brilhantes e quentes, Helena olha para os embrulhos e diz, com ar de criança pequena, que com presentes fica como uma criança pequena e quer abri-los logo. o sr. teixeira ri-se e comenta que é verdade, parece uma miúda. dá-lhe a mão enrugada onde assenta a dela na perfeição de muitos anos de uma doce erosão. não há mais ninguém em casa. não haverá, esta geração termina aqui, a dois, um para o outro, um no outro. na despedida, ainda sobra tempo para uma troca de receitas de umas rabanadas que ela fez para ele e que só faz nesta época do ano porque ele tem de ter cuidado com os doces. quem os vê durante o dia, sabe que enquanto ela anda nas compras, ele lê o jornal e come um bolinho às escondidas. depois ela vem buscá-lo ao café e sobem a rua devagar. sempre de mão dada. assim fecham a porta, em risos meigos, de regresso à sala de estar para dois.

. a passar neste momento . O Bairro do Amor . Jorge Palma

sábado, 24 de dezembro de 2005

antecipação



fujo cá para cima, depois de ter acendido todas as velas possíveis e imaginárias em minha casa. lá em baixo a azáfama porque os bolos-rei pegaram um ao outro no forno e é preciso telefonar a quem está longe. a panela gigante do bacalhau está no fogão e ciranda-se entre a bancada e a mesa com as fatias douradas acabadas de fazer. roubam-se sonhos de cenoura às escondidas e recebem-se mensagens no telemóvel. cheira a lenha queimada e ao perfume da minha tia. soa a sua voz cantada em espanhol, arrancando uma qualquer gargalhada à voz do meu pai. sei que o meu tio vagueia pensamentos no televisor e a minha prima ajuda a minha irmã com qualquer coisa que ficou por fazer. sei que a minha mãe rodopia na cozinha de cara aquecida pelo fogão e pelos beijos que lhe roubo para lhe contrariar os nervos. chuvisca e as gotinhas sapateiam na janela por cima da minha cabeça.
detenho os dedos acima do teclado. imagino-vos nas vossas casas, ou de regresso às da família, a pôr a mesa, em amena cavaqueira como primo porreiro ou a fugir da tia beijoqueira. a sentir o cheiro do bacalhau, dos bolos e dos fritos. iluminados pelas luzinhas da árvore, quem sabe pelas brasas de uma lareira, quem sabe reflectidas já nos embrulhos. encasacados, porque está frio e os pés teimam em não aquecer.
sorrio.

fiquem bem. aconcheguem-se bem. aproveitem as presenças e dêem beijos às ausências.

feliz natal

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

conversa com um anjo



sopras-me ao ouvido de vez em quando. sinto um calafrio. quando as coisas correm mal, sinto as tuas mãos à minha volta, como quem vai buscar umas meias para eu não me constipar. senti-te quando vi o rail a vir na minha direcção. sei que te senti. isto do saber que se sente chega a ser contraditório, se se sabe não se sente, pensa-se. mas não interessa. andas por aí, eu sei que andas. por isso pego em ti e tiro-te da árvore. miro-te fixamente para que me prestes atenção. tens muito que fazer, eu sei, mas espera um bocadinho. não demoro muito.

o que te quero dizer é que vem aí aquela altura de que tu gostas tanto. estão aqueles dias brilhantes e geladinhos, em que é bom pendurar a roupa ao sol, com os gatos a passearem-se nos tornozelos. é tempo de noites em que engomar sabe tão bem pelo aroma da roupa quente onde perdes os pensamentos. é aquela altura em que o crepitar da lareira te traz as recordações dos teus tempos de aldeia e do tanque onde as moças de lenços na cabeça e olhos salpicados de brilhos e futuros cantavam e o sabão era azul e branco, as tuas cores preferidas. é tempo de chinelos e torradas perfumadas e chá muito doce. de ter tempo para preguiçar no teu colo no sofá. de comer as fatias douradas do meu pai. de rires com a mão enrolada à frente do rosto e de fechares os olhos na preguiça do fim da noite com os braços cruzados no colo. de observares nesse teu carinho em que as palavras não fazem falta os sorrisos de papel de embrulho. de ires ter comigo à janela ver se o Pai Natal vem aí e de procurares com tanto fervor como eu a sua presença nalguma estrela. enquanto murmuras alguma cantiga antiga que só eu reconheço, porque só perdes a vergonha quando estás sozinha comigo.

és assim, sabes? uma presença transparente. uma melancolia suave de olhos marejados e meio sorriso dorido. és a doçura de um aperto no peito soprado com a ligeireza de um pássaro pequenino. és a [e]terna sensação de pó de talco e creme nívea entre as ruguinhas da tua pele branca e quente, das mãos ásperas tão meiguinhas. és o coração mordido ao meu pescoço e o anjo de madeira na minha árvore de natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

delirium dancems

comentava hoje aquela coisa de desatar a dançar sozinha.
se era só prazer ou se era indicativo de algum desequilíbrio.
isto porque sou consultada como "pessoa que tem aquela profissão [actriz, hem?] e portanto não é normal, e portanto deves ser a indicada para falar destas coisas".
isto também porque determinada pessoa dita "normal" resolveu quase partir um dedo do bem que lhe soube desatar a dançar no meio da sala ao som de uma música. os meus pêsames à mesa.
olha, não sei. não sei se é loucura ou sanidade. se é terapia ou enredo.
eu gosto. muito. danço perdida entre as mesas do escritório, no meio da rua, interrompo uma conversa de café, se necessário.
sozinha perco a cabeça e devaneio para sítios que não sei onde ficam e que só aparecem com música. logo a seguir esfumam-se no ar e fico eu e o suor e a vertigem.
mandaste-me a música.
e cá estou eu. ainda soam os ecos de uma música que adoro e nem lhe sabia o nome apesar de lhe saber as palavras. ainda há uma bruma. deve ser o fumo do cigarro...

carrossel



a menina rodopiava entre luzes de todas as cores, sem noção do frio, do momento ou das dores em volta. rodava apenas, de olhos postos ora nos mundos do chão ora no cavalo branco de madeira que, desconfiava, a levaria para longe, em mil passeios de vento na cara em que a mãe lhe diria adeus e ela partiria com a certeza de que no regresso ainda a veria de rosto arrefecido aquecido pelo sorriso de orgulho. na menina que cavalgava em cima do cavalo branco. e perseguia os pombos que comiam migalhinhas pequeninas que lhe saíam das mãos de luvas lambuzadas de chocolate.
a menina, de cabelo comprido e olhos de sonho, pulava sem sentir o peso dos casacos pelas bolas de mil cores que lhe salpicavam os pés, imaginando o prado verde, passando depois para a praia e os baldes e os castelos, vestia o vestido de princesa de sedas e tules cor de rosa, e depois descansava uma noite muito azul com um gato branco ao colo.
viajava a menina, sem perguntas, no silêncio solene dos seus pensamentos, e a música da caxinha gigante onde rodavam os seres animados dos seus dias.

|por causa de uma foto do estonteamento|

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

polegada #5

|the bat hour|

temos de entregar 10 episódios até 6ªfeira. havendo pouco tempo disponível no estúdio (porque fazem locução de documentários, legendagem, têm de tratar os episódios já dobrados e eteceteras), teremos, os actores e respectivos alter-egos, de nos desdobrar em horários, digamos, alternativos...
entretanto, aqui no escritório, um outro grande projecto, megalómano ou não, não sei, aproxima-se a passos largos.
apesar de tudo, é nos meus dedos que confiam na altura de redigir, de explicar, de polir, de corrigir. os textos terão de ser meus, baseados em "ditados melódicos". como o patrão que vai fazer os ditados tem, ele próprio, sítios onde estar e coisas importantes a fazer durante o dia, a execução e tecelagem desse tão nobre projecto terá de ser feita... de madrugada.
outra situação é uma reunião estranha que me marcaram para uma destas noites, que não sei onde vai parar, mas também ainda não quero pensar nisso.

a hora do morcego chegou...
e ainda não fiz as compras de Natal...

domingo, 18 de dezembro de 2005

nua

há meses que pensava despir-me.
assim, vestir-me apenas do branco transparente das teias translúcidas da minha mente.
o tempo e as circunstâncias entorpeceram-me os dedos.
no repente decidi-me sem mais delongas. apesar de o sangue das papoilas ressaltar mais no escuro, aqui fica a minha cabeça no colo da minha avó, num lençol que me lembra os verões de menina.
botão a botão fui desnudando o negro. desprendendo-o de mim sem efeito de catarse. apenas agora quero despir-me. revelar-me. no reflexo destas linhas. noutro contorno que me mostre a mesma, que essa não se altera.
as cores de que, alguém me disse, eram feitos os meus textos condensam-se agora naquela que, dizem, é a cor que concentra as cores todas. neutro, também.
depois da longa corrida, suada e cansada, tomei um banho prolongado nas palavras e consumi em respirações timbradas o fumo do cigarro das conversas amenas. aqueci-me entre vozes aveludadas, em luzes ténues de presença. de vigia.
aqui estou. sou eu, a mesma. o caminho é o mesmo, o meu, que percorro agora mais devagar. saltitando entre reticências. carrego apenas a pele, que se estende, ainda, em mim, por mim em aromas sinuosos e ventos descarrilados, sabores encantados.
o dedo que me coube em sorte e que enlaço na prata das noites escuras, continuo a ser eu. mulher. menina. ou algo no entretanto.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

whataweekend

hoje tenho de ir às prendas.
amanhã tenho de ir buscar a minha mala de maquilhagem, voltar para Lisboa, comprar o que falte e fazer ensaio de maquilhagem na noiva que vai estar a meu encargo nesta passagem de ano [já referi que se vai casar na passagem de ano?]. correr para o encontro de café que não posso perder. correr para o aniversário de um amigo.
depois tenho de estar às 10 da manhã nos estúdios para gravar mais pelo menos 3 episódios de ursos [já referi que é Domingo de manhã e que tenho de acordar às 9, pelo menos?]. correr para ir almoçar com a famelga. vai faltar qualquer coisa e vou ter de ir a Lisboa outra vez... provavelmente às compras de Natal [já referi que tenho pelo menos 12 prendas a comprar, que estou falida, e que toda a família já fez anos em Dezembro e arredores?].
e segunda já é dia de trabalho...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

to me you are perfect



ele era um bicho de contas.
choro sempre que o vejo. assim que o vejo. compreendo-o com todos os ossos do meu corpo.
respirou fundo e decidiu que já chegava.
atirou-se de cabeça.
ficou-me gravada a sensação de querer dar-lhe um beijo no galo.

depois desta frase, já não sei onde quero chegar com isto. perco-me em considerações que poderão ser tolas ou aborrecidas. ou pouco terão a ver com o que digo agora, com o que queria dizer. as palavras às vezes só complicam. só interferem. doseamo-las da melhor forma que sabemos. preenchemos os espaços de ar com a respiração. encolhemos os ombros. para não magoar ficamos com os braços dormentes. para não nos magoarmos dói-nos o peito. a perfeição instala-se nos instantes em que nos suspendemos no ar. suspendemo-nos de nós. damos férias ao pensamento. e sentimos as texturas do vento, do pó, da canela e de uma qualquer música sussurrante no ar. tenho momentos em que me reprimo de tal maneira que não me conheço. não me compreendo.

mas tu compreendes-me.

somos todos bichos de contas.

sou uma ursa

de coração no nariz, cores de cuecas de bebés, vivo numa nuvem com outros tantos.
tenho uma imagem querida e fofinha na barriga redonda e peluda. que de vez em quando sai de mim e espalha amor por todo o lado [isto não soa lá muito bem...]
às vezes tenho fraldas, metade do tamanho dos outros, uma voz irritantemente aguda e sou belfa. sou a Hugs ou Abracinhos...
noutras, falo também agudo, mas não tanto, e prometo encher a terra dos ursinhos - "Care-a-Lot" - de enfeites cor de rosa... é a Cheer Bear ou Coração Animado...
estas são as fixas...
entretanto, no meio desta turba de seres tão-fofinhos-que-irrita, ontem gravei durante quase 3 horas. foram três episódios em que eu própria estendia os braços para trás, de fones na cabeça, espetava a barriga para a frente e gritava
- 3, 2, 1, iluminaaaaaar!
depois resolveram que eu ia fazer 2 ursos homens além da Animada... e ironicamente andavam sempre os três juntos, falavam em coro... e faziam uma corrida, portanto os uffs, ais, ahs e etceteras eram sempre a triplicar... grava agora com voz grossa... volta atrás, agora com nasalada.... ok, volta atrás... agora com a gaja... de facto, às tantas, fazer expressões de cansaço saía-me com uma naturalidade estupenda... porque seria?

o técnico de som, desta vez, é um metálico-gótico-qualquercoisa. todo de preto, grande cabeleira, parece sempre pronto a ir para um concerto dos Metallica fazer moshes [isto era no meu tempo de adolescente, eu sei, mas aquilo era da pesada, eu saí do concerto com um enorme torcicolo, portanto serve]. muito sisudo, sempre. ora imaginem a figurinha a fazer a edição do outro lado da cabine... obviamente que aquilo deu para o torto e foi um fartote de rir... começou logo por dizer que os bonecos já passaram de moda... eu compreendo, eu via aquilo com uns 8 anos... além de que as criancinhas hoje em dia é mais manga e violência e porrada e roupa fashion e assim... agora mudar os nomes dos personagens? Abracinhos devia ser Carícias... Raio de Sol era o Rais-Parta [isto porque eu quando me engano sai-me logo e ele gostou]... e por aí fora...

bem... isto para dizer que vão sair uns episódios de grande valor moral para as criancinhas, no canal Panda...
quem diz que não faço serviço público...? eheheh

quarta-feira, 14 de dezembro de 2005

cup&cino

ao som de uma qualquer martelada e de Sting revisitado, a conversa foi fluindo durante horas que não chegaram a avisar que tinham passado por ali.
primeiro correm as fotos debaixo de uma tecla, e os cheiros mudam e o ar parece deliciosamente arrefecido, parece que das bocas se soltam nuvens pequenas de vapor, que nos pés correm outras pedras. partilham-se os ventos e as luzes, dando-lhes a terceira dimensão dos sorrisos.
depois as palavras descobrem novidades antigas, na língua humedecida por qualquer coisa quente e doce.
a medo, primeiro, depois com uma vontade apenas de partilhar.
são precisas umas queridas tareias com festinhas nas mãos e cigarros absorvidos de olhos brilhantes. uns passos reticentes entre uma bússola de cera e chama tremeluzente.
e o mundo pára quando alguém leva a mão à cabeça e diz 4 palavras:
- nunca tinha pensado nisso...
um bichinho de contas enrolado em cima do tampo da mesa, com medo do frio, do tempo que passa por ele e não quer que passe e quer que passe. que não se vê ali, enroladinho aconchegadinho, na plenitude da sua beleza. abre devagarinho o seu mundinho e espreita cá fora. e o brilho dos olhos inunda agora a vida e recebe-a de outra forma. é assim quando somos generosos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

o duende feliz

não, não é nenhum post acerca do nosso amigo linkado aqui ao lado, esse mestre dos contos e das fantasias... se bem que merecia...
é que recebi uma prendinha de Natal e pude voltar às dobragens...
algures nesta quadra [ergh, detesto esta palavra] passará na TVI o filme de animação "O Duende Feliz", ou "The Happy Elf".
a Molly sou eu. [não tem que enganar é a miúda cuja primeira cena se passa a apedrejar o dito Duende, o Eubie... eheheheh]


e também sou eu [kind of] que abro o filme, com a Irmã... esta não tem nome próprio, mas é a ela e ao irmão [que ela entretanto transformou em árvore de Natal à pancada] que se vai contar a história do Duende.

sim, sim, calharam-me as miúdas reguilas e ainda por cima as duas dentro da mesma faixa etária... e agora fazer duas vozes distintas...?
seria cantado pelo Harry Connick Jr. [essa maravilhosa voz que me persegue com a banda sonora de When Harry Met Sally] mas agora deve ser o Quim Bé a cantar... também não está mal...

tu, jovem duende feliz [o do blog], senhoras e senhores, nesta vermelha, branca e aconchegada quadra [ergh, lá está ela outra vez], sentem os vossos filhos, sobrinhos, afilhados, enteados e outros que tais em frente à TV, e tenham um pouco de sossego.
esta longa metragem televisiva tem o certificado de qualidade da Polegar, que vos garante desde já que é recheada do espírito natalício que já perdemos, com muita fantasia, neve, tropelias, ninguém se aleija e não há cá Songokus nem coisas sangrentas do género.
um filme cor de rosa para toda a família.

[entra musiquinha irritante com sininhos de intervalo publicitário de Natal e... de volta à programação]

a epoca dos presentes

é sempre uma batalha esta época do Natal. não apenas por causa do Natal em si, mas por causa dos aniversários de uma família maioritariamente sagitariana. esta época das duplas dores no bolso começa em Novembro, dia 20 com a minha querida "mais nova", a menina dos caracóis loiros. no dia 1 de Dezembro é comigo que vêm ter as velas e as palmadas nas costas. dia 4 é o avô-polegar, que já fez os 90 sempre de tubinho de oxigénio como companheiro, tabuleiro à hora certa, chupa-chupas nos dias de bola e a campainha preparada para nos levar à loucura. um senhor que apesar de caprichoso, temos de reconhecer, é teso como já não se faz e insiste que velhos seremos nós todos antes dele... deseja sempre "que contes muitos e eu a ver"...
o papi-polegar faz anos hoje. o meu querido pai, auto-didacta, transmontano de costeleta, inteligente, brincalhão. está doentinho, calhou mal, mas não vai ser uma gripe a impedi-lo de sorrir.
depois vem um tempo de calma... ou seja, descobrir onde vamos encontrar o dinheirito para comprar as prendas para as mesmas pessoas e mais as outras que estarão conosco à lareira na consoada, mais as outras que não estarão mas são contempladas neste totoloto de barrete vermelho.
a única pessoa que saía deste baralho era a minha avózinha que fazia anos em Junho... portanto, quando já não podemos com fitas coloridas, pensariam que se podia respirar fundo... só até dia 24 de Janeiro, quando a mami-polegar celebra o seu aniversário e lá se volta aos corredores (agora mais vazios...?) dos saldos dos centros comerciais...
entretanto já ninguém estranha os embrulhos com pinheirinhos e os postais do fundo do caixote, porque nesta época ninguém pode contar com prendas bonitinhas e personalizadas. é tudo corrido a Merry Christmas...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

vermelho

vermelho escuro. pequeno. divertido. diziam que era a minha cara. era, sem dúvida, um cacifo da minha vida.

um companheiro, sim, apesar de objecto. estranharão muitos este post, este estranho apego a uma coisa. mas essa coisa simplesmente foi a minha casa e a minha liberdade ao longo dos últimos 7 anos. nascido em Novembro de 1998, morreu em Novembro de 2005. morreu. porque não volta a andar, porque mo destruíram. durou 7 anos certinhos.
era meu por uso capião e por estima. estranhamente sentia que me passava emoções, que me percebia, e, sim, eu falava e cantava com o meu jipinho.

agora, entre pesquisas de valores comerciais em guias de automóveis, pergunto-me como vou pagar prestações de um novo carro. porque o que ele vale para os técnicos é pouco. e pergunto-me também quem me vai pagar as aventuras, as paisagens, os cheiros, as lágrimas e as risadas que aquele carro viveu?
ficam as recordações. das coisas boas e das coisas más. especialmente a nível de aderência ao chão e assistência técnica. grandes guerras com os senhores mecânicos... mas até isso neste momento me arranca um sorriso melancólico.
mais uma vez uma porta que se fecha com violência, uma corrente de ar vinda não sei de onde... uma vez um amigo disse-me que a maior capacidade do ser humano é a de adaptação. pois parece que vai ter de ser.
a ti, jipinho, amigo, querido e impulsivo, fica um adeus cheio de saudades e um obrigada pela cumplicidade e por toda a liberdade que me deste. acima de tudo, obrigada por me salvares a vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

e eu que acho que nao viajo o suficiente...

26 voltas ao Sol... tão fixe!

o Sol está a aproximadamente 8 minutos-luz da Terra (i.e., a luz demora t = 8' = 8* 60'' a chegar aqui, viajando à velocidade c = 3*10^8 m/s).

assim, o perímetro da circunferência descrita pela Terra durante uma volta ao Sol é (tudo aproximado, claro) dado por
1 volta = 2 * Pi * r = 2 * Pi * c * t = 2* Pi * (3 * 10^8 m/s) * (8 * 60 s) = 2,9 * 10^11 m = 3 * 10^8 km

26 voltas serão, então, 26 * 3 * 10^8 km = 7,8 * 10^9 km

conclusão: já viajaste, muito aproximadamente, 8.000.000.000 (oito biliões) de quilómetros pelo espaço. nada mau ;)

[informação gentilmente enviada por mail pelo querido Ni, que tem andado desaparecido mas não ausente]

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

sabe bem olhar para ela


[ms]

desembrulho-me.
ali como quem vai para o rio, duas ruas à esquerda, depois da viela adormecida nas luzes de uma porta, contam-se três candeeiros depois do início do quarteirão. fica bem perto da loja de brinquedos antigos de grades fechadas, de moldura de madeira azul escura. ali, onde se dispersam quentes no gelo do ar os laranjas dos prédios e dos seus recantos. onde a chuva pica na cara de tão fresca e se lambem os beiços húmidos para depois os deixar cantar com a senhora de voz cansada mas com trinado certo num labirinto de azulejos sujos do metro. ali, onde os telhados descobrem cortinas brancas e o recorte da mulher nua em contra-luz com sílabas afuniladas. ali, onde os teatros se deitam no colo, ao som do alaúde. ali, onde as sombras do rio são nenúfares azuis que sabem a geleia de morango e riem com os sinos da catedral.
encontro-me, sempre ali. em qualquer lado. nos pés doridos e satisfeitos.