sexta-feira, 30 de março de 2007

I.A. iá, yeeehaaaa


cortesia espanta-espíritos

para quem não está enquadrado: o I.A. é o instituto das artes. são os senhores que dão os subsídios, vulgo dinheirinho, aqui aos pobres dos artistas. para a droga e assim.

uma vez por ano [excepto aquela vez do "ah e tal, esqueci-me"] abrem concursos para o pessoal mandar um projecto para uma peça. se eles gostarem do projecto, dão dinheirinho. se não, lá têm as suas razões. mesmo que se ameace com tribunal, o IA não se engana.

apesar de os apoios irem parar quase sempre aos mesmos [se bem que com outros nomes, e para isso vai uma menção honrosa, nem todos conseguem inventar tanto nome seguido], os senhores estão a tentar acompanhar os tempos. e por isso foram evoluindo.

dantes entregavam-se 5 calhamaços com todos os quês, comos, porquês, currículos, objectivos, articulação dos objectivos com os objectivos do I.A., metodologia dos objectivos, unhas encravadas do objectivos e... iada iada iada. resumindo, uns bons 10 kg de papel.

depois resolveram que queriam em cd. giro, dá jeito. mas na mesma acompanhado das 5 cópias em papel...

no ano passado, ah pois é, acharam que umas companhias ficavam em desvantagem porque não dominavam a arte do design gráfico e tal, e portantos pois que criaram uns formulários de formato fechado. não há cá privilégios, não há cá fotografias, não há desenhos, capas bonitas, esquemas de cenário nem mariquices dessas, que a gente das artes tem de se dar ao respeito e ser todos iguais, assim prá esquerda benetton. até porque já se sabe que a gente das artes é assim suja e feia e desgrenhada e veste-se toda de igual. vai tudo despejado para dentro daqueles campos, letra em corpo 9, times, e... e pronto. e não se armem em espertos a remeter o pessoal para os anexos, porque chumbamos o projecto.

este ano, entraram na era informática. agora é tudo virtual, digital. insere-se o projecto nos diversos campos, no site dos senhores. lindo, não é? pois. não. é que os campos devem ser de pasto. não reconhecem acentos nem cedilhas, nem símbolos [fantástico, parece mesmo que estamos no estrangeiro], o site crasha quando estamos a carregar os dados e simplesmente passa tardes inteiras inactivo.
os senhores do I.A.? iá, tá-se bem. não atendem telefones. extensões ocupadas. dá jeito, porque senão a turba reclamava e pedia um prolongamento do prazo...

aqui fica uma sentida homenagem a todos os que estão neste momento a queimar as pestanas. ou simplesmente a tentar entregar os seus projectos.
r.i.p. r.i.p. hurra...

post scriptum: muahahahah... vão mesmo prolongar os prazos, visto que o site está crashado desde as 3 da tarde de ontem...

quinta-feira, 29 de março de 2007

the fallen

momento de pressão extrema, com formulários electrónicos demoníacos, currículos idiotas, protagonistas idiotas, textos idiotas, um projecto incoerente inventado em cima do joelho, os responsáveis pelos mesmos a quilómetros [e continentes] de distância, conversão de textos de reivindicação política pseudo-esquerdina do género "vocês são uns vendidos e eu quero mais é que vão levar no rego" em polidas declarações de "ó por favor dê-me lá o dinheirinho que eu quero fazer uma pecinha freak".
o corpo com demasiados meses de serões de revisões de texto, traduções e dobragens em cima, já suplica piedade e eu tenho de suplicar-lhe que não ceda... já.
nesse momento, cai uma das poucas coisas que ainda me incluía. que ainda me dava gozo.
talvez em Outubro. a recibos verdes, sem segurança social, a receber o recebo, talvez já não esteja cá em Outubro. [essa era a maior ironia.]

mas o concurso, não te esqueças do concurso.
argh... you could have it so much better...

puxo o volume aos Franciscos Fernandos enfiados quase até perfurarem os tímpanos e simulo uma bateria transparente. porque não posso usar uma bateria aérea...
e suspiro por um serão de wine in the afternoon.

terça-feira, 27 de março de 2007

retalhos

lençóis de muitos metros. pés descalços na madeira. cantar enquanto se cose. cantar enquanto se espera. cantar enquanto se transporta. espalhar cartazes de madrugada. o carro cheio de cola. a carrinha cheia de cenário. olhos que já vêem mal, mas querem ver o fundo do túnel. frio, pés descalços e pedras seculares. o calor das luzes e de roupa pesada. acupunctura no cenário. respiração, diafragma, postura, projecção. raízes. tecido. charros e bolos. digressão, viagem, estrada, carrinha, pés. abraços de vocalizos que fazem cócegas na alma. um galão para o jantar. esquecer o texto. beijar o desconhecido. cabelos loiros. cabelos curtos. cabelos longos. cabelos pretos. rímel. pó de arroz. baton no espelho. mãos dadas na penumbra. choro, riso. cheiro de tinta, serradura, livros, roupas e mofo. perucas. máscaras. desenhos de figurinos. discussões. black-out e ovação. entra a música. cd riscado. cortes de papel. oriemirp. moça, inês, norma jean, marilyn, preguiça, lara, mulher, ela, ana, rita, castro, margarida, brízida. tu, eu, nós, quem? teia. bambolina. projector. filtro. voz. desgaste. gosto. sublinhado. prazer. intenção, interjeição, precisão, sudação, sensação, emoção. borboletas na barriga. seres secretos do pó do palco. magia. perda. dor. saudade. a-m-o-r. esquecimento. a alma carregada de gente. as mãos cheias de coisa nenhuma. acreditas em fadas? bate palmas, depressa.



hoje é o dia do teatro.

segunda-feira, 26 de março de 2007

a-m-i-g-o

amigo escreve-se com todas as letras. engloba todos os nomes. de cada vida. têm bandas sonoras, também.

e, muito simplesmente, "amigo" às vezes soletra-se assim:

[...] lembro-me de ter começado por te ameaçar de tareia... nada demais, apenas um "queres levar?" querido e disse ainda que não te daria palmadinhas nas costas porque, como tenho uma força desmedida, podia magoar-te. Escrevi também que o que podia fazer era agarrar-te por trás (aqui não há qualquer espécie de conotação erótica meus queridos... "um charuto às vezes é só um charuto" e não sei mais o quê que o Freud disse... muito importante e lálálá) e assim agarrados começava a fazer vocalizos e tu rias-te muito e passava-te tudo. [...]

my very own mr. bojangles

segunda-feira, 19 de março de 2007

riscos

não me fales em ir mais devagar, agora que finalmente as luzes se desfazem em riscos esboçados nos vidros, nos teus cabelos, nos teus olhos assustados. não percebes nada, não vês. assim sim, o mundo escorre-nos pela frente e pelos lados e não temos de o ver. não como ele é, não assim. não me digas que é perigoso, que olha o carro ali, que faz pisca, que vamos morrer. não sentes? o estremecimento do motor como se fosse o teu corpo enrolado ao meu em noites violentas que já não voltam. sim, vai-se a cidade pelo vidro, pelo cano abaixo. num único risco rasgado deixamos de ver os fragmentos, os pedaços, os pormenores, a descrição aberrante das construções, dos viadutos, do urbanismo falhado de sociedade. vão-se, são riscos como podiam ser rabiscos. mas nunca perfeitos, nunca certos, nunca lisos e discretos. são raios raivosos. dilaceram-se e multiplicam-se a cada ressalto. assim destroçamos, diluímos, e não está lá o palco da tua vaidade, da minha indiferença. ficam apenas longas pernas de neon, tão compridas que não lhes vemos as saias. não abrando, não, não quero, porque senão já consigo ouvir os outros. os carros, os velhos a escarrarem, a velhas com os cães e os sacos das compras, os drogados das moedinhas e os senhores dos fatos ao telemóvel e as mulheres das lacas e das malinhas de mão. não quero ouvir nada e vou colar o pé ao fundo até deixar de sequer ouvir a tua voz a pedir-me por favor, pára, ao menos mata-te a ti e deixa-me sair. até as tuas lágrimas já fazem esse risco perfeito de imperfeito pelo rosto, misturam-se negras nas tuas orelhas. és bonita, assim, aqui fechada, minha, de vento a riscar-te a cara enquanto gritas.

terça-feira, 13 de março de 2007

maus fígados

mas será que nesta vida não me vou cruzar profissionalmente nem uma vez com alguém com poder decisivo que dê valor a quem está a dar o litro? a quem está sempre lá?
será que vou ter de deixar isto tudo para trás de uma vez e desistir de acreditar que alguém um dia vai apostar nas minhas verdadeiras capacidades de trabalho?
será que vou ter de dar razão aos meus pais... e a desilusão maior de, afinal, todas as desilusões que estão para trás, a minha carolice, o "my fucking way", não valeram a pena?
será que tanta vontade, tantas noites sem dormir, tantas pontas remendadas... não servem para absolutamente nada?

ai, vida, que ando com o rabo virado para a lua...
espero que não se avizinhe de novo a depressão, porque agora não tenho mesmo tempo nem paciência para isso...

segunda-feira, 12 de março de 2007

não

não se chega assim e se vira tudo do avesso.
não se faz assim. não é decente. não depois de tudo, de toda a ajuda e dedicação.
as pessoas não são lenços de papel por que imploram só até conseguirem tirar a cocaína das bordas do nariz. nem pastilhas dessas que derretem na boca para ver a realidade a cores.
não se avisa, não se conversa, corta-se assim, de repente, porque numa noite de bebedeira assim se decide para agradar ao novo melhor-amigo-por-meia-hora?
e os outros?
não se pode contar com ninguém para nada. para nada. como é que num momento há gestos tão dignos que até abrem um sorriso nos lábios e noutro colapsam o chão só por humores e agradinhos?
são horas a mais, já. dissabores a mais. e mais uma gota que daqui a nada entorna o copo. um dia, quando menos esperarem. porque nas costas dos outros vejo as minhas.
posso não guardar rancores, dar segundas oportunidades feita parva. mas não esqueço.

sabem que mais? bardamerda.

sábado, 3 de março de 2007

braços caídos

é apenas uma hora, se formos a ver bem as coisas. apenas uma hora de cada vez. duas horas, nos dias em que são duas doses. duas doses de espectáculo para, provavelmente, o mais estranho dos públicos: adolescentes. hormonas aos saltos, buços, bigodes, pelos públicos, massas adiposas e borbulhas a florescer. meninos ricos, putos de bairro, patos-bravos. do norte, do sul, do interior, do litoral. com professores que fazem ainda menos ideia do comportamento a ter durante um espectáculo do que os alunos. professores sem qualquer rédea sobre os putos. meninos bem-postos de farda, de risos tímidos atrás das gravatas. putos de calças descaídas que fazem rap enquanto cantamos. miúdos de aldeia que não percebem a noção de "está a acontecer um espectáculo, não se pode fazer perguntas aos actores se eles estão em cena". miúdos atentos que murmuram o nosso texto de uma forma assustadoramente metódica. silêncios contidos que explodem em gargalhadas e em aplausos. outros que não se guardam e extravasam demolidoramente, devorando-nos as cordas vocais. só reconhecem gente da televisão, só comparam este e aquele com os morangos. aqueles cintos brilhantes, as roupas femininas demasiado curtas justas, mascam pastilhas de boca aberta, alguns não se coíbem de mandar bocas e chamar nomes a quem está ali a trabalhar para eles.

os piores de todos foram, sem dúvida, na quinta-feira. não havia ninguém que os calasse. não havia maneira de os fazer acalmar. nem falar baixo a ver se tentavam ouvir, nem falar por cima das vozes que se levantavam. não havia garganta que o conseguisse. a peça era unicamente um campo de batalha, em que em tempo real eram comentadas as atitudes dos personagens em voz alta, em que se metiam com os actores. até preservativos voaram. não pararam de gritar enquanto a Brísida não aceitou um papel de uma discoteca.
o corpo colapsou a caminho da torre, a cabeça zunia, a roupa enrolada nos braços. a partir daí, a vida passava-me pelos olhos como quem vê um filme em câmara lenta. já não daria mais uma para a caixa até dormir. e só a distância desse facto me pesava ainda mais nas pálpebras.

saio. pernas trôpegas, a tentar receber um bocadinho de sol na cara e pensar positivo no caminho de regresso ao escritório. à porta do Mosteiro, reparo numa galhofa. uma série de miúdos a rir desalmadamente e o que parecia ser um professor divertidíssimo a tirar fotografias. sigo o ângulo da lente e os olhares sorridentes. à porta da igreja, estão sempre um ou dois pedintes. naquele momento estava um. penso que era o velhote sem pernas. não tive tempo para reparar. porque sentado ao lado dele, um miúdo bem vestido com cerca de 10 anos estendia a mão em concha aos turistas e ria-se para o professor e para os coleguinhas, mandando olhares envergonhados e divertidos ao velhote, para ver se estava a imitá-lo bem. não sei se o homem tentava ignorar a dolorosa atitude da criança - porque é uma criança, coitadinha -, ou se estava de facto demasiado concentrado nos turistas que passavam a quem implorava uma moeda com o gesto silencioso do braço estendido com um copo da MacDonalds.

fiquei parada, incrédula. a minha fé nas crianças desvaneceu-se toda ali. e pela primeira vez, não fui capaz de fazer nada. fiquei ali, a olhar de braços caídos para o miúdo, e logo a seguir virei-me para o professor a tentar perceber se realmente ele estava divertido a fotografar o que eu achava que ele estava a fotografar tão divertido. fiquei ali, a fitá-lo, a assistir à mudança conveniente no seu rosto, enquanto baixava a máquina de forma atabalhoada e transformava como podia o sorriso num mal disfarçado esgar de reprovação. não consegui fazer nada, não consegui dizer nada.

eu, a "toda-poderosa" que está sempre a cuspir postas de pescada sobre os "could've would've should've" deste mundo. o tipo de pessoa que não tem noção do tamanho e só se apercebe dos riscos que correu depois de a frase-tiro já estar a pairar sobre as cabeças de quem estiver num raio de cem metros.

mais tarde pensei no que me apeteceu dizer ao miúdo. apeteceu-me fazê-lo ver no mendigo a mãezinha dele. sem pernas, com fome, a pedir ajuda. sei que seria capaz de o pôr a chorar em minutos. tenho essa capacidade argumentativa e de "psicologia, e esse sangue frio. mas mais que tudo apeteceu-me partir a boca ao professor com o capacete que tinha pendurado no braço. não sem antes fazê-lo passar uma gradecíssima vergonha, em forma de escandaleira que eu calmamente teria, numa situação normal, provocado.

mas não fui capaz de fazer nada. passava o filme em câmara lenta nos meus olhos, as gargalhadas distorciam-se nos meus ouvidos e eu só olhava.

só me ocorria: o que é que pode correr tão mal?