quinta-feira, 10 de novembro de 2005

bocas

desde miúda que vou ao dentista. no primeiro dia escondi-me atrás da cadeira a pedir por favor que não me arrancassem dentes. acabou por ser necessário, mas até que nem foi muito mau. o doutor, com nome arraçado de Caramelo, era bom.

arrancaram-me dentes de leite, dentes definitivos, acho que uns 10 dentes no total. porque, literalmente, I could'nt keep my teeth inside my mouth. tinha daqueles espaços entre os dois dentes da frente, que prontamente foram postos no sítio com um aparelho que tinha uma Tartaruga Ninja no céu da boca. aos 14 anos estava pronta. depois de todos estes arranjos, o doutor Caramelo foi para os States fazer um masters em implantologia, e só o via e aos seus mui calmantes olhos azuis de seis em seis meses, altura de limpezas simples. antes de partir fez-me um molde da obra acabada para mostrar aos seus alunos e colegas. e suspeito que para ter um pouco de mim sempre por perto.

ora bem, regressado dos States, veio megalómano. o consultório não lhe chegava. resolveu fazer uma mega empresa, com linha de montagem. basicamente, um médico para cada departamento dos dentes, consultórios state of the art, computadores com as marcações em rede ligados à recepção e registo informático com tudo, inclusive radiografias, um andar inteiro num super prédio da moda, estreia do seu "Instituto de Implantologia" com direito a foto na Caras. ficou mais caro. agora não via os seus olhos azuis. se queria limpeza, marcava para um higienista, se quisesse marcar com ele, teria de fazer um implante.
entretanto cresceram-me os sisos. e bem que resolveram, eles também, dar-me problemas. ia ter de arrancar um que estava a nascer torto. e já agora o outro que ficava por cima, para ficar simétrico. e já agora os outros dois, para completar a simetria, seriam extraídos posteriormente "porque é uma pena, essa dentição está perfeita". marca para o cirurgião.

a técnica deste senhor era sui géneris: logo a seguir a dar a anestesia, experimentava impacientemente com o bisturi na gengiva a ver se ainda sentia alguma coisa. ora como ele não esperava que fizesse efeito, eu sentia. então toma lá mais uma anestesia. ao fim de nove anestesias, a primeira começou a fazer efeito. já tinha um siso cá fora. quando a quinta fez efeito, já estava a levar pontos, depois de tido a mão do senhor na minha testa a prender-me contra a cadeira enquanto arrancava o dente de baixo à mão. além de tudo, era uma pessoa maravilhosa: apelidou-me de mariquinhas e mentirosa porque eu dizia doía.
a sétima anestesia estaria a fazer efeito enquanto, aos tropeções, de fala entaramelada (não só pela dormência, mas também pela trip que a overdose de analgésico provocou), contava ao doutor Caramelo (que encontrei no corredor, antes de pagar) como tinha sido a aventura, divertidíssima da vida porque via elefantes cor de rosa na sala de espera. o senhor ficou impressionado, segundo a minha mãe. eu não me lembro. o facto é que quando voltei para tirar os pontos o dito cirurgião já não trabalhava ali.

bem, posto isto, desisti do totoloto da linha de montagem e da revista Caras e fui para o médico da minha mãe, que tem nome arraçado de Carrasco. ainda não me inspira muita confiança, porque não gosta de usar máscara, e eu estava habituada aos topos de gama do Caramelo.
ora quando fui à primeira consulta, disse que os outros dois sisos que sobravam não precisavam de ser extraídos "que disparate, vai sofrer só para ficar simétrico! se incomodar, aí sim"
pois que da terceira vez que lá fui, chamou outra médica, andaram tempos infindáveis de volta de mim (eu a pensar que havia algo de grave, conte-me já, vou morrer, doutor?) e acabou por pedir autorização para fazer um molde da minha dentição "porque estamos a fazer apresentações sobre a estética e os seus dentes neste momento estão na moda. são um exemplo perfeito para fazer arranjos, placas"... errrrr. lá me engasguei toda com a massa para bem dos velhinhos desdentados.

desta última vez, quando me sentei para a limpeza, perguntou-me se vinha para extrair. extrair o quê, senhor? "os sisos, então..." e esfregava as mãozinhas... eu estranhei e perguntei porque é que queria extrair. ficou muito embaraçado, fez a dança do espelhinho, e, com muitas hesitações, acabou por dizer que "de facto, não é necessário..." mas ficou um "mas" no ar. o Carrasco também foi mordido pelo bicho-esteta e queria acabar de vez com a assimetria dos dois sisos que ainda me restam, que só se nota quando escancaro a boca deitada naquela cadeira.

e se fossem todos bugiar, não?

6 impressões digitais:

Anónimo disse...

Ai amiga! E eu que não sabia que tinhamos tanta aventura deontológica em comum! A unica grande diferença é que tu ficaste com uma dentição perfeita e eu...fiquei só um bocadinho menos mal!
Estética a quanto obrigas! Haja dinheiro, pachorra e capacidade de enfrentar a dor!

Beijocas, B.

polegar disse...

ao contrário da mãe Deo, acho que mesmo sem o dente partido estás um charme. quem era a B sem o seu sorriso?!
entretanto, haja disso tudo e muita paciência para passar semanas a gelados! eheheheh

Rantanplan disse...

Agora fizeste-me rir. É que eu adoro humor negro. Está excelente este post.

Kwan disse...

Dr Maló!?

Duarte disse...

Se não odiasse dentistas, até era capaz de rir. Mas fiquei traumatizado quando tive de tirar os dentes de leite e tenho tanto medo deles que não falho uma consulta, para garantir que nunca terão muito que fazer com os meus dentes.

O Estranho disse...

Essa do espetar o bisturi a ver se a anestesia já fez efeito é fantástica... Uma vez, esburacaram-me um dente (para meter o chumbo) a frio, tudo porque, como já não ia ao dentista há 10 anos e já não me lembrava qual era a sensação da anestesia, disse ao Sr. Doutor que achava que já podia começar...