sábado, 29 de janeiro de 2005

glamour fora do prazo

entre ensaios e produção, há que (expressão muito utilizada por aqui) produzir um evento especial, importante... convidados vip... glamour, essas coisas...
tendo em conta que o espaço em si é bonito mas nota-se à légua a traça a esvoaçar e as carpetes remendadas, torna-se complicado...
tendo em conta que é suposto a produtora ter uma listagem de coisas a fazer, um orçamento e organizar as suas tarefas, mas que depois o senhor director vai para casa pensar na vida e resolve à última da hora alterar tudo sem avisar em tempo útil, porque só chega ao teatro ao fim do dia... melhor...
ou que não há mais ninguém para ajudar... pois...
como nessa célebre frase, no teatro...
"- it will all turn out well
- how?
- I don't know, it's a mistery"...
correu bem, contra todas as expectativas e relógios...
encheu-se de caras conhecidas, gente influente que normalmente não nos liga nenhuma, mas de bocas cheias de elogios e promessas, fotógrafos à procura da senhora doutora. música ambiente, recital de piano ao qual se acrescentou à última uma leitura de poemas (pelos ursos do costume, vulgo eu e o assistente de produção) muito aplaudida, discursos inflamados de um director artístico frustrado com a falta de apoios, e uma medalhinha para o Teatro...
que bom... não nos dão dinheiro, mas temos uma medalha de mérito cultural... quem sabe se no prego vale alguma coisa... ou derretendo... ali na feira da ladra...
no fim da santa noite, olho à volta.
lá estão, os ursos do costume, o director e poucos mais, cheios de frio porque a roupa de ocasião dá nisto, a comer bolachas de chocolate (que é o que há porque eu trouxe de casa), a dar as migalhas ao cão da pianista, a falar das vidas, que depois de tanto frisson, voltam ao que eram... muito pouco...

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