quinta-feira, 3 de novembro de 2005

elevador #2

entro. o condutor acaba o cigarro e sobe atrás de mim. sacudo a chuva do cabelo, pago e pico o bilhete.
fico mesmo à porta. perto, tão perto do condutor sisudo que quase sinto as pontas dos seus bigodes enormes, retorcidos, na minha bochecha.
observo calmamente o caminho, sempre o mesmo, em carris. mas cada momento diferente. a luz. gente, sempre gente, mas sempre pessoas diferentes.
um grupo daqueles de gente pequenina de olhos bem abertos e bibes coloridos desafia o passeio íngreme com as suas pernas curtinhas. aos pares, de mão dada.
olho em frente. quase a chegar. o senhor dos bigodes, o sisudo, levanta a cabeça, e de repente os seus bigodes saltitam e ele acena lá para cima.
espreito. outro grupo dessa gente pequenina de bibes às cores está de caras redondas encaixadas no gradeamento ao cimo da calçada. e agitam as mãozinhas a dizer adeus ao elevador.
estico o braço e sorrio-lhes com o sorriso parvo de "gente grande".
ouço um "adeeeeeuuus" de vozes fininhas de gente pequenina.
e ouço outro, de vozes grossas, constipadas, mulheres e homens. olho para a traseira do eléctrico. toda a gente está virada para as janelas, de braço no ar, a acenar de sorriso parvo na cara.

ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

2 impressões digitais:

Rantanplan disse...

Sorrir "aparvalhadamente" ainda é um dos poucos prazeres que ainda não nos tiraram.

polegar disse...

bingo, caro rantas... mas convirás comigo que deparar com uma cena destas (tão "Música no Coração", parte "So long, farewell, auf wiedersehen, goodbye") é, no mínimo surpreendente...
eu gostei :)