terça-feira, 16 de novembro de 2010

os dedos de uma mão

feitas as contas, o que são. quantos são, afinal. os rostos, os suspiros, os sorrisos a que recorres quando olhos se encolhem de medo. aqueles que constam do álbum das tuas fotografias, do arquivo que não morreu. os que sabem o caminho. os que o fazem.
conta-os. ou não.

quando arrefece fazes as contas.
sim, sempre. é do frio.
mas conta, sempre agitas os dedos.

e os que vêm quando pedes. ou quando o peito aperta. sabem-te? alguma vez te souberam?
faz um exercício de não respiração. suspende, por um momento, o que vai e o que vem.

fica-te com o que está.
estás triste?
fica-o. és tu, faz as contas.
mas nunca foste grande coisa a matemática.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sorriso leste a oeste

tenho o peito cheio de coisas. coisas tantas e inomináveis. conto os dias e tenho medo e estou ansiosa por que chegue, por que vá, por que esteja, porque sim. não era eu se não fosse aos pedaços.

desdramatizo respirando como me pediram para ensinar. sim, já ensinei a respirar quem me ensina aos poucos a lembrar-me de o fazer.
reaprendo o meu peito, que desassossega de vez em quando, desabituado de ansiar assim. sem aditivos. e orgulhoso disso e com medo disso.
mas é em frente sempre em frente, nunca fez tanto sentido. sorriso de leste a oeste. o sentido do sorriso.
vincado, fincado, de pés no ar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

das modas

- boa tarde, queria um par de calças de ganga assim giras...
- pois, olhe, temos aqui umas que já estão a tornar-se um clássico. skinny jeans. justinhas de alto a baixo, é garantido que se tem menos de um metro e oitenta e mais de quarenta quilos vai descobrir pneus que não conhecia e, portanto, ficar sempre com o super fashion ar de bola num espeto, sendo a bola o seu tronco e rabo, e o espeto as suas pernas.
- ah... não tem assim mais nada?
- temos também a nova moda dos bolsos de trás descaídos, disponível em todos os modelos justos. a par com a cintura super-descaída. o que acontece é que o bolso abaixo da zona da nádega vai fazer parecer que o seu rabo está mais em baixo, ao nível da coxa, o que portanto lhe vai dar um ar de anã desproporcional e flácida. o seu tronco vai ficar compridíssimo, as suas pernas vão parecer minúsculas. a cintura descaída consegue destacar cada abanão gelatinoso da zona abdominal, os seus pneus vão saltar! e não há cueca que se consiga vestir, ficam sempre de fora. como imagina, o fio dental e o rego à mostra são sempre sinónimo de piropos. e vai estimulá-la a fazer a depilação todos os dias, porque isto é mesmo muito descaído também à frente.
- hmmm... e uma coisa menos justa, não?
- temos mais ou menos disso. temos uma espécie de boot cut que finge que alarga a partir do joelho, mas se for a ver é justo na mesma, com bolsos em relevo à frente para lhe dar destaque às ancas. e não esqueça os fabulosos brilhantes no traseiro. vai parecer saída da feira ou, num tom mais retro que está tão em voga, dos Porfírios.
- mas isso continua a ser justo.
- ah, não gosta de celulite?! que estranho... mas já sei o que procura! tenho o ideal para si, saído directamente dos desfiles de Paris. as calças largas e descaídas na zona do rabo. são fabulosas. parece sempre que tem uma fralda posta ou que as peles lhe foram parar à altura dos joelhos. ah, e afunilam, ficando hiper-justas na mesma a partir do joelho. continua a ter o efeito chupa-chupa. disponível em todos os tons de azul claro, com rasgões, obviamente. não se esqueça de escolher sempre um modelo dois números abaixo do seu. vai convencer-se que está mais magra sem dieta, e garante-lhe o tão trendy efeito-queque.
- mas olhe... eu precisava era de um corte que me favorecesse...
- ah... pois. disso não temos.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

terra molhada

não há cheiro que me dispa como o da terra molhada numa noite quente. despe-me e dança, devasso e lasso, brinca-me na pele em arabescos do sal que lá se esconde. fora saliva, mas fresca, lamber-me-ia sem vergonha.
e o suor abranda-se. são estes pequenos momentos de paz, enrolada na brisa. são estes silêncios e músicas e.ternas. é a meia luz quente cá dentro e a lua azul pela janela.
é assim que fecho as mãos antes que a sensação se apague.
e perdura, agora.

domingo, 23 de maio de 2010

check-out

uma sexta-feira, às sete da tarde, tiraram um género de dentro de um chapéu. não gostaram e tiraram outro. Mistério.
levaram uma frase, uma personagem e um objecto obrigatórios.
mandaram um e-mail para o outro lado do Atlântico e do lado de cá começou a espera.
3 horas depois chegou um texto, ligaram-se skypes e chats, distribuíram-se personagens, definiu-se o plano de trabalho, adereços, roupa e marcou-se uma hora para encontro no dia seguinte.
a essa hora estavam lá todos, textos na mão. uns montaram equipamento, outros vestiram-se, maquilharam-se e ensaiaram. depois foi-se gravando, rindo, gravando, enervando, rindo. a avó Fernanda fez o almoço.
às onze da noite foi declarado "that's a wrap" e deu-se o último aplauso no décor.
depois foram para casa, uns dormir, outros editar, tratar som e imagem.
às sete da tarde de Domingo, entregaram uma história com 8 minutos.

na sexta seguinte, chegaram para ver o seu trabalho num cinema. ficaram contentes por o trabalho estar porreiro.
algumas horas depois, estavam em cima de um palco, distraídos. porque tinham ganho prémios por boa fotografia, edição e - a cereja no topo do bolo - a escolha do público, e por isso achavam que já não ganhavam mais nada.
estavam distraídos a olhar para a assustadora cara do projeccionista lá longe numa janelinha por cima da plateia.
estavam tão distraídos que não perceberam logo quando disseram o nome da equipa.

ficaram abazurdidos para o resto da noite, com um cheque gigante tipo os da Bota Botilde encostado à parede, a fazer uma festa que se espraiou pelas escadarias do cinema. a rir meio a chorar para um telemóvel que os ligava ao outro lado do Atlântico.
agora aqueles 8 minutos vão passar lá longe, num festival internacional.

sem cunhas. sem compadrios. puro mérito.

saboreiem bem. não sabem quando uma destas se volta a atravessar no vosso caminho :)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

retiro espiritual



48 Hour Filmmaker: Lisbon 2010
wish me luck...

vai tudo a eito

Olá.

aqui somos uns fixes, de brandos costumes, afáveis, garridos, pitorescos e temos uma comida do camandro. para não falar do cinema português, que é o supra-sumo da batata, a excelência do umbigo.

aqui endividas-te para ter um LCD, um telemóvel topo de gama, ou o carro despesista que aparenta a opulência que nem sabes o que é. aqui não compras o jornal, compras o pasquim. aqui não lês livros, lês palavras já meio deglutidas para não dar trabalho a digerir - os medicamentos estão caros.

aqui, os adolescentes passam de ano por saberem quanto é 5+2, e passam mesmo que respondam "cete", deus os livre de terem que saber o que seja para irem para a faculdade, porque o que interessa é mostrar à Europa que temos muitos licenciados. que os licenciados não têm trabalho é outra conversa.

aqui, 30% das pessoas queixaram-se num inquérito, desgraçadinhas, que não tinham dinheiro para aquecer a casa num dos invernos mais frios de que me lembro. antes de puxares do lenço, fica a saber que só 9% dos mesmos inquiridos abdicaria de ter carro.

aqui é assim. aqui vives de futebol, de, como alguém dizia, milhares de pobres e endividados pagarem quotas e bilhetes, cachecóis e camisolas para assistir a 22 milionários aos pontapés numa bola. ou pelo menos a pagam a prestação do LCD demasiado grande para a sala, para os olhos, para ver a Sport TV - canal de cabo pago à parte, que só passa desporto, sim, mesmo o nacional já não se vê nos canais livres de encargos. mas aqui, fervorosamente, futebol e fátima.

aqui o estado tem de ser Pai, fica quase tudo à espera do subsídio, do aumento. e como se sabe que quase tudo vive do subsídio, não te pagam bilhete, não te querem pagar o serviço, não te querem pagar o trabalho.

aqui o trabalho teoricamente de altas qualificações, como por exemplo o jornalismo,  é feito por estagiários analfabetos, sem experiência, que correm como sete cães a um osso, geridos por um gestor que, quando chega a altura, os deita fora e substitui por outros, deus o livre de dar emprego, de contratar, que isso desequilibra os lucros e os dividendos pelos sócios, pelos accionistas, pelos iates e as casas de férias.
ainda há trabalho. há o trabalho que ninguém quer, vê-se nos pedidos nas montras das lojas.
há o que tantos invejam, que são os que podem fazer férias quando o Padre vem: vê-se nas repartições públicas, são as senhoras incomodadas por lhes interrompermos a leitura da Maria, em cima da hora que o sindicato disse que era do chá, vinte minutos depois da hora de almoço e outros vinte antes da hora de esticar as pernas. essas senhoras que não sabem falar, nem tirar dúvidas de quem as tem, não sabem mexer num computador, mas sabem crochet e a arma desarmante do fastio do martírio de te fazer o favor de te atenderem. têm sindicatos que as defendem, que acham que elas não devem ser substituídas, despedidas ou formadas. quem o posto é um posto, que invente o estado pai mais postos destes que é o que se quer, com direito a pontes, greves, décimo terceiro mês, subsídio de desemprego, tudo descontado pelo patrão nos impostos, seja bem ou mal feito o serviço que se chama público.
depois, entre meia dúzia de contratados que conseguiram a luz ao fundo do túnel, há o outro trabalho, o independente. chamam-lhe independente porque é conveniente. faz de conta que não tens patrão, que ninguém manda em ti e que trabalhas em casa, quando queres, como queres. e que prestas os teus serviços. agora presta os serviços no horário desse alguém que te compra o serviço, nas instalações desse alguém, segundo as condições desse alguém. afinal tens horários mais complicados e completos que os das senhoras acima referidas mas como és independente ninguém te quer sindicalizar. para receber qualquer coisa (em bruto) passas recibos verdes, um comprovativo de pagamento que entregas à empresa na data em que não te pagam, isto se quiseres eventualmente receber. e depois ficas 90 dias à espera. 90 dias a contar de um dia qualquer que se esqueceram de te informar. à espera, de actividade aberta, a segurança social a chicotear-te a conta a descoberto porque tens de manter a actividade aberta, não vá a empresa ligar a dizer que é agora que vão pagar. se pagarem, não interessa quando, porque todos os meses, como se recebesses todos os meses, tens de descontar do teu bolso. não te pagaram mas tens a actividade aberta? - perguntar-te-á uma das senhoras acima mencionadas - problema teu. paga ao Estado, que ele faz de conta que não existes nas estatísticas, mas precisa que lhe pagues na hora da mama. por falar em hora da mama, se estás a recibos verdes, não tens férias, nem décimo terceiro mês, nem subsídio de desemprego. és pago pelo teu serviço, se não serves não recebes. mas é a única maneira de arranjares trabalho. a não ser que sejas estagiário. ah, e normalmente o patrão é mais estúpido que a tua chinchila.

depois há os que plantam comida que é deitada fora porque é importante importar. deita-se fora a comida porque há muita gente a pedir na rua. é importante que se optares por esta forma de vida, te conformes que a cada geada é um subsídio, a cada chuva é um subsídio, a cada sol é um subsídio.

fora isto, tudo bem. esperas anos para ter uma consulta médica - aquela a que tens direito por pagares os teus impostos. aviso-te, aqui os velhos são abandonados nos hospitais e às vezes, quando já te tinham marcado a operação, tens de voltar para casa porque o velho abandonado está a ocupar uma cama.
mas é bom, tens uma educação facilitista e estupidificante, e até podes bater nas professoras, ao que elas te retribuem com aulas extra quase não remuneradas. também te podes embebedar a partir dos doze anos, e faz parte desmaiares ali no bairro alto, cheio de pressa pelo coma alcoólico que te faz tão adulto como andar aos tiros na playstation e foder num canto com cheiro a mijo só porque viste como é fixe foder como os morangos com açúcar fodem. também é fixe querer ser actor de telenovela sem saber falar, cantor sem saber o que é uma nota musical, ou futebolista só porque sabes jogar PES.

fora isto a cidade fecha às sete da noite. fora isto, no campo tens de fazer 80 km para ir ao médico, mas não tens transportes. fora isto, para viveres na cidade tens de ser rico ou tão velho que já nem se lembravam que aquele prédio existia. fora isto, se queres ir à cidade estás à mercê de filas enormes compostas de gente que se recusa a ir de transportes públicos apesar dos horários fixos, gostam de mostrar o mercedes que os impede de aquecer a casa e dar de comer aos filhos. também te podes pôr à mercê dos transportes públicos, um monopólio interessante e desorganizado, que ou está a abarrotar ou não vale a pena pôr a circular [portanto a partir das 9 da noite não podes ir nem vir da cidade].
fora isto, continuam a construir sem organização do território nem orientações estéticas prédios atrás de prédios, quando já há 2 casas per capita neste país que tem tanto sem-abrigo. atenção, constroem-se prédios, mas não hospitais, nem linhas de metro, e o comboio é uma relíquia ferrugenta no que toca à real eficiência. excepto o TGV, que esse é bonito e dá jeito. também é provável que demorem uma vida inteira a acabar um troço de 100 metros e que te pouparia 40 minutos a caminho do trabalho onde não chegam os transportes públicos, ou a alcatroar aquele buraco que rebenta com os tampões dos carros todos os dias.
não há jardins para se estar, como se faz na civilização, em que vais comer o almoço para o ar livre que há em cada esquina. temos meia dúzia de "pulmões", que é onde à noite os prostitutos/as se vendem ao espancador de mulheres/político conservador mais endinheirado. depois há dois ou três jardins, mas estão em obras, ou tens de pagar bilhete para entrar.
fora isto, conduzir a falar ao telemóvel é bonito, conduzir bêbado e drogado é do mais à frente que há, ter a mania que se tem prioridade porque tu é que tens uma vida importante é normal, ultrapassar pela direita é corriqueiro e fazer razias também. especialmente se tiveres um carro de alta cilindrada.
fora isto, tens de fazer um encolher de ombros conformado, enquanto bebes uma cerveja à chuva porque fumas e por isso não és pessoa.
fora isto, se há manifestações, os outros que se mexam, porque é sábado, está sol, está trânsito, está.
fora isto, preocupa-te é com a orientação sexual do teu vizinho, que nos vai levar a todos à fogueira do inferno.
fora isto, em dia de votar vais à praia.
fora isto, quando votas, votas pensando que és igual ao gestor que recebe por fora e por dentro e por todo o lado, percentagens do que ganharam quando despediram mais mil.
entretanto, reza aí uma por mim e manda aí cumprimentos aos pedófilos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

há algo que me rasga

agito os farrapos.
esbofeteio o ar.
estremeço.
quão frenética me conheces?
agora vibra. agora galopa.
é suor? é sal.
danço.


Portishead - Chase The Tear from Mintonfilm on Vimeo.

terça-feira, 23 de março de 2010

because people have a way of blinking and missing the moment

it was awfully nice sharing these most unpleasant milestones with you...

. californication .

terça-feira, 16 de março de 2010

algo

algo denso, escuro, escorre nas paredes. acumula-se de baixo para cima, espessando as paredes que incham na direcção uma da outra. algo crepita, vago, ao longe, uma cacofonia desencontrada, desconcertada. vai-se calando devagarinho, desaparece como aquela baforada de fumo no peso de uma manhã fria. é a sensação que fica. um eco, talvez. bata-se na parede e regressará talvez um sopro. pingado. não vale, assim não vale, é preciso barulho e já não há voz. desde quando é preciso nadar para se ficar seco? e quem gostava de, uma vez, ficar quieto?
uma medida. de quantos passos se faz a claustrofobia. já se medem a dedos, não passos. seriam polegadas, eventualmente, no sorriso irónico de quem cá passa.
e de quantos passos se faria o abraço. esses são largos, com botas de sete léguas. afastam-se. pois. afastam-se e o algo escuro e denso escorre goteja agarra-se e fica. já esse, fica.

outro sorriso irónico.
afinal, o abraço é a cura para a claustrofobia.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

pequeno almoço

comme il faut.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

coisas que me danam

esclareça-se: o teatro e a dança são artes vivas [como em "ao vivo"]. contando histórias ou não-histórias, vivem|existem da|na comunicação a outrem-em-massa [chamemos-lhe público]. devem ser, no final de contas, um serviço público não obrigatório e não são totalmente auto-suficientes.

esclareça-se ainda mais: uma grande percentagem das companhias mais badaladas não põe um "ovinho" cá fora [entenda-se por ovinho, espectáculo] sem "choco" valente [leia-se por choco, subsídio].
esclareça-se que os subsídios vêm dos nossos impostos e são distribuídos de acordo com certos e determinados critérios de avaliação em concursos públicos [e não nos alonguemos por aqui, para eu não ficar com urticárias].
esclareça-se ainda que a maior parte das salas de espectáculos de Lisboa [convencionais] são pertença de empresas semi-públicas, públicas, ou das próprias companhias. a programação é efectuada com base em critérios de avaliação que... vamos encurtar - nos ultrapassam a todos mas conhecemos de cor. basicamente relembremos que uma companhia pequena|desconhecida não encontra espaço que não seja no vão de escada de alguma associação recreativa, ou numa sala "convencional" ali entre as 7 e as 8 da manhã de um 29 de Fevereiro. 
esclareça-se que um espectáculo demora meses exaustivos a ser criado, ensaiado, montado, afinado. que o dinheiro de um subsídio desaparece efectivamente - entre cenários e equipamento e divulgação e ordenados [de todos ou só de alguns] -, e que portanto deveria ser do interesse de todos que o espectáculo estivesse pelo menos um mês em cena [para deixar surgir o efeito da divulgação "boca-a-boca" - para vir então o público isento, começar a fazer algum na bilheteira e, obviamente saber o veredicto final: isto interessa ou não às pessoas?].

relembremos antes de avançar que o teatro e a dança devem ser serviço público - é para isso que lhes pagam. e as salas deveriam estar ao serviço do público - é para isso que lhes pagam.

alguém me explica então a nova moda dos espectáculos [das "grandes" companhias - subsidiadas] que estão em cena [nas tais salas grandes, boas, equipadas, sem pulgas e cheias de salamaleques] 3 dias-e-é-se-queres? 

domingo, 31 de janeiro de 2010

credo

apercebi-me no outro dia, ao passar numa livraria, que a partir de agora só poderei comprar dicionários em alfarrabistas...

do alcatrão . actualização non troppo

queria actualizar o post anterior com mais novidades, notícias, avanços.
mas depois do clássico "sacuda a água do seu capote", as notícias cessaram. que isto de serviço público não é para o jornalismo. nem para o site da Brisa.

era aterro, tinha problemas geológicos, mas afinal já sabiam disso tudo, mas ninguém foi ver porque a responsabilidade é sempre de alguém mas de ninguém em especial.
já têm lá as escavadoras e continuam a ver se a terra continua a cair.

agora esperem.
sentados, na segunda circular.
todos vocês, os 40 mil utilizadores.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

do alcatrão ou a importância do tom

a A9 - CREL é, na minha vida, a diferença entre demorar hora e meia ou meia hora a chegar ao trabalho. um percurso entre duas zonas sem transportes públicos que as unam.

na passada sexta feira houve um aluimento de terras na dita Cintura Regional Externa de Lisboa, de manhã.
soube pela rádio que cortaram uma faixa, no sentido oposto ao que eu seguia.
pensei... tudo bem, aquilo com umas vassouradas vai ao sítio até ao fim do dia, logo à tarde estou safa. estúpida. estúpida.
no regresso ouço pela rádio - já tarde demais - que afinal já ia em duas faixas cortadas e 4 km de fila.
e eu na fila. durante uma hora e vinte minutos.

quando finalmente passo pelo "sucedido", vejo primeiro que tudo uma fila de uns trinta - não estou a exagerar - topos de gama lindos e brilhantes estacionados ao longo da berma. mais à frente um ajuntamento de uns trinta senhores e senhoras, de fatos de corte impecável, sapatinho bicudo, pasta no braço e mão no queixo, visual profissionalizado pelo colete amarelo e o capacete da praxe. todos  observavam, sem mexer uma palha, o monte caído no meio da estrada.
monte de terra de seu nome, com M de Monte Grande, enorme e que ocupava toda uma faixa de rodagem, numa imagem curiosíssima porque ainda estava coberto de erva tenra verdejante e moitas. parecia que a montanha tinha esticado o pé gigante, para não ficar dormente, e o tinha assentado na faixa da direita.
bem, e o grupinho lá observava. nem uma pá à vista. um ancinho, ao menos um serviçal daqueles que fica parado na berma da obra de enxada em punho, qualquer coisa... nada.
receosa pelo meu regresso ao trabalho, vou ouvindo na rádio. o monte foi esticando a patinha e já vai na terceira faixa da auto-estrada.

bem, mas o que é que vão fazer quanto a isto? ainda não sabem. o tom vago mas assertivo - gostava de saber como se consegue, mas parece-me arte e dom apenas d'Os Escolhidos do Ramo da Análise, Construção e Orçamentação. usam muito os graves para a coisa parecer cabal e séria, mas algo carefree porque, por favor, não podemos falar de prazos numa situação destas...
primeiro uns dias para análise da progressão do aluimento. a prioridade é - dizem - o aqueduto das águas livres. percebe-se que não se ataque a coisa à idiota para ser pior a emenda que o soneto [ou a ementa que o cimento], mas nem uma vaga ideia do que vão fazer? não. o plano - assertivamente - é ficar a observar o movimento da terra durante tempo indeterminado. e depois - vai para os agudos, arrasta as vogais - logo se vê. portanto, já vê, - regressa ao assertivo - pelo menos umas semanas de observação.

eu penso de mim para mim... então se é assim, se eu mandasse,  os senhores do grupinho ficavam de castigo: sem os popós até resolverem o assunto. só para estimular a análise. 
e só por ter usado a expressão "derivado a" na rádio,  fica já sem a carta, não vá tentar surripiar o carro da esposa. mas isso sou eu.

mas alto, descrentes! para desengano de quem achava que eles não estavam a fazer mais que ver terra mexer, um laivo de esperança, de proactividade:
dizem que já contactaram o proprietário do terreno! [do Monte Caído, não da CREL, bem entendido]

...
pois, é isto
...

podia parecer que é para terem autorização para acesso à zona para agilizar as obras de limpeza e reforço da estrutura. podia.
mas é o tom, senhores, o tom em que o constatam. o tom acusatório e algo consternado de quem acha que o proprietário tem um pacto com extraterrestres; o tom "nós estamos a fazer tudo o que podemos e o que podemos fazer é limitado porque no fundo já não está nas nossas mãos"; o tom que exonera os senhores de fato da decisão, da escolha daquele sítio para fazer passar a estrada após - suponho - vastas análises e estudos; o tom que afasta a possibilidade de saberem que ali passava um leito de água subterrâneo; o tom que explica que isso foi afastado como problema porque na altura dos ditos estudos o tal leito estava seco; o tom que os iliba, no meio de tanto estudo, do planeamento da inclinação da construção, ou da previsão da interferência geológica a médio-longo prazo.

bom, meus caros, se foi necessário o uso desse tom, então está tudo compreendido, venham de lá esses ossos...

a minha cabeça, em tempo de desespero e adivinhando a fila IC22 - Calçada de Carriche - Eixo Norte-Sul - 2ª Circular - IC19 - IC17 CRIL, não pára. imaginou logo o telefonema consternado, a virar o bico ao prego.

"tecnicamente o monte é seu. portanto ou varre o senhor aquilo dali, ou vamos ter de fechar a auto-estrada"...

domingo, 17 de janeiro de 2010

o bilhete

entraste, simplesmente. recortaste-te na luz contra a penumbra atrás de ti. a noite já se fundia no céu azul. o outono é assim. recortaste-te não pela tua figura imponente, mas pelo vermelho da gabardine, subitamente incendiado pelos néons do restaurante. olhaste em volta e em cada resquício de movimento li que o sistema da loja não te era familiar. estavas mais próxima, agora. encostaste-te ao balcão. levaste a mão ao bolso enquanto esperavas que a velha dos sacos à tua frente fosse atendida. tiraste um pequeno leitor de mp3 de marca branca e carregaste num botão. levantaste o olhar e o empregado esperava-te. esticaste o pescoço para a frente, levando os dedos aos phones e tirando-os dos ouvidos. fizeste o teu pedido. as bebidas são self-service. seguiste-lhe o dedo indicador espetado e dirigiste-te aos copos, de passo hesitante. uma cola. lá do fundo ele perguntava-te mais coisas. quer queijo? quer salada? a tudo respondias com um sorriso cansado.
sentaste-te a comer isolando os olhos do mundo no aconchego familiar de um livro de capa usada, os pensamentos embalaste com essa qualquer música que voltaste a pedir ao leitor. estavas desajustada.

dei comigo com a sandes fria, só de ficar a adivinhar-te. não consegui. inventei-te uma história. mas precisava de pormenores.
por enquanto digo-te a música: Dead Combo. não tem letra, acompanha as palavras com mais discrição.

comeste a sandes com a lentidão suave de quem ainda tem tempo. sei isso porque viste as horas por duas vezes no telemóvel e parecias indecisa, já com o canto do pão na mão, se ficavas ou saías. saíste. e eu contigo, sem me notares porque não se notam tanto os fantasmas quando a música toca alta dentro da nossa cabeça. achei que devias ter medo da cidade à noite, também os ladrões passam mais discretos, assim.

radiohead - no surprises

sabias para onde ias. paraste nos semáforos vermelhos, mesmo que a estrada não tivesse carros. encostavas-te aos postes, num misto de espera dengosa, cansaço e tempo para consumir. nunca olhaste para trás. percebi onde ias. mas a poucos metros da porta paraste. abriste a mala e do que me pareceu ser uma agenda tiraste um bilhete. o candeeiro explicou-me que havia outro, que ficou ali, preso num clip. percebi-te. chegaste à porta e no mesmo gesto elástico encostaste-te a um separador do passeio. ali puxaste de um cigarro.

nouvelle vague - I melt with you

viste de novo as horas. e deixaste-te ficar, observando em volta os carros a chegar e parar à porta, largando gente de roupa fina. outros que passavam e abrandavam como se estivessem a ver um acidente no meio da auto-estrada. olhaste com atenção a formação de grupos, as pessoas que entravam orgulhosamente de envelope na mão, como que exibindo um troféu. os casais curiosos, as velhas cheias de laca, as gentes mais novas de roupas pendonas coloridas e penteados despenteados. lado a lado com as meninas de rabos de cavalo, argolas, camisa dentro das jeans e sapato de salto agulha.
indiferente às aparências, abanavas agora a cabeça com algo mais mexido com um meio-sorriso irónico nos lábios.

divine comedy - generation sex

lá dentro, os flashes, o burburinho que não ouvias, a reverência dos porteiros e a agitação que se notava nas janelas de vidro, de mulheres bem vestidas agarradas a telemóveis. apercebias-te de tudo com a naturalidade de quem sabe o que é mas sempre foi transparente. viraste-te de costas para a entrada e olhaste para o céu. ali quis que pedisses um desejo. viste as horas uma última vez, tiraste da algibeira o leitor e desligaste-o. o fio ficou preso nas hastes dos óculos de sol, que trazias ali também. empunhaste o bilhete e no mesmo andar lento e decidido entraste. não desapareceste na turba das lantejoulas. a gabardine não deixou. percebi o teu à vontade no meio de olhares jocosos porque sabias - achavas - que ninguém te olharia duas vezes. só deixei de te ver quando desceste as escadas. mas soube que voltarias, minutos depois, o cabelo mais sedoso e as mãos húmidas. resolveste-te então a entrar. estendeste o bilhete ao primeiro senhor careca de bigode que te apareceu, solícito, ignorando a figura pública atrás de ti. seguiste-o com um sorriso para fora da minha vista.