terça-feira, 29 de novembro de 2005

no palco nunca estás sozinha


[ms]

os fantasmas vivem lá, habitam em cada grão de pó. os fantasmas de todos aqueles que vivem ali, e ali só.
que nascem em palavras da alma de algum escritor, brotando tinta escura no papel imaculado. são antigas, as letras, ou nem por isso. não interessa. ali repousam, as letras, as palavras, os espíritos transparentes.
um dia são acordados por umas mãos que lhes tocam ao de leve. depois soam as gargalhadas lá fora, ouvem-se falados. ouvem-se a si mesmos a respirar, a sofrer e a sorrir, entre conversas que não conhecem. assim, meio entaramelados, os fantasmas sentam-se na borda do papel, mirando aqueles seres de mãos quentes que acariciam as suas páginas, que seguem com dedos espetados os parágrafos das suas ruas. que evocam as suas letras, a sua tinta. vêem esses seres de olhos sérios, olhando-os dali sem os verem, fixando com dúvidas e ar confuso as frases que disseram. aos poucos as expressões mudam, parecem compreender. rabiscam novas letras ao lado das suas. que revelam sentires que acham que sentem as palavras e que sentem os fantasmas. e eles olham as novas letras. e riem, e choram, e acenam ou negam. ali, sentados em volta, os seres pintam a marcador flourescente as "deixas". e fica colorido o papel, a sua casinha, cheia de cores e riscos e rabiscos e palavras novas.

um dia os papéis voltam a passear, até um sítio muito grande. e neles, sentados, sempre os fantasmas. olham o novo espaço e vêem as luzes acenderem-se, quentes, lentas, lânguidas. vêem os seres de mãos quentes a subirem ali para cima. e gritar. as vozes com as suas palavras ecoam nas paredes e giram tantas vezes. os seres às vezes fazem grandes disparates, como gemer sem nexo, mover-se de formas estranhas, vestem roupas novas com alfinetes pendurados, saltam, parece que enlouquecem.
andam descalços naquele chão e é aí, enquanto falam as palavras dos fantasmas e se enraízam na madeira que os fantasmas se sentem atraídos, magnetizados. aos poucos, devagarinho. observam à sua volta outros, que já lá estavam, viajando sentados nos grãos de pó, agora levantados pelos pés descalços dos seres das mãos quentes.
um dia o papel cai das mãos do ser, espalhando-se no chão, branco no preto. um negativo das palavras. e o fantasma observa lá de baixo. na primeira lágrima que o primeiro ser de mãos quentes solta, de pés descalços, ao dizer a tinta, o fantasma sobe.
torna-se grande grande grande. e abraça-se ao ser. abraça-se com força e chora com ele. e assim o fantasma se entranha feito água, ar, riso, roupa, na pele do ser das mãos quentes. e ele próprio sente que tem mãos, que anda descalço no chão.
todos os dias os seres voltam. todos os dias os fantasmas os aguardam. e crescem e vivem ali dentro. depois voltam aos grãos de pó para descansar e de lá nunca mais saem. [nos papéis, se olhares com atenção, verás as pegadas dos fantasmas, de quando moravam ali.]
é assim até um dia o fantasma sentir o coração do ser a acelerar de forma estranha, no escuro. nesse dia, assim que a luz acende, explode num orgasmo dentro do ser em mil partículas que penetram bem fundo nele, escorrendo até aos pés calçados ou descalços. apenas uma dessas ínfimas partículas fica dentro do ser. uma só, ficará eternamente. as restantes reúnem-se, quando as trovoadas soam, aquelas das mãos quentes de outros seres que os vêm visitar e ouvir. voltam a cada trovão ao chão e esperam pelo dia seguinte.
aprendem que podem ir ter com os seres àquela sala estranha de luzes fortes onde o fumo do cigarro se mistura com o cheiro das lacas e dos cremes e com a poeira dos cabelos e o vapor do ferro de engomar. divertem-se no reboliço, nos gritos e corridas, nas gargalhadas e "merdas", saltitando dentro do pó de arroz das meninas, para lhes beijar as faces. enrolando-se bem fundo na capa dos rapazes, para lhes pregar um susto, espetando para fora um alfinete, desapertando um botão.

quando um dia o silêncio volta ao palco, os seres sossegam e dormem. passeiam um pouco pelos grãos de pó. cantam inaudivelmente as palavras aprendidas, partilhadas, como lenga-lengas a chamar os seres, celebração às vidas dentro deles e mensagens secretas à partícula que sempre viaja com eles.

aguardam com expectativa o dia em que outros seres ou aqueles mesmos voltem, com novos amigos.
ou apenas para dançar no palco escuro. aí dançam contigo. observam-te e vêm soprar-te ao ouvido sem ouvires que gostam de ti e que têm saudades quando não estás.
é aí que sentes o arrepio...

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

morte no parque

desorientou-se na outra turba estranha de gente, onde rostos conhecidos lhe transmitiam apenas a dor da transparência. o caminho era o mesmo mas sentia-se outra desconhecida. media os passos na alcatifa e os cheiros possuíam-lhe os sentidos. passou pelo seu rosto e não se viu.
há dias assim, pensou. em que se confirmam apenas as feridas por cicatrizar.
no veludo vermelho deslizaram-lhe as curvas de arcos de pedra gravados na pele. ainda gravados. sentia-lhes de perto o toque, a respiração. das pedras, sim, das pedras cinzentas frias imóveis que respiravam nela. como respirava aquela cara que a mirara de olhos cerrados no sono eterno de duas dimensões. e um outro corpo nu de rosas no colo e pescoço atirado para trás. e luas roxas e fios vermelhos. e canos entupidos e calças arregaçadas e a capa preta num sofá bafiento.
indelével, contudo, também a transparência com que se sentava ali. não disse mais do que o necessário, não abraçou ninguém que não quisesse abraçar. ficou por sorrir tudo o que queria sorrir mas não deixavam. preso ao lado das lágrimas. choraria noutro dia, decerto. ou não. ou nem isso.
contas saldadas. com os restos da vida e um par de cabos num saco saiu para o ar frio da noite.
no cruzamento a caminho de casa a lua esperava-a, como de costume, amarela e desfocada.
no rosto o vento frio da noite não lhe amarrotava a pele tanto como a temperatura baça dos olhares ou suas ausências lhe tinham amarrotado a alma.
na cabeça as frases ecoavam, batendo de um lado ao outro do peito, latejando-lhe a tal queimadura que não sara: "obrigado por tudo" "por favor não desapareças" "fazes tanta falta aqui. que é feito de ti?" pena que as palavras tenham saído das bocas ao lado.

tenho saudades do meu sonho. algures entre Mishima e eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

desrespirado

a multidão condensava-se num vapor pegajoso e barulhento. luzes demasiado brancas, neons e cartazes. consumia-se em cada passa de cigarro para se tornar mais nítida depois do fumo se misturar na respiração do ar condicionado. duas amigas em gargalhadas, um grupinho discutia trabalhos e teorias, com cuidado para não sujar a gravata com o molho da maionese, se ela fosse lá ter agora não estava com essa em cima, ela tem de se desenrascar, onde compraste esse casaco?, o caderno em cima da mesa.
alheia de sons e vozes e suspirares, observa apenas, absorta, ouve sem fixar. alarme de loja dispara sozinho. a sério? mas achas que. fui ao centro comercial pipipipipipipi.
o pensar misturava-se com os sons sem nexo e sem nexo continuava o pensamento.
bocejou. desligou. o filme começa daqui a pouco

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

no vidro


[ms]

sentou-se na cama asfixiada com o ar tão leve que quase não o sentia entrar dentro de si. levantou-se sem contar os passos, e o chão deixava-se pisar sem lhe arrefecer os pés. sem uma brisa que lhe arrepiasse a pele fina das costas. o inverno berrava lá fora, mas não, nem um sopro. foi até à janela e encostou a testa no vidro azul escuro de céu. olhou fixamente as lágrimas que choravam no vidro. escorriam sem caminho definido porque o vento contrariava a gravidade em andamentos musicais uivados, assobiados, fazendo dançar a água. nem na testa sentiu frio. encostou a bochecha, depois o peito que ondulava pelos botões desapertados de uma camisa velha, ainda arquejante na busca do ar fino. nem no peito sentiu o vidro. mas chovia lá fora. quis tocar no vidro choroso. estendeu os dedos e acompanhou dormentemente o descer descompassado de uma gota gorda, que logo se misturou com outra. e logo lhe caiu no dedo. não percebeu porquê, se estava do lado de cá e a mão... atravessara o vidro. mas o que mais a incomodou foi não sentir a gota. devia ser fria, devia ser molhada. mas se não a visse cair no dedo que atravessara a janela, não a saberia caída na ponta do dedo. o vento abanava-lhe os dedos mas não sentia os dedos. devia esse contorno do corpo, agora todo cá fora, notar-se no frio. que lhe enregelasse a pele. mas não. olhou para trás. dormia. quieta, no meio dos lençóis. distinguia-se com a luz de presença do aquecedor uma perna desnuda estendida, o corpo pequeno, enrolado, cabelos espalhados na almofada e o subir e descer ritmado de um sono franco. era bonita, aquela mulher. porque serena. por nada mais que não isso. porque era vulgar, apenas mulher. mas descansava.
virou as costas ao seu corpo e deixou-o repousar enquanto estendia de novo os dedos para a chuva, atravessando de novo a janela sem estranheza. estranhou não estranhar. viu a camisa enrugar-se, ajustar-se-lhe ao contorno que era seu, com o peso da água. viu-a agitar-se no vento que lhe roubava os cabelos, chicotes húmidos, tinha a certeza. via, apenas. e se fechasse os olhos? ouvia o segredar da tempestade.
fechou os olhos.
uma rajada de vento sugou-a. arrancou-a da suspensão com uma sacudidela e desapareceu, como folha pequena de árvore. agora o temporal rimbombava-lhe no peito. qual tambor. tremeu. de prazer, de frio. porque de frio de prazer. a água beijou-a e chicoteou-a. lambeu avidamente os lábios e engoliu aquela chuva e o sabor arrepiou-lhe o peito. estava fria. sabia, sentia. sorriu. sabia que sorria apesar de não ver. entre as vergastadas gélidas de vento, a água sacudia-a e enrolava-a. sentiu finalmente a roupa enrolada no corpo, aos encontrões na pele. sentiu o seu contorno no frio e no vento e achou-se bonita também.
um pé tocou no vidro da janela - sentia o vidro, bem frio, bem duro, bem liso - e começou a deslizar. estendendo-se para lá do que se conhecia como o seu pé.
e tinha a certeza que a pele também escorria, agora só líquido transparente, arrastada pela água, espalhada pela ventania.
tinha a certeza. enquanto escorria pelo vidro, agora lágrima envidraçada, e se entranhava num qualquer pedaço de terra.

sábado, 19 de novembro de 2005

espiral

agarro-me com força ao que é bom. abraço com os meus dedos pequenos, e a minha boca procura o ar calmo e fresco de uma manhã de sol.
mas já não me larga o pânico da perda.
perder até o discernimento para conseguir sorrir. aquele sorriso que sempre foi tão constante que se tornou um peso e um preço, para aos poucos regressar à sua natureza. porque sempre fui de sorrir.
tempos de espiral descendente. não quero cair outra vez. não assim. não tenho mais braços. não tenho mais músculos. não. sim. o corpo pede descanso. porque suportou dores de alma, está magoado, fraco, enlameado. o coração voltou a saltar, de vez em quando, à minha revelia. a assustar-me como já me assustou. não quero mais.
quero deitar a cabeça na almofada e adormecer-me. descansar-me, serenar-me.
quero enrolar-me no ar quente e deitar-me com o sossego. só por um bocadinho.

crash

só queria dizer ao senhor condutor que esta madrugada, na 2ª circular, resolveu vir contra o meu carro, fazer-me andar em peões e espetar-me contra um rail, enquanto fugia, que os polícias foram incansáveis e querem tanto vingança como eu.
assim, enquanto o meu jipinho fica à espera de diagnóstico ou mesmo de entrada no ferro-velho, o senhor ficará sem carta, e, pelo que depender de mim, vai pagar bem caro o facto de nem sequer ter olhado para trás, enquanto parava o A3 dele (que também não ficou em bom estado)depois de uma curva, bem escondido, trancava as portinhas e ia a pé (cambaleante, decerto) para casa.
senhor condutor: estamos bem, obrigada, por acaso não morremos.
a festa de anos da minha irmã, que é assombrada desde a morte da minha avó, vai correr da melhor forma.
e não se preocupe, eu arranjo maneira de ir trabalhar todos os dias.
tenha um soninho descansado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2005

polegada #4

|quando pensamos que as coisas não podem ficar pior|

os carregadores não apareceram hoje. o patrão tinha-os avisado mas eles não tinham sido avisados.
eu e a minha colega (não a cabajona, a outra, do som, que também é franzina) tivemos de montar tudo sozinhas.
os actores foram beber cafés ou para os camarins. um deles pensava que estavam a gozar com ele quando tinham dito que os carregadores não tinham vindo. só se aperceberam da calamidade quando chegaram à sala, 5 minutos antes da hora do espectáculo, em vez da meia hora regulamentar. aí ajudaram.
se todos trabalhassem na montagem todos os dias, ganhávamos mais porque não se pagava aos carregadores. e eu e a minha colega podíamos chegar uma hora mais tarde, e eles só tinham de chegar meia hora mais cedo.
o espectáculo começou com 25 minutos de atraso. turmas barulhentas da Baixa da Banheira. ficaram histéricas quando um ex-morango apareceu à porta para a visita guiada.
como ao puxar o porta-paletes com parte do material, de manhã, íamos a rir de qualquer coisa para não chorar, o escritório recebeu uma queixa da direcção do monumento. porque fizemos demasiado barulho durante a missa.
como os actores só têm, além de representar, de trancar a porta de acesso à zona do camarim na torre, porque é interdita ao público, quando vêm fazer a peça, esqueceram-se. os turistas tiveram um passeio extra. e eu, antes de desmontar tudo, tive de ir falar com uma funcionária para saber que receberemos um parecer da direcção acerca do assunto.
a partir de amanhã, além de tudo, depois de começar o espectáculo, fui incumbida de subir à torre para me certificar de que trancam a porta.

terça-feira, 15 de novembro de 2005

polegada #3

|tentativa de pendurar um cartaz a quase 2m de altura|

duas mulheres. uma cabajona, outra franzinita. uma parede fina, sem ligação ao tecto, com algumas vigas. fio de nylon. escadote do séc. XVII. um cartaz. duas galinhas doutoras.

cabajona: eu subo ao escadote do lado de cá. sobes para cima dos cacifos por detrás da parede e esperas que eu te mande o fio de nylon, prendes às vigas.

franzina olha os cacifos, são mais altos que ela. um banco do séc. XVII oferece pouca sustentação. sobe ao banco e continua a não chegar com mais que os braços aos cacifos. não tem força para se elevar só com bíceps e tríceps e restantes íceps. em frente aos cacifos está outra parede do séc XVII. que se lixe o património. pata na parede e trata de escalar quase paralela ao chão até se conseguir içar para cima dos cacifos. espera. espera. espera.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao escadote. tenho medo. vem tu para aqui e eu vou para aí.

franzina olha o banco lá em baixo. suspira. pata na parede. outra pata pendurada na direcção do banco. escorrega escorrega. pata na parede já está ao nível do nariz. a outra pata a sentir o banco ao fundo. bendito ballet, serviu de alguma coisa ao fim destes anos todos. desce.

cabajona vai lá para trás. polegar mira o escadote, daqueles de encostar à parede. o espaço entre a parede e a bilheteira oferece muito pouca possibilidade de inclinação. franzina tem vertigens. suspira. um pé atrás do outro e maldizer o patrão que não lhe fez seguro. pensando bem, nem lhe pagou ainda. sobe de cartaz na mão. só com um braço seguro no escadote, em bicos de pés para inclinar-se mais para a frente. as duas galinhas cacarejam lá am baixo mas não se oferecem para ajudar até serem intimadas.
seguram o cartaz cá de baixo, mas depressa se fartam. dor nos braços e a cabajona que não diz que está pronta.

cabajona: polegaaaaaar. não consigo subir ao cacifo.
franzina: (do alto do escadote, dor nos pés, dor nos braços) apoia os pés na parede da frente e iça-te.

franzina pensa que a cabajona poderia com pouco esforço sentar-se nos cacifos. mas pronto.

franzina passa fio no cartaz, atira o rolo do fio à cabajona. as galinhas (que entre si se tratam por doutora esta e doutora aquela, de mise feita e saltinho agulha), de rabo para o ar andam a apanhar o rolo (que invariavelmente cai no chão) para, depois de cortado, devolvê-lo à franzina. cacarejam acerca de estar torto. de estar alto e de estar baixo. com o braço dormente, franzina corta o mal pela raiz:

franzina: tá bom.

tem de mudar o escadote de sítio. desce e dá uma joelhada num parafuso do séc XVII saído. as galinhas atendem telefones do lado de dentro da recepção, indiferentes ao facto de a cabajona estar petrificada no alto dos cacifos e de a franzina estar a desviar cadeiras e a transportar o escadote sozinha, fazendo slalom no galinheiro. franzina volta a subir.
mais galinhas de rabo para o ar, mais nylon a voar. quando começa o cacarejo sobre o torto e o direito, franzina ataca:

franzina: tá bom.

franzina desce do escadote, leva-o sozinha para o arrumar, e vai atrás da parede ajudar a despetrificar a cabajona.

assim se pendura um cartaz.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

alvorada

vai passar a ser às 6:30 da manhã em 90% da minha vida laboral. vai ser não só a A8 e a Calçada de Carriche como também atravessar a 2ª circular e entrar em Belém.
vai ser montagem de espectáculos diária, quatro dias por semana. duas horas a carregar ferros, contrapesos, cadeiras, placas de madeira. juntar tudo num cenário. ir para a bilheteira e aturar as senhoras do monumento com a mania que são gralhas, as professoras nervosas, os adolescentes com a mania que são engraçados, tarados, destruidores de património e mais barulhentos que galinhas com gripe.
depois das matemáticas (se entretanto os actores não se tiverem deixado dormir), começa o espectáculo. rezar para que a colega já faça ideia de onde fica o botão do play. esperar para depois desmontar tudo e voltar a encaixar num cubículo com um metro de largo por metro e meio de fundo.
voltar para o escritório. de preferência de transportes públicos, já depois da hora de almoço.
comer uma sandes e ir para a frente do computador.
isto nos dias em que não houver espectáculo de tarde.
voltar a ir buscar o veículo ao fim do dia.

inspira, expira. inspira, expira...
tomorrow, tomorrow, I love ya tomorrow, you're only a day away...

mulheres

acordar cedo e entrar no carro com as irmâs. o sol a entrar pelos olhos, as vidas postas em dia, quase sem olhar a estrada porque era a caçula que conduzia.
a chuva fez o ritmo no tablier das palavras que escorriam de tema em tema. perdermo-nos e chegarmos, finalmente, a uma terra perdida nos montes de Leiria.
entrar na enorme loja e voltar em passos pequenos à infância. os tules, as organzas, sedas, e laçarotes. coisas muito foleiras, coisas muito bonitas. de repente ela já não era a figura que lhe conhecia. estava ali, longa, esguia, comprida, flutuando no branco da seda selvagem. entre gargalhadas, caretas, dúvidas e muitos arrepios de frio, os alfinetes entranhavam no tecido, dando forma ao desenho das palavras. palavras que saíam tremidas. do frio? aos poucos a confiança impôs-se, e meti-lhe os dedos no cabelo. também na minha cabeça desenhei linhas e contornos, que fui improvisando em concordância com o que havia à mão. já tenho a paleta de cores com que lhe vou salpicar o rosto bem definida, e o gancho de que gosta vai ficar como eu quero. de um punhado de ideias fiz-lhe o agasalho que faltava, e um adorno para o pescoço.
vais ficar bonita.
vais-me estragar a festa de passagem de ano. mas vais estragá-la em grande...

magusto

queríamos uma coisa típica. castanhas e água pé.
acabaram por ser castanhas de um bolo-rei (!), a água pé transformou-se em triestino, hot chocolate, chá de limão e um mocaccino ou algo com nomes italiano-americanizados do género.
estavam quentes e souberam bem. souberam a conversa comprida, mãos quentes e luz de velas. porque o chocolate é mais doce bebido a colheres de chá :)

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

dois teclados #2

Regressaste numa manhã de nevoeiro. Parece pateta mas foi verdade, era inverno e era manhã e estava frio e chegaste leve e sorridente como te recordava, voltaste a ser a boneca apaixonada por quem todos os homens do mundo se deixavam aprisionar se te vissem sorrir. Quando o peso saiu dos teus ombros voltaste a pular sobre as nuvens e sorriste e voltaste a ser feliz. E lembrei-me daquele primeiro instante, um café roubado ao teu horário de trabalho, um cafézinho roubado ao fim de tarde num jardim da cidade, e aqueles primeiros sorrisos trocados, o teu rosto era mesmo mágico, soube logo ali.
|NC|
És tramado, tu. Nessa cara de menino sacana, de olhos inteligentes, a percorrerem-me por dentro como se não fosse boa educação perguntar antes de entrar. Aliás, fazes tudo sem perguntar, não é? Assim me raptaste pela primeira vez do bulício das contabilidades de fim de data de entrega de IRS. Não se faz. Mas tu fazes tão bem… “Estou cá fora. Desce que preciso de cafeína contigo”. Senti-me trapalhona, desengonçada, mal arranjada, um pouco irritada com o descaramento, e indefesa. Estupidamente indefesa. Mas defendi-me com a única arma que tenho e desci de sorriso em riste. Hoje tenho frio. E estou de arma na mão outra vez. Não sei o que esperar.
|P|
Agora voltaste voltaste segura, desta vez sabias ao que vinhas. O sorriso era o mesmo, imensamente acolhedor e bonito, mas desta vez não era uma máscara, era verdadeiro como o frio que entrava pela janela meio aberta. O fumo do cigarro embrulhava-se no ar sombrio do fim de tarde e enquanto contavas histórias engraçadas dos bastidores bebia o martini com gelo até ao fim. Eu ouvia, meio distraído como sempre, espreitava as pessoas e os pássaros e as cores e a noite que caía e ficava embriagado contigo.
|NC|
Miras-me assim, e parece que sim. Parece que tudo o que aconteceu antes não tem significado. Que agora sim, é o tempo e o espaço. Que houve apenas um desencontro dos fusos horários das almas, antes. E sabes que mais? Ou estou curada ou não quero saber do que nos fizemos. Porque agora, que podia dizer-te muita coisa, lembro-me apenas de que a tua pele sempre me soube bem, e de que a forma como ondulavas as mãos no meu corpo me faziam sentir mais mulher. E olho-te. Absorves as minhas parvoíces que preenchem os silêncios, interessado, entusiasmado com essa parte de mim. E as outras? Ao que vens? Porque eu estou aqui completa. Sei o que quero. E estou aqui. Mais não faço.
|P|
Acertamos os relógios e partilhamos tudo outra vez, desta vez verdadeiro. Lá fora há um candeeiro sozinho a iluminar a rua toda, é a única certeza que tenho neste momento e sei porque acabo de espreitar a janela, tu estás ainda escondida pelos lençóis, é cedo, demasiado cedo para o dia nascer, mas fico acordado a olhar para as curvas douradas da pele descoberta (é inverno mas a noite é quente), estou acordado e antes que volte a adormecer, com os braços a embrulhar-te inteira para mim, antes que volte a cerrar os olhos e a navegar na névoa dos sonhos, miro-te uma vez mais, beijo-te de mansinho (não acordes, bébé, não acordes) e sei que duas pessoas abraçadas é tudo o que existe, é quase palerma, é cor de rosa e é bonito e inocente como a madrugada que quer despertar, são cinco da manhã, até logo, até mais daqui a pouco, não te percas no sono, desperta-me com beijos.
|NC|
voltamos ao passado com a doçura do presente. envolve-me nesse calor e não me deixes ir. os relógios podem cantar. agora não me importo. nunca te esqueças. perdeste-me e ganhaste-me de novo. não jogues mais. absorve-me como se dá uma passa lenta num cigarro. não apagues. fecha a janela, o nevoeiro está a entrar e cobre-nos de geada. os dias são longos, mesmo no inverno. são assim porque os queremos. neste vício quente da nicotina quero acordar para me viciar um pouco mais no inconsciente do viver-te. bom dia.
|P|

texto partilhado por polegar e Nuno Catarino

serviço (do) público

soube aqui que se está a fazer um inquérito ao público sobre blogs e afins. vamos lá fazer serviço, senhores, toca a responder.

bom dia ou... tem de ser

expiro forte no ar frio, os passos contados pela calçada branca. o dia brilha-me no cabelo e o caminho prolonga-se até à chegada.
subo dois lanços de escadas e cumprimento a menina da recepção com um sorriso, ao que ela responde com outro, inclinando-se para a gaveta de onde tira uma chapa para a máquina do café. pago e sigo. passo as portas de onde já se entrevêem pessoas a circular entre computadores acesos, fundos de écrãs com criancinhas, dossiers e papeladas. quadros nas paredes e gráficos. vou ao chamado bar, onde está a máquina do café, ligo-a. abro a porta do meu escritório e cumprimento os actores nas paredes. ligo os computadores, pouso a mochila e dispo o casaco e o cachecol cor de rosa onde afundei o nariz no caminho.
volto à sala do bar e meto a chapinha na máquina. a bica é mais barata e apesar de a máquina ser muito antiga, o café sai espumoso, quente, forte.
volto com o copinho de plástico a fumegar, pouso-o no postal de um filme que serve de base, despejo o açúcar e acendo um cigarro. vamos ver os e-mails, juntar papelada para a advogada. enquanto o programa abre, ligo o rádio. tomem lá.

Generation sex respects the rights of girls
Who want to take their clothes off
As long as we can all watch that's o.k.
And generation sex elects the type of guys
You wouldn't leave your kids with
And shouts"off with their heads" if they get laid

Lovers watch their backs as hacks in macs
Take snaps through telephoto lenses
Chase Mercedes Benz' through the night
A mourning nation weeps and wails
But keeps the the sales of evil tabloids healthy
The poor protect the wealthy in this world

Generation sex injects the sperm of worms
Into the eggs of field-mice
So you can look real nice for the boys
And generation sex is me and you
And we should really all know better
It doesn't really matter what you say

generation sex | divine comedy | fin de siécle : 1998

quinta-feira, 10 de novembro de 2005

agruras da vida #2

a maré baixou e deixou expostas todas as fragilidades ao ar, a apodrecer.
basicamente, 6 meses de trabalho deitados fora. apesar de todos os conselhos, nós, as práticas (que ficaram por terras lusas), fomos acusadas de negativas pela garganeirice dos que achavam que do outro lado do Atlântico se resolveria por magia tudo o que devia ter ficado bem explícito ainda do lado de cá (e que não dependia de nós, as práticas). parceiros que deram a facada nas costas. burocracias intransponíveis. promessas de intermediários só se revelaram ainda mais ocas do que já pareciam quando já era ou vai ou racha. acharam que era de ir na mesma. duas semanas de trabalho intensivo aqui das práticas, e foram.
partir às cegas é giro, quando se é turista.

depois de tudo isto, voltarão, antes de tempo, com o rabo entre as pernas, de feitios intratáveis, e com a certeza das frases que já vamos ouvindo há uns tempos: "porque é que não fizeste/levaste/trouxeste/ligaste?" (a culpa é sempre de outros), "esta semana ainda não tenho como te pagar" (a minha preferida, ouvida em loop todas as semanas), "isto está complicado, se calhar vamos ter de repensar os ordenados" (ahahahah!).

a realização profissional já estava abaixo de zero, obrigada: trabalhar a recibos verdes por uns trocos ao mês (mês, pufff!) a fazer horários full time (e às vezes mais que isso), e inclusivé com funções múltiplas que valeriam contratar outra pessoa (ou seja, pagarem-me o dobro). a fazer produção (que não gosto) para espectáculos onde não entro, com as mesmas condições daqueles em que, ao menos, entrei. sem perspectivas de tábuas a pisar.

agora? agora é olhar em frente à espera do que a maré me trará. sair daqui ou não, esperar, continuar, não sei. só sei que tenho planos pendentes, dependentes, dos quais depende a minha saúde. mental e física. e que poderão ter de ser, mais uma vez, postos de parte.

...

alguém tem o contacto de uma bruxita?

bocas

desde miúda que vou ao dentista. no primeiro dia escondi-me atrás da cadeira a pedir por favor que não me arrancassem dentes. acabou por ser necessário, mas até que nem foi muito mau. o doutor, com nome arraçado de Caramelo, era bom.

arrancaram-me dentes de leite, dentes definitivos, acho que uns 10 dentes no total. porque, literalmente, I could'nt keep my teeth inside my mouth. tinha daqueles espaços entre os dois dentes da frente, que prontamente foram postos no sítio com um aparelho que tinha uma Tartaruga Ninja no céu da boca. aos 14 anos estava pronta. depois de todos estes arranjos, o doutor Caramelo foi para os States fazer um masters em implantologia, e só o via e aos seus mui calmantes olhos azuis de seis em seis meses, altura de limpezas simples. antes de partir fez-me um molde da obra acabada para mostrar aos seus alunos e colegas. e suspeito que para ter um pouco de mim sempre por perto.

ora bem, regressado dos States, veio megalómano. o consultório não lhe chegava. resolveu fazer uma mega empresa, com linha de montagem. basicamente, um médico para cada departamento dos dentes, consultórios state of the art, computadores com as marcações em rede ligados à recepção e registo informático com tudo, inclusive radiografias, um andar inteiro num super prédio da moda, estreia do seu "Instituto de Implantologia" com direito a foto na Caras. ficou mais caro. agora não via os seus olhos azuis. se queria limpeza, marcava para um higienista, se quisesse marcar com ele, teria de fazer um implante.
entretanto cresceram-me os sisos. e bem que resolveram, eles também, dar-me problemas. ia ter de arrancar um que estava a nascer torto. e já agora o outro que ficava por cima, para ficar simétrico. e já agora os outros dois, para completar a simetria, seriam extraídos posteriormente "porque é uma pena, essa dentição está perfeita". marca para o cirurgião.

a técnica deste senhor era sui géneris: logo a seguir a dar a anestesia, experimentava impacientemente com o bisturi na gengiva a ver se ainda sentia alguma coisa. ora como ele não esperava que fizesse efeito, eu sentia. então toma lá mais uma anestesia. ao fim de nove anestesias, a primeira começou a fazer efeito. já tinha um siso cá fora. quando a quinta fez efeito, já estava a levar pontos, depois de tido a mão do senhor na minha testa a prender-me contra a cadeira enquanto arrancava o dente de baixo à mão. além de tudo, era uma pessoa maravilhosa: apelidou-me de mariquinhas e mentirosa porque eu dizia doía.
a sétima anestesia estaria a fazer efeito enquanto, aos tropeções, de fala entaramelada (não só pela dormência, mas também pela trip que a overdose de analgésico provocou), contava ao doutor Caramelo (que encontrei no corredor, antes de pagar) como tinha sido a aventura, divertidíssima da vida porque via elefantes cor de rosa na sala de espera. o senhor ficou impressionado, segundo a minha mãe. eu não me lembro. o facto é que quando voltei para tirar os pontos o dito cirurgião já não trabalhava ali.

bem, posto isto, desisti do totoloto da linha de montagem e da revista Caras e fui para o médico da minha mãe, que tem nome arraçado de Carrasco. ainda não me inspira muita confiança, porque não gosta de usar máscara, e eu estava habituada aos topos de gama do Caramelo.
ora quando fui à primeira consulta, disse que os outros dois sisos que sobravam não precisavam de ser extraídos "que disparate, vai sofrer só para ficar simétrico! se incomodar, aí sim"
pois que da terceira vez que lá fui, chamou outra médica, andaram tempos infindáveis de volta de mim (eu a pensar que havia algo de grave, conte-me já, vou morrer, doutor?) e acabou por pedir autorização para fazer um molde da minha dentição "porque estamos a fazer apresentações sobre a estética e os seus dentes neste momento estão na moda. são um exemplo perfeito para fazer arranjos, placas"... errrrr. lá me engasguei toda com a massa para bem dos velhinhos desdentados.

desta última vez, quando me sentei para a limpeza, perguntou-me se vinha para extrair. extrair o quê, senhor? "os sisos, então..." e esfregava as mãozinhas... eu estranhei e perguntei porque é que queria extrair. ficou muito embaraçado, fez a dança do espelhinho, e, com muitas hesitações, acabou por dizer que "de facto, não é necessário..." mas ficou um "mas" no ar. o Carrasco também foi mordido pelo bicho-esteta e queria acabar de vez com a assimetria dos dois sisos que ainda me restam, que só se nota quando escancaro a boca deitada naquela cadeira.

e se fossem todos bugiar, não?

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

agruras da vida

andei a correr passeio fora atrás de uma nota de 5 euros que o querido vento amigo queria levar para longe de mim. desesperada gritava-lhe, como se me pudesse ouvir, que não me deixasse.

agora desligo as máquinas e ponho a mochila às costas. vou ao dentista largar umas valentes centenas de euros, que ele não faz por menos, e ainda por cima tenta não passar recibo.

(suspiro)

ai...

terça-feira, 8 de novembro de 2005

girando em cima da mesa

"[...] A vida como uma moeda. Escolhes uma face ou uma face te há-de escolher. Avalia as possibilidades.
[...] O problema das montanhas é que só conseguimos ver o que está do outro lado quando lá chegamos. É fácil dizer hoje que não mudaríamos nada, ou que faríamos tudo diferente. É fácil porque não adianta".
A casa quieta, Rodigo Guedes de Carvalho

às vezes é complicado pensarmos em como só vemos a solução depois de já não haver problema. depois de já não se poder fazer nada. o meu maior problema. a minha maior luta. tentar fazer tudo para que as coisas não percam o controlo. não nos percam.

há muitos anos, a noite era de vigília silenciosa cansada ao teu quarto.
os fantasmas cirandavam e eu não queria que te perturbassem os sonhos de menina.
ficava de olhos abertos na escuridão até a escuridão me abraçar por desgaste. acredita, não aguentava mais do que o tempo que os olhos se mantinham alerta.
mas tinha a sensação de que nada te tocava. que te guardava.
hoje as portas do teu quarto ficam fechadas. não sei se para evitar os pesadelos ou se para os deixar só aí dentro.
se para ouvires melhor o espanta-espíritos da maçaneta, ou se para não ouvires nada. tremo.
e penso, enquanto te puxo o edredon para perto das orelhas, e miro essa cascata dourada na almofada, que voltaram os dias de vigília.
um peso aperta-me o peito. de novo.
desta vez não posso falhar.

[a porta] in o medo do escuro

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

onde andas?

loira, tonta, de olhos grandes.
onde andam eles?
os olhos?
porque te dizes menos? porque te dizes longe?
sabes, maninha querida, que estás no casulo do meu coração?
e enquanto as estações passam, sinto-te quase borboleta...
quase a voar. não é para fora do meu coração. a esvoaçar, com as outras, dentro de mim.
minha pequenina, tonta, de olhos grandes e caracóis de sol.
põe pimenta nessa língua de pensares assim.
de não pensares também em tudo o que é nosso e bonito.
de que tu fazes parte.
esses pesos que carregas, usa-os como apenas raízes ao solo.
para poderes florescer.
com a água dos dias bons.
quero-te perto, maninha linda.
um beijo

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

tricotando...

roubei este excerto descaradamente de uma conversa de msn q tive há uns minutos com a B...
foi alterado por forma a preservar o anonimato de quem tem de ser anonimizado...

B says:
Linda, fiz à hora de almoço a transferencia para ti (dos nossos mui recheados auferimentos do SAX)

Polegar says:
eheheheh boaaaaa

Polegar says:
vou comeeeeer!!!

Polegar says:
LOL

B  says:
e fiz tb para o (outro actor do espectáculo que é o tal totó insuportável), adivinha de quem é a conta?

Polegar says:
da pipipopótarecaxenica

B  says:
LOLOLOLOLOL

B  says:
(MUITO ALTO)

Polegar says:
matarruana, aquela

Polegar says:
como é q se chama?

Polegar says:
calhau? bulldozer?

B says:
DOUTORA xxx....

Polegar says:
ah, pronto, está bem...

Polegar says:
tinha ideia que ela tinha outro nome qq

B  says:
sim, acho que é calhau

Polegar says:
ora lá está

Polegar says:
sabia que era qq coisa geológica, mas não era xxx Rocha Sedimentar

B  says:
lol

B  says:
e ele mandou mesmo agora uma mensagem a pedir que não me esquecesse da transferencia "é poucochinho mas faz me falta!"

Polegar says:
ai coitadinha da sôdôna directora de marketing de uma empresa nacional que não dá a mesada ao menino...

bem... e isto seguia por ali adiante... gajas!

ou bem que sou assim...

... ou bem que não sou eu...
processem-me...
quero lá saber.

sou cor de rosa, às vezes, que fazer?
venha de lá a borrasca depois. agora? agora não consigo ser de outra maneira.

quinta-feira, 3 de novembro de 2005

olha!


My blog is worth $14,113.50.
How much is your blog worth?



quem quer comprar à polegarzinha, o blog na netzinha?

polegada #2

ontem, a caminho da cervejaria Trindade, passei obrigatoriamente pela sex shop ali do Cauteleiro.
olho sempre para a montra. confesso, acho graça ao imaginar senhoras a tentar reacender a paixão em casa, vestindo aquelas rendas com a banha a sair por entre os muitos buracos da fatiota. e a cara de surpresa de um qualquer alguém que acha que engatou uma miúda certinha para uma noite de simples engalfinhamento e de repente a menina angelical de artigos duvidosos a gritar "say my name, bitch". ou até o rapazola de livro na mão, com a namorada deitada na cama à espera, e ele "ora... 5 centímetros para nor-noroeste do ísquio, isso fica por... aqui!" "Ah! Oh sim!!...

bem, na vista de olhos pela dita montra, reparo num livro à venda. "Arte vs Sexo", do Miguel Ângelo. sim, o dos Delfins.

eu não sei quanto a vocês, mas... haverá coisa mais quebra-tesão do que o Miguel Ângelo?

elevador #2

entro. o condutor acaba o cigarro e sobe atrás de mim. sacudo a chuva do cabelo, pago e pico o bilhete.
fico mesmo à porta. perto, tão perto do condutor sisudo que quase sinto as pontas dos seus bigodes enormes, retorcidos, na minha bochecha.
observo calmamente o caminho, sempre o mesmo, em carris. mas cada momento diferente. a luz. gente, sempre gente, mas sempre pessoas diferentes.
um grupo daqueles de gente pequenina de olhos bem abertos e bibes coloridos desafia o passeio íngreme com as suas pernas curtinhas. aos pares, de mão dada.
olho em frente. quase a chegar. o senhor dos bigodes, o sisudo, levanta a cabeça, e de repente os seus bigodes saltitam e ele acena lá para cima.
espreito. outro grupo dessa gente pequenina de bibes às cores está de caras redondas encaixadas no gradeamento ao cimo da calçada. e agitam as mãozinhas a dizer adeus ao elevador.
estico o braço e sorrio-lhes com o sorriso parvo de "gente grande".
ouço um "adeeeeeuuus" de vozes fininhas de gente pequenina.
e ouço outro, de vozes grossas, constipadas, mulheres e homens. olho para a traseira do eléctrico. toda a gente está virada para as janelas, de braço no ar, a acenar de sorriso parvo na cara.

ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

abana ai

a cair de sono no trabalho.
na rádio canta-me agora o Jack Johnson. e diz ele: girl, I wanna lay you down...
é simpático...

pao por deeeeus

santa terrinha, 9 da manhã. tudo calmo. a luz entra preguiçosa por entre as portadas, o mundo parado debaixo do edredon azul, no borralho quente do corpo descansado, imerso nos sonhos sem sonhos de que a cabeça precisa, e que dure muitas horas para recuperar.

blém blém blém
tocam à sineta do portão (o meu pai gosta de coisas rústicas...) e um coro de vozes novinhas novinhas a estrear grita:
- pão por deeeeeeeus
silêncio. dentro do edredon o primeiro movimento. lento, atabalhoado, mas irritado. rezando para que este ano haja, de facto, alguém em casa, que vá à porta antes de os miúdos voltarem a to...
blém blém blém
- pão por deeeeeeeus
não, outra vez não. este feriado é maldito. é sim senhor. cabeça para debaixo da almofada, edredon até ao nariz.
trrrriiiiiim trrrrimmmm
- pão por deeeeeeeus
mudaram de estratégia. foram ao outro portão, que tem campainha normal. (sim, é rústico, o badalo, mas não se ouve na casa toda). oh não. sei perfeitamente o que vai acontecer. como ninguém aparece vão deixar o dedo na camp...
trrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmm
raispartafilhadamãedosputosmaisoestaporquinventouestaporcariadeferiado
- pão por deeeeeeeus
o meu avô ajuda à feira e toca à campainha interna que usa para chamar a minha mãe (e restantes servos).

silêncio. desistiram. aaah. hmmm. mas, mas, mas... os meus olhos. não querem fechar! oh não! a insónia matinal não!
acender tv, pode ser que me embale.
missa ou clube das chaves.
dasse.
levanto-me e enrolo-me num casaco quente. estupor de quarto frio, o meu.
vou até à sala. daí a pouco, com a chávena de café na mão, vejo chegar os meus pais.
- tocaram uns miúdos. não me consegui levantar, desculpem.
- ah, deixa estar, já passaram por nós e já dissemos para volt...
trrrrriiiiiimmm
- pão por deeeeeeeus
já é mecânico. o meu pai sai, casaco em banda, perguntando alto
- quantos são?
vou à mesa de jantar.
ele grita para dentro.
- são sete
oh well...
conto seis saquinhos que já estão preparados. tiro outro do rolo, abro e recheio. três rebuçados às cores, dois chocolates em miniatura, uma pastilha.
o meu pai volta, o mesmo sorriso de leste a oeste que me deu no código genético. dou-lhe os saquinhos
- este ano vêm em alcateias, bolas! eheheheh

desde que vim morar para aqui é assim. a palavra espalha-se. de geração em geração. aqui há saquinhos às cores. aquelas cores que fazem mal aos dentes mas sarapintam os rostos de alegrias gulosas. e o senhor grande das barbas abre o portão a rir, com as mesmas sarapintas nos olhos que eles, e deixa fazer uma festa na cadela grande e gorda.

sem religião.

dantes, quando os tempos eram outros, fazíamos noitadas a preparar os "treats" rodeados de caixotes de chocolates e gomas. até separávamos umas moedas em montinhos.

agora o senhor das barbas coxeia um bocado, e os saquinhos são mais pequenos.
mas há sempre doces e um sorriso.