sexta-feira, 31 de outubro de 2008

adenda do dia não senhor

descobri entretanto que a causa de o meu despertador não ter tocado foi, literalmente, isso: o altifalante do telemóvel [meu despertador] pifou. assim, da noite para o dia. portanto agora o piqueno não toca, só vibra. também não posso falar em altavoz no carro. o que me vale é que com auscultadores ainda posso ouvir música no metro...
para breve, o enterro do dito pequenito, que não sei bem como vou substituir...

ADENDA DA ADENDA:
o namorido lá me esventrou o telelé e arranjou-o! iupi!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

dia não senhor

acordo com um telefonema, a patroa a perguntar onde estou. no momento em que pego no telemóvel começo a hiperventilar. faltam 20 minutos para a peça começar. gaguejo qualquer coisa como "ah uh ah ghlagh tou ah a ir agh" e desligo. 3 minutos depois, estou montada na mota a repetir autisticamente "faltam 17 minutos, faltam 17 minutos, eu não acredito nisto, faltam 17 minutos", de dedos cravados nas costas do namorido - ensonado, atordoado e petrificado de medo porque nunca por nunca gostou de conduzir a mota à chuva e, claro, hoje choveu, daquela chuva que transforma o chão em manteiga, mas por isso há mais trânsito, por isso nem tempo para carro nem para metro.

na antónio augusto de aguiar atendo outra chamada da patroa e tento explicar, agora mais articulada, que o despertador não tocou, que a única coisa que me separa do teatro são os semáforos - todos vermelhos, como convém. explico que se não me caracterizar para a primeira cena, são 30 segundos para me vestir e estou pronta. ela acalma-se.

chego ao teatro 5 minutos depois da hora a que devia começar o espectáculo, visto-me num relâmpago e alguém me traz o microfone, já ligado, que coloco no cinto, fecham-me dentro da camisa de forças que é a minha girafa e corro pelo corredor de patas da frente levantadas no ar. passo por um colega em cuecas e penso, pronto, vou ficar à espera deles. claro, estavam todos à minha espera, claro, e não valia a pena estarem todos a postos. chego a bastidores e fico mais quase 10 minutos à espera que esse colega e os outros acabem de se vestir de elefantes.
a peça começa 15 minutos atrasada. no fundo, à hora do costume. só que hoje, de todos os dias, era o que tinha menos público, portanto os putos já estavam todos sentados há mais tempo. e hoje os do costume têm um bom novo pretexto para não fazer o trabalho como deve ser: eu. vá, o resto do elenco vale a pena. tem calma, acontece a todos, dizem-me. entro de voz fria, corpo enregelado e rezo para que o dracalon do fato faça o efeito que deve, de me pôr a suar antes que as articulações dêem de si comigo a sentir tudo. a peça flui. o colega que não é mau rapaz mas tem a mania que é engraçado e um tacto do caraças, mete duas buchas sobre a girafa chegar atrasada a todo o lado. buchas de qualidade, portanto, que valem a pena, porque engrandecem o espectáculo. e me fazem sentir ainda melhor do que já estou. faço que ignoro.

depois da peça há ensaio para correcções. eu de jejum e a subir às paredes por um cigarro. mas diz que é já. esquece o cigarro. o já prolonga-se. claro. de repente, chamam-nos com urgência urgente ao palco. para lá ficarmos mais 15 minutos à espera. faz-se o ensaio, ouço mais duas bocas sobre atraso do mesmo [e único, e sempre extremamente profissional, que nunca se atrasou] engraçadinho. faço que ignoro. estás chateada? [em tom de "esta não aguenta uma piadinha de categoria"] não, pá, está tudo fino [em tom de "continua, que estás a melhorar a minha auto-estima assim upa-upa"]. vou tomar banho.

enrolada na toalha, recebo a notícia de que o único cartão multibanco da única conta que contém os únicos 40 euros deste agregado familiar pifou. subo às paredes mais um bocado, seco-me e agradeço ao Senhor do Visa, que me vai comer couro e cabelo pelos levantamentos, mas que me vai salvar até poder ir ao banco.

numa pilha de nervos, não consigo visualizar a viagem básica de carro [que o namorido entretanto foi buscar] até à outra ponta da cidade [para onde não há transportes], onde tenho um casting de voz. resolvo que já dei o tilt, que vou de táxi e que fica ele com o carro e pronto, que já não consigo pensar. e desato a chorar.

pronto. já passou.

beber um café, comer meia sandes que não entra mais. e falar com os colegas sobre filmes durante meia hora, achar que descontraí.

sair para o meio do trânsito na boleia inesperada do namorido, cujo compromisso foi adiado e por isso pode levar-me de carro ao casting. a única boa notícia do dia.
nota: num edifício de funcionários públicos, não se conhecem entre eles apesar de trabalharem no mesmo piso. que isto não há misturas. como não há misturas, demoro um bocado mais a perceber onde é que me vou encontrar com a senhora que me chamou, mas lá me arranjo e sento-me à espera. a ler. a tentar ler, porque as mãos ainda me tremem da descarga de adrenalina. casting. dirigido por uma senhora simpática, mas directora de programas que pelos vistos não gosta de dobragens e não sabe como dirigir actores. mas faz-se. pergunta-me como estou de disponibilidade. explico-lhe que depende do cachet. pimba. sim, que para abdicar de trabalho para fazer trabalho para a função pública, nos termos deles, é preciso pagar o estorvo. saio às 16:30 do casting, com a senhora directora também de malas aviadas, e já estava a despegar do trabalho atrasada. coitadinha.

ala para o centro comercial, comprar umas coisas que faziam falta, pegar no carro e pimba, trânsito da hora de ponta para demorar 45 minutos a fazer 15 quilómetros. carro esse que, na fila, se começa a queixar de sobreaquecimento quando levou líquido de refrigeração novo há pouco tempo. roer as unhas até a luz se apagar. olhar para os esgares monocelulares assassinos nos carros ao lado e pensar que, apesar de tudo, é boa esta vida que consegui, que não tem [normalmente] filas estúpidas, prestações de plasmas, trabalho sedentário, imbecilizante e monocromático. mal paga na mesma, mas com gosto, porra.

chegar a casa, vestir o pijama e escrever este post com medo de que o computador entre em combustão espontânea.
que isto ainda faltam umas horas para o dia acabar...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

sonoro

descia descuidada a avenida, restituída à ordem natural depois do fim de semana de sete milhões de euros que legalizaram - temporária e exclusivamente - as corridas de carros, o tuning e o barulho excessivo em áreas residenciais.
[by the way, o público surpreendeu-nos, recusando os apelos da grunhice intrínseca de cada zé tuga, enchendo-nos a sala apesar do circo à porta, das estradas fechadas, do incómodo de mudança da hora, do sol lá fora e nós aqui. amén a todos vocês, benditos anónimos, que nos forraram a plateia com mais de seiscentas almas receptivas e bem dispostas.]

mas dizia eu que descia a avenida. passando o nevoeiro das castanhas na esquina, evito que uma senhora seja atropelada na passadeira e continuo na luta interna de conseguir chegar à mala apesar das várias camadas de roupa, do capacete, do desastre natural da minha pequena estatura que não me permite equilibrar tudo nos braços. tiro o sete colinas e o telemóvel, carrego no play. já vai a meio a canção e é das que dão para abanar a cabeça. que levanto.

à minha frente, emperiquitadas no alto dos saltos, um duo dinâmico de capilares reflexos vermelhos nitidamente acabado de sair do Beauté, aqui ao lado. na minha cabeça atropelam-se etiquetas como a brigada da laca ou esquadrão da mise. assim, cabelos em Peter Pan da alta, tufados, flutuantes, alheios às leis da Gravidade, como que suspensos por molas. molas, também, os brincos demasiado grandes para uma cara enrugada mas disfarçada em betume, perdão, base, os cachuchos em cada dedo disponível - mais houvessem, a crise não chega às mãos -, as pulseiras que davam cintos. o cinto do casaco estampado de leopardo em roxos, o outro em pretos discretos mas com correntes, o andar de gazela em botim de pele [da própria, quem sabe] em perfeita dislexia da pochette e da bolsa de cabedal, e a lapela altiva de gabardine que [des]compensa a falta de altura. e no alto, esse corolário inevitável, que reclama todas as atenções apesar de tanto onde perder os olhos, a farta cabeleira no que se adivinha ser um ridículo pau de giz se, bem vistas as coisas, a cabecinha fosse demolhada e lhes decapassem todo o spray fixador.

abro a agenda, desesperada, e escrevo umas linhas para me lembrar mais tarde. desenho outras tantas - linhas - para não me esquecer de outros tantos movimentos.

e nos ouvidos, dispara, sozinha, por ordem aleatória do abecedário da tecnologia móvel, esta canção.

Listen "Seu jorge Burguesinha"


dispara-se-me a gargalhada no meio da rua. disparam os olhos das emperiquitadas, perturbada a redoma não insonorizada do âmago umbilical da conversa. pulverizadas, as conversas emperiquitadas, pelas minhas ondas sonoras.
sonoras, pois. que na vida há alturas em que está tudo ligado, e há mesmo bandas sonoras, não me lixem.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

do que há-de vir

a caminho do trabalho, um taxista pára para deixar a mota passar. dois tiochos daqueles que costumam ser pedantes e nem olhar para o lado [desses que aparentam não ter problemas de créditos, euribores, nem de combustíveis a julgar pela assentadura] abrem as alas dos espelhos - eléctricos - também para nos deixar passar.
ao telefone, massajam-me o ego profissional. duas vezes.
e, já em casa, um senhor da cabo liga a oferecer um desconto na factura mais telefone grátis durante um ano.
o namorido põe-se a arrumar as gavetas.
e isto. que não sei se ria, se chore.

e tudo faz sentido quando uma senhora no intercomunicador do prédio me pergunta se eu acho que Deus vai resolver o problema do aquecimento global e da bacarrota da Islândia.

mais descansada.
afinal são só sinais do apocaliptro...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

paracetamol

o corpo em descanso, pela primeira vez de dois meses de tensão, em vez de ficar agradecido, vinga-se da negligência com dores absurdas em sítios que pensava que não tinham terminações nervosas, a cabeça pesa mais do que o pescoço aguenta, os olhos querem saltar das órbitas e é toda uma moleza inominável que me prende impotente ao sofá. assisto às mudanças de luz na sala, que lambe as paredes devagarinho, destaca e esconde os títulos dos dvds, dos livros. e penso que devia ir aspirar o chão.
tinha coisas para fazer.
apetecia-me sair de mão dada, apanhar ar, comer travesseiros ou castanhas ou sushi, comprar um casaco, ler um livro de fio a pavio, acabar o quadro grande, e essas coisas que andei a adiar. apetecia-me convidar amigos para um café, um filme, qualquer coisa que me fizesse sentir acompanhada, descontraída, com vida pessoal outra vez.
tudo engolido por uma dolorosa apatia. quebrada apenas pelo ritual de, às 8 da manhã, dar um salto na cama a pensar que estou atrasada para os ensaios.

não te preocupes, diz a voz na minha cabeça, a partir de amanhã já tens peça outra vez...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

contagem decrescente ou it's a jungle out there



um elefante com uma luxação, um impala com um torcicolo, uma tribette com os ombros inflamados, outra tribette a recuperar de uma pneumonia, uma elefanta bebé com quebras de tensão, uma criança-mona com alergias e um elefante-macaco substituto que tem dores só de vestir o fato.

a girafa mais pequena do mundo com os dedos dormentes.

faltam 3 dias...

domingo, 5 de outubro de 2008

malas aviadas



começa agora a contagem decrescente.
fazer as malas para viver 5 meses num teatro é muito parecido com a preparação de uma viagem de campismo. mas leva-se mais mariquices de gaja...