sexta-feira, 25 de novembro de 2005

morte no parque

desorientou-se na outra turba estranha de gente, onde rostos conhecidos lhe transmitiam apenas a dor da transparência. o caminho era o mesmo mas sentia-se outra desconhecida. media os passos na alcatifa e os cheiros possuíam-lhe os sentidos. passou pelo seu rosto e não se viu.
há dias assim, pensou. em que se confirmam apenas as feridas por cicatrizar.
no veludo vermelho deslizaram-lhe as curvas de arcos de pedra gravados na pele. ainda gravados. sentia-lhes de perto o toque, a respiração. das pedras, sim, das pedras cinzentas frias imóveis que respiravam nela. como respirava aquela cara que a mirara de olhos cerrados no sono eterno de duas dimensões. e um outro corpo nu de rosas no colo e pescoço atirado para trás. e luas roxas e fios vermelhos. e canos entupidos e calças arregaçadas e a capa preta num sofá bafiento.
indelével, contudo, também a transparência com que se sentava ali. não disse mais do que o necessário, não abraçou ninguém que não quisesse abraçar. ficou por sorrir tudo o que queria sorrir mas não deixavam. preso ao lado das lágrimas. choraria noutro dia, decerto. ou não. ou nem isso.
contas saldadas. com os restos da vida e um par de cabos num saco saiu para o ar frio da noite.
no cruzamento a caminho de casa a lua esperava-a, como de costume, amarela e desfocada.
no rosto o vento frio da noite não lhe amarrotava a pele tanto como a temperatura baça dos olhares ou suas ausências lhe tinham amarrotado a alma.
na cabeça as frases ecoavam, batendo de um lado ao outro do peito, latejando-lhe a tal queimadura que não sara: "obrigado por tudo" "por favor não desapareças" "fazes tanta falta aqui. que é feito de ti?" pena que as palavras tenham saído das bocas ao lado.

tenho saudades do meu sonho. algures entre Mishima e eu.

8 impressões digitais:

miak disse...

Incrível delírio...

colher de chá disse...

Estive tb por lá... trouxe um bocadinho dos arcos de pedra comigo (sem ng saber ). Apeteceu-me chorar, rir, chorar a rir do que vi. Apeteceu-me sobretudo lá permanecer convosco como numa outra qualquer noite de ensaio cansado.

Como te disse, tens de acreditar. E eu acredito ctg.

Bj*

idontwannagrowup disse...

Eu tenho saudades de não sonhar...

macaso disse...

Não fazes ideia do tempo que para aqui estou a tentar dizer-te tudo aquilo que te queria dizer.


Quando as caras conhecidas se assemelham a perfeitos desconhecidos, talvez tenhamos de começar do princípio. Olhar para elas como se fosse a primeira vez. Ou então não. Dizer um até já e conhecer as caras desconhecidas, que nos povoam os dias. Ou então não...

Chegaste a abraçar alguém. Houve alguém que te tenha apetecido abraçar? A pele será o limite do corpo ou a fronteira do pensamento?

Ni disse...

muito bonito. gostei dos "sonhos a duas dimensões" e das "luas roxas e fios vermelhos". gosto da escrita imaginária (no sentido que transmite imagens a quem lê). O Luis Vaz era especialista nessa área.
anyway... vou de férias na próxima semana. não é para irritar ninguém. é aquele desabafo. you know...

beijinhos e abraços!!!!!!!

polegar disse...

miak: antes fosse delírio
colherzinha: acreditarei que apesar da porta fechada, outras janelas se abrirão. mais não consigo.
idontwannagrowup: pois disseo não tenho. isso não sou eu :)
macaso: ou então não... quando a ausência foi imposta pelo limite da vontade, da dignidade, do orgulho. porque já me gastaram. as palavras e as mãos. o limite é sempre o ar. a pele é a união.

Daniel Aladiah disse...

Querida Polegar
Com imagens difíceis, mas numa poesia críptica, que alguém entenderá em concreto. Eu só senti... uma dor que se arrasta...
Um beijo
Daniel

Anónimo disse...

Fofinha, não vivas do passado, muito menos se ele te magoa.
Vive o presente, vive o futuro porque esse pelo menos podes influenciar, e mais uma vez: Acredita em TI! És muito melhor que isso! e eu sei disso!

Beijo GRANDE! B.