segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

no camarim

quem partilhe comigo visões de beleza (e sacrifícios...) que só nós é que sabemos... bem vindo à blogoesfera ;)
diverte-te e escreve muito que é para nos purgarmos que as teclas cá estão...

panejamento

ele é um visionário com muitas décadas de experiência. é encenador e director artístico. estamos em leituras há 2 semanas e "os papéis ainda não estão atribuídos"... ahahah, me engana que eu gosto... só aqui o refugo é que não sabe bem como é a distribuição do texto. falta um mês e meio para estrear e não se decide com nada... só sabe que, como é hábito, quer muito panejamento... a produtora que arranje patrocínios a uma semana da estreia, porque por enquanto, as ideias são apenas desenhos no papel, masturbações intelectuais, megalómanas e passadas de prazo... mas tem a sua piada, tem os seus encantos...
nós brincamos com ele e a senhora secretária de estado já o chama pelo nosso diminutivo...

nokia by thumbelina

E15


nokia by thumbelina

quando me sinto desfocada, obrigo-me a pensar que deve ser uma questão de perspectiva...

sábado, 29 de janeiro de 2005

glamour fora do prazo

entre ensaios e produção, há que (expressão muito utilizada por aqui) produzir um evento especial, importante... convidados vip... glamour, essas coisas...
tendo em conta que o espaço em si é bonito mas nota-se à légua a traça a esvoaçar e as carpetes remendadas, torna-se complicado...
tendo em conta que é suposto a produtora ter uma listagem de coisas a fazer, um orçamento e organizar as suas tarefas, mas que depois o senhor director vai para casa pensar na vida e resolve à última da hora alterar tudo sem avisar em tempo útil, porque só chega ao teatro ao fim do dia... melhor...
ou que não há mais ninguém para ajudar... pois...
como nessa célebre frase, no teatro...
"- it will all turn out well
- how?
- I don't know, it's a mistery"...
correu bem, contra todas as expectativas e relógios...
encheu-se de caras conhecidas, gente influente que normalmente não nos liga nenhuma, mas de bocas cheias de elogios e promessas, fotógrafos à procura da senhora doutora. música ambiente, recital de piano ao qual se acrescentou à última uma leitura de poemas (pelos ursos do costume, vulgo eu e o assistente de produção) muito aplaudida, discursos inflamados de um director artístico frustrado com a falta de apoios, e uma medalhinha para o Teatro...
que bom... não nos dão dinheiro, mas temos uma medalha de mérito cultural... quem sabe se no prego vale alguma coisa... ou derretendo... ali na feira da ladra...
no fim da santa noite, olho à volta.
lá estão, os ursos do costume, o director e poucos mais, cheios de frio porque a roupa de ocasião dá nisto, a comer bolachas de chocolate (que é o que há porque eu trouxe de casa), a dar as migalhas ao cão da pianista, a falar das vidas, que depois de tanto frisson, voltam ao que eram... muito pouco...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

aliens

Ah... este é o meu assistente de produção...


nokia by thumbelina

tá tudo explicado, não tá?

boulevard of broken dreams

acordo atrasada, meu costume. arranjo-me e saio. está muito frio, mas está sol. pego no carro, ligo o auricular do telemóvel e o rádio, esse bom companheiro. faço-me à estrada. uns quilómetros depois, noto que há um banco de nevoeiro. mais à frente ainda, é o céu nublado que me espera. entro em Lisboa. carros e construções finas, os topos de gama de um país que não tem dinheiro para hospitais, reformas ou fomentar o emprego, mas gosta de estádios bonitos. sigo pela 2ª circular, entro numa estrada menos concorrida, com prédios altos e maltratados, de gente, e cito, "que não interessa ao menino jesus". whatever. mais abaixo, já quando se adivinha o rio, passo por edifícios muito antigos, quase ruínas, não fossem as cortinas nas janelas a evidenciar que ainda moram lá pessoas. não consigo evitar pensar como serão as suas vidas, idades, se terão frio, hoje está tanto... gosto de inventar as suas histórias, que não conheço, normalmente guardo-as para mim. já me julgam maluca o suficiente.
passo naquela curvinha da estrada onde normalmente, no meio do betão, nasce uma papoila na primavera.
depois do viaduto do comboio, viro para a rua do teatro. há um centro de recuperação de toxicodependentes. portanto, muito arrumador de carro, muito carro para arrumar, porque há por aqui escritórios e gente com os seus carros topo de gama que sempre dispensam umas moedinhas. normalmente, há porrada, também.
já assisti a um polícia que teve de meter uma rapariga pelos cabelos dentro do carro. no largo, normalmente, esses, que vivem no limbo da consciência, que abdicaram de sentir, sentam-se nos bancos e deixam-se ficar, catatónicos, ao sol, com a companhia de algum cão vagabundo e as garrafas de cerveja e vinho. havia um, que já morreu, que tinha um pombo que o seguia. o pombo agora está a morrer. às vezes têm as suas desavenças territoriais, de um contexto que nós, que vivemos de uma forma diferente, não conseguimos compreender. desatam ao murro. murros débeis de quem não tem força sequer para levantar a cabeça e seguir.
hoje não.
dois deles desencantaram um maço de tabaco vazio e jogavam à bola. como dois putos. sorriam e gargalhavam. outros, poucos, sentados, assistiam e torciam pela "equipa" que preferiam.
naquelas bocas degradadas, naqueles olhos sem vida, vi o brilho de uma vida que gostava que tivessem.
estaciono. quase não tenho dinheiro para o almoço, mas o medo que me risquem o carro faz-me dar o resto das moedas ao "crostas" que, de jornal enrolado, me avisou que havia lugar.
estão a abrir as portas do teatro. por minha causa, eu sei. se fosse por eles, começavam a trabalhar lá para as 4 da tarde.
o meu querido assistente de produção ainda não chegou. já lhe liguei duas vezes. é um rabo de sono. já sei que vou passar-me com ele.
subo para o escritório, acendo o computador e o aquecedor. vejo os mails, ligo a rádio online. recebo um telefonema de uma revista. boa, o trabalho já começa a compensar. imprimo uma carta, envelopo, ponho o post-it, tem de seguir esta tarde, correio azul.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

I'm not crazy, I'm just a little unwell...

sem tempo para nada. de repente, cai-me o carmo e a trindade em cima. não se pense que vou ganhar dinheiro com isso, não senhores... continuo a mesma pé-rapada, mas ocupada.
precisavam de produtora... arranjaram-me um papelucho no coro... interesseiros... e aqui a esfomeada lá aceitou. e cá estou, enterrada no teatro todo de pedra, fechada num escritório sem janelas, acompanhada pelos fantasminhas da casa. a tentar gerir um caos. a comer uma sandes por dia. depois desço as escadas e fico a ensaiar até às 2 da matina...

não me tirem é as tabuinhas, não é?
sou mesmo estúpida.
isto é pior que a droga...

ah, e a melhor... não fui seleccionada no tal casting que fiz... porque imitei o Ricardo Araújo Pereira bem demais!
a administração mudou de estratégia publicitária, e já não queriam imitações... então fui excluída!
positivo.

os ataques de ansiedade amainaram, talvez porque agora tenho algo com que me preocupar. não tenho tempo para ataques. depois, quando voltar a parar, caio para o lado um mês.

o problema é que não vejo a minha família...
mas se calhar não é problema... eheheh...

isto hoje tá pouco filosófico, com aspecto de diário de adolescente, mas é o que se arranja...

goodnight, dear voyd...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

em pleno ataque de ansiedade

tento sentir freneticamente a minha pulsação. não sei do que é que estou à espera. se o coração tivesse parado eu não me podia mexer, estúpida. agora parece que está descompassado e a querer fugir-me do peito. não sei porquê. sei que dura há uns dias. acordo bem disposta e parece que está tudo bem. daí a bocado recomeça... já não tenho nós nos músculos. tenho músculos nos nós. só me lembro da madame Souza (Belleville Rendez-Vouz) a massajar o seu netinho... com um aspirador e um aparador de relva... é mesmo isso...
parece que se sentaram no meu peito (do lado esquerdo, claro, para ser mais assustador ainda) e lá montaram acampamento. a solidão e o estúpido do medo de morrer. nunca fui assim. já me irrito comigo mesma. nunca tive paciência para hipocondríacos e agora tenho de aturar uma 24 horas por dia.

nunca pensei que a alegria de viver e o medo de morrer pudessem estar tão estranhamente ligados...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

considerações

voltei a precisar de deixar a tv acesa para conseguir adormecer...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

sleeping in my car...


nokia by thumbelina no meio da autoestrada...
é uma canção foleira dos Roxette... mas é uma frase que se aplica a uma forma de vida. um pouco a minha.
este carro conhece-me há tantos anos... fui buscá-lo bebé à oficina, tinha uns poucos meses de carta (sim, ainda se vivia bem, nesta família. era suposto ser o carro da minha mãe mas ela tem medo de conduzir... temos pena ;)
é bordeaux, ou vermelho vinho, ou lá o que quiserem chamar. lembro-me que não simpatizei logo com a cor. it's something that started growing on me (porque é que há expressões que só saem em inglês?). acabei por em certas alturas usar as unhas da cor da pintura...
lembro-me que, no primeiro dia, tive medo de o conduzir. medo de o estragar.
depois tornou-se o meu melhor amigo. ganhou logo um diminutivo, que nessas coisas sou terrivelmente foleira. é o jippy... e nos dias maus é o cabrão do carro. fofinho, não?
foi comigo tirar o curso, dando um fim aos dias em que tinha de acordar às 5 da manhã para chegar às 8 à faculdade (para jogar matrecos, mas isso fica para outro post...)
tornou-se o táxi de toda a gente com quem antes me encontrava no metro do Campo Grande às 7 da manhã. passámos a ir todos de popó. de cuzinho tremido, como dizia a minha avó. e passámos a passear nele. e a fazer raves nele, no jardim da faculdade (lembras-te, V?).
a partir daí, fui 'boleieira' oficial de meio mundo. nele conheci Lisboa, Portugal, arredores...
este carro assistiu a todos os episódios da minha vida. nele tive ataques de choro convulsivo de que ninguém soube. nele tive o primeiro ataque de ansiedade. nele tive ataques de riso. nele estudei. nele bati texto. nele me deixaram bilhetes, e recados, e flores(!), e mensagens desenhadas nas janelas. nele me deixaram marcas de cigarro. nele andaram afixados todos os cartazes de peças em que entrei. nele andaram a balançar baldes de cola para andar a colar cartazes por Lisboa inteira. nele abri prendas. nele dormi. nele discuti. nele beijei. nele fui ombro. nele precisei de um ombro. nele cantei em plenos pulmões. nele dancei. nele carreguei cenários. nele andaram bolos e frangos assados. nele tive dois despistes. nele me maquilhei, penteei, mudei de roupa. nele andou areia e neve. nele ultrapassei os limites de velocidade. nele apanhei multas de estacionamento. nele apanhei desilusões. nele apanhei chuvadas, trovoadas, choques eléctricos, escaldões à camionista. nele aterrei noutros mundos. nele vi luas, estrelas, entardeceres e amanheceres. sozinha. acompanhada. nele trouxe a casa de uma amiga. nele trouxe turcos do aeroporto. nele trouxe a minha avó ao teatro. nele anda o meu perfume, o canivete suíço, a última multa, as chaves da casa da minha avó, o chapéu de chuva, o boné, a tenda, a agenda, os cds, a máquina fotográfica, livros... a minha casa. e os cheiros dos que fazem o meu mundinho.
nele sou independente. nele muitas vezes me apeteceu ignorar a tabuleta que indicava a saída da auto-estrada para minha casa e seguir. só seguir.
são quase 180.000kms. são 7 anos.

nokia by thumbelina
é muita música.

diário de uma wannabe

10:30 - acordar com um sms. pré-seleccionada para um casting. boa.
10:31 - casting????
10:32 - ligar a confirmar. devo ter ganho mais uns pontos porque fui forçada a usar a minha voz de almofada, que a outra ainda estava inactiva. casting às 15:40. ok
10:33 - epá, peraí! tou inscrita nesta agência há mais de um ano e nunca me chamaram... mas que raio...?
10:35 - duche.
10:36 - AAHHHH! pera lá, eu coloquei lá a estagiar um dos putos de um dos programas da empresa onde trabalho/ei! isto de se ser simpática deve render qualquer coisa... fez-se luz!
10:36:45 - champô nos olhos, champô nos olhos...
10:45 - roupa...? ok, porreiro, agora gostava de me chamar Athina Onassis...
10:50 - gorda
10:55 - sem formas
11:00 - sem (o pouco) peito (que tenho)
11:05 - baixa
11:10 - marco horácio
11:15 - não tenho sapatos para dar com isto
11:20 - the hell with it!
11:25 - imprimir o texto que mandaram. pera lá, eles querem que eu imite na perfeição o Ricardo Araújo Pereira... hmm... um génio da comédia... eu... hmm... peanuts...
11:26 a 14:00 - visualizar sem parar o sketch do homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (obrigada avôzinho, pela prenda de natal, és muito à frente). comer e essas coisas.
14:05 - claro, borbulhas... e manchas... e a pele ressequida do frio... claro... e eu tenho de maquilhar esta coisa que tenho ao espelho?!
14:30 - the hell with it! parte 2
14:35 - sair de casa, dar boleia ao pai.
15:20 - estacionar no centro de Lisboa. ahahahahahah!
15:35 - correr (a pé, sim) para a agência. ainda tenho tempo de beber um café e comer um cigarro. a maquilhagem já derreteu: tenho óleo de fritar a enaltecer-me o nariz e a testa e a sombra dos olhos é agora um belo par de olheiras.
15:40 - sou tão pontual... picar o ponto. receber a bela da folhinha que tem o número do gado, perdão, da candidata.
15:41 - sala de espera. encontrar mais uns wannabes conhecidos. conversa-fora. reparar nas duas miúdas que me calharam em sorte. nuances loiras, argolas, magras, mamas grandes... your basic nightmare. uma só dá risinhos nervosos, a outra manda toda a gente calar porque quer ouvir o-homem-a-quem-parece-que-aconteceu-não-sei-o-quê (que está em loop na tv da sala de espera). são amigazzzzz...
15:43 - corredor, fazer figuras parvas em frente ao espelho.
15:45 - um rapaz que nunca vi na vida reconhece-me. parece que foi o tal puto que lhe falou de mim. e por isso, parece que já sou a melhor amiga dele.
15:50 - nº27.
15:50:32 - Ah, sou eu!
15:51 - sala branca, vários projectores e uma câmara digital num tripé apontada aos presidiários. dois dedos de conversa com o tal novo melhor amigo, que afinal é o gajo que vai gravar o casting. olha o Manolo! muchas gracias, chico!
15:52 - mostrar o papelinho. sorrir. perfil, sorrir, outro lado. a câmara olha-me de alto a baixo (mais baixo que alto...). pronto, vamos gravar.
15:55 a 15:58 - não me lembro. a minha mente está em branco.
15:59 - chamam as outras tais das argolas para fazer outra cena, agora em grupo.
16:00 a 16:05 - não me lembro. a minha mente está em branco.
16:06 - tá feito, tá morto. dizem que depois ligam, aquelas tretas do costume...
16:07 - passo pela sala de espera e desejo muita merda a quem lá está a olhar para a tv e a roer as unhas. olham-me de alto a baixo (mais baixo que alto, apesar de estarem sentados) e murmuram um obrigado muito muito afectado.
16:07:25 - estúpidos. não sabem que não se agradece?

ser wannabe nesta terra é complicado.
não tenho nuances, mamas grandes, 1,90m... só borbulhas e unhas roídas.
não tenho tachos, só experiência e formação...
sei articular...

the hell with it!

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

ressacas

não havia confettis.
poucas pessoas, as suficientes para fazer barulho sem irritar ninguém. e uma miúda amorosa a quem se tentou roubar a mesinha. só uma pessoa levou música, pelo que se passa a noite toda com a mesma banda sonora. amena cavaqueira, comidinha da boa, leva-se uns bolos e uns sumos para ajudar. um dos fondues pega fogo.
espera-se com a Júlia Pinheiro pela meia-noite, em cima de uma cadeira. grita-se, beija-se os amigos e recém-conhecidos, deseja-se tudo de bom. a miúda usa, finalmente, as tampas de tachos que trouxe consigo e que guardava religiosamente no sofá ao pé da janela.
quando o ambiente amorna, e o efeito do vinho alivia, vai-se a outra capelinha, a casa da M., e joga-se trivial até se adormecer em cima dos cartões com as perguntas.
passou-se bem, este ano.