sábado, 28 de outubro de 2006

dos regressos



daqueles que os mapas não marcam, nem as linhas da mão têm a certeza de apontar. não há estrela polar neste céu agreste de luzes falsas que orientam aleatoriamente as suas caudas de cometas.
divago.

a minha ausência reverte a favor de um regresso. temido. muito mais temido do que poderia esperar. de momento ainda se tacteiam estratégias para contar uma história tão antiga e [re]contada com escadotes. sim, escadotes. eu tenho medo das alturas, tenho medo quando não estou em contacto com o chão. tenho vertigens. tenho pouca força de braços. tudo num mundo de testosterona onde sou o único elemento feminino. um metro e meio e uns trocos desajeitado no meio de gaijos...

ah, mas para carregar sacos de roupa e caixotes ainda sou da produção. e na produção, curiosamente só trabalham mulheres [no sentido de bulir a sério, não é recostar o rabo à cadeira o dia todo]. tenho, sempre, de regressar à base e tratar das papeladas, das reservas, dos telefonemas e não me esquecer que esta quase-estreia é só um fogo fátuo. ainda muita coisa há a fazer para a temida prova de fogo do [pretende-se] grande espectáculo que há-de sair em Janeiro... o tal das madeiras. bom...

como está a correr? colegas bem dispostos, cooperantes, excepto um que ainda não decorou o texto e não percebe que todos temos desculpas para não termos o trabalho de casa feito. mas há-de desenrascar-se.
laivos de genialidade de um homem que normalmente só diz disparates. estou a falar do encenador. um homem que precisa de uma grande dose de "risa" para ter embalo para encenar. um homem tão divertido como inconsistente. tão criança como irritante. tão alegre como mimalha.

estramos dentro de poucos dias, já com imensas reservas feitas. as marcações ainda estão frágeis - de mais a mais equilibradas em escadotes...
nota: não há palco, há claustros. não há música, é à capela e com coreografias de fazer chorar a Floribela. não há camarim, há "mudanças de roupa coreografadas". bah.
ah... o meu pânico de cantar? pois que à força do medo de me baldar dos malditos coisos de alumínio, já canto sem tremer a voz...
qu se lixe a minha mania de "o cantar é para quem tem um dom": já sei que, se algum dia me chamarem para fazer um musical, o truque é porem-me numa situação de equilíbrio precário e queda desastrosa eminente...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

na carimbolandia

loja do cidadão, para tratar de todos os documentos que perdi aquando do roubo da minha querida carteira. em chica-esperta, lá fui passar a tarde de sexta, porque "pode ser que o pessoal vá todo de fim de semana e esteja mais vazio". até às 4 e meia da tarde era verdade...

tirar fotografias - pimba, paga. fiquei amarela. ó senhora fotógrafa que mete as chapinhas na máquina e faz trocos que é um mimo, afine o cyan...

BI, comprar impressos - pimba, paga. é preciso certidão de nascimento. não faça aqui, que demora 2 dias. vá à Fontes Pereira de Melo que lha fazem na hora. então para que é que vocês existem aqui, mesmo?

certidão de nascimento - afinal onde é que eu fui registada? errrr... mãee... esperar que os senhores saiam do chá das 3 e meia que acaba às cinco para as 4, já que o santo serviço fecha às 4. pimba, paga. e que tal digitalizar isso tudo para bases de dados com acesso para toda a rede de registos, hã? não há excedentes na função pública? há, estão na hora do chá.

fotocopiar certidão de nascimento e declaração da polícia "não vá o diabo tecê-las" - pimba, paga.

BI, entregar impressos e certidão - espera. espera. espera. preciso de um cartão seu. minha senhora, fui roubada, os únicos cartões que tenho são as segundas vias dos do banco e o da Medis [estranhamente os privados, portanto]. mas ó menina preciso de um cartão, esses não servem. minha senhora fui roubada, está aqui a declaração da polícia, não lhe posso dar mais nada. suspiro de mártir. fotocópia do cartão da médis [mas se servia, porque é que me dificultou a vida?]. cagar dedinho, impressão digital[para que é que serve, ainda me hão-de dizer]. já agora alteração de morada, sim? suspiro de mártir. daqui a 7 dias mais ou menos está pronto. [mais ou menos? claro, vou tirar a semana para vir passando por cá...]. já agora, quando é que o nosso BI passa a ser Simplex? como o passe...

carta de condução - senha para os impressos. pagar os impressos e a minha colega já a atende. senha para a colega que já atende, preencher impressos. enganei-me. senha para a senhora que vende os impressos outra vez. olhe, enganei-me neste. tome lá outro, são mais 17 cêntimos. e já agora ao preencher tenha cuidado para a letra da assinatura não sair fora do quadrado. mas tem de ser igual à do BI. claro. a colega que já atende atende-me, rever os impressos, recortar o picotado. já agora alteração de morada, sim? claro, mas assim demora mais. [não que tenha alterado em nada o que quer que seja ao trabalho da senhora que me atende] agora espera que a minha colega [a quem se paga os impressos] a chame para lhe dar a guia. a carta segue para casa dentro de um mês e meio - maizoumenos, claro, maizoumenos. esperar pela colega a quem paguei os impressos. esperar. esperar. tome a guia. ah, claro! a "guia" é a merda do impresso que EU preenchi, com dois carimbos e uma rúbrica. como é que eu não me lembrei que atrás do biombo estará um senhor doutor para carimbar e rubricar? honrada função que exige tanto aprumo, dedicação e tempo como montar um puzzle de 10 mil peças? [porque é que não disseram logo? eu já agora também carimbava...] pimba, paga a guia. pensar que estas novas cartas já nem implicam a senhora que dactilografa os dados e cola com UHU as fotografias no cartão cor de rosa. é o mesmo sistema do passe que, oh curiosidade, fazem na hora.

documento único do carro - impressos de borla. ai que isso deve trazer água no bico. atendem na hora. medo. preciso do seu BI. está a ver aí a cruzinha no "furto"? fui roubada. mas preciso do BI. tem aqui o papelinho da encomenda do BI e a declaração da polícia. mas eu preciso do BI. fui roubada, senhora. olhar entre o implorante e o psicopata homicida. suspiro de mártir. teclar meia dúzia de bujardas no computador. 30 euros pelo novo documento, mais 30 pela alteração de morada. olhe, se eu fizesse as duas coisas em separado tinha desconto? eu sei, que como pobre ser da geração recibo verde, que lida com computadores todos os dias, não estou ao nível intelectual para perceber porque é que a alteração de um campo numa base de dados e um "print" [dois clics ou ctrl + P... não sabia, senhora?] num papel devidamente criado para o efeito, mais um selo especial terá de tanta ciência. é, mais uma vez, a arte do carimbo. recebe o documento dentro de um mês maizoumenos, claro, maizoumenos.

cartão de contribuinte - a Loja do Cidadão informa que o sistema fod... está temporariamente indisponível. portanto aqui já não se faz nada.

cento e tal euros depois, sobram à conta os trocos para um geladinho. para adormecer a língua, a ver se não digo mais palavrões hoje.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

chove e faz sol


[ms]

as luzes às vezes não são quentes, só deixam um hálito agridoce na pele. percebes? não interessa. às vezes o espaço entre dois corpos completa os fragmentos que faltam. dizia que as luzes arrepiam. como que nos estremecem. reconheci em mim um medo novo. e este é mesmo, assim, assustador. não sabia que o acordar da dormência seria tão doloroso, confesso. julguei que em mim encontraria nova alegria, novo impulso, desta feita aliviado, concretizado. livre, entendes? não, de facto não. acordo enrolada sobre mim mesma e cheia de dores que ainda não senti, depois das que senti e que me enrolaram. são dores por vir, que nem sei se virão. faz sentido? desenrolo-me a medo e cada pedaço de mim que sai para fora é como um fio de um novelo que se puxa e vai-me desfazendo. mas encontra nós, pelo caminho. o pisar não é novo. vejo as folhas que o outono vai soprando das árvores e é mesmo isso. um caminho que já percorreram, que sabem. voltam ao chão, sugadas serão pela terra e voltarão a verde e flores daqui a uns meses. mas o cair. o cair. há sempre medo de ficar esmigalhada no asfalto. a borracha queimada faz mal à fotossíntese. nos veios estão marcados os percursos, como as linhas na palma da mão. são tatuagens, são. marcas que por mais que cerremos os punhos não desaparecem e as mãos ficam dormentes do medo. do medo de cair, sem rede, como todas as quedas a sério. porque é suposto a lei da gravidade amparar-nos pelo contrabalanço do peso da alma. mas nem sempre o vento sopra a favor. e agora as luzes que se acendem na sala verde são-me estranhas. são estranhos. a mochila das perguntas pesa-me. inclina-me. e tenho de ter as costas direitas. em pontas dos pés, assim, subo à armação de alumínio. será que ainda me vale o ballet? e os fantasmas? ter-se-ão esquecido de mim?

não sei como cheguei aqui, mas juntar palavras faz-me bem. encontro-lhes o sentido à medida que as saboreio. assim como um chocolate que prefiro deixar derreter na língua em vez de morder.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

para avaliar o seu grau de loucura

sábado, dia de passeios, de descontracção. porque os ensaios inibem de dormir até tarde, aproveite-se o dia.

almoço reconfortante no restaurante das avós, matar saudades das palavras com diminutivos, da força calórica de comida cozinhada na hora e das batatas fritas às rodelas. depois, descer a rua e segurar o queixo perante a exposição do world press photo. lutas intermináveis com um par de velhas que não compreendiam o conceito do pequeno corredor que separa as pessoas da fotografia. elas metiam-se à frente e punham-se a explicar as legendas uma à outra, indiferentes a quem queria ver os bonecos. considerações tecidas sobre o "molhar o pãozinho no sangue", sobre a parca qualidade dos nossos premiados, sobre as opções do júri, sobre a imponente reportagem sobre uma mulher vítima de cancro, sobre as delícias das fotos das bailarinas de leste, sobre o photoshop descaradamente mal amanhado em algumas imagens.
de regresso a casa, bandulho intelectual bem refastelado, estacionar na garagem [porque está de chuva]. reparar que os vizinhos [cujo único veículo estacionado é uma bicicleta] têm encostadinho à parede um par de raquetes de badminton e uma pena. troca de olhares tresloucados.
ficar a jogar badminton na garagem até desaparecer a luz do dia.

e assim se trama um dia que podia ser tão pseudo...

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

happy birthday?

pois que descobri agora que este blog já fez dois aninhos.
parabéns, pá!


[ou... haja paciência...]

do estudo de texto

[re]começaram os ensaios. este ano com escadotes ao barulho - quem sabe para breve acrobatas e lançamento de anões. Gil Vicente, já se sabe, tem de ser trabalhado para se perceber o que é que as frases querem dizer... português arcaico tem muito que se lhe diga. bem como as personagens, a estudar e contextualizar historicamente para depois encontrar paralelos actuais.
fica uma pequena recolha de pérolas, da autoria do encenador...

das personagens
o Onzeneiro é dealer... mas só nós é que sabemos porque não passa para o público...
o Parvo é um wannabe. é daqueles putos brancos que querem ser pretos e começam a falar com sotaque, a usar aquelas calças e cantam rap.
as pessoas pensam que a Brízida [leia-se Brízeda] é uma puta, mas não. ela cria as meninas para os padres, é rica e vai às festas, tem muitas funções e não se percebe bem no meio qual é o trabalho dela. e só quando se esquece é que lhe vai pró chinelo [leia-se chenélo]. é como a Maya. a Brízida é a Maya.
o Sapateiro é... olha, é um estudante de Belas-Artes da António Arroio. daqueles que só desenham olhos... olhos e fetos!

dos subtextos
"vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco pera gente que virá" - o diabo está, portanto, a assear o barco, não é?
"embarque vossa doçura" - embarca, amori!
"dix" - foda-se!
"nom praza a Barrabás" - não lembra ao diabo... ou... puta que o pariu!
"que é desta glória, emproviso?" - mas nós andamos a brincar?

terça-feira, 10 de outubro de 2006

the pillowman

teatro Maria Matos
até 15.Out.06
4ª a Sáb. 21H30 | dom. 17H
encenação de Tiago Guedes
com Gonçalo Waddington, Albano Jerónimo, João Pedro Vaz e Marco D'Almeida

bilhetes: 15 €, regra geral. todas as informações no site do teatro


prometido é devido e à primeira oportunidade, uma visita ao Maria Matos renovado, cuja programação e grafismos de divulgação me têm deixado de água na boca.

The Pillow Man não é uma história fácil. desengane-se quem acha que se vai rir a bandeiras despregadas [houve umas quantas meninas nervosas que se escangalhavam a cada deixa até levarem o soco no estômago. é incrivelmente triste o poder de um "foda-se" num espectáculo]. desengane-se também quem pense que vai lá ficar de mão no queixo, com um circunspecto "hummm" intelectual. é uma história simples. ou melhor, é uma história contada de forma simples, sem ser simplista. em que as emoções provocadas vão do riso sádico, à simpatia, ao ódio, ao confrangimento, ao enternecimento, à tristeza, ao torpor, passando pelo riso incomodado de quem sabe que se está a rir de algo que só tem piada porque - epá - é a fingir... não é...? [... e depois alguém lá em cima nos olha com um daqueles olhares que nos cala...] um drama com laivos de comédia de situação em tom amargo, salpicada de um humor negro que nos gela e aquece de riso ao mesmo tempo. sobre um escritor de contos mórbidos - excepto o do porquinho verde - que se apercebe que estão a acontecer...

o cenário é extremamente clean e apelativo [lembrando vagamente Frank Miller, não fossem dois dos personagens usar roupa de cor], com soluções muito boas, a utilização de perspectivas interessantes complementadas com uma iluminação invisível [o que é positivo] e de - mais uma vez - adereços simples e pequenos apontamentos de multimedia, que não se impõem. são mais uma personagem.

uma encenação também transparente, com marcações naturais, nota-se que ditadas muito pelo instinto dos actores na movimentação do texto. uma esmerada direcção de actores, em que o texto ficou não só à superfície da pele, mas foi esventrado com corte cirúrgico. todos sabiam bem o que estavam a fazer, sentir, pensar. como eu gosto... nhami!

o que não é simples, neste espectáculo, é o gráfico emocional para os actores. não é simples no sentido em que não temos ali "bonecos". temos seres humanos, com defeitos, qualidades, forças, fraquezas, silêncios, segredos, pensamentos, ideais, histórias passadas. todas as personagens são absolutamente humanas.
é portanto, uma peça de actores. [um dos meus "estilos" preferidos]. ali, o desafio vai para eles, de se concretizarem em cada respiração, em cada deixa, em cada contracena, em cada momento de confronto com uma realidade estranha. e respiram realidade dos poros.
a todos e a cada um deles, um grande aplauso de pé. daqueles de peito cheio de orgulho, em que se agradece que nos mostrem afinal porque é que vale a pena continuar a tentar neste meio cão.

há quem considere a peça, em dado ponto, algo longa. cíclica em termos de conteúdo. confesso que estava demasiado absorvida a deliciar-me com as interpretações para dar pelo assento rijo. mas foi unânime que as cenas que ensanduicham o espectáculo [as fatias de pão, portanto o início e o fim] arejam nos tempos certos o que podia tornar-se demasiado longo mas não chega a ser. na proporção certa, diria.

um espectáculo a não perder. cuidado que a sala está na moda, portanto para os últimos dias já deve ser difícil conseguir bilhete. não temeis, caros seguidores d'A Palavra deste Blog, os lugares da fila da frente. a distância do palco é perfeita para absorver tudo sem um torcicolo.

mas isto sou eu...

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

|| pause still


[ms]

às vezes o tempo anda feito gato avariado. corre de um lado para o outro de encontro às paredes, não conseguimos perceber o que anda a fazer, o que persegue ou sequer o que vê.
nesses dias apetece obrigar a sentá-lo à minha frente, e dizer-lhe para ter calma e olhar-me nos olhos. vamos lá conversar...
[... nem que seja para...]
- então e o Benfica...?

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

as vampiras lesbicas de sodoma

pela Companhia Teatral do Chiado
Teatro-Estúdio Mário Viegas
supostamente a semana passada foi a última semana, mas nunca fiando, que eles são danados para a aldrabice e já "estenderam" até dia 7 de Outubro.
entre 13,50€ e 18,50€ [excepto condições especiais]
reservas e actualização de datas no site da companhia
fotos no blog do espectáculo
com Rita Lello, Simão Rubim, Tobias Monteiro, João Carracedo, Manuel Mendes e João Craveiro


não é um espectáculo certinho. quem viu As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos sabe perfeitamente que a ideologia não é essa. é uma paródia "off-Parque Mayer". é uma história de duas vampiras actrizes ao longo dos tempos [o fio cronológico lembrou-me vagamente o "Entrevista com o Vampiro" - com as devidas distâncias]. que passam grande parte da sua eternidade em Lisboa. que por acaso são lésbicas. e também só por acaso várias personagens femininas são interpretadas por homens ao estilo "tão-traveca-quanto-se-pode-ser". quebra-se a quarta parede. ou melhor, rebenta-se com a quarta parede. com muita dinamite da Acme. os actores sabem a linha condutora mas para ligarem o princípio, ao meio, ao fim, entram numa desgarrada de improviso. cujo objectivo, à primeira vista, parece ser fazer os colegas em palco a desmancharem-se.

isto dito assim é uma perfeita palhaçada, sem qualquer respeito pelo público, pela história que se está a contar ou até pelo trabalho de meses de ensaios e pelos cabelos brancos do encenador.
mas o "problema" é que, no caminho, somos completamente envolvidos por esta teia de disparates. somos enrolados, virados de cabeça para baixo, e não faz mal se o Simão perdeu uma pestana postiça. ou se o encenador ao fazer uma apresentação no início da peça, se esqueceu - outra vez - do endereço do site. são apenas mais motivos de galhofa dissecados a corte cirúrgico.

admire-se, no entanto - se conseguirem abstrair-se de tanta maluqueira - meia dúzia de pontos:
o trabalho fenomenal de caracterização. a coragem daqueles homens para estarem todos os dias absolutamente depilados [eeek], com cintas daquelas que espremem os respectivos abonos de uma forma que podemos apenas suspeitar. a capacidade de improvisação inacreditável de todo o elenco, que não se esgota numa piada que funcionou no primeiro dia. o brio nessa improvisação. o espaço que dão uns aos outros para brilhar - e para gozarem com as suas caras - coisa rara e nunca vista. têm de ter um trabalho inimaginável no que diz respeito à base do texto, para não se perderem no meio de tanta liberdade. o facto de estarem a vibrar a cada minuto. especialmente porque nós estamos a gostar e a rir com eles. a generosidade de um encenador que deixa - gosta! - que todos os dias esventrem mais um pouco o trabalho de mesa. a possibilidade de num espectáculo destes senhores podermos sempre ter uma visita guiada aos bastidores sem darmos conta. ali estão expostas aquelas fraquezas que a maioria das companhias tenta esconder para poder levar um espectáculo a bom porto. é delicioso reconhecê-las à distância e vê-los brincar com isso também. é outro lado da medalha. ali, um cd estragado na altura de um playback é... mais um motivo de improviso. é um actor, em vez do grande número de dança e canto que ia fazer, começar a soluçar ao som dos "riscos". e no fim, ao ter um achaque, dizer explicitamente: "ainda não despediram o técnico de som?"

não é uma obra de arte digna de um intelectual levar a mão ao queixo e expressar o seu cogitante "hummm"... é um espectáculo franco, directo, parvo, non-sense. e é assumido nisso tudo.

a cada estilo as suas características. à Companhia Teatral do Chiado apenas o objectivo de fazer as pessoas passarem um bom bocado. e saírem de dores na barriga e nos cantos da boca. de preferência ainda a limpar a última lagriminha no canto do olho.

mas isto sou eu...