segunda-feira, 21 de novembro de 2005

no vidro


[ms]

sentou-se na cama asfixiada com o ar tão leve que quase não o sentia entrar dentro de si. levantou-se sem contar os passos, e o chão deixava-se pisar sem lhe arrefecer os pés. sem uma brisa que lhe arrepiasse a pele fina das costas. o inverno berrava lá fora, mas não, nem um sopro. foi até à janela e encostou a testa no vidro azul escuro de céu. olhou fixamente as lágrimas que choravam no vidro. escorriam sem caminho definido porque o vento contrariava a gravidade em andamentos musicais uivados, assobiados, fazendo dançar a água. nem na testa sentiu frio. encostou a bochecha, depois o peito que ondulava pelos botões desapertados de uma camisa velha, ainda arquejante na busca do ar fino. nem no peito sentiu o vidro. mas chovia lá fora. quis tocar no vidro choroso. estendeu os dedos e acompanhou dormentemente o descer descompassado de uma gota gorda, que logo se misturou com outra. e logo lhe caiu no dedo. não percebeu porquê, se estava do lado de cá e a mão... atravessara o vidro. mas o que mais a incomodou foi não sentir a gota. devia ser fria, devia ser molhada. mas se não a visse cair no dedo que atravessara a janela, não a saberia caída na ponta do dedo. o vento abanava-lhe os dedos mas não sentia os dedos. devia esse contorno do corpo, agora todo cá fora, notar-se no frio. que lhe enregelasse a pele. mas não. olhou para trás. dormia. quieta, no meio dos lençóis. distinguia-se com a luz de presença do aquecedor uma perna desnuda estendida, o corpo pequeno, enrolado, cabelos espalhados na almofada e o subir e descer ritmado de um sono franco. era bonita, aquela mulher. porque serena. por nada mais que não isso. porque era vulgar, apenas mulher. mas descansava.
virou as costas ao seu corpo e deixou-o repousar enquanto estendia de novo os dedos para a chuva, atravessando de novo a janela sem estranheza. estranhou não estranhar. viu a camisa enrugar-se, ajustar-se-lhe ao contorno que era seu, com o peso da água. viu-a agitar-se no vento que lhe roubava os cabelos, chicotes húmidos, tinha a certeza. via, apenas. e se fechasse os olhos? ouvia o segredar da tempestade.
fechou os olhos.
uma rajada de vento sugou-a. arrancou-a da suspensão com uma sacudidela e desapareceu, como folha pequena de árvore. agora o temporal rimbombava-lhe no peito. qual tambor. tremeu. de prazer, de frio. porque de frio de prazer. a água beijou-a e chicoteou-a. lambeu avidamente os lábios e engoliu aquela chuva e o sabor arrepiou-lhe o peito. estava fria. sabia, sentia. sorriu. sabia que sorria apesar de não ver. entre as vergastadas gélidas de vento, a água sacudia-a e enrolava-a. sentiu finalmente a roupa enrolada no corpo, aos encontrões na pele. sentiu o seu contorno no frio e no vento e achou-se bonita também.
um pé tocou no vidro da janela - sentia o vidro, bem frio, bem duro, bem liso - e começou a deslizar. estendendo-se para lá do que se conhecia como o seu pé.
e tinha a certeza que a pele também escorria, agora só líquido transparente, arrastada pela água, espalhada pela ventania.
tinha a certeza. enquanto escorria pelo vidro, agora lágrima envidraçada, e se entranhava num qualquer pedaço de terra.

10 impressões digitais:

O Estranho disse...

*

miak disse...

Lembro-me de um dia distante...em que saí do meu corpo. Anos depois alguém o escreveu, ajudando-me a perceber.
Hoje entendi-o de novo...

Obrigado.

Bj. (um dia gostava de escrever assim)

colher de chá disse...

Um dia gostava de ter um livrinho com tudo aquilo que escreves que me acompanhasse pra todo o lado. Nos dias de chuva, no sol quente do Verão, no quarto escuro, no começo do dia.
Porque sinto q pões nas letras que juntas ( e tão bem) aquilo que não consigo dizer aos outros, aquilo que de vez em quando me preciso de dizer a mim.
Será por causa disso q te sinto tão próxima? A cumplicidade é invisível mas eu sinto-a a cumprimentar-me todos os dias.

Beijos

macaso disse...

Sempre saíste do corpo...És autêntica e isso é o melhor de tudo. Penso que só se sendo autêntico se consegue dar verdadeiro significado ao que se vive. Só essa autenticidade pode reaver alguma serenidade interior.
Nós não nos conhecemos mas estranho ou não, a nossa solidão por vezes parece tornar-se uma experiência compartilhada.

Gosto de ti, my dear sweet you...

Anónimo disse...

Apetece-me dar-te beijos da cabeça aos pés! e um abracinho muito apertadiiiiiiiiiinho!

ès Linda, escreves maravilhosamente e volto a dizer....um dia havemos de publicar isto tudo!)

Beijos, B.

Ni disse...

concordo com todos. tanto...
para mim, o que escreves tem o valor que tem: é imenso. enche-me sem me rebentar. pelo contrário, quero sempre mais.

**********************************

Anónimo disse...

Excitas-me muito polegar.Demasiado.

Miguel A.

André Ferreira disse...

Ainda me lembro de sair de mim, olhei-me de cima admirado por estar a falar e não saber sobre o quê com uma pessoa que desconhecia. O mais estranho foi essa admiração que assim como chegou se foi: é disso que hoje mais me admiro! Creio que para se sair de nós mesmos uma cama quentinha deverá ser mais confortável, mas não espero sair assim de mim nunca mais!

Beijinhos, adorei este texto

polegar disse...

estranho: * para ti também
miak: não digas disparates que te ponho pimenta nos dedos...
colher: próximas estamos, próximas sentimos :)
macaso: apesar de tão recente, também gosto de ti.
B.: já te disse que um dia aponto tudo num caderno :P
ni: não é para tanto, mas mais terás ;)
Miguel A.: eeeerrr... tá bem.
André: é estranho quando o mundo fica pequeno lá em baixo ou ficamos pequenos no mundo cá dentro...

Moon Shadow disse...

Arrepio :\