domingo, 23 de maio de 2010

check-out

uma sexta-feira, às sete da tarde, tiraram um género de dentro de um chapéu. não gostaram e tiraram outro. Mistério.
levaram uma frase, uma personagem e um objecto obrigatórios.
mandaram um e-mail para o outro lado do Atlântico e do lado de cá começou a espera.
3 horas depois chegou um texto, ligaram-se skypes e chats, distribuíram-se personagens, definiu-se o plano de trabalho, adereços, roupa e marcou-se uma hora para encontro no dia seguinte.
a essa hora estavam lá todos, textos na mão. uns montaram equipamento, outros vestiram-se, maquilharam-se e ensaiaram. depois foi-se gravando, rindo, gravando, enervando, rindo. a avó Fernanda fez o almoço.
às onze da noite foi declarado "that's a wrap" e deu-se o último aplauso no décor.
depois foram para casa, uns dormir, outros editar, tratar som e imagem.
às sete da tarde de Domingo, entregaram uma história com 8 minutos.

na sexta seguinte, chegaram para ver o seu trabalho num cinema. ficaram contentes por o trabalho estar porreiro.
algumas horas depois, estavam em cima de um palco, distraídos. porque tinham ganho prémios por boa fotografia, edição e - a cereja no topo do bolo - a escolha do público, e por isso achavam que já não ganhavam mais nada.
estavam distraídos a olhar para a assustadora cara do projeccionista lá longe numa janelinha por cima da plateia.
estavam tão distraídos que não perceberam logo quando disseram o nome da equipa.

ficaram abazurdidos para o resto da noite, com um cheque gigante tipo os da Bota Botilde encostado à parede, a fazer uma festa que se espraiou pelas escadarias do cinema. a rir meio a chorar para um telemóvel que os ligava ao outro lado do Atlântico.
agora aqueles 8 minutos vão passar lá longe, num festival internacional.

sem cunhas. sem compadrios. puro mérito.

saboreiem bem. não sabem quando uma destas se volta a atravessar no vosso caminho :)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

retiro espiritual



48 Hour Filmmaker: Lisbon 2010
wish me luck...

vai tudo a eito

Olá.

aqui somos uns fixes, de brandos costumes, afáveis, garridos, pitorescos e temos uma comida do camandro. para não falar do cinema português, que é o supra-sumo da batata, a excelência do umbigo.

aqui endividas-te para ter um LCD, um telemóvel topo de gama, ou o carro despesista que aparenta a opulência que nem sabes o que é. aqui não compras o jornal, compras o pasquim. aqui não lês livros, lês palavras já meio deglutidas para não dar trabalho a digerir - os medicamentos estão caros.

aqui, os adolescentes passam de ano por saberem quanto é 5+2, e passam mesmo que respondam "cete", deus os livre de terem que saber o que seja para irem para a faculdade, porque o que interessa é mostrar à Europa que temos muitos licenciados. que os licenciados não têm trabalho é outra conversa.

aqui, 30% das pessoas queixaram-se num inquérito, desgraçadinhas, que não tinham dinheiro para aquecer a casa num dos invernos mais frios de que me lembro. antes de puxares do lenço, fica a saber que só 9% dos mesmos inquiridos abdicaria de ter carro.

aqui é assim. aqui vives de futebol, de, como alguém dizia, milhares de pobres e endividados pagarem quotas e bilhetes, cachecóis e camisolas para assistir a 22 milionários aos pontapés numa bola. ou pelo menos a pagam a prestação do LCD demasiado grande para a sala, para os olhos, para ver a Sport TV - canal de cabo pago à parte, que só passa desporto, sim, mesmo o nacional já não se vê nos canais livres de encargos. mas aqui, fervorosamente, futebol e fátima.

aqui o estado tem de ser Pai, fica quase tudo à espera do subsídio, do aumento. e como se sabe que quase tudo vive do subsídio, não te pagam bilhete, não te querem pagar o serviço, não te querem pagar o trabalho.

aqui o trabalho teoricamente de altas qualificações, como por exemplo o jornalismo,  é feito por estagiários analfabetos, sem experiência, que correm como sete cães a um osso, geridos por um gestor que, quando chega a altura, os deita fora e substitui por outros, deus o livre de dar emprego, de contratar, que isso desequilibra os lucros e os dividendos pelos sócios, pelos accionistas, pelos iates e as casas de férias.
ainda há trabalho. há o trabalho que ninguém quer, vê-se nos pedidos nas montras das lojas.
há o que tantos invejam, que são os que podem fazer férias quando o Padre vem: vê-se nas repartições públicas, são as senhoras incomodadas por lhes interrompermos a leitura da Maria, em cima da hora que o sindicato disse que era do chá, vinte minutos depois da hora de almoço e outros vinte antes da hora de esticar as pernas. essas senhoras que não sabem falar, nem tirar dúvidas de quem as tem, não sabem mexer num computador, mas sabem crochet e a arma desarmante do fastio do martírio de te fazer o favor de te atenderem. têm sindicatos que as defendem, que acham que elas não devem ser substituídas, despedidas ou formadas. quem o posto é um posto, que invente o estado pai mais postos destes que é o que se quer, com direito a pontes, greves, décimo terceiro mês, subsídio de desemprego, tudo descontado pelo patrão nos impostos, seja bem ou mal feito o serviço que se chama público.
depois, entre meia dúzia de contratados que conseguiram a luz ao fundo do túnel, há o outro trabalho, o independente. chamam-lhe independente porque é conveniente. faz de conta que não tens patrão, que ninguém manda em ti e que trabalhas em casa, quando queres, como queres. e que prestas os teus serviços. agora presta os serviços no horário desse alguém que te compra o serviço, nas instalações desse alguém, segundo as condições desse alguém. afinal tens horários mais complicados e completos que os das senhoras acima referidas mas como és independente ninguém te quer sindicalizar. para receber qualquer coisa (em bruto) passas recibos verdes, um comprovativo de pagamento que entregas à empresa na data em que não te pagam, isto se quiseres eventualmente receber. e depois ficas 90 dias à espera. 90 dias a contar de um dia qualquer que se esqueceram de te informar. à espera, de actividade aberta, a segurança social a chicotear-te a conta a descoberto porque tens de manter a actividade aberta, não vá a empresa ligar a dizer que é agora que vão pagar. se pagarem, não interessa quando, porque todos os meses, como se recebesses todos os meses, tens de descontar do teu bolso. não te pagaram mas tens a actividade aberta? - perguntar-te-á uma das senhoras acima mencionadas - problema teu. paga ao Estado, que ele faz de conta que não existes nas estatísticas, mas precisa que lhe pagues na hora da mama. por falar em hora da mama, se estás a recibos verdes, não tens férias, nem décimo terceiro mês, nem subsídio de desemprego. és pago pelo teu serviço, se não serves não recebes. mas é a única maneira de arranjares trabalho. a não ser que sejas estagiário. ah, e normalmente o patrão é mais estúpido que a tua chinchila.

depois há os que plantam comida que é deitada fora porque é importante importar. deita-se fora a comida porque há muita gente a pedir na rua. é importante que se optares por esta forma de vida, te conformes que a cada geada é um subsídio, a cada chuva é um subsídio, a cada sol é um subsídio.

fora isto, tudo bem. esperas anos para ter uma consulta médica - aquela a que tens direito por pagares os teus impostos. aviso-te, aqui os velhos são abandonados nos hospitais e às vezes, quando já te tinham marcado a operação, tens de voltar para casa porque o velho abandonado está a ocupar uma cama.
mas é bom, tens uma educação facilitista e estupidificante, e até podes bater nas professoras, ao que elas te retribuem com aulas extra quase não remuneradas. também te podes embebedar a partir dos doze anos, e faz parte desmaiares ali no bairro alto, cheio de pressa pelo coma alcoólico que te faz tão adulto como andar aos tiros na playstation e foder num canto com cheiro a mijo só porque viste como é fixe foder como os morangos com açúcar fodem. também é fixe querer ser actor de telenovela sem saber falar, cantor sem saber o que é uma nota musical, ou futebolista só porque sabes jogar PES.

fora isto a cidade fecha às sete da noite. fora isto, no campo tens de fazer 80 km para ir ao médico, mas não tens transportes. fora isto, para viveres na cidade tens de ser rico ou tão velho que já nem se lembravam que aquele prédio existia. fora isto, se queres ir à cidade estás à mercê de filas enormes compostas de gente que se recusa a ir de transportes públicos apesar dos horários fixos, gostam de mostrar o mercedes que os impede de aquecer a casa e dar de comer aos filhos. também te podes pôr à mercê dos transportes públicos, um monopólio interessante e desorganizado, que ou está a abarrotar ou não vale a pena pôr a circular [portanto a partir das 9 da noite não podes ir nem vir da cidade].
fora isto, continuam a construir sem organização do território nem orientações estéticas prédios atrás de prédios, quando já há 2 casas per capita neste país que tem tanto sem-abrigo. atenção, constroem-se prédios, mas não hospitais, nem linhas de metro, e o comboio é uma relíquia ferrugenta no que toca à real eficiência. excepto o TGV, que esse é bonito e dá jeito. também é provável que demorem uma vida inteira a acabar um troço de 100 metros e que te pouparia 40 minutos a caminho do trabalho onde não chegam os transportes públicos, ou a alcatroar aquele buraco que rebenta com os tampões dos carros todos os dias.
não há jardins para se estar, como se faz na civilização, em que vais comer o almoço para o ar livre que há em cada esquina. temos meia dúzia de "pulmões", que é onde à noite os prostitutos/as se vendem ao espancador de mulheres/político conservador mais endinheirado. depois há dois ou três jardins, mas estão em obras, ou tens de pagar bilhete para entrar.
fora isto, conduzir a falar ao telemóvel é bonito, conduzir bêbado e drogado é do mais à frente que há, ter a mania que se tem prioridade porque tu é que tens uma vida importante é normal, ultrapassar pela direita é corriqueiro e fazer razias também. especialmente se tiveres um carro de alta cilindrada.
fora isto, tens de fazer um encolher de ombros conformado, enquanto bebes uma cerveja à chuva porque fumas e por isso não és pessoa.
fora isto, se há manifestações, os outros que se mexam, porque é sábado, está sol, está trânsito, está.
fora isto, preocupa-te é com a orientação sexual do teu vizinho, que nos vai levar a todos à fogueira do inferno.
fora isto, em dia de votar vais à praia.
fora isto, quando votas, votas pensando que és igual ao gestor que recebe por fora e por dentro e por todo o lado, percentagens do que ganharam quando despediram mais mil.
entretanto, reza aí uma por mim e manda aí cumprimentos aos pedófilos.