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consoada

|maria do céu|
abre a porta com o ar curioso que traduz a única vivacidade que lhe resta dos 30 anos. o resto nos olhos é tristeza. ainda veste a roupa de trabalho na quinta do pai, onde ordenha e trata as vacas. já não passa a ferro porque a preguiça entorpece-lhe a vontade. é grande, alta, cabelo crespo curto e olheiras que são já parte da pele. deixa entrar de sorriso dorido na pequena casa, recebe as prendinhas com beijos húmidos, amargos, de olhar esquivo. a bebé está a dormir. o marido agora não tem trabalho nas obras e foi passar o Natal com a outra mulher e os outros filhos na Roménia.
não há presépio, apenas um pequeno projecto de árvore de natal cortado de um ramo de pinheiro, com algumas bolas velhas. também não há embrulhos na base da árvore.
são nove da noite e estava a preparar-se para se deitar. à despedida, de alma cheia de lágrimas, mesmo antes de fechar a porta, olha para o fundo da rua. o casarão do irmão, todo iluminado a preceito para a quadra, envenena-lhe o ar com o cheiro a calor e rabanadas.

|dona fernanda|
com nome de avó, puxa o portão de corpo grande, maternal em cada poro, aberto ao abraço. a vivenda está silenciosa. as bicicletas e o cesto de basket esperam quem lhes dê um propósito. bola de futebol adormecida e cds de bandas com nomes estranhos que não cantam povoam a grande sala. o marido dormita em frente à televisão, a renda descansa ao lado do comando. a um canto roupa de rapaz jovem dobrada com cuidado e cheirosa do ferro de engomar que lhe tira o sentido das horas perdidas. ao vapor vai juntando palavras e mais lágrimas em lamento solitário, saudoso, em que não há barragem que lhe retenha a liquidez da dor. ajeita de mãos trémulas os embrulhos em frente à enorme árvore decorada, desligada, com os outros que reservou para quando, depois do natal, voltarem de viagem. os netos. que os filhos vivem em África e não voltam.

|os teixeira|
na pequena casa secular de chão de madeira ouvem-se os passos. Helena vem à porta, pequenina, graciosa, de cabelo grisalho sempre arranjado de uma visita por semana ao cabeleireiro. veste uma camisola de lã confortável e um lenço ao pescoço. apesar das pantufas, está sempre de um bem vestir elegante, antigo. o marido aparece por trás, também curioso, um pouco mais cambaleante por causa do enfarte de há uns tempos. exclamações calorosas de alegria abrem os braços. de sorriso bem disposto atravessam o corredor de mão dada. acomodam-se na sala de estar para dois, com as chávenas de chá. comentam um para o outro para os outros a consoada ligeira que já fizeram. de olhos brilhantes e quentes, Helena olha para os embrulhos e diz, com ar de criança pequena, que com presentes fica como uma criança pequena e quer abri-los logo. o sr. teixeira ri-se e comenta que é verdade, parece uma miúda. dá-lhe a mão enrugada onde assenta a dela na perfeição de muitos anos de uma doce erosão. não há mais ninguém em casa. não haverá, esta geração termina aqui, a dois, um para o outro, um no outro. na despedida, ainda sobra tempo para uma troca de receitas de umas rabanadas que ela fez para ele e que só faz nesta época do ano porque ele tem de ter cuidado com os doces. quem os vê durante o dia, sabe que enquanto ela anda nas compras, ele lê o jornal e come um bolinho às escondidas. depois ela vem buscá-lo ao café e sobem a rua devagar. sempre de mão dada. assim fecham a porta, em risos meigos, de regresso à sala de estar para dois.

. a passar neste momento . O Bairro do Amor . Jorge Palma

Comentários

Anónimo disse…
lindo. tão bonito mesmo polegar :)
Anónimo disse…
é verdade, há muita gente só neste mundo, nas aldeias a solidão pode ser menor porque acaba por ser tudo uma grande familia e toda a gente se conhece.
em muitas aldeias do alentejo, o serão depois do jantar é passado á volta da fogueira no centro da vila, aí se faz a festa e ninguém fica só.
solidariedade é importante.
Anónimo disse…
obrigada, colherzinha
Anónimo disse…
verdade, pinky... muita verdade... a verdadeira solidão está fechada atrás daquela porta com pouca luz. o resto são uma cambada de sortudos que nem dão valor ao que têm... depois há os Teixeiras... ;)
Anónimo disse…
Delicioso.
Que sorriso me deixastre...e outras expressões...

Que o Natal tenha sido bom.

Bj.
Anónimo disse…
A minha avó chamava-se Fernanda. Avó Fabanba como eu lhe chamava quando era puto e que por carinho ainda chamei muitas vezes antes de ela nos deixar. Só conheci aquela avó. Apesar de viver sozinha, a Fabanba nunca foi só. Levantava-se cedo para ir para a praça da Ribeira onde conhecia toda a gente. Chamavam-lhe de Xepa por causa da telenovela e assim ficou conhecida. Fizeste-me lembrar esses tempos em que a minha avó ainda sorria para mim. Fez-me bem este post.
A passar neste momento, You won´t be satisfied (until you break my heart), Ella Fitzgerald and Louis Armstrong.
Anónimo disse…
miak: beijinho
rantas: que giro, a minha avó também se chamava Fernanda... mas depois da Rua Sésamo, que a minha irmã via religiosamente, ficou a VóChica... obrigada por partilhares esse pedacinho :)
grande som...
Anónimo disse…
Como é engraçado que as nossas vidas têm todas um bocadinho de outras vidas. Por isso nunca sei se as memórias que julgamos ter são mesmo nossas. Mas se tiverem que ser falsas...ao menos que sejam doces.
Beijo do tamanho do mundo.
Anónimo disse…
E obrigada pelo teu carinho
Anónimo disse…
Atrasado, ams a desejar que o Natal tenha sido bom para ti e para os teus. Beijinho
Anónimo disse…
O outro lado (sempre esquecido) do Natal... Que pavor que tenho de acabar sozinho... Bolas, já falei demais!
Anónimo disse…
macaso: somos feitos de muita gente...
run away: beijitos para ti
estranho: temos todos, acho eu...

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