quinta-feira, 31 de março de 2005

falta meia hora

estou ainda no escritório da produção, a tratar de coisas que pedem à última da hora. temos casa cheia. estou ao computador e a minha colega veio cá para cima com o ferro de frisar o cabelo, para me fazer os canudos...
"isto com paciência e cuspo não há nada que não se consiga..."estão para aqui a dizer.
ainda se ouve o escadote.
não há-de ser nada. hoje pisei bosta de cão.

to whom it may concern

conforme prometido, cá vai a publicidade descarada à minha peça.

tudo o que quiserem saber por um clic

segunda-feira, 28 de março de 2005

flores para Inês

à espera dos colegas e de alguns jornalistas à porta do mosteiro, acalma-se os nervos da viagem feita a 150 à hora entre o trânsito furioso dos muitos que foram de fim de semana grande. conversa-se com os colegas e tira-se as dúvidas com o relicário ali exposto: Inês era loira. dão-me para a mão uma geribéria branca, que cada um dos membros da equipa depositará em frente aos túmulos. brinca-se um bocadinho, chegam os jornalistas e fotografam - experiência nova e estranha, no mínimo.
depois entrámos no mosteiro. dou o braço a uma colega e vamos recitando baixinho o poema sobre o amor com que começa a nossa peça.
"quando amor nasceu, nasceu ao mundo vida
claros raios ao sol, luz às estrelas..."
quem está à volta vai-se juntado ao coro de vozes que murmuram essa ode ao amor, até que inesperadamente um arrepio me sobe pelas costas. não sei se pela evocação do poema, se pelo coro uníssono, murmurante, de pela imponência do mosteiro, se pela proximidade dela.
ali estava. Inês. deitada há mais de seis séculos, descansando com o seu rosto de pedra muito branco e redondo.
do outro lado da nave central, Pedro descansa também.
e só então me apercebi. estudei-os de trás para a frente. pormenores históricos e nuances romanceadas. mas eram personagens a criar.
não.
são duas pessoas. que se amaram de uma maneira muito bonita. que foram separadas de uma forma atroz. que sofreram um amor incompreendido. e eu tenho de viver as suas vidas.
perdi as forças, enquanto te olhava, Inês, esquecendo que tinha de sorrir para as câmaras.

a Inês do colo de garça, dos longos cabelos de oiro, da pele branca, da vida cortada por amor.
chorei. como se te tivesse conhecido. como se sofresse na pele as tuas dores. e agradeci-te o facto de teres lutado tanto, amado tanto, que permitisse seres tão digna de sobre ti, sobre vocês, escreverem.
a minha flor, como a das restantes mulheres da equipa, era para D. Pedro. mas sobrou uma, que pedi. olhei para ti, Pedro, e pensei em como somos todos tão pequeninos. foste rei. mas enquanto homem privaram-te do maior bem. ajoelhei-me e depus a tua flor.
depois fugi dos fotógrafos que ficaram de volta dos outros com os seus flashes frios e voltei para o pé de Inês. e lá lhe soprei um beijo, um obrigada, e lhe prometi que a defenderia no palco como não teve quem a defendesse em vida.

e deixei-lhe a minha geribéria branca.
[fotos de ms]

quinta-feira, 24 de março de 2005

é hoje, é hoje

ontem peguei no carro ao fim do dia e fui para Alcobaça. ensaio geral. vamos estrear lá, só depois vimos para Lisboa fazer temporada. cheguei já tarde, com outros colegas que ficaram também em Lisboa a trabalhar.

fui comprar àguas a um café em frente, e conheci a D. Maria Alice. reservou 11 bilhetes e está em pulgas para nos ver no palco. adora "essas coisas do teatro e da representação", até já fez figuração para um filme, e acabou por fazer um papelinho maior... prometido está um pequeno-almoço naquele cafézinho na manhã de 6ª para saber das críticas.

depois começou o ensaio.
não podia correr pior. o palco é metade do nosso e os nossos técnicos são dois patós preguiçosos que não atinam com nada. temos muitas mudanças de roupa, mas ali têm que ser feitas no corredor porque os camarins são no -2 (sim, tem de se ir de elevador, aquilo é um luxo... mas não dá jeitinho nenhum...).
saímos do cine-teatro à uma da manhã e fomos jantar, porque a organização oferece. fizemos um brinde à paciência dos técnicos do cine-teatro e um mais privado, ao refugo. ou seja àqueles cujo trabalho não é reconhecido nem à lei da bala, mas que são quem está lá a 100%, abdicando de descansos e copos, para por as coisas a andar.
barriga cheia e conversa posta em dia, voltei para Lisboa porque não deu para faltar ao trabalho. os outros lá ficaram, pedindo para avisar quando chegasse e que fizesse boa viagem.
hoje volto para lá. levo a minha mala de maquilhagem. vamos levar flores aos túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro, em homenagem a esse amor tão triste, que estudámos e conhecemos de trás para a frente, que inspirou autores e dá dores de cabeça aos actores, mas seduz e maravilha. Sim, vou fazer "A Castro".
vamos voltar ao cine-teatro, e fazer uns corridos técnicos para ver se atinam com as entradas de luz e som. depois, comer qualquer coisa e entrar no camarim. felizmente é enorme e decidimos ficar todos juntos. as luzes dos espelhos são fortes, mas nestas alturas, todo o calor humano faz falta. estamos fora de "casa", e temos lotação esgotada. organizar tudo, começar maquilhagem e cabelos, aquecer a voz e tentar dissipar os nervos com cigarros e piadolas. depois as luzes vão acender. e lá estamos, sem rede.

empty

ontem mudámos de instalações. o mesmo bloco de escitórios, uma sala diferente. na outra cabiam duas secretárias apertadas. aqui, temos espaço para quatro com um recanto para pôr um cadeirão, mais uma salinha de reuniões onde está tambéma a máquina de café, e um quartinho de arrumos onde estão todas as tralhas de peças antigas. é um espaço muito maior, com duas janelas enormes, e por isso, cheio de luz.
agora a minha secretária é só minha. depois de contas feitas, ocupada com teclado, rato, scanner, monitor, colunas impressora, calculadora e outras coisas "institucionais", apercebo-me que, excepção feita a um bloco que trouxe para apontamentos, não tenho nada meu por aqui.
as minhas gavetas estão vazias...

quarta-feira, 23 de março de 2005

dispersos

sento-me ofegante e ligo o computador. apago o cigarro que percorreu uma parte da rua e subiu a escada comigo. és asmática, estúpida, está humidade e fazes esforços físicos de cigarro na mão. estás a pedi-las.
vejo as mensagens, correio, pego no arquivador e tento escolher por onde começar. olho para o maço de tabaco outra vez. saí de casa a correr, não pude comprar tabaco. basicamente levantei-me, vesti-me, lavei a cara e os dentes, fiz duas tranças e agarrei num maço de mata-ratos que os meus pais fumam. também pela pressa, não trouxe o habitual pão de deus que como de manhã. um pacote de bolachas maria perdido na minha companheira, a mochila cor-de-rosa, vai ter de servir.
quando levo a primeira à boca, que me lembra sempre a única forma que a minha avó tinha de me fazer comer iogurtes, penso no itinerário de hoje. o mesmo. mas lembro-me das fotos que fui "tirando" com os olhos, porque a memória do telemóvel está cheia. aquela mercearia antiga que tinha à porta caxites de morangos ao lado de flores coloridas para vender. e das pastelarias. passei por várias. umas cromadas, umas com azulejos antigos, outras com forno de pão, outras pindéricas e douradas, outras ainda mais modernas com cores vivas e ácidas. aquele cheiro quente a doce que sai de todas e cada uma. as pessoas ao balcão, mas acima de tudo as pessoas sentadas com o jornal, o bolo e o café.
prometo a mim mesma: hoje vou-me sentar numa pastelaria a fazer lounging um bocadinho.

terça-feira, 22 de março de 2005

paragem

já vai sendo costume: de cada vez que tenho uma peça em cena, há um problema grave de saúde pelas bandas familiares. normalmente, tenho de andar entre teatro e hospitais e a correr para casa para o meu avô não ficar sozinho.
deta vez é a minha mãe. uma operação simples, segundo dizem, com um pós-operatório complicado. ela pediu para lhe darem anestesia geral porque tinha medo de se mexer quando lhe espetassem a agulha na coluna para a epidural... são escolhas.
por esta hora, amanhã, fará uma pausa no tempo. estará a dormir, num sono escuro e muito profundo. do qual quero que acorde bem. claro que já me fez a conversa do "se alguma coisa correr mal..." mas eu nem quis ouvir. agora não. mais não. vamos tentar afastar os espíritos feios e chamar a minha avózinha para lhe velar o sono e meter uma cunha com o "senhor lá de cima" para que ela fique bem...
claro que tenho medo. muito medo. mas isso não se pode passar a quem precisa de apoio, não é...? prefiro passar por durona. por tupperware, como lhe chamo...
o facto de estar a tremer enquanto escrevo este post é só para mim.

be carefull with what you wish for...

sigo rua fora, hoje já não chove, mas sente-se a humidade no ar. o vento está fresco. de repente, uma rajada mais forte atira-me contra a cara um molho de cabelos enormes loiros, ondulados.
mas que raio...?
ah, pois... confirmo no reflexo da montra mais próxima. cá está, o meu novo cabelo de "pequena sereia"...
foi uma transformação brutal. devo confessar que na fase em que tinha só o meu cabelo pintado de amarelo me custou muito, mas agora, com as extensões recém colocadas, já dá gosto...
o problema grave é que, se já saía de casa sempre um quarto de hora atrasada (e nãoi vale a pena por o despertador para mais cedo) agora, com todos os cuidados que tenho de ter, mais o secar este cabelo todo, demoro outra meia hora...

ontem fui buscar os postais da minha peça. a rapariga que me recebeu, que já conhecia pelo telefone, disse-me que me imaginava mais velha... baixo-me para apanhar o caixote pesado, e quando me viro para lhe agradecer mais uma vez, ela está a olhar para mim com uma cara muito estranha. penso "bem, se calhar tenho a cara suja... ou um letreiro na testa a dizer 'loira pintada'..." mas não. a rapariga sai-se com esta, com o ar mais embevecido do mundo, boca aberta, o pacote todo:
- Ai... a menina é tão bonita...

boa... agora que isto não sou eu, é que sou bonita...

sexta-feira, 18 de março de 2005

quando a igorância ajuda à intolerância

ontem corri para apanhar o 39. no entanto, ao entrar e passar o passe na maquineta, ouço as vozes de algumas mulheres completamente alteradas, a gritar com o motorista, que era uma vergonha, tinham estado mais de uma hora à espera da "carreira".
compreende-se as senhoras, até um certo ponto. estiveram a acumular irritação durante uma hora, a torrar ao sol dos Restauradores.
o motorista, nem particularmente simpático nem particularmente antipático, explica que não sabia, que a Carris não tinha registado nenhuma queixa.
aí, as "senhoras" passaram-se. à medida que iam avançando pelo corredor (vieram sentar-se perto de mim, para os lados da porta traseira) iam falando cada vez mais alto, dizendo que o que ele "merecia era uma pancada nos cornos" (normal, pelo aspecto que tinham acredito piamente que pudessem convocar um bairro inteiro para o arraial), que lhe deviam era tirar o ordenado, que merecia que lhe entrasse um grupo de ciganos e lhe partisse o autocarro todo "e a tromba também, o cabrão", e outras carícias que tais.
e continuaram, estrada fora, a falar em voz alta, a chamar nomes ao homem, que a cada paragem ouvia as queixas de outros passageiros, e no mesmo tom neutro respondia sempre a tal ladainha. as ameaças tornaram-se mais quentes, outros passageiros iam-se juntando ao coro feminino, protegidas pela distância que as separava do motorista, preso à sua função de serviço público, que fazia por ignorar. e assim devem ter continuado, porque saí antes das tais senhoras.

as pessoas às vezes são muito estúpidas. à má formação junta-se a ignorância. não sabem e não querem saber, porque é mais confortável, assim têm legitimidade. só vêem o que lhes apetece. e despejam numa pessoa que não tem culpa, que desempenha a sua função e foi apanhada no meio, toda a culpa do mundo, insultando, humilhando, agredindo, aproveitando que ele não pode responder por decoro e decência, para espicaçar mais, porque há que despejar as frustrações, não é?
e, por muita razão que tenham, perdem-na.

ecg holter

esta tarde vão colar-me uns eléctrodos no peito, que estarão ligados a uma maquininha, que andará comigo durante 24 horas, a medir-me as pulsações e saltos do peito, para depois dizer aos médicos se afinal ele anda ou não descoordenado do mundo e das batidas do relógio.
vai escutar-me o coração... para descobrir o meu mal, penso que deveriam ir mais fundo que os compassos. a tecnologia ainda não pode monitorizar a alma...

sol

dei-me conta que não tinha tabaco. passei a manhã toda sozinha e ainda faltava uma hora para sair do trabalho. não estava ninguém no escritório a quem cravar um cigarrinho. sentindo-me culpada por deixar o escritório vazio, peguei nas chaves e saí a correr. desci as escadas escuras e tão frias à pressa, com o único intuito de atravessar a estrada, entrar no café, meter três moedas na máquina e recolher o precioso pacotinho vermelho.
abro a porta da rua.
de repente, levo em cheio com uma luz intensa na cara, o vento quente beija-me a pele e todo o frio que senti toda a manhã começou a desaparecer, substituído por um torpor agradável e morno que se entranhava na pele e me penetrava até ao fundo da alma, abraçando-me com uns braços invisíveis, feitos de raios amarelos.
dei por mim parada no meio da rua de olhos fechados, braços abertos, corpo virado para a luz e meio sorriso no rosto.

quinta-feira, 17 de março de 2005

sinceridade

chamaram-me uma vez valquíria dos pés de barro...
obrigada

yellow

agora que tenho o cabelo amarelo, só me apetece pintar a cara de preto...

quarta-feira, 16 de março de 2005

music box

quando o calendário ainda era um cartão engraçado de números pequeninos, e a vida eram pulos entre desenhos de giz no asfalto da praceta, ia pelo corredor escuro até ao quarto de móveis antigos ver dançar a bailarina.
e naquela música pausada de xilofone a que dava corda, abria a tampa do pequeno teatro em que o público eram os anéis da avó.
no espelho dois olhos muito abertos, amendoados, brilhavam tanto como os pechisbeques e pequenas jóias desarrumadas, ao ver dançar aquela figurinha cor-de-rosa, imaginando os tules e tutus que não conhecia, passando depois a imitar a pequena boneca de braços rechonchudos no ar.
ainda lá está, na cómoda escura de um quarto fechado à chave para sempre, a caixa preta que contém os seus primeiros passos de dança.

bad hair day

peço desde já desculpa aos inúmeros fiéis seguidores da Palavra deste Blog pela insistência, mas a porcaria do meu cabelo está mesmo na ordem do dia.
ontem cheguei ao cabeleireiro, daqueles finos, bichésimas... ia por-me loira, a mim e à minha colega.
enquanto esperamos que ele se digne a prestar-nos alguma atenção, eu ia olhando-me no espelho e só me vinha à cabeça essa bela melodia de Demis Roussos "Goodbye my love goodbye...", em doce despedida à minha melena quase preta.
acontece que quando o dito artista capilar olha para nós, apercebe-se (finalmente e apesar das fichas que lhe enviei com fotos do elenco e desenhos dos penteados que precisamos) do quão morenas somos, e achou por bem alterar a ordem de trabalhos: vá, vão lá comprar o cabelo que vos vou coser (sim, coser) à cabeça, para depois vos descolorar (sim, descolorar) o vosso cabelo em consonância...
e manda-nos para a Damaia de Baixo (essa bela localidade). estando apeada, porque o carro está fora de Lisboa como convém a quem tem de entrar na urbe à hora de ponta, rachámos o táxi. já a fumegar - o que torna o nosso cabelo ainda mais carvão - lá chegamos e falamos com as raparigas da loja. ele tinha-nos mostrado uma madeixa daquele cabelo que queria, asseverando que tinha comprado no próprio dia na tal loja. pois que não, não foi ali. ele comprou, sim, cabelo, mas tons escuros. loiros não temos nada.
ponho o meu "assistente", que estava na base de operações (vulgo teatro) a tratar do assunto, que eu não tenho dinheiro no telemóvel para andar a ligar para cabeleireiros.
estivemos à espera de confirmação uma hora. durante a qual experimentámos postiços e afins, para gáudio das empregadas da loja, que se divertiam com a nossa cara desolada ao dizer que íamos ficar loiras e que queríamos ter um prognóstico da coisa, e tirámos um curso avançado de cabelos, perucas, postiços, tissagens, cabelo humano vs cabelo natural, apliques, sprays de brilho e outro que tais.
uma hora depois, confirma-se: afinal sempre era no Martim Moniz que havia a tal loja do cabelo, ele tinha-se enganado porque tinha ido a várias nessa manhã.
salvaram-nos do desespero as tais raparigas, que, fechando os olhos a concorrências, nos disseram que era provável que houvesse uma loja da mesma rede no metro do Colombo, a 3€ de táxi de distância.
lá chegámos. a minha colega levava meias de liga (grrau!), que por algum defeito de fabrico lhe caíam pernas abaixo a cada dois passos...
na loja: loiro platinado ou mel? hmmm... tough choice! a minha colega benze-se, porque já se estava a ver de cabeça albina, e assim podemos alegar que era o que havia...
com ela agarrada à liga, lá apanhamos o metro. depois, (esse foi o ponto alto do dia) fi-la correr para apanhar o 39, que ia a sair da paragem.
chegámos ao teatro ainda morenas, cansadíssimas, ela com uma meia pendurada na perna, com belos cabelos humanos cor de mel em bolsinhas de plástico.
um dia estranho, to say the least....

terça-feira, 15 de março de 2005

ai

vou ali pintar o cabelo de amarelo e já volto.

segunda-feira, 14 de março de 2005

e agora para um pouco de luz


[ms]

save as draft

so it shall be written, so it shall be done...

maroon 5

... look for the girl with the broken smile...

discoteca

entre fumos de música alta, que se dança sem querer-se entender o ondular do corpo, a linha dos ombros e do pescoço, ou onde flutua o cabelo.
sentir só os ritmos bem lá no fundo e deixar a massa de gente levar-me onde quiser.
e não pensar, só abandonar os pensamentos às palavras de outros que encaixam tão bem.
porque a cada música, uma nova letra, um novo estado de espírito que se vive, não se nega. que se canta alto porque ali ninguém ouve.
atirar a cabeça para trás e perder noção do tempo, dos mundos, das cores, dos brilhos a toda a volta. que envolvem e absorvem, mas que permitem o alheamento.
parar para uma cerveja e para um cigarro.
e voltar à inconsciência dormente em que só o corpo fala, e a mente já foi há muito silenciada pelas batidas.
e é ali, na distorção de imagens e sons, no enrolar o cabelo ao alto porque corre suor do pescoço, que desliza para o peito, nos gestos delicados e expansivos, no ondular de uma anca, num meio sorriso, que o corpo ganha liberdade para ser totalmente feminino. e, quem sabe, até bonito. até à exaustão.

sexta-feira, 11 de março de 2005

gestos


no teatro queixava-me que, no escritório, me faltava a luz do sol. tantas horas entre paredes frias, de pedra, com uma luz de cozinha... disse que gostava de ter nem que fosse uma velinha para aquecer o ambiente.
hoje tive uma surpresa...

telhados

aqui está a minha nova janela... ao som de Da Weasel...

nokia by thumbelina

quarta-feira, 9 de março de 2005

ensaios

vai-se chegando.
muitos depois de dias inteiros de trabalho.
cansados, olheirentos.
pede-se ajuda aos colegas para afinar o texto.
ajuda-se a mandar os faxes que faltam, atendem-se telefones, tiram-se bicas para quem cá está há muito tempo.
dá-se uma mão na serralharia para acabar aquele pedaço de cenário.
passa-se roupa a ferro, cose-se botões, enquanto a estagiária de moda nos faz ficar bonitos, com desenhos, trapos, cores e luz.
experimenta-se os fatos, com as calças vestidas porque está frio.



depois aquece-se o corpo dançando, rindo, comendo qualquer coisa enquanto o encenador, que chegou invariavelmente atrasado, bebe o seu café na entrada.

quando ele se decide, vamos lá ensaiar.



quem vem ver, vê, só naquele dia, o trabalho final.
não sabe o que está por detrás dos fatos compostos, das caras pintadas, dos cabelos arranjados, dos gestos trabalhados, das vozes emocionadas.
estão horas, dias, meses. corpos e almas. muito choro, muita frustração, muitos gritos e discussões. muito sono perdido, muita sensação de falhanço. é uma história cheia de gente.
[fotos de ms]

no tempo das papoilas

que linda falua
que lá vem, lá vem
é uma falua
que vem de Belém

vou pedir ao senhor barqueiro
que me deixe passar
tenho filhos pequeninos
não os posso sustentar

passará, passará
mas algum ficará
se não for a mãe da frente
é o filho lá de trás

dia da gaja

no dia da gaja, que decorreu ontem, algo estranho aconteceu por estas bandas.
de repente, estavam as raparigas a serrar madeira e os rapazes a passar a ferro e a coser...

don't ask...

dumb blonde

há que visualizar:
uma paixão que perdura até hoje, vinda de séculos antigos. um príncipe e uma quase princesa.
e como são as princesas? lindas, magras, compridas, de dedos finos e elegantes, cinturas finas ainda mais elegantes, olhos enormes, de preferência azuis, cabelos longos, ondulados, esvoaçantes, brilhantes... e loiros.

raios as partam, às loiras.

e porque é que no texto fazem tanta menção ao estupor dos cabelos loiros??? "esses teus cabelos d'ouro"... e não se pode alterar texto, que o Toni rebolava na tumba...

eu e a minha colega vamos partilhar o papel de protagonista. (bem, quer dizer, na prática, faço uma cena, ela três).
ambas somos baixinhas e muito morenas. eu sou mais estreita e tábua de engomar. ela é voluptuosa e tem um belo par de... amigas.

são maravilhosas as metamorfoses do teatro, mas há limites... é que uma pessoa tem vida própria e vai ter de andar na rua!...ora visualizemos a transformação... cabeça amarela, de pele baça e morena... lindo. só me faltam as argolas e falar pelo nariz... usar pestanas falsas, maquilhagem em excesso de cores que não combinam, ter pêlo no peito, maçã de adão e chamar-me "Marilu, a fabulosa"

quando era miúda, queria ter caracóis loiros e olhos azuis. saiu-me o cabelo liso, quase preto, e os olhos "maltesers". em miúda ainda andava com papelotes que a minha mãe (cheia de paciência) me punha. mais umas bodegas de uns líquidos para aclarar o cabelo. e conseguiram o que queriam: cheguei à conclusão óbvia. não é uma questão de poder, é uma questão de ridículo.

agora morde a língua e prepara-te, menina, que se já gostavas tanto de ir ao cabeleireiro como ao ginecologista, na próxima segunda feira vais bater recordes!

caixa

numa caixa vazia depositam-se os resquícios de emoções, sensações, pudores e encaixes.
não se sente, por vezes, o fundo. não se sente, por vezes, o topo.
e no fascínio da levitação, perde-se a noção do vazio.
para depois se encontrar um silêncio demasiado pesado.
para se ludibriar com música.
para se ficar inerte em frente à janela, a ver o mundo passar, sem certeza alguma de se ali se pertence.
mas ao menos o sol aquece um pouco.

terça-feira, 8 de março de 2005

ruas

novos percursos, com este novo trabalho, pelas ruas luminosas de Lisboa. hoje não está tanto frio, sabe bem o vento fresco na cara. vou pela rua sempre a direito, passo o jardim, e deixo-me vaguear entre o mar de casinhas baixas tão típicas e pitorescas. tão lisboetas. as caras ensonadas, fechadas do frio, parecem ter outra vida. compro um bolo e como-o no banco de jardim, ao sol.

gosto mesmo desta zona. era um sonho meu ter uma casinha por aqui. Bairro Alto, Bica, Alfama... já sei, sou demasiado exigente... e ainda por cima é difícil estacionar. mas gosto disto. até dispensava o carro...

gosto da sensação de bairro, acima de tudo. gosto de se adivinhar o rio a cada esquina, em cada ponto de luz. gosto que o sol entre pelas janelas a rodos, sem pedir licença. gosto de haver uma pastelaria onde as velhinhas vão comer a torradinha, gosto dos quiosques e das mercearias. dos prédios baixos e coloridos, da roupa branca ao sol, das conversas de janela a janela, das ruas empedradas. não sei se gostaria de viver num sítio onde as caras são tão cinzentas como os prédios impessoais onde vivem tantos que não se conhecem nem querem saber.

um destes dias fui jantar com uma amiga que mora num 5º andar minúsculo sem elevador em Alfama. uma delícia. o bairro a estender-se colina abaixo, preguiçoso, a ir beber ao rio lá ao fundo. a torre da igreja, de sinos a cantarem as horas. a lua muito redonda em dias limpos, de céu pontilhado e brilhante. logo ali, quase que se pode estender a mão e tocar-lhe. olhar para baixo e ver as ruelas de candeeiros acesos. não me demoveu o facto de terem tido de fazer entrar o sofá pela janela...

é pôr na lista... sonhar ainda não paga imposto!

segunda-feira, 7 de março de 2005

ar de produção

já estou no novo escritório. já tenho a nova janela. com vista para os telhados do Bairro Alto. não posso dizer que estou mal situada, não senhor...
já me deram as guidelines, agora é ver se me safo...
dinheiro fixo todos os meses. é nisso que tenho de pensar.
deixo de ter tempo para estar a 100% nas minhas peças, nos meus projectos.
mas dou vida a projectos de outros, e, quem sabe, daqui a uns meses, talvez me convidem para passar para a frente dos panos.
por enquanto é um dia de cada vez, cabecinha baixa para não sonhar demais...

quarta-feira, 2 de março de 2005

palco


nokia by thumbelina
vai-se construindo esse mundo. aos poucos.
vão-se descobrindo as emoções, os gestos, os passos. devagar.
com medo de não conseguir.
mas as peças vão-se encaixando, calmamente. tomam o seu tempo e há que respeitá-lo.

aqui nascem as histórias, as personagens, o desgaste e a adrenalina.
por enquanto, está um palco vazio. com alguns adereços espalhados no chão escuro.

nokia by thumbelina